segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

A Estrela de David

É o facto mais poético da vida: todos nós somos organicamente formados por matéria que teve origem em estrelas mortas. Stardust, chamam-lhe em inglês.
Bowie viveu e criou no equilíbrio que existe entre a harmonia e a diversidade do cosmos. Entre o caos e o sentido. Entre a ordem e a poesia. A escolha da Space Oddity para banda sonora da chegada à lua faz sentido para além da letra e temática espacial da música; Bowie é uma figura universal.
A pop é agora um termo quase depreciativo. A universalidade da diversidade e inovação deu lugar à universalidade da simplicidade e artificialidade. A pop de Bowie era uma macedónia enérgica de todos os estilos musicais fundidos num género próprio. Foi essa a sua criatividade, a sua unicidade. Era excêntrico, flamboyant, por vezes bizarro, quase esquizofrénico. Era original.
Bowie morreu dias depois de lançar o seu último disco, ciente de que o estava a fazer. Passarei os próximos dias a ouvi-lo, escutando atentamente as obras de um homem perto da linha de chegada, prestes a ser libertado. Dificilmente se conceberá estado espiritual mais honesto para a criação artística. Ninguém sabia da sua doença; Bowie foi-se embalado por admiração e respeito, não por pena e comoção. Até a esvair-se no cosmos foi diferente. Dizemos dos mortos que são mais uma estrela no céu. Bowie soube cintilar na vida.

domingo, 10 de janeiro de 2016

Trumpianço

Hoje é a cerimónia dos Globos de Ouro e eu aproveito para criar uma nova categoria e desde já atribuir o prémio. O Globo de Ouro para a crónica mais estúpida de 2016 vai para... este palhaço.
Exaltei-me. Fui violento, e devo corrigir-me. Fazer juízos de carácter baseados numa opinião é injusto e de baixo nível. Desconhecia o sujeito. Chama-se Gustavo Cardoso, é professor do ISCTE-IUL em Lisboa e investigador do College d'Études Mondiales na FMSH, em Paris.
Devo dizer-me surpreendido: para alguém com essas credenciais, demonstra uma gritante falta de conhecimento das diferentes realidades políticas. Associa duas pessoas que são antagónicas em tudo, usando como ponto em comum terem tido ambos espaço na televisão antes de se candidatarem. É apenas isso.
Tento ser organizado na desconstrução das ideias das pessoas de quem discordo. Aqui não há sequer muito por onde explorar. Ou há tanto que é trabalho ingrato. A grande falácia nisto tudo é a equivalência de credibilidades. O autor coloca Marcelo e Trump na mesma categoria de "celebridades", o que é de um ultraje risível. Coloca um reality show ao mesmo nível de um programa de comentário da actualidade política. Coloca um idiota herdeiro de uma fortuna a um professor catedrático, antigo líder do PSD e respeitado opinion maker.  Porque a imagem que Marcelo construiu ao longo dos anos foi sempre dentro da área política. Ele usou de uma plataforma para expor a sua personalidade política e ganhar dessa forma o respeito dos espectadores. Dizer que Marcelo é o Trump destas eleições, como o Sr. Gustavo Cardoso faz explicitamente, é insultar todos os que respeitam o professor, e esse é um grupo que vai muito mais além daqueles que irão votar nele.
Não estou portanto a fazer apenas aqui a apologia de Marcelo. A comparação não é apenas ofensiva para ele, mas para todo o sistema político português. A condescendência do último parágrafo é injuriosa, sendo também irónica: acusa indirectamente o eleitorado português de superficialidade, depois de ele próprio apresentar toda uma análise leviana e oca.
Relacionado com este ponto, é incontornável abordar a questão das capacidades intelectuais de ambos. São tão díspares que seria de esperar que um investigador de renome as tivesse suficientes para ter vergonha em sequer ousar fazer tal comparação. Trump é, objectivamente, um homem ignorante e desconhecedor. Enunciar as demonstrações de estupidez do Sr. Trump, mesmo que me cingisse às mais escandalosas, daria a este texto dimensões impublicáveis.
Qualquer candidato que fizesse ou dissesse as coisas que Trump fez e disse era automaticamente excluído pelo povo português. Não estou a referir-me ao seu racismo: a extrema-direita cresce exponencialmente também na Europa. Estou a falar da sua nítida, palpável e manifesta estupidez. Há uma grande avanço civilizacional, para não dizer intelectual, do cidadão comum europeu em relação ao cidadão comum norte-americano. Nós já não vamos com merdas óbvias. Os truques baratos e a estupidez pornográfica são imediatamente denunciados. É por isso que Obama, na segunda eleição, ganharia por uma margem brutal na Europa e na sua terra não foi assim. Eles estiveram na iminência de eleger um mórmon psicopata. Não há comparação possível entre os nossos maus políticos e os maus políticos deles.
O autor desta crónica teve um lampejo de inspiração divina. Ocorreu-lhe a brilhante associação de dois candidatos de contextos tão distintos, por ambos aparecerem regularmente na televisão antes de se candidatarem. Tentou partir dessa premissa para construir todo um texto que, por não ter o mínimo alicerce argumentativo, se tornou redundante e entediante. Sem ponta por onde se lhe pegue.
Esta comparação descabida entre Trump e Marcelo só terá uma de duas origens: o autor está ciente do ridículo da comparação, mas é um potente instrumento de campanha contra o professor, usando-se de um proeminente órgão de comunicação para deitar ao lixo o seu descaramento e brindar-nos com críticas gratuitas; ou o Sr. Gustavo Cardoso acha mesmo que as duas personagens são "celebridades" realmente comparáveis e confirma que se trata de um analista superficial, desconhecedor e com uma preocupante dificuldade em distinguir os conceitos de fama, reputação e mediatismo.
É triste. Mas podemos aproveitar todos para nos regozijarmos do facto de, aparentemente, as nossas "celebridades" serem cada vez mais elitistas. O Sr. Gustavo Cardoso não vê diferença entre Medina Carreira ou Miguel Esteves Cardoso e os concorrentes da Casa dos Segredos. Não nos trate então com tamanha condescendência, Sr. Gustavo Cardoso: haverá povo intelectualmente mais evoluído do que este?

sábado, 9 de janeiro de 2016

Teimosia Dogmática

É sabido que a demagogia é o lado negro da democracia. Usamos do sufrágio para escolher a pessoa mais fiável. De forma a mostrar que são eles a pessoa procurada, os políticos optam por usar todo o tipo de artimanhas questionáveis para pôr em causa o adversário, o que desde logo deveria pôr também em causa a sua própria moralidade. É uma pescada de rabo na boca, ingrata e inevitável. Nas eleições presidenciais, em que toda uma carreira e percurso político são avaliados, vasculhar o passado do oponente é o 1.0.1. da estratégia. Isso é aceite e em muitas medidas útil. O problema é que isto pode ser anulado por algo que todos nós deveríamos saber reconhecer: se aquilo que um dia fomos representasse o que somos, tudo o que fizemos entretanto foi em vão.

Quero esclarecer que não me refiro às contradições em que Marcelo, como outros políticos, entram para agradar a todos ou salvar a sua imagem. Apenas argumento que ir buscar atitudes do passado que não estão intrinsecamente erradas, mas que contradizem o que a pessoa em questão defende ou faz no presente, é a admissão de que a teimosia é melhor que a humildade.

Pessoas que adaptam a opinião à realidade deviam ser as mais confiáveis por serem as mais razoáveis. Não falo de valores, falo de ideias. Se alguém mantivesse as mesmas opiniões e postura ao longo das décadas, seria para mim um político de menos valor, porque não se demonstrou aberto à mudança, à evolução. Alguém inteligente tem a sua sustentação argumentativa, mas se alguém discordar de si e a sua justificação for argumentativamente, factualmente e legitimamente mais lógica, uma pessoa inteligente está aberta a mudar a sua perspectiva. Como pode mudar com novas leituras, com novas experiências. A personalidade política de qualquer um, político ou cidadão, está em constante mutação. As convicções que permanecem estáticas são as que estão ligadas a dogmas, e isso é bem mais perigoso do que alguém que tem a modéstia de alterar a sua percepção do mundo.

Quando Platão apresentou a postura de Sócrates, resumida na famosa máxima "Eu só sei que nada sei", não fez uma declaração da sua ignorância ou falta de carácter; mas sim de que a realidade desconhecida é imensamente maior e mais relevante do que a sua visão da realidade por si percepcionada.

É preciso mudar a hierarquia de valores humanos: quando a teimosia é encarada como força e convicção e é mais valorizada do que a humildade socrática, estamos no caminho da guerra eterna. Porque o tipo de mentalidade assente num leque de opiniões estagnado é um obstáculo ao avanço civilizacional e está na origem da falta dos consensos; consensos pelos quais os promotores desta filosofia ironicamente rogam até à exaustão. Na política, há uma vergonha explícita de, ao mudar ou ceder, ser-se considerado fraco. Para mim, alguém forte seria precisamente alguém que não se submetesse a essa vergonha. 

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Hipocristiania


Não há a mínima dúvida de que o Papa Francisco parece ser uma excelente pessoa. Bondoso, caridoso, tolerante. Daí ser difícil não nos questionarmos acerca da contradição entre essa cativante personalidade e a imoralidade do livro, instituição e ideias que este senhor representa.

Os movimentos anti-discriminatórios que defendem a maioria muçulmana, que é pacífica e que se trata da principal vítima da radicalização, são importantes para combater os racismos mais ignorantes. Mas não podemos excluir a religião do debate geo-político em que todos estamos envolvidos. Hei-de discorrer ainda muito sobre as várias dimensões deste conflito global. Hoje, queria apenas tocar ao de leve num ponto importante neste confronto que é também religioso: o Islamismo não é dogmaticamente mais perigoso que o Cristianismo ou o Judaísmo. Tudo o que os distingue é moralidade resultante do desenvolvimento civilizacional em que estão inseridos.

Como crítico de longa data de qualquer crença mítica, deparo-me com frequência com o argumento da moralidade dos escritos e da sua importância para que as pessoas, hoje em dia, tenham compaixão umas pelas outras. Há poucos argumentos tão falaciosos como o da importância da Bíblia na construção da moralidade humana ocidental. Durante séculos, vivemos numa sociedade dominada pelos valores bíblicos, e isso mais não trouxe do que discriminação, preconceito, rejeição científica, conflitos bélicos, genocídios e autoridade moral ilegítima. Os grandes avanços civilizacionais foram obtidos precisamente quando a autoridade dos escritos foi questionada, quando o estado começou a secularizar-se, quando a realidade passou a importar mais que os mitos, quando o sofrimento humano se sobrepôs á palavra de Deus. O argumento da moralidade bíblica devia ser encarado como uma piada de mau gosto, um escandaloso fechar de olhos a séculos de imoralidade que provém precisamente das escrituras.

Olhemos para o que a Bíblia judaica-cristã tem a dizer sobre a posição social da mulher:

 - O homem não foi criado para a mulher, mas a mulher para o homem. (Coríntios, 11:9)
 -  Se uma jovem é dada por esposa a um homem e este descobre que ela não é virgem, então será levada para a entrada da casa de seu pai e a apedrejarão até a morte. (Deuterónimo 22:20-21)
 - Foi pela mulher que começou o pecado, e é por culpa dela que todos morremos. (Eclesiástico 25: 24)
 - É melhor a maldade do homem do que a bondade da mulher: a mulher cobre de vergonha e chega a expor ao insulto. (Eclesiástico, 42: 14)
 - As mulheres tem de ser submissas aos vossos maridos (Pedro 3:1)

Estas nojentas normais morais não são passagens do livro sagrado dos terríveis muçulmanos terroristas; são transcrições da palavra do Deus que o Papa Francisco segue, que muitos de vocês seguem, que os nossos avós veneram. Tudo isto está escrito e é considerado pela Igreja Católica como a inatacável palavra do Senhor. Como é que alguém pode considerar este livro a grande origem moral da sociedade moderna? Como pode o papa chamar blasfémia ao acto de cometer atrocidades em nome de Deus e, simultaneamente, ser o grande representante na terra de um Deus que, a acreditar nas escrituras como ele acredita, impôs ele próprio as mais vis atrocidades e ataques aos direitos universais?

A sociedade ocidental não é mais avançada e pacífica por a nossa religião ser moralmente superior. O que a maioria dos cristãos faz é separar aquilo que os escritos divinos têm de ensinamentos positivos e priorizá-los, ignorando pornograficamente os actos grotescos cometidos pelo Deus que deviam amar, mas que na realidade temem. O que está na origem dessa separação entre as partes boas e as partes más da Bíblia é precisamente uma moral secular, intelectual, filosófica, uma bondade que faz os cristãos olhar para a palavra de Deus e, mesmo admitindo a sua origem e infalibilidade divina, optam ainda assim por descartá-la como lixo. Esta é a prova definitiva de que a moralidade humana não provém da religião. É, isso sim, bem mais forte do que ela.

Isso não é só visível nas sociedades de tradição judaica-cristã. Pelo contrário, este ponto é ainda mais forte quando olhamos a sociedades maioritariamente muçulmanas que não vivem de acordo com os radicalismos que associamos a esta crença.

Os cristãos, judeus e muçulmanos que vivem em países desenvolvidos no século XXI pegam nas palavras bíblicas como inspiração moral e filosófica, não como normas inatacáveis de atuação. Deus não lhes ensinou que passagens da Bíblia estão incorrectas. Deus não desceu novamente à terra em forma de arbusto para nos dizer "pessoal, só uma coisinha, afinal enganei-me naquela história das mulheres serem inferiores, elas são afinal iguais aos homens". Foram, isso sim, séculos de desenvolvimento científico, filosófico e humano que nos levaram a um ponto de iluminação em que a bondade, a tolerância e a igualdade são mais importantes do que a palavra divina. A nossa bússola moral é a nossa consciência, não o livro.

Por isso, Sr Francisco, deite-o fora. Se é a pessoa boa que parece ser, rasgue a Bíblia toda e deixe de representar um livro que vai totalmente contra a sua posição do mundo. Dispa-se desse fardo. Porque as palavras que proferiu vieram da sua consciência moral, não da palavra do Senhor, muito menos da história de actuação e pensamento da instituição que chefia. A sua moral, como a minha, provém do respeito mútuo, da compaixão humana e da nossa própria reflexão intelectual e emocional. Não sei quanto a si, mas o facto da raça humana ser capaz desse processo filosófico e comportamental dá à minha vida bem mais sentido do que ser obediente a uma mitologia ancestral.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

As tentações do Facebook

(Nota: o texto que se segue contém uma quantidade muito pouco patriótica de estrangeirismos. Se tiver dúvidas, consulte um dicionário Português – Português 2.0.)

Deparei-me há uns meses com uma reportagem, do Jornal de Notícias, que se fazia acompanhar por uma foto na qual um jovem na casa dos vinte, com um azucrinante e presunçoso sorriso, empunhava um cartaz no qual anunciava, orgulhoso: «Eu não tenho facebook». O artigo era precisamente sobre jovens que não aderiram à epidemia e que resistem no seu vaidoso isolamento. Não ter facebook é uma opção válida e extremamente racional. Porém, o seu pedantismo e arrogância deram-me de tal forma a volta ao estômago que dei por mim, eu que critico quase diariamente o uso dado às redes sociais, a defender fervorosamente as vantagens de um perfil activo nesse mundo paralelo.

O texto que se segue é uma avaliação crua, ainda que breve, dos malefícios do facebook no que concerne a desenvolvimento pessoal e às relações humanas. No entanto, esta minha experiência com o hipster que vos partilhei serve para ilustrar que, por muito que se assemelhe, não padeço da prepotência do rapaz supracitado. Tenho facebook, respeito muito a liberdade individual e, acima de tudo, nada tenho contra redes sociais per si. Tenho, no geral, muito pouco contra coisas. Já contra pessoas, a conversa é outra. Essas são amiúde mais difíceis de suportar pacificamente.

O facebook é uma ferramenta de inegável utilidade. É uma plataforma muito interessante de partilha de artigos, música, imagens, vídeos, e conteúdos multimédia em geral que despertam a nossa atenção e que cada pessoa julga pertinente compartilhar com os seus contactos. Já todos descobrimos, através do facebook, conteúdos com os quais, de outra forma, não teríamos sido confrontados. Esta funcionalidade de partilha permite mostrar aquilo de que gostamos, aquilo que nos interessa e, eventualmente, conversar com alguém a quem aquilo também despertou a atenção. Nada de mal com isto, é uma forma saudável e eficaz de criar um banco de conteúdos público e diversificado.

Todas estas possibilidades vêm, contudo, com um preço. E é sobre esse preço que vos quero falar, sobre aquelas que creio serem as armas com que as redes sociais nos apetrecham e que representam perigosas tentações às quais poucos escapam.

A primeira dela é a sensação de alterar a nossa própria personalidade. As mudanças de personalidade ocorrem com frequência, com o tempo ou moldadas por circunstâncias. As grandes mudanças decorrem, por um lado, da genética e dos acontecimentos externos, e, por outro, da consequente e saudável confrontação connosco próprios.

Ora estas mudanças que as redes sociais difundem decorrem do processo oposto: fugindo ao que não gostamos em nós, construímos a nossa imagem como a de um ser próximo da perfeição. A acne dá lugar ao sépia, as inseguranças dão lugar aos likes alheios, e os fantasmas da intrínseca maldade humana são substituídos por likes próprios para cães atropelados. É essa a fantasia do mundo facebook: é habitado por pessoas lindas, cultas, preocupadas, gentis, sociáveis. Esses alter egos são em tudo semelhantes a nós; mas melhores. E, sobretudo, mais populares.

Isto traz-me a outra tentação de que falarei: a sensação de celebridade. O desejo de ser uma pessoa famosa não é novo, e os benefícios da fama são explícitos e aliciantes. Esta fama facebookiana não permite aceder a festas privadas ou ir para a cama com groupies. Permite, no entanto, a vivência da sensação de que as pessoas querem saber da nossa vida. Estão curiosas por saber onde fomos, o que comemos, o que dizemos, tal como as massas estão interessadas em acompanhar o quotidiano das grandes celebridades. A lendária Betty White disse que, antigamente, ver fotos de férias dos amigos era um tédio, e que agora é um passatempo.

Esta atração pela sensação de fama é, mais frequentemente, uma tentação à qual as mulheres são mais vulneráveis. Esquecem-se, no entanto, de um pormenor que é de tal forma relevante que é, na verdade, aquilo que faz o mundo girar: os homens são uns porcos. Assim sendo, o facebook tornou-se uma plataforma conspurcada de engate, que vai do mais subtil ao mais descarado, dependendo do desplante e do atrevimento do indivíduo. Esta nova dança de acasalamento não me irrita como outras coisas nesta rede social. Mas perturba-me sobremaneira, porque não raramente resulta, e isso é para mim um mistério; e as coisas que eu não consigo explicar perturbam-me por demais.

Os insondáveis caminhos para o acesso à cama de uma mulher são e continuarão a ser labirínticos. Há, no entanto, um conjunto de factores que explicam facilmente o escalar de uma atracção. A atracção entre dois seres não é estática, é gradual, é faseada, durem essas fases longos meses ou escassas horas. E para isso é preciso todos os sentidos funcionarem como um. Quando todos os sentidos humanos se fundirem num, num apenas, que faz com que queiramos aquela pessoa mais do que todas as outras, está construída a atracção. Para isso contribuem todo o tipo de factores, como o cheiro da pele, o tom de voz, o riso. No fundo, toda a percepção que a proximidade física proporciona.

Que todo este processo se desenrole no mundo online é para mim inescrutável e altamente intrigante. Ela pôs like no meu artigo, logo daqui a uns dias tenho de retribuí-lo numa foto dela, para ela ver que estou interessado e atento, para que na festa da próxima semana, quando ela estiver bêbeda o suficiente para me querer, e eu estiver bêbedo o suficiente para falar com ela sem usar um teclado, tenho mais hipóteses de ter sucesso. É este o jogo de sedução moderno. Chamem-me antiquado, mas parece-me cinzento, confuso e entediante. Mais do que isso, é mecânico e artificial.
É, no entanto, uma inevitabilidade. As mulheres estão lá todas, como um catálogo de carros, um menu detalhado, que contém todas as informações, currículo, cilindrada, interesses artísticos, combustível, estados de espírito e, mais importante, fotos de vários ângulos e outfits, o que permite avaliar a qualidade do veículo e, se tudo falhar, servir como suporte visual a uma maratona masturbatória.

Por fim, quero referir uma perversidade oculta nisto tudo: o conceito de privacidade não foi deturpado. Está antes rapidamente a definhar-se. Ficamos chocados se alguém usa uma foto nossa, mas somos os primeiros a pô-las online. Se alguém nos aparecer no nosso local de trabalho, ou em qualquer outro sítio só para nos ver, não podemos culpar ninguém senão a nós próprios por essa informação ser de conhecimento geral. E quando eu falo da preocupação em certas informações não serem do conhecimento geral não falo em segredos. São informações que se podem dar casualmente numa conversa informal com um conhecido. Mas nós partilhamos tudo com os desconhecidos. Eles sabem dos nossos relacionamentos, da nossa família, dos nossos destinos turísticos, da nossa vida nocturna. Pessoas que só conhecemos de nome, ou nem isso, sabem coisas sobre a nossa vida que a nossa avó não sabe a não ser que pergunte. Isto tem de assustar qualquer mortal com o mínimo de auto-preservação.


Estamos num ponto sem retorno. Ninguém quer chegar a casa e perder o contacto com as pessoas. Ninguém quer abdicar da persona que criou, que é tão popular e apreciada. Ninguém quer voltar a ter de abordar uma rapariga pessoalmente de forma a mostrar interesse. Olhar nos olhos é íntimo e invasivo, e nunca as nossa tiradas hilariantes a que ela responde com tantos smiles de riso vão ter tanta piada improvisadas na hora como têm no facebook, com tempo para pensar e construir a frase da forma mais cool. Até que esta aparente fuga à solidão nos fará a todos mais solitários, num mundo em que as identidades se vão desvanecer, e em que nós próprios vamos deixar de saber quem somos: a pessoa sorridente, social e activa que aparece na foto e que comenta com joviais emoticons; ou a pessoa solitária que está de braço esticado a tirar uma foto sozinha e que vai passar as próximas horas na cama a fazer scroll pelo feed e a comer as bolachas de chocolate do Pingo Doce até enjoar delas para sempre.

domingo, 14 de junho de 2015

Os meus pêsames

Nunca me senti tão insignificante como na primeira ocasião em que me encontrei com a morte, durante o ensino secundário. Ainda não tinha dezoito anos, mas o meu melhor amigo desde a infância apareceu na entrada da escola com os olhos vermelhiços, com um jornal amachucado nas mãos, aberto na página dos obituários, entre os anúncios de prostitutas e os curandeiros místicos africanos que juravam deter o segredo de curas para todos os males da humanidade - mau-olhado, inveja, desemprego, drogas, álcool, amor e impotência.

- O que aconteceu?

O jornal veio parar às minhas mãos e reconheci numa das fotografias sorridentes de bilhete de identidade o primo do meu amigo. Numa tipografia gótica e discreta, a família desejava que Deus o tivesse e anunciava que o velório seria dali a três dias. Não era referida a causa de morte, nem tive eu o ímpeto de ceder à curiosidade mórbida e perguntar:

- Como morreu?

Enquanto procurava palavras reconfortantes, o meu amigo agarrou-se a mim num abraço violento, as suas unhas arrastavam-se pelo poliéster do meu casaco de inverno como se este fosse um quadro negro, produzindo um som insuportável que dava voz à agonia que naquele momento nenhum dos dois conseguiria descrever.

- Estás bem?

A pergunta saiu da minha boca antes de eu ter compreendido a sua inutilidade. Não era aquela a hora para a boa educação e para os bons costumes que me tinham sido impingidos pela família nas dezenas de funerais de desconhecidos nos quais eu tinha marcado presença. O meu amigo não me respondeu, continuava irracional, agarrado a mim, numa crise de histeria que contrastava com o estoicismo que eu tinha encontrado frequentemente nos outros.

- Queres alguma coisa?

A ausência de preparação para aquela situação levava-me a uma incerteza tão ampla que eu queria oferecer ao meu amigo o mundo. Queria dar-lhe o colmatar de uma necessidade - sede, fome ou sono – mas nada parecia ser capaz de retirar o afligido do seu transe. Eu ofereceria qualquer coisa, a minha própria vida, até, qualquer coisa para conseguir sair daquele abraço, qualquer coisa para que o meu amigo parasse de sujar o meu casaco com as suas lágrimas, qualquer coisa para conseguir voltar aos tempos em que ninguém dependia de mim para exorcizar a sua dor. Os meus pensamentos teimavam em tirar-me daquela experiência real e dolorosa.

Aquilo era a vida a acontecer – na sua manifestação mais dramática – e eu estava absorto no meu egocentrismo, alheio ao sofrimento do meu amigo mais próximo. No final das aulas, quando a minha mãe veio buscar-me, sentia-me enganado e ressentido. Odiei-a naquele momento, a sua incompetência parental, a sua fraqueza, não consegui acreditar como é que ela tinha deixado aquilo acontecer, como é que, com todos os recursos da humanidade, eu, um rapaz de dezassete anos, tinha sido incumbido com a tarefa de amortecer o impacto da morte, como é que, depois de todos aqueles anos de vida, tinham-me deixado tão despreparado para lidar com o evento mais natural do mundo.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Matar por atum

the droll noon
where squadrons of worms creep up like
stripteasers
to be raped by blackbirds

I go outside
and all up and down the street
the green armies shoot color
like an everlasting 4th of July,
and I too seem to swell inside,
a kind of unknown bursting, a
feeling, perhaps, that there isn’t any
enemy
anywhere

and I reach down into the box
and there is
nothing not even a
letter from the gas co. saying they will
shut it off
again.

not even a short note from my x-wife
bragging upon her present
happiness.

my hand searches the mailbox in a kind of
disbelief long after the mind has
given up.

there’s not even a dead fly
down in there.

I am a fool, I think, I should have known it
works like this.

I go inside as all the flowers leap to
please me.

anything? the woman
asks.

nothing, I answer, what’s for
breakfast?


Charles Bukowski


Conheço pessoas que não podem ouvir a palavra “sushi”. Poder, até podem. Eu é que não quero que a palavra chegue aos seus ouvidos. As duas delicadas sílabas nipónicas são proferidas, e o discurso racional desaparece. Seguem-se descrições de fatias gordurosas e reluzentes de peixe cru, enquanto os sonhadores tentam esconder a salivação (um bem-haja, Pavlov!), adoptam uma retórica extremista (“tenho de comer sushi pelo menos uma vez por semana”) e fazem juras incompreensíveis de amor eterno (“quero ser enterrada com peixe cru”).

Às vezes, nesses momentos, perco a calma. Consigo escondê-lo na maioria das ocasiões, mas já aconteceu ter de inventar uma desculpa e ir-me embora. Parece ridículo, eu sei, até mesmo absurdo, mas sou possuído por uma raiva incompreensível. Não estou a ser hiperbólico ou figurativo. É mesmo raiva, daquela que circula no sangue sob a forma de adrenalina, que provê de energia adolescentes zangados em concertos de metal e soldados desesperados em campos de guerra. Quero virar a mesa, gritar como um chimpanzé com rábia e gesticular como Hitler num comício político.

Sempre fui assim. É uma das sensações mais antigas que vagueiam pela minha memória: tentar conter a raiva. Na infância, a aflição era tanta que o canal lacrimal era inundado por uma monção asiática. Nessas situações, além da raiva, tinha de esconder também o choro. Os motivos que causam as crises são indirectos, mas compreensíveis. No exemplo introdutório, a minha ira não advém de alguma aversão primitiva a sushi. Eu associo a obsessão cosmopolita pelo sushi a outra coisa, algo que activa o meu cérebro reptílico e que não desejo partilhar com o vácuo infinito do precipício cibernético. Mas, sendo honesto e ambíguo, a culpa era minha. Ao não lidar com os problemas reais, a raiva acumulava-se e o resultado final não era digno: um homem adulto perdia a calma por causa da mera alusão a um tipo de comida.

Julgo que não sou velho o suficiente para coçar a minha barba branca, dar mostras de sabedoria e catalogar aquilo que aprendi nestes vinte e cinco anos entre o céu e a terra. Mas se há algo que aprendi, algo cujo valor de aprendizagem é distintamente superior ao das outras milhares de pequenas lições, é a futilidade de perder a calma. Essa asserção parece óbvia, mas é muito fácil entrar num ciclo de dependência de emoções extremas. A raiva reforça a noção errónea de que estamos certos e que o mundo é um inimigo. E o ressentimento que se segue é delicodoce, como a melancolia.

Antes escolhia contê-la, cedia ao instinto. Raiva pessoal não é nada mais do que vergonha agressiva, e vergonha é, perdoem-me a redundância, vergonhosa (São Camões que me perdoe por esta prosa de folheto de auto-ajuda). Ela aparecia, derivada de coisas insignificantes e de coisas sérias, mas era controlada por anestesias proporcionadas pelos milagres farmacológicos da alquimia humana. Quando, por saturação ou por mera eventualidade, a canção se tornou realidade e as drogas deixaram de funcionar, passei a lidar com ela em lampejos vergonhosos de gritaria e masoquismo, um comportamento que só parou quando os limites estarrecedores da quase-morte foram atingidos.

Agora ela sai, como a fumaça de uma locomotiva da era industrial, de forma visível e controlada, numa série de chaminés solitárias (também aprendi que a raiva é tímida). Corro à noite, limpo a casa regularmente (o valor terapêutico é limitado; não quero limpar as vossas casas, mas obrigado pela oferta), faço voluntariado (muito nobre, eu sei, estou a subir as escadas para o céu), aprendo peças complicadas na guitarra, nado, tomo banhos de imersão, medito (muito profundo, eu sei, mas a ciência é inegável), conduzo sem destino (como um cliché sob quatro rodas).

Não sei porque possuo tamanha susceptibilidade inflamatória, mas já aceitei que ela não desaparecerá. Por vezes é útil. Permite-me terminar aquilo que começo, já que, no meu caso, a raiva é prima de segundo grau da obsessão. Mas noutras situações é apenas uma descarga mesquinha de alguém irreparavelmente inconformado com problemas irresolúveis. Agora aceito que certos problemas não têm solução. Aprendi que muitos dos meus problemas nem sequer existiam; eu, como muitos outros antes de mim, entrava em jardins sem saber que eram labirintos, pensando que sabia onde ficava a saída e que os idiotas do passado se tinham perdido devido à sua natureza idiótica.

Isto não é uma confissão declamada do topo da montanha. Não reivindico nenhum estatuto de sabedoria. Não habito um templo. Não possuo discípulos. O meu estado actual é apenas uma linha de suturas que pode a qualquer momento se transformar num remendo permeável. Há dias em que não sei como é que mudei tanto. Há dias em que não sei como consigo manter a calma. Os estímulos da raiva continuam absurdos. Às vezes basta acordar. Às vezes basta o contacto com algumas das modas mais insuportáveis dos nossos tempos, como a obsessão culinária, com os programas de televisão, os buffets de sushi e as hamburguerias gourmet. Mas há dias em que sinto que até tenho alguma razão. Isto foi longe demais. Se ouço mais uma pessoa a falar sobre a importância de ter a frigideira bem quente, ou sobre a necessidade imperativa de possuir um ralador de queijo, algo horrível acontecerá a essa pessoa, e envolverá a minha mão direita, uma frigideira e um ralador de queijo.

domingo, 19 de abril de 2015

Sobre a banalidade dos homens - II


“This is the day upon which we are reminded of what we are on the other three hundred and sixty-four.” - Mark Twain, sobre o primeiro de Abril

Rodrigo de Borja, conhecido profissionalmente como Papa Alexandre VI, teve um pontificado de onze anos, entre 1492 e 1503. Subornou cardeais para garantir a sua eleição. Atribuiu cargos importantes a membros da sua família e a membros da família da sua amante, Vanozza Catonei, com quem teve quatro filhos. Organizou os três casamentos da sua filha Lucrécia de acordo com necessidades políticas. Vendeu indulgências como se fossem commodities em mercados internacionais. Os rumores que circulam à volta do seu mito incluem palavras como incesto, homicídio, envenenamento e orgia.

Quando Jorge Bergoglio se transformou no Papa Francisco, ele decidiu morar na casa de hóspedes do Vaticano, rejeitando o luxo do tradicional apartamento papal. Lavou os pés a doze detidos de prisões romanas. Abdicou dos tradicionais ornamentos dourados que embelezavam decadentemente a figura papal. Trocou o trono extravagante do Bispo de Roma por uma cadeira respeitável. Substituiu os tradicionais sapatos vermelhos de couro por um par de sapatos banais. O seu ascetismo foi aplaudido. Até alguns ateus de serviço se juntaram à salva. Outras pessoas, no entanto, criticaram a santíssima decisão, assim como a torrente ingénua de elogios que se seguiu.

Afirmaram que não era suficiente - o Papa não tinha montado uma tenda humilde na Praça de São Pedro. Os museus do Vaticano estão cheios de tesouros avaliados em milhares de milhões de euros enquanto nações inteiras passam fome. A instituição católica continua tingida por uma opacidade tenebrosa que oculta escândalos chocantes. É natural que existam discordâncias, mesmo nas coisas mais simples. Afinal, unanimidades absolutas só no Comité Central do PCP. Mas uma pergunta impõe-se: o que é que podemos concluir sobre a natureza humana quando mesmo actos deste género são criticados?

Nada de mais, para ser sincero. É perigoso extrair conclusões abrangentes de pedaços avulsos de informação. Mas aceitando esse perigo, poder-se-ia arriscar e concluir que um certo cinismo irónico venceu, instalando-se como o tom preponderante do nosso discurso cultural.

É um mundo onde as nossas almas se retraem com náuseas cada vez que se fala de honra e moral e certo e errado, como se essas questões fossem simples e o debate já estivesse resolvido. Assume-se que nascemos livres e puros, que a bondade é intrínseca no coração humano, e que a única coisa que resta é a busca da felicidade e a procura pelo prazer. Aqueles que ousam pregar do púlpito, mesmo do púlpito secular, são ostracizados pelo relativismo céptico de quem se julga o detentor inquestionável da sabedoria.

É certo que o Papa não realizou nenhum acto extraordinário na sua decisão de recusar a mansão papal. O mundo não mudou porque ele decidiu rejeitar a ostentação que tradicionalmente cobria o sucessor de São Pedro. Mas esta questão tem implicações mais graves e mais subtis.

Esqueça-se o Papa Francisco e considere-se o Jorge Bergoglio. É um homem. Come e dorme. Olha-se ao espelho. Arrota. Bate com o dedo mindinho nos móveis. Usa papel higiénico. Tem erecções. Ele provavelmente até acorda da mesma forma que nós. Abre os olhos, mas não quer sair da cama. Fecha os olhos, e cede àquele impulso misantropo de pequena duração que nos faz duvidar do valor da existência fora do conforto enrodilhado de cobertores quentes. Depois, num gesto corajoso, masoquista e banal, arranca as cobertas, pousa os pés no chão frio de madeira envernizada e luta para manter os olhos abertos.

Esta pequena batalha – acordar – é partilhada por todos. É superficialmente insignificante. Mas quantos de nós, se estivéssemos na posição do Papa, teríamos abdicado do que ele abdicou? Acordar pode ser uma batalha pequena, mas é uma batalha que seria ganha com maior facilidade no conforto do apartamento papal. Qualquer um de nós, uma grande maioria, provavelmente, teria muita dificuldade em recusar todos aqueles símbolos de poder. Mesmo sendo o representante máximo de uma religião que prega a humildade, aproveitaríamos a oportunidade suprema de sermos algo próximo de mestres do universo, alguém que vive num palácio, veste-se de seda, adorna-se com ouro e influencia o mundo com apenas meia dúzia de palavras. E sejamos honestos. Um homem que é voluntariamente abstinente precisa de todos os outros prazeres que a humanidade tem para oferecer. Ao retirar-se o sexo da equação, o mínimo que podem fazer pelo homem é cobri-lo com ouro e oferecer-lhe um palácio onde se serve lagosta todos os dias.

Os tempos são outros. O mundo de hoje nunca toleraria a devassidão que reis e papas desfrutaram no passado. Mas criticar o Papa Francisco desta forma não é um exercício de cepticismo saudável. Não há nenhuma grande hipocrisia escondida no papado. A hipocrisia é criticar este Papa por fazer coisas que poucos fariam. Não que ele seja assim tão exemplar, ou assim tão bom e puro, mas, nós, na esmagadora maioria, não somos nem exemplares, nem bons, nem puros. O problema aqui não é reconhecermos a superioridade moral do Papa. É não reconhecermos que, na maioria dos casos, o nosso pontificado estaria mais próximo de Alexandre VI do que de Francisco. E certamente que não teríamos lavado os pés de ninguém. Nem sequer os nossos.

terça-feira, 17 de março de 2015

Sobre a banalidade dos homens


“Galileu escrevia muito bem. Li-o em traduções medíocres. Disse, diante dos inquisidores, que isto não se movia: gozava, ao dar-lhes razão, inteligente como era: porque isto, de facto, não se move.” - Sebastião Alba

Há erros que deixam de existir depois da morte. Pais alcoólatras se transformam em santos, filhos ingratos em anjos, terroristas em mártires, homens banais em mitos. Esse esmalte purificador é uma das vantagens inegáveis do passado. Depois de tempo suficiente, até o mal deixa saudade. As memórias ganham contornos mágicos que nos garantem que o presente é sempre pior e que o futuro nunca será melhor.

Os museus estão entupidos com exemplos. Os retratos pintados de reis eternizam a imagem sagrada de líderes serenos e magnânimos. As esculturas de filósofos gregos criam ideais de sabedoria e tenacidade que nunca conseguiremos atingir. As fotografias a preto e branco de estrelas de rock falecidas lembram-nos que nunca teremos tanto estilo como aqueles que possuem a sorte de serem eternamente jovens. Raramente lembramo-nos da violência, da crueldade, da loucura ou da imoralidade desses vultos do passado.

Nem é necessário argumentar, bastam as imagens. Contraste-se a serenidade magnânima dos reis do passado com o escárnio jocoso com que olhamos para o bigode farfalhudo de D. Duarte Pio; a serenidade tenaz dos filósofos do Antigo com a ironia com que avaliamos a utilidade da filosofia no mundo moderno; a rebeldia estilosa que Jimi Hendrix levou para a cova com o declínio biológico que Bob Dylan tem a sorte de usufruir; a evocação respeitosa de Che Guevara com a comicidade involuntária de Fidel Castro e os seus fatos de treino.

Consideremos o nosso caso nacional. Enquanto Mário Soares definha à frente das câmeras, a memória de Sá Carneiro recebe um elogio fúnebre eterno. Sá Carneiro é o pai espiritual da social-democracia portuguesa e, se não tivesse morrido, o país seria diferente. Era um político inigualável, um estadista exímio, um homem à frente do seu tempo, um conciliador de vontades, capaz de unir gregos e troianos, portuenses e lisboetas, sal e açúcar. Era o único homem que poderia ter carregado este naco de terra nas suas próprias costas em direcção ao progresso que a nossa constituição comunista tanto exalta. Sá Carneiro é o melhor político que alguma vez existiu em Portugal. Com comendas de tal ordem, facilmente se conclui que o maior erro político de Mário Soares foi não ter morrido tragicamente num acidente de avião. Se queres fazer obra, morre.

No presente, a glorificação do banal assume outra forma. Pasmamo-nos com os excessos alucinados do culto norte-coreano de deificação política, mas, ignorantes da nossa retumbante estupidez, não conseguimos ver que fazemos a mesma coisa. Numa versão aguada, é certo, mas que funciona segundo a mesma lógica.

Rejeita-se a responsabilidade e deposita-se toda a esperança numa figura mítica, num milagre dos céus ou num acaso da sorte que obrigue o universo a reconhecer legitimidade dos nossos desejos. Com isso, descobre-se no desamparo a solução para todos os problemas. Quando aquilo que é necessário são realismo e homens mortais que reconhecem as suas limitações, aquilo que pedimos são promessas e semi-deuses. Não nos espantemos então com a constituição moral e a competência técnica da nossa classe política: quando clamamos por homens que pensam que são o Messias, os únicos que levantam o braço são os estúpidos, os ignorantes, os loucos, ou os ambiciosos o suficiente para afirmar que são o filho de Deus.

Os partidos no poder desempenham dois papéis alternadamente. No governo, esbarram contra a realidade; na oposição, prometem diamantes e galáxias. O eleitorado adapta-se: àqueles que apoiam, exigem reciprocidade, preferencialmente manifestada em recompensas materiais; àqueles a quem se opõem, exigem perfeição, sabendo e ignorando que esta não existe. Nos interlúdios, perdemo-nos na eclosão mediática de “escândalos” que a imprensa encontra, eventos com o valor de uma moeda de cinco cêntimos perdida no chão; tem valor, mas não é suficiente para me fazer parar. Ignoramos a doença, mas ficamos ultrajados com os sintomas. Confrontados com a complexidade inerente a qualquer problema, contentamo-nos com o fatalismo de costume, cedendo à generalização desinformada de que os políticos são todos os iguais.

É como ver babuínos a atirar fezes uns aos outros: até seria engraçado, se não fosse tão tristemente previsível. O apelo desaparece rapidamente, passando do fascinante para o engraçado, do engraçado para o patético, e do patético para a repulsivo. O resultado final é o mesmo. Ficamos todos um pouco mais sujos, um pouco mais cansados e muito menos respeitáveis, sabendo que nada mudou e que ninguém aprendeu nada, confundindo o alívio nos intestinos com um sentimento de realização. E continuamos aqui, com merda a pingar da testa, à espera que alguém, Sá Carneiro ou D. Sebastião ou António Costa, tanto faz, retorne, num dia qualquer, ou numa manhã de nevoeiro, cheio de jet-lag, para salvar esta nação cheia de pessoas à espera de serem salvas.

segunda-feira, 9 de março de 2015

Fiscais

O nosso primeiro-ministro é um líder político cujo discurso e actuação sempre se pautaram pelo rigor financeiro e pelos apelos ao sentido cívico e de responsabilidade. Quando se descobrem registos de que o seu passado não é assim tão isento de falhas, é natural que palavras como hipocrisia e falsidade pululem pelas vozes da opinião pública.

Eu vou tentar que este texto não possa ser confundido com uma apologia ao comportamento de um primeiro-ministro que já em muitas ocasiões demonstrou pouca habilidade política, nomeadamente a gerir situações com esta. Também eu tenho muitas interrogações em relação a este caso, assim como certezas de que algumas coisas foram mal manejadas, e as tentativas de desculpabilização e de absolvição roçam o ridículo. O homem estava tão desesperado que foi pagar uma multa prescrita. A quem e como é que falta averiguar.

No entanto, o meu problema com este caso é bem mais político do que ético. A fuga ao fisco é uma tradição que não pode ser esquecida, e muito menos condenada por quem a ajudou a propagar. Não peço ao cidadão que ignore o facto de termos um primeiro-ministro com um passado fiscal incumpridor e, sobretudo, obscuro. Deve haver escrutínio, deve haver rigor. Rogo apenas a que haja coerência de ideias, quer no elogio, quer na crítica. E não o faço exclusivamente a quem, como podem julgar, tem na fuga aos impostos um hábito. É importante porque não só os incumpridores fiscais pecam por falta de coerência ao opinar sobre este caso.

Para haver coerência, naturalmente terá de haver uma referência, um padrão opinativo. Isso não existe no cidadão comum. O cidadão quer políticos honestos, mas condena quem mostra honestamente que andámos a viver em regabofe e que é preciso pôr um travão. O cidadão reclama serviços públicos de alcance global, mas ataca a tirania do Governo quando este cobra os impostos que permitem ao Estado cobrir essas despesas. Um dia alongar-me-ei sobre as inconsistências argumentativas do povo português. Para já, alerto para a sua existência, e para o quão precipitado é avaliar o comportamento ético de alguém pelo seu passado de descontos para a segurança social.

Outra coisa: Passos Coelho não é um baluarte da honestidade. Mas o que é preciso não olvidar é que, como o primeiro-ministro se esconde por trás dos erros do seu antecessor, não podemos esconder atrás dele as falhas os nossos enganos colectivos - sociais e políticos - que foram decorrendo ao longo das décadas de democracia.

A nível de exemplo e de integridade, este caso é um escândalo lamentável e evitável. Mas o diagnóstico que Passos sempre fez do sistema fiscal é correcto e certeiro. Não se deixem enganar pelas suas fugas ao fisco: há oncologistas que fumam.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

O Predador Alemão


Como qualquer outra presa racional, analiso o nível da ameaça. O predador é temível, dizem. Adapta-se facilmente à mudança. Organiza-se em bandos que trabalham de forma eficiente e produtiva. Escuto rumores desconcertantes sobre o seu passado. Parece que outrora, liderados por um homem louco, mataram muita gente. E, pelo que dizem, estão a tentar acabar connosco. Não tenho a certeza se ouvi bem, mas acho que lhes chamam “alemães”.

No entanto, devo confessar: quando vi o predador ao vivo, não encontrei sinais ameaçadores.

Normalmente andam em grupos de quatro: dois adultos, homem e mulher (presumivelmente um casal), e duas crianças (presumivelmente a prole). Falam numa língua ríspida e desagradável, é certo, mas sorriem constantemente. O cabelo dos filhotes era anormalmente loiro (quase branco). O vestuário que usavam possuía uma combinação de cores arrojada (amarelo-torrado, rosa-salmão, vermelho-vivo), mais extravagante do que os indígenas lusitanos ousariam vestir.

O gesto mais assustador que testemunhei foi quando o macho adulto levantou os braços subitamente para tirar uma fotografia (com uma câmera “Leica”, julgo eu) à Basílica da Estrela. Quando correram para apanhar o eléctrico, não vislumbrei atributos físicos fora do normal. Temi que estivessem a aproveitar o espaço fechado do eléctrico para matar presas com maior facilidade. Mas tudo o que aconteceu foi que a fêmea adulta pagou pelos bilhetes enquanto o resto da família se sentou nos bancos. Não sei explicar, mas quando o eléctrico partiu, ainda sorriam. Para ter a certeza, verificarei na minha enciclopédia, mas penso que observei a subespécie alemã de “turistas”.

Acabei por concluir que aqueles espécimes eram excepções, versões mais mansas das criaturas sanguinárias que habitam no centro da Europa. Afinal de contas, por onde quer que se ande, para onde quer que se olhe, abundam vozes desesperadas a avisar dos perigos que eles trazem. Roubam-nos crescimento, dizem. Desviam crescimento também. Eles nada dão, só emprestam, e em condições que são meramente “favoráveis”.

Há quem diga que até já são os alemães que mandam em Portugal. Nada acontece sem a sua aprovação. Há quem jure que quando os portugueses votaram para eleger o governo, há quase quatro anos, havia alemães disfarçados em todos os locais de voto, incumbidos com a missão de cumprir a vontade da líder germânica, designada pelos compatriotas como “Merkel”.

Mas depois fiquei ainda mais confuso.

A “BMW”, uma empresa alemã, é a quarta marca de carros mais vendida em Portugal. E, segundo fontes anónimas, vendem carros caríssimos. O que é estranho, tendo em conta a gritante pobreza da nação lusitana. São os alemães que nos obrigam a conduzir carros de elevada qualidade, só pode ser isso. Mas há mais: descobri que a Alemanha (o habitat natural dos “alemães”) é um dos maiores investidores estrangeiros em Portugal. Pensei que se tratava de um erro. Mas é verdade. A “Leica”, a marca da câmera fotográfica carregada pelo macho adulto que observei, é uma empresa alemã, e noventa por cento das suas câmeras fotográficas são produzidas em Portugal. A Autoeuropa, outra empresa alemã, é responsável por dez por cento das exportações portuguesas.

Depois percebi. É um truque. É que estes alemães, enfim, querem estimular a nossa dependência. Não sei exactamente porquê, mas as razões são irrelevantes. Tenho a certeza que não podemos confiar neles. Tantas vozes em uníssono não podem estar erradas. O Mário Soares, a nossa estrela mais brilhante, a nossa fonte inesgotável de lucidez neste poço escuro de ignorância, não pode estar errado. Alguém tem de fazer alguma coisa. Isto tem de parar. Basta de investimento a longo-prazo, basta de turistas ricos e felizes, bastas de carros potentes, basta de maquinaria industrial de elevada qualidade. Basta.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Direito de Resposta


Caríssima Teolinda Gersão,

Li a sua carta. O ataque de riso subsequente quase me matou. Mas, mesmo assim, obrigado. Teria sido um prazer ter morrido depois de uma leitura tão interessante. Digo isto com toda a sinceridade. Numa altura em que meio mundo corre atrás de soluções mágicas para a crise da imprensa, a sua carta bacoca encapsulou com requinte todas as razões que conduzirão os órgãos de imprensa a uma morte lenta e incauta.

Mas falemos daquilo que tanto a preocupa. A praxe. A vil praxe. A ignóbil, corrupta e abjecta praxe. Não faço tenções de representar a classe dos “caloiros”. Não sou um caloiro. Nem sequer fiz parte da praxe. Mas acho que é correcto afirmar que as pessoas que constituem esse conjunto vasto e diverso de seres humanos não gostam de serem endereçadas como uma manada de animais irracionais nesse tom altivo de avó preocupada. Respondo apenas como uma pessoa normal, alguém sem uma sardinha a assar, apenas um cidadão preocupado.

Não irei oferecer argumentos a favor da praxe. É difícil encontrar um assunto que seja tão desinteressante quanto esse. Mas posso dizer que os seus argumentos são tão ridículos quanto o seu nome. Na sua visão, até os animais possuem um nível maior de protecção do que indivíduos que participam na praxe. Mesmo que a sua asserção tenha sido metafórica, a falsidade da ideia é gritante. Indivíduos que são praxados, ou, na linguagem técnica que a senhora rejubilou em usar, “caloiros”, possuem exactamente as mesmas protecções legais que qualquer outra pessoa. A lei não é suspensa no momento em que pessoas se vestem de preto e seguram colheres gigantes. A liberdade é um conceito estranho, não é? É a noção maluca de que, desde que não atentem contra a liberdade alheia, às vezes outras pessoas podem querer realizar actos com os quais não concordamos. Mesmo que esses actos consistam em abdicar parcialmente da liberdade individual.

Quanto a esta analogia intelectualmente devastadora – “Que fariam se um professor vos mandasse rastejar no chão? De certeza que não obedeciam, e o professor teria problemas, e apanharia com razão um processo em cima.” - é mesmo necessário explicar-lhe o quão ridículo qualquer actividade ritualística parece fora do seu contexto natural, especialmente para alguém que não está incluído nesse ritual? É por essa razão que não vemos cirurgiões a cantarem o hino nacional durante operações ou pessoas vestidas de Pai Natal durante a Páscoa. Não sei quando é que foi a última vez que a senhora saiu de casa, mas o mundo não funciona segundo a lógica de desenhos animados onde o certo, o errado, o bem e o mal são óbvios e lineares. E, caso não saiba, a aplicabilidade dos preceitos morais de contos de fadas na vida real é mais limitada do que a senhora parece pensar.

Como em qualquer outro contexto, por vezes abusos e exageros ocorrem. Mas isso não invalida a actividade praxística como um fenómeno cultural legítimo. De forma semelhante, a gestão de Isaltino Morais não invalidou o município de Oeiras, a eleição de António José Seguro não invalidou o Partido Socialista, e o bigode do Hitler não invalidou nem a Alemanha, nem a existência de pêlos faciais. O seu erro foi pensar que aquilo que falta às dezenas de milhares de pessoas que todos os anos participam proveitosamente das actividades praxísticas é acesso a senso comum, algo que, tendo em conta o tom condescendente que utilizou na carta, a senhora julga ter em quantidades infinitas. Não será a razão pura que acabará com a praxe, assim como não é a razão pura que explica e legitima inúmeros fenómenos sociais.

Agora, se me permite, serei eu a dar-lhe um pequeno conselho. Se a senhora quer falar sobre abusos desnecessários, não é necessário incomodar-se e escrever artigos de opinião idióticos. Tudo o que tem a fazer é olhar para o seu próprio Cartão do Cidadão, ler as palavras lá inscritas e questionar a crueldade demoníaca que é infligir a alguém o nome de “Teolinda Gersão”. Eu sei que não é tão prestigiante quanto publicar um artigo num jornal, mas pelo menos pouparia tempo, que é algo que, se fiz bem as contas, a senhora não tem de sobra.

Atenciosamente,

Leandro Silva

PS: Bem sei que gozar com o nome de alguém é infantil e ridículo, especialmente quando feito por um adulto, e, ainda pior, por um adulto chamado Leandro. Mas se há algo que me irrita, se há algo que põe o meu sangue a ferver como metal derretido é pseudo-pedagogia paternalista despejada sobre adultos vacinados. Juro. Essa merda há-de me levar para a cova.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Horror na Moda Lisboa


Dependendo de circunstâncias práticas e perspectivas filosóficas, a vida pode ter valores diferentes. A vida é boa, a vida é má, a vida é curta e a vida é difícil. Mas nenhuma outra experiência no âmbito da existência humana consegue proclamar, com tamanha certeza, que a vida é estranha, do que ir à Moda Lisboa. A minha definição original do Inferno na Terra envolvia bombardeamentos aéreos, fome generalizada, epidemias imparáveis e o som constante de metralhadoras automáticas. Essa definição mudou. Eu estive diante dos portões do Inferno, e vi a sua verdadeira forma: não tem fogo, não está localizado debaixo da terra e o seu nome é, garanto-vos, Moda Lisboa.

As coisas que eu vi e as coisas que eu testemunhei alteraram permanentemente a forma como eu interpreto a interacção humana. Não foi apenas uma coisa. Foi tudo. Foi como se eu tivesse ingerido LSD e depois tivesse sido teletransportado para uma escola secundária para adultos onde era Carnaval todos os dias. Um grupo de pessoas se juntou para sentarem-se em arquibancadas chiques para observar manequins de plástico a andarem como dinossauros bípedes vestidos com roupas que gritavam loucura como a actriz principal num filme do Hitchcock.

Aquilo que foi mais estranho é que a roupa – a razão pela qual todos lá estávamos - parecia ter a mesma importância que notícias de instabilidade política na Tanzânia. Durante o próprio desfile, não havia uma multidão coesa a formar um bloco de atenção colectiva. Eu arriscaria a dizer que nem metade daquelas pessoas estavam ali para ver os desfiles. A maioria dos presentes dedicaram o seu tempo a mexer em telemóveis, roer unhas, fumar cigarros electrónicos, tirar selfies e fazer festas em cães minúsculos carregados em bolsas.

Mas aqueles que assistiram verdadeiramente aos desfiles foram possuídos por descrença pura. Eu não sei se aquilo é arte, ou se alguém, algures, está a rir-se dos idiotas que levam aqueles trapos a sério. Aqueles que tentavam justificar a relevância artística das obras diziam: é moda. Não tem que fazer sentido. É conceptual. É algo que não deve ser interpretado. É algo que deve ser experienciado. A verdade é que, pelo aspecto da “obra” apresentada, a Chanel poderia usar o revestimento do estômago de fetos chineses abortados na roupa e aquelas pessoas iriam elogiá-los pelo uso audaz de “reciclagem biológica”. Tudo para manter viva a ilusão de que o julgamento da arte, e especialmente da moda, não está sujeito a qualquer tipo de objectividade.

A roupa não era simplesmente má, e eu não posso limitar esta crítica à asserção de que a roupa apresentada não fazia sentido. Porque fazia. Fazia muito sentido. O problema é que aquilo não era roupa. Era um pedaço de tecido desenhado por pessoas sem ideias que pensam que agir de forma aleatória é equivalente a ser artístico. Eu estava pasmo, mas apaziguado pela confirmação de que não estava sozinho na minha estupefacção. Reconheci no olhar daqueles que assistiam aos desfiles os contornos faciais daquilo que eu sentia: confusão, indiferença e choque.

E as pessoas. Se eu começar a descrever as pessoas presentes, terei dificuldades em parar de escrever. A Biologia e a Geografia podem colocar a origem do Homem em África, o nosso imaginário cultural pode ver no continente africano uma terra mística de primitivismo selvagem, mas é ali, ao longo da passarela, debaixo dos holofotes, à frente dos flashes e entre os espelhos, que é possível observar a expressão natural do Homem como um primata, um primo distante de chimpanzés, gorilas e orangotangos.

É provavelmente o lugar deste planeta com a maior concentração de purpurina por metro quadrado. Duvido se muitas daquelas pessoas tinham almas - ou já foram vendidas, ou estão a gritar desesperadas numa caverna recôndita dentro dos seus corpos. O Diabo aparece em todo lado, mas especialmente nos pequenos detalhes. Aquilo que se vê não é atenção ou zelo. É obsessão na sua forma mais pura. Eu consigo ver todas aquelas pessoas a passarem horas à frente de espelhos, cercados por montanhas de roupas, à procura de uma combinação milagrosa de compatibilidade estética. As escolhas não foram feitas com o objectivo de cativar, impressionar ou atrair. Elas foram feitas com a intenção clara de subjugar, intimidar e desprezar.

Os olhos são descritos como janelas para a alma, espelhos que reflectem as nossas intenções verdadeiras, mas aqui eles reflectem julgamento impiedoso. Os olhos perscrutam a sala em movimento horizontas (identificação do alvo) e em movimentos verticais (julgamento do alvo). O estatuto, as castas, as reputações – tudo aquilo que os sistemas sociopolíticos tentam anular têm aqui a sua expressão máxima. Entradas separadas para Pessoas Muito Importantes. Famosas chegam atrasados e são simplesmente transportados para início da fila. A hierarquia de lugares é real – quem se senta aonde, em que fila, ao lado de quem.

Eu dei por mim a sentir medo de cantos escuros e corredores vazios. Tudo parecia indicar que, dadas certas circunstâncias, alguém esfaquear-me-ia nas costas e abandonaria o meu corpo no beco das traseiras, apenas porque sim. Desconfiei de todos – os fotógrafos, os empregados de mesa, os seguranças, a socialite milenar de óculos escuros, os estudantes de moda vestidos com roupas ainda mais implausíveis do que aquelas pavoneadas na passarela, as mulheres ocupadas e sérias que escreviam mensagem nos telemóveis com a violência repetitiva de martelos pneumáticos.

Quando finalmente saí do recinto, percebi que o meu esfíncter tinha estado contraído durante todo aquele tempo. A minha respiração estava rasa. Tudo no meu corpo indicava que eu tinha acabado de passar por um evento potencialmente mortal. No quotidiano as pessoas tentam esconder as suas emoções verdadeiras e esforçam-se para reprimir qualquer instinto de julgamento. Mas ali o julgamento é realizado à descarada, com o conforto natural de turistas alemães numa praia nudista e com a intrepidez indiferente de uma prostituta a ler a TV Guia sentada numa cadeira de praia na berma da Via Norte enquanto espera por clientes. Neste país, que adora viver como um depravado hipócrita às escuras, isso é maravilhoso. Perturbador, mas maravilhoso. Pena que essa maravilha esteja tão apaixonada pela sua própria mediocridade. Mas posso dizer: mal posso esperar pelo próximo ano. Desta vez hei-de levar o meu chapéu de safari e os meus binóculos.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

A Retórica Bovina da Palha


“(Os governantes) são todos uns ignorantes e idiotas” – Mário Soares

É uma paisagem típica do Verão alentejano. Os arbustos secos sobre o solo árido. As planícies ocupadas por campos de milho. As casas isoladas no cimo dos montes. Os batalhões de sobreiros e os pelotões de oliveiras. Mas eles não estão sozinhos. Ela também está lá. A palha. Empilhada no reboque que é puxado por um tractor vagaroso. Atirada ao ar por crianças e espalhada pelo vento. Enrolada em fardos redondos e paralelepipédicos. Mastigada pelas bocas ruminantes do gado feliz. É exactamente ali que ela deve estar. É ali que ela pertence.

Abra-se um jornal, leia-se uma revista e veja-se um programa televisivo. Observe-se o parlamento, os noticiários, os fóruns de opinião e os debates políticos. Depois de estarmos devidamente apetrechados com um fato de protecção química e um tubo de oxigénio, leia-se as caixas de comentários. Não sei como é que ela chegou ali, mas sei que ela – a palha – migrou do seu tradicional posto agrícola para as bocas dos nossos agentes culturais, sociais e políticos, onde se instalou sem quaisquer intenções de sair no futuro. Brevemente, se nada se fizer, passará a dispor de estatuto de dialecto oficial.

Essa palha, depois de navegar pelo sistema digestivo da humanidade, passando pelo intestino grosso da cidadania e pelo recto da consciência social, origina o produto final da retórica humana – uma mistela podre, malcheirosa e desprovida de nutrientes. Uma espécie de epidemia assolou esta nação e causou uma regressão evolutiva que nos relegou para criaturas que comunicam através de chavões, grunhos e clichés.

Generaliza-se impunemente sobre os desejos íntimos das “pessoas”. Fazem-se interpretações míticas sobre o “futuro da nação”. Propõe-se, com uma seriedade cómica de académico a apresentar o resultado de décadas de investigação, que a solução está na “estratégia”. Decreta-se que aquilo que é necessário é “esperança”. Promete-se “mudança” pela bilionésima vez e, nós, como esposas submissas que atribuem as nódoas negras causadas pelos punhos do marido aos degraus das escadas, aceitamos tudo. Depois, numa bipolaridade promíscua, recebemos estas palavras vazias como declarações eternas de amor, e acreditamos cegamente quando nos dizem que a culpa não é nossa, que a culpa é “deles”, dos outros, dos maus, “daqueles que nos governam”, dos “mercados”, da “austeridade”.

Aceitamos a retórica e contentamo-nos com o alívio das piadinhas de costume. Os trocadilhos são produzidos com a eficiência monstruosa de uma fábrica chinesa. Qualquer coisa serve - utiliza-se a palavra “irrevogável” como arma de arremesso, chama-se isto de “piegas” e aquilo de “neoliberal”, reduzem-se os “submarinos” a argumentos desesperados e, quando tudo falha, pronuncia-se a sigla mágica – “PPP” – que garante a vitória em qualquer discussão, e permite que o arguente se deleite enquanto a união soprada do lábio inferior e superior produz a repetição triunfante do som da letra “p”.

No “Prós e Contras” observam-se debates que transformam as conversas bêbadas e inflamadas no tasco duvidoso da esquina na apologia de Sócrates. Os dois candidatos à liderança do único partido da oposição afirmaram, numa corrida entre uma tartaruga e uma tartaruga coxa, perante os olhos incrédulos de metade do país (aqueles que não tinham entrado em coma), que a solução para crise é o crescimento económico e que a solução para criar crescimento económico é fazer com que a economia cresça. Este fenómeno acontece repetidamente, e em nenhuma ocasião ocorreu aos jornalistas presentes nas proximidades questionar este exercício carnavalesco de lógica da batata. Expressões como “reindustrialização”, “qualificação”, "cadeias de valor" e “aumento de riqueza” são pronunciadas, e os cavaleiros da verdade, os paladinos da democracia, os guerreiros da cidadania dão-se por satisfeitos, crentes que, graças aos seus esforços altruístas, a liberdade abrilesca do povo continuará protegida dos abusos do poder corrupto.

No fundo do buraco, o cenário é ainda mais deprimente. Nas entrevistas conduzidas depois das partidas de futebol, os jogadores falam. Foi um jogo difícil, fomos prejudicados pela arbitragem, entramos bem na segunda parte, entramos mal na primeira parte, soubemos sofrer, merecíamos a vitória, lutamos pelo empate, o resultado é justo, o resultado é exagerado, o segundo cartão amarelo era desnecessário, foi penálti, não era fora-de-jogo, temos que trabalhar, o importante é a equipa, já estamos a pensar no próximo jogo, graças a Deus, graças ao apoio dos adeptos, é assim o futebol, às vezes perdemos, às vezes ganhamos, boa noite. O problema não está na repetição semanal das declarações nas quais jogadores de futebol vomitam a mesma massa amorfa de betão discursivo. O problema é que os canais de televisão insistem em realizar estas entrevistas e os espectadores insistem em assisti-las.

Não nego. O choque inicial é fútil e interesseiro: estas pessoas recebem mesmo dinheiro por isto? Mas depois, como alguém que prestou atenção às aulas de Formação Cívica, o choque transforma-se em genuína preocupação social. Enquanto o Putin continuar em Donetsk e o vírus da Ébola continuar no sovaco africano, é aqui que reside o núcleo da “crise de valores” da civilização ocidental (da qual fazemos parte, aos Domingos e feriados). Na evocação de banalidades. Na celebração do irrelevante. Na dramatização do inevitável. Na constatação do óbvio. Na institucionalização da linguagem. Na cauterização do significado. Na evisceração da complexidade. Na espiritualização do politicamente correcto. Estes fenómenos não são novos, mas agora, graças à difusão sifilítica nos “meios de comunicação” e nas “redes sociais”, o seu impacto é exponencialmente maior. Mas não nos preocupemos em demasia. Não pensemos. Afinal de contas, hoje em dia, quem é que tem tempo para tal coisa?

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Águas Passadas


"A maioria dos homens persegue o prazer com tanta impetuosidade que passa por ele sem vê-lo." - Soren Kierkegaard

Quão difícil era a vida. O silêncio imposto por fantasmas. A inexistência de cuidados médicos. A ameaça distante, mas presente, da fome. A frieza humana que era um pré-requisito para viver. Era a ditadura - esse horror tão básico e tão comum que é incompreensível para as almas da minha geração privilegiada. A minha mãe jura que o meu avô já foi um homem soturno e agressivo, e eu, confrontado com a amabilidade desarmante que o define nos dias de hoje, tenho dificuldades em acreditar, mas enquanto caminho sozinho pela casa vazia dos meus avós maternos, vejo os sinais desse passado.

As portas grossas, pesadas e ruidosas da casa possuem três fechaduras e duas travas de ferro. As fechaduras comportam chaves maiores do que as minhas mãos. O movimento rotativo das chaves abana toda a estrutura da porta à medida que o intrincado mecanismo de linguetas encerra a casa com o resguardo preventivo de um castelo medieval à espera das tochas e dos engaços de uma multidão enlouquecida. Na antiga sala de estar os sinais multiplicam-se. Nas fotografias a preto-e-branco de familiares mortos – de tuberculose, de desgosto, em acidentes de trabalho, de cirrose, na guerra, por motivos desconhecidos – não se observa um sorriso. A base metálica do ferro de engomar era aquecida por brasas cuja incandescência deixaram cicatrizes na ponta dos dedos da minha mãe. A lamparina a azeite que era a única fonte de luz numa casa onde viviam seis pessoas. Um pequeno armário expõe com frieza museológica os pertences íntimos do meu bisavô – um relógio de bolso (que ainda funciona), um garrafinha minúscula com água-de-colónia (que ainda perfuma) um canivete enferrujado (que não abre) e um par de óculos (com apenas uma lente).

Ando pelo corredor escuro que percorre a sala, a cozinha e os quartos. Toda a casa acumula em colecções dispersas os objectos dessa vida agreste: atiçador de brasas, canetas de tinta permanente, cartões-postal das colónias, gravuras religiosas e souvenires daqueles que fugiam para a França. Sou obrigado a desviar a minha cabeça para não magoar as pequenas andorinhas brancas de porcelana suspensas no ar. No final da tarde, sem os óculos, olho para elas, para o seu movimento delicado que dança em ciranda com o vento e com as cortinas, e imagino-as vivas, a voar em órbitas singelas. Entro nos quartos, agora vazios, e vejo as camas que ainda hoje são arrumadas com lençóis limpos todas as semanas. Sou obrigado a baixar novamente a cabeça. As molduras das portas são baixas, como eram as pessoas que ali dormiam.

Agora, no presente, olho à minha volta, para as caras que povoam a mesa da sala de jantar na casa de uma amiga. Conversa-se, pela quarta ou pela vigésima vez, sobre os méritos e os deméritos do novo iPhone. Sei o que quero dizer: não vejo nenhum melhoramento significativo entre o Nokia 3310 de 2002 e o iPhone 6 de 2014. Ambos são usados exactamente com o mesmo fim – comunicar através de palavras (e para assegurar as mães de que continuamos vivos e bem alimentados). O mundo não mudou entre um teclado com botões e um ecrã táctil. Mas nada faço; calo-me e ouço.

A experiência passada ensinou-me que estas intervenções são mal recebidas (até mesmo agora, relendo aquelas palavras, reprovo a minha pretensiosidade nostálgica), mas não consigo evitar que elas surjam na minha cabeça. Eu sou o que sou e não há nada a fazer. Não consigo evitá-lo - odiar aquela conversa, odiar os móveis da IKEA onde nos sentamos, odiar o apresentador eufórico que promete dinheiro na televisão ligada (para fazer ruído de fundo, não é?) durante o jantar. Não consigo evitar tudo isto e não consigo deixar de me interrogar: a vida do passado era difícil e por vezes cruel, mas pelo menos não duvidavam se aquilo que chamamos de cultura e inovação não são apenas fogos-de-artifício que explodem para nos distrair enquanto mãos nos separam de tudo que faz de nós humanos. E o pior vem depois. O pior é pensar - ao deparar-me com a última ronda de publicação de fotos privadas de celebridades - que estamos a abandonar, muito entusiasmados, o maravilhoso primitivismo animal, para abraçarmos, como uma turba alucinada, os enfeites brilhantes da masturbação digital.

Sei que a defesa do passado é uma causa perdida. A nostalgia não passa de uma ilusão delicodoce. Sei que não possuo argumentos fortes. O uso básico da razão é suficiente para retirar a todas as palavras que escrevi a massa que as sustenta. Este é um caso emotivo. Eu penso o que penso, sinto o que sinto e sou o que sou. A razão diz-me que caminhamos em direcção a um ideal incerto de progresso e que, como tudo, este tem benefícios e malefícios. Mas não consigo deixar de sentir que estamos a caminhar de mãos dadas em direcção a um precipício. Com medo das emoções, contentamo-nos com o alívio proporcionado por sensações fugazes. Aterrorizados pelas possibilidades do silêncio, aceitamos um entorpecimento gratuito. O mundo já não gira: ele pisca, vibra e recebe wi-fi. Mas a verdade continua a mesma: hoje, como há dez mil anos, quando abandonamos o significado, a razão engole tudo. Os antigos sofriam e não sorriam nas fotos, mas pelo menos, durante o jantar, não tinham que testemunhar isto: os sorrisos ensaiados das caras obcecadas em gravar obsessivamente o quotidiano em fotos e vídeos. Desprezamos o passado. Idolatramos o futuro. O presente desaparece, perdido algures entre os terabytes dos discos rígidos, pens e clouds.