terça-feira, 23 de maio de 2017

Porque é que gostamos tanto dos vilões? - Um estudo socio-psico-antropológico

Confesso aqui um fascínio por Edmund Kemper. O leitor estará neste momento justificadamente confuso: ou não sabe quem é Edmund Kemper, ou sabe que é um assassino em série, violador, canibal, matricida, necrófilo, que matou os avós paternos com quinze anos e que está desde os vinte e cinco encarcerado num hospital prisional na Califórnia. Creio que é portanto adequado, para evitar juízos precipitados, o devido enquadramento do encanto que tenho pela personalidade deste homem sádico e perverso.
Kemper espalhou o terror nos campus universitários de Santa Cruz, na Califórnia, durante um período de onze meses no início dos anos 70. Tinha um método e um alvo predilecto: raparigas adolescentes a quem oferecia boleia para posteriormente violar, matar, mutilar e comer, pela ordem que lhe agradasse mais dessa vez. Para cumprir o seu desígnio, tinha duas características que faziam dele, durante os seus meses de matança, um assassino particularmente sinistro. Primeiro, tinha a dimensão intelectual: um Q.I. estimado em 145 e a frieza e naturalidade que só a verdadeira sociopatia consegue proporcionar permitiam-lhe ser educado, bem falante, e manipular as jovens inocentes com facilidade. A isto aliava a dimensão física: com mais de dois metros e cento e catorze quilos, subjugava muito facilmente as suas vítimas, mesmo às duas de cada vez.
Já havia sido preso ainda criança, por assassinar os avós paternos com quem vivia. Considerado posteriormente reabilitado e seguro para viver em sociedade, foi libertado com os vinte e um da maioridade. Cerca de dois anos mais tarde, começou a matança, que terminou com a morte da própria mãe, numa história com contornos mórbidos. Kemper fala frequentemente da progenitora como um grande factor de destabilização emocional. Descreve-a como abusadora e alcoólica. Diz que muitos dos seus crimes foram prepertados na sequência de violências discussões com ela. Acabou por matá-la com um golpe de martelo. Degolou-a, decapitou-a e, com a cabeça, divertiu-se num sem número de actos desprezíveis. De seguida, entregou-se às autoridades. Acusado de oito assassinatos, o Big Ed admitiu culpa em todos e pediu que o condenassem à morte. Estando a pena de morte suspensa no estado da Califórnia em 1973, foi condenado a prisão prepétua em novembro.
As histórias dos seus crimes são tenebrosas e perturbadoras. Desde a sua detenção, o seu caso tem sido amplamente explorado, por psicanalistas, jornalistas, investigadores e curiosos. Kemper não se coibe: fala da sua onda de crimes como quem explica a um amigo como é que se faz uma omolete. Não transparece arrependimento nem vaidade, não carrega remorso nem orgulho. É uma deslumbrante crueza e indiferença, mas não se trata de um alheamento total das desprezíveis circunstâncias dos seus actos. Ele sabe que o que fez é mau, reconhece a sua perversão, está tranquilo e conformado com a sua vida enjaulado. É considerado um recluso exemplar: ajuda na burocracia, é talentoso na cerâmica e um ávido leitor. Tem, aliás, um respeitável emprego: providencia a sua voz para livros auditivos feitos para invisuais, tendo já feito vários milhares de horas de gravações de centenas de obras.
As suas entrevistas na prisão são deliciosas. Somos surpreendidos por uma natural simpatia. Figura de bibliotecário, bigode e óculos característicos da década de 70, Kemper é eloquente, educado, persuasivo e coerente. Um grande contador de histórias, é homilético e entretém. Damos por nós, horrorizados, a querer beber uma cerveja com tão vil criatura.
Para quem permanece com a opinião de que é inadmissível admirar uma personalidade moralmente tão distorcida, alerto que eu me limito apenas a fazer a transferência para a vida real de um fenómeno que desde sempre existe na nossa relação com a ficção. Há uma tendência, mais ou menos tabu, para preferirmos os heróis em criança e os vilões em adulto. A quebra da ilusão de que existe um mundo a preto e branco faz-nos encarar vilões como cinzentos escuros, e simpatizar frequentemente com eles, seja pela sua personalidade ou pelas suas motivações. É certo que no ecrã não há quem sofra realmente. Mas usar o caso da crueldade dos vilões fictícios para estudar a vida real tem uma vantagem: dá-nos uma percepção ainda maior do contraste entre a personalidade imaculada do herói e o perfil complexo e profundo do sociopata. Este perfil seduz-nos e eu, que me confesso leigo em sociologia, psicologia e antropologia, mas que sou amante da especulação intelectual, tentarei explicar porquê.

Para entender o encanto que temos pelos vilões, é preciso, antes de mais, procurar perceber porque é que o mal nos é tão atraente. Incluo-nos a todos, não apenas os fãs de Edmund Kemper.
A primeira teoria óbvia é a do fruto proibido. De facto, a tendência generalizada para não agir de acordo com o código moral em vigor é um acto de rebeldia perante a visão do humano perfeito. O bem é louvado, o mal é cobiçado. Damos palmadas nas costas às boas pessoas, mas invejamos algo muito conveniente nas más: a sua liberdade de escolha.
Os vilões têm o seu próprio código de conduta, e nós condenamos-os por isso, quando subsconscientemente admiramos mais essa independência. Somos James Deens por natureza. Não gostamos de regras e vivemos algemados por elas. Tens de estar em casa a horas, não toques nisso, o banco fecha às três, está vermelho, usa preservativo, não calques a relva, deixa sair antes de entrar, sopra ao balão, não te sentes na estátua, o fumo passivo mata, tens de tirar senha, tudo o que sabe bem faz mal. A capacidade de lidar com estas frustrações é directamente proporcional à empatia e consideração que temos por nós e pelos outros. Quando despimos o ser humano dessa consideração, descobrimos um sádico sociopata. A sociopatia não se caracteriza pela preferência por ficar em casa quando nos convidam para sair ou pelo charme de pôr imagens no facebook a dar a entender que odeio pessoas. Sociopatas não têm facebook. São anormalmente individualistas, socialmente impiedosos e moralmente vazios. E livres. Todos queremos ser livres.
Outra parte do apelo moderno do mal é a associação de bondade e virtude com coisas entediantes como ser abstémio, casto e crédulo. Mark Twain, em Letters from the Earth, fala da contradição entre esta promessa religiosa de felicidade eterna e o prazer provocado pelo pecado: "(...) the human being's heaven has been thought out and constructed upon an absolute definite plan (...) this plan is, that it shall contain, in labored detail, each and every imaginable thing that is repulsive to a man, and not a single thing he likes." Muito se fala da importância bíblica na consolidação do código moral ocidental. Ao misturar o conceito de prazer com o de pecado, esta visão reprime-nos e incrimina-nos sem critério. Enche-nos de culpas e responsabilidades por qualquer tipo de prazer. Olhe-se para os pecados capitais: todos eles são condições indissociáveis do ser humano, e à volta das quais o mundo moderno foi construído. Confunde-se luxúria com promiscuidade, ira com descontrolo, gula com sofreguidão, inveja com ódio, preguiça com inutilidade, avareza com egocentrismo, vaidade com arrogância. Isto cria uma salgalhada moral que deixa a nossa perspectiva do que é o verdadeiro mal um pouco turva. Quando experimentamos qualquer um dos sentimentos acima citados, somos apenas humanos com desejos e ambições, não incorrigíveis pecadores.
Falemos de gajas, que é consabido ficarem malucas com um bom vilão, ou um vilão bom. Percebe-se porquê: são aventureiros, confiantes, excitantes, badass e garantem a fuga ao tédio do quotidiano conjugal.
Num mundo sem equilibrio e forças nem karma justiceiro, o mal é frequentemente poder. É saber o que se quer e consegui-lo. Biologicamente, é fácil explicar a atracção das mulheres por homens poderosos. Esse poder não é necessariamente financeiro ou profissional. É estar ao volante da vida, é a capacidade de controlo. Este interessante estudo da Universidade de Liverpool reuniu mais de duas mil mulheres para confirmar esta propensão: "Women really are drawn to men with the dark, brooding looks that suggest they are mad, bad or dangerous to know (...). But it is not the love of danger that attracts them but a primitive desire to find a mate who appears mentally strong, confident and physically attractive in order to have healthier children. Such men have facial features that display the 'Dark Triad' of personality traits - machiavellianism, narcissism and psychopathy".

Estas considerações pseudo-científicas que aqui expus ajudam a explicar uma parte da atração. Ainda assim, existem motivos externos que exploram esse fascínio. Personagens fictícias, que na vida real seriam considerados párias tóxicos, pervertidos e impiedosos, são adolados como figuras de culto. Perante isto, podemos colocar a questão: foi a construção de personagens complexas e estimulantes para representar a maldade responsável pela nossa atracção; ou é a nossa predisposição para respeitar secretamente a pitoresca mentalidade de um sociopata que nos atrai?
Efectivamente, para estudar este fenómeno temos, antes de mais, de encarar o facto de que os vilões em filmes e séries têm personalidades moldadas para serem apelativas, charmosas e humanas.
Na ficção, sobretudo na moderna, os vilões são talentosos, perspicazes, maduros e engraçados. As motivações para os seus actos cruéis são frequentemente explicadas de forma a provocar uma reacção empática e compreensiva. Tony Soprano é mafioso, adúltero, corrupto e assassino, mas abre as feridas da sua alma a uma psiquiatra. Tyler Durden, de Fight Club, é um sacana lunático a quem temos de perdoar tudo. Moriarti, arqui-inimigo de Sherlock Holmes, tem com ele uma deliciosa relação de yin-yangDarth Vader é o pináculo do lado negro da Força e é de tal forma humanizado que é pai do protagonista. E até figuras nas quais não pensamos como vilões, como Dexter ou Dr. House, são na verdade pessoas com condutas morais no mínimo controversas. Mas são de tal forma prodigiosos, independentes, audazes e cativantes que não podemos senão admirar.
Alguns personagens que ficaram para a história do cinema de terror (estou em pensar em Ghostface dos filmes Scream, Leatherface de Texas Chainsaw Massacre, Michael Myers do Halloween ou Jason Voorhees de Friday the 13th) não entram nesta categoria. São figuras ocultas e esotéricas. Não nos revemos na humanidade do seu lado negro; são antes a personificação dos nossos medos, da nossa vulnerabilidade, da nossa cobardia. São perigosos e temidos, mas não admirados.
É preciso também referir que na televisão, além da construção da personagem na própria narrativa, há que valorizar sempre o trabalho do actor que consegue transmitir a sociopatia com trejeitos, inteligência e um transbordante carisma. Heath Ledger criou um Joker tão niilista e anarquista, quanto pragmático e brilhante. Anthony Hopkins foi um Hannibal Lector intimidante, mas arguto e clarividente; e Christian Bale criou, em American Psycho, um serial killer charmoso, mulherengo e metrossexual.
Esta elaboração intrincada do perfil sedutor do antiherói foi decisivo para associarmos o lado obscuro da moral com inteligência, bom gosto, compostura e sofisticação.  N'A Laranja Mecânica, Alex Delarge, enquanto era "curado" pela famosa maquineta que prende as pálpebras, está sobretudo preocupado por estarem a passar Beethoven durante a tortura; é obcecado pelo compositor, ouve diaramente as suas peças e não quer associar algo tão belo a tamanho sofrimento. Verbal Kint, em The Usual Suspects, tem esta tirada genial para explicar o seu low profile: "The greatest trick the devil ever pulled was convincing the world he didn't exist". Por falar em Kevin Spacey, é ele quem interpreta o antagonista de Seven, metódico e sombrio, e, já agora, também faz de Frankie Underwood em House of Cards, o verdadeiro vilão do século XXI: maquiavélico, burocrático, manipulador e ambicioso. John Kramer, o Jigsaw, é um engenheiro civil que constrói jogos sádicos altamente criativos. Stringer Bell, em The Wire, está a tirar um curso de economia e protagoniza fantásticas cenas em que aplica os conceitos económicos ao seu negócio de tráfico. E nunca poderia referir The Wire sem falar de Omar, um homossexual cheio de pinta que assalta traficantes e que com um simples assobio põe toda a gente da rua a fugir.
A demoníaca atracção por personagens perniciosos extrapola, no entanto, o requinte deste tipo de maldade. A crueldade pura e grotesca também nos seduz com o seu canto hediondo. Temos uma atracção visceral pelo horror: abrandamos quando passamos por um acidente e nada melhor para chamar a atenção do espectador do que avisar que as imagens que se seguem podem ferir a nossa susceptibilidade.
Ramsey Bolton, de Game of Thrones, encarna este nosso lado sombrio e reprimido. Destituído de excrúpulos e dúvidas, retira o mais libertino prazer do sofrimento alheio. Ramsey é apenas o personagem mais degenerado e malévolo, mas a enxurrada de orgias, tripas e sangue estende-se naturalmente a toda a história. Se provas faltassem de que o horror atrai, eis que a série mais popular da década tem decapitações, línguas arrancadas, sexo incestuoso, pénis decepados, patricídios na retrete, cabeças a explodir, atentados e crianças queimadas vivas. Dêem-nos disto e nós comemos como piranhas esfomeadas. Esta indesculpável atracção pelos piores dos crimes não se limita ao seu enquadramento num universo fantasioso, mágico e utópico: desafio alguém a desmentir que passou todas as temporadas de Prison Break a torcer pela sobrevivência de um pedófilo assassino.

Preferirmos o vilão não faz de nós piores pessoas. É apenas uma confrontação com, e natural fascínio por, personificações do lado negro que nos sussura tentatações e que fazemos de tudo para ocultar. Se a isto juntarmos o trabalho da ficção de maquilhar essa dimensão depravada da humanidade, associando-a a um conjunto de qualidades, é perfeitamente plausível uma maior indentificação de humanos imperfeitos como nós com o vilão indigno e incorrecto do que com o herói virtuoso e impoluto.
Se elaborei todo este trabalho académico de modo a justificar a minha admiração pela mente deturpada de Edmund Kemper? Provavelmente. Fui bem sucedido? Provavelmente não. Mas é reconfortante saber que não estou sozinho nisto.

domingo, 14 de maio de 2017

Salva a dor

Antes de mais, há questões oportunas a colocar: será Malato a apresentar o Eurovisão Lisboa 2018? E se sim, onde se esconderá então, envergonhado, este nosso empertigado patriotismo?
Teria Salvador ganho sem o man bun, o olhar impoluto e os esdrúxulos trejeitos de artista, que o meu pai sagazmente classificou de canguru epilético?
Se Salvador soltar o cabelo, este fica para trás ou transformará a sua cara na de um lhasa apso?
Deverei considerar-me homofóbico por sentir repulsa pelos dois gregos a esfregarem-se molhados e em tronco nu?
Questões que aqui planto para germinarem.
De resto, já tudo se disse ad nauseam sobre o Salvador. Há quem não tenha espaço no peito para tamanho fascínio. Há quem genuinamente não goste da música, uma opinião tão legítima como o seu contrário. Há indiferença, há invenja, há vaidade. Há quem critique a parolice do orgulho lusitano e há quem diga que é tudo política. A irmã do Markl até escreveu um texto a criticar comentários anti-Salvador nas redes sociais. Coitada, perdida vinte e quatro horas online, não pode comentar o mundo que não seja o digitado.
Aqui deixo a minha humilde e irrelevante consideração: estou-me positivamente cagando para o festival. Tenho uma paixão vulcânica pela arte de criar música, mas tenho um gosto diferente. E é precisamente esse contraste que me fez, a mim e a muitos, apreciar particularmente a vitória do Salvador. Dificilmente se poderá ser anti-Festival da Canção e anti-Salvador, a não ser que se seja anti-música, algo que me parece humanamente impossível. Ao contrário do Salvador, não tenho problemas com fogos de artifício nem efeitos especiais. Algumas das minhas bandas favoritas dão concertos extravagantes e pirotécnicos. O problema é mesmo a música.
Perdido num turbilhão de batidas cefaleicas, efeitos ofuscantes, arte pós-ultra-neo moderna, melodias contrafeitas e apresentações exóticas, Salvador fez jus ao nome. Foi despretensioso e afável. Apresentou a graciosa composição da irmã como um feitiço, acompanhado por um notável arranjo de cordas. Foi um oásis e mereceu cada um dos aplausos.
Satisfaz-me portanto, sobretudo, ter ganho a melhor música. A única música, arrisco. Outros motivos de interesse houve, ainda que escassos: os moldavos levaram um divertido riff de saxofone, houve primatas e cavalos e houve o inebriante decote de Kasia Mós, a cantora polaca cujo nome decorei por pura curiosidade empírica. Amar pelos dois é simplesmente demasiado bonita para não se destacar como Newton numa aula de educação especial. Se tívessemos levado o Agir e ele tivesse ganho, eu e muita gente teríamos ignorado o fenómeno. Porque há várias formas de declarar o amor: pode-se declamar brilhante poesia (Ela parte-me o pescoço/ Que ela tem aquele corpo que eu digo/ What the fuck and so what, so what, so what/ Eu não tenho culpa que ela tenha aquele butt). Ou pode fazer-se arte. Ganhou um artista, que por acaso é português. (Aqui uma palavra para Luísa Sobral, a nossa Diana Krall, que já merecia consagração).
A meu ver, estes festejos nacionalistas não são criticáveis por si só. É condenável que muitos dos que festejam a vitória da verdadeira música ouçam diaramente o tipo de música plastificada que dizem ter sido derrotada. Essa hipocrisia é verdadeira e deve ser referida. Mas o orgulho na vitória do Salvador, mesmo que de um ponto de vista meramente nacionalista e não musical, é legítimo e saúda-se. E explico porquê.
Abel Xavier inaugurou a extraordinária decomposição morfológica que titula este texto, com a já lendária tirada do treina-a-dor. Etimologicamente, errou: felizmente o elevador não aleija nada e infelizmente um aspirador não é antidepressivo. Mas neste caso esta formulação é pertinente. São estas alegrias que nos salvam o patriotismo, que anda frequentemente perdido entre o derrotismo, o triste fado e a falta de dinheiro. Celebrar esta vitória é revigorante, ainda que seja num contexto que em geral seja ignorado.
Do Europeu disse-se o mesmo: gente que nunca liga a futebol saiu à rua em euforia desmedida. Tenho dificuldades em perceber o problema disto. Fenómenos como o Salvador e o Éder, ao contrário do que às vezes se diz, não são fugazes e insignificantes exaltações da pátria. São episódios prodigiosos de experiência colectiva. É uma memória que vamos sempre partilhar. É uma vaidade comunitária, uma glória comum. Querer ver mal nisso é ser contra o próprio conceito de nação.
Mais do que isso: Éder e Salvador são o protótipo da desembaraçante criatividade lusitana. Seja a criatividade de imaginar um remate do meio da rua, seja a criativiade de pôr o mundo a trautear em português, seja a criatividade de inventar uma desculpa para entregar o relatório para a semana, a criatividade de desenrascar um aceitável jantar com pouco mais que uma lata de atum e uma mini, ou a criatividade de falar portunhol. Fosse o Salvador nortenho e, em vez de mandar um abraço para o nosso país na actuação final, teria gritado o "Portugal, caralho!" que merece ecoar pela Europa fora.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

O Monstro É Foda

Fui assistir ao concerto de ontem do Caetano Veloso no Coliseu com motivações diversas. Em primeiro lugar, trata-se de um ícone da música popular brasileira. Assistir a Caetano é sentir o Brasil mais genuíno e mais poético. Um monstro, como lhe chamou Teresa Cristina, cantora carioca que o acompanhou neste concerto.
Como segundo motivo, a minha mãe ama o Caetano Veloso mais do que ama o meu pai e queria companhia, e para se poder ter bons pais é preciso ser um bom filho.
E em terceiro, e principalmente, porque no último concerto a que foi sozinha ao Coliseu, para ver Maria Bethânia, irmã de Caetano, a minha mãe começou a protestar com o homem do som, que estava a tapar a sua visão da cantora com os seus movimentos de dança, e que com a confusão toda acabou por deixar o som do microfone da Bethânia ir abaixo, para grande desagrado desta que o manifestou a todo o público, e todo este evento terá provavelmente acabado no despedimento do pobre homem do som que estava apenas a curtir. Pareceu-me bem, portanto, acompanhá-la desta vez.
A primeira parte do concerto foi então a cargo de Teresa Cristina, que teve apenas como companhia um guitarrista acústico, Carlinhos Sete Cordas de sua graça. Um homem negro, de alma aberta, cativou com o seu imutável sorriso, um sorriso que transpirava o Brasil. Era assim que Carmen Miranda dançava, era assim que Ronaldinho jogava. Um grande talento, daqueles que sentem o que tocam e tocam o que sentem, mas que daí não conseguem retirar senão júbilo. Teresa embalou-nos no samba e na bossa nova, entre a sua voz elegante, expressiva e carismática e os solos de Carlinhos.
Por fim, Teresa apresentou-nos Caetano de forma comovida, manifestou a sua adulação, referiu a influência do seu ídolo, chamou-lhe "artista fenomenal", "generoso", "elegante" e não se coibiu de sussurrar "dizem que ele é foda", que é uma expressão pode significar muitas coisas, e eu revejo-me numa delas, mas não foi dessa que o público se riu.
Caetano entrou, sentou-se e contou-nos a sua história. Com os efeitos de luz celeste e fumos brancos, Caetano estava etéreo. Foi nesse firmamento que se cantou a depressão,
Todo o dia é o mesmo dia/A vida é tão tacanha/Nada novo sob o sol/Tem que se esconder no escuro/Quem na luz se banha/Por debaixo do lençol, 
o amor,
Luz das acácias/ Você é mãe do sol/ A sua coisa é toda tão certa/ Beleza esperta/ Você me deixa a rua deserta/ Quando atravessa/ E não olha pra trás
o resignado coração partido,
Mas não tem revolta não/ Eu só quero que você se encontre/ Saudade até que é bom/ É melhor que caminhar vazio/ A esperança é um dom/ Que eu tenho em mim, eu tenho sim,
tudo com um cativante tom optimista de felicidade inevitável. Há beleza nas coisas más.
Cantou os tempos da ditadura militar no idos anos 60. Cantou Tropicália, a magnum opus do movimento tropicalista, uma transformação total no cenário cultural brasileiro da altura. Cantou Tigresa, que teve como musa a actriz Sónia Braga, a Gabriela da novela, que parece que depois lhe partiu o coração na vida real. Pôs todas as mulheres e alguns maridos envergonhados a cantar o Leãozinho.
Era só ele, intimista, a mostrar-nos o que ele é, o que ele foi nos últimos cinquenta anos. Só ele e o seu violão, que faz tanto parte de si como os seus próprios dedos. Talento nada tem a ver com complexidade. Acabaram a juntar-se os três, Carlinhos, Caetano e Teresa, num final memorável.
Depois de três encores de aplausos infindáveis, saí a trautear. Senti-me a deixar uma sauna musical, feliz e purificado. Em casa, dou por mim de violão no regaço, a mão esquerda com o acorde em sétima, a mão direita a tentar imitar o ritmo da bossa nova, e desejando possuir o sotaque com açúcar que me leve ao sítio onde Caetano consegue ir. Vou continuar a tentar, porque nesse sítio está tudo certo. Tudo certo como dois e dois são cinco.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Não há cravos na Venezuela

25 de Abril, ano após ano, agradecemos a liberdade a quem odeia a liberdade. O PCP sobrevive de uma herança que reclama para si. Apropriou-se de tal forma desses valores que parecem confundir-se. Por isso mesmo pode sair impune de defender regimes que atacam os valores que embandeiram. O exemplo norte-coreano é clássico e caricatural. Sabemos agora que estão sozinhos na aprovação do regime opressor de Maduro na Venezuela, enquanto celebram os seus patrióticos feitos na nossa liberdade.
Certo é que PSD e CDS também ousaram ser contra o voto de condenação pela prisão dos activistas angolanos. Podemos levantar a questão: é mais legítimo compactuar com regimes criminosos e déspotas por interesse político ou económico do que por ideologia? Maquiavel acena-me que sim do século XVI. Eu vou apenas afirmar que, se a ideologia são valores, esta desaparece sem eles.
Apresentam-nos o populismo como um perigo para a democracia, e consequentemente para a liberdade. Chavez era um paradigmático populista. O seu herdeiro vai seguindo esse populismo, não na versão carismática de proximidade e identificação com o povo, mas ao culpar a elite económica mundial e os agentes capitalistas pelo falhanço económico e social do seu governo.
Chamemos-lhe pós-verdade, narrativas, perspectivas. Por exemplo, colocada a questão "a que se deve a escassez de alimentos e medicamentos na Venezuela?", podemos olhar para o regime como vítima da descida do preço do petróleo, responsável por 96% da economia venezuelana. Se o fizermos, deixamo-nos levar pela teoria das ingerências externas e verborreia anti-capitalista. Embarcar nisto é ignorar um pequeno facto: sem capitalismo, o petróleo é água suja que só serve para munir de gasolina os pirómanos.
Podemos, como alternativa, observar que a obsessão com os ataques à propriedade privada levou a constantes expropriações estatais. Podemos culpar a corrupção que assola o sistema público venezuelano. As chamadas missões bolivarianas de Chavez fizeram aumentar exponencialmente a dívida pública. E podemos olhar para o crescendo de criminalidade como consequência de um estado de impotência, de desespero. Como sobrevivência.
De cravo na lapela, comunistas dão-nos lições de liberdade. De quão gratos devemos estar pelos seus antepassados. Mandam todos respeitar a democracia e a separação de poderes. Na Venezuela, o duelo entre regime e oposição tranformou-se numa guerra entre o poder judicial e o legislativo. Aqui que se lixe Montesquieu.
Ah, e um pormenor que é importante de referir: Maduro é louco como uma cabra. Não é ideologicamente louco, é mesmo patológico. Nem sou eu que o digo, é o presidente do Uruguai. Não é caso para menos. Maduro viu a cara do Chavez numas obras. Sugeriu uma medida de poupança de energia que consiste nas mulheres deixarem de usar secador de cabelo, dizendo até que ficam melhor quando só passam os dedos pelo cabelo e deixam secar ao natural. Cria milícias de civis. Sou um optimista, mas se razões políticas e humanas não são suficientes para condenar este homem, insanidade poderia ser.
Festeja-se a revolução, proliferam elogios às liberdades conquistadas, aos direitos adquiridos, aos chamados valores de Abril, que, ironicamente, a esquerda trata como sua propriedade privada. Hoje, 26, o sol raiou com silêncio. Chavez não foi Salazar, Maduro não é Américo Thomaz. E a luta de um povo sem voz e sem condições básicas de vida, munido de pedras e paus, contra um regime socialista asfixiante não tem a mesma honra de um grupo de militares. A hipocrisia é quem mais ordena.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Macron: o triunfo do extremismo centrista

Até Mark Twain ficaria surpreendido com o exagero com que foi anunciada a morte do centro político. Todos ouvimos a história: a crise financeira, a austeridade, a perversão corrupta da classe política, os choques culturais e sociais da globalização e o terrorismo jihadista fizeram a sociedade civil questionar o sistema partidário e a fazer uso das suas armas democráticas para romper com o mainstream.
É pertinente não confundir a falência dos partidos tradicionais de centro-esquerda e centro-direita com a extremização do eleitorado. Desde logo porque não é só o centro que se está a esbater, são antes todas as organizações partidárias. Trump candidatou-se pelo Partido Republicano mas, na prática, foi um independente que se marimbou para o reaganismo e que insultou tudo e todos no seu partido, formando assim internamente mais opositores do que apoiantes. Macron foi a votos suportado por uma plataforma imberbe na paisagem política gaulesa. A população não está só a castigar o centro político, está a punir toda a oligarquia partidária.
O centro-direita começou a cair com a identificação com a austeridade, que pela Europa fora causou graves fissuras entre países do norte e do sul, entre ricos e pobres, entre culturas de trabalho protestantes e católicas, entre europeístas e eurocépticos. O centro-esquerda, perdido nesta polarização, não soube encontrar o seu equilíbrio entre compactuar com o projecto europeu e embarcar na retórica anti-capital, estratégia que só iria favorecer os partidos mais à esquerda, que ao menos são originais e não socialistas dos trezentos.
Dito isto, observemos Emmanuel Macron, um homem tão previsível quanto incongruente. Ministro de Holland, prontificou-se a despir a bata ensaguentada com que aplicou a sua cirurgia à economia francesa, para que não fosse identificado com a lei à qual deu nome. Não se compromete em questões essenciais, já foi chamado de "zebra política", de "pisca-pisca", a representação paradigmática do leito de morte das ideologias. Ver este senhor lembra-me diaramente este sketch. Está, como Zé Diogo Quintela com uma máscara de ski, "mesmo, mesmo, mesmo ali no meiinho".
Porque é que Macron ganhou esta primeira volta, ainda que por escassa margem? Dantes falava-se em partidos catch-all, ou aquilo a que os americanos chamam de big tent: plataformas partidárias que aglomerassem em si diferentes pontos de vista. Com a crise partidária, surgiram os candidatos catch-all. Esses candidatos podem ser populistas que, através de um diagnóstico (a cura é outra história) mais ou menos certeiro, falam ao eleitorado perdido e esquecido. Ou podem, por outro lado, ser Macron: nenhum dos sectores se identifica especialmente com o seu incógnito programa político. Mas cada vez mais são valores, e não políticas, que vão a votos.
Em termos muito gerais, teremos na segunda volta em França uma contenda semelhante ao que se passou nas eleições norte-americanas. Há diferenças relevantes, desde logo logísticas, com diferentes sistemas eleitorais, mas também diferentes cenários demográficos, problemas sociais distintos e heranças políticas díspares. E, para não falhar à justeza, Hillary não é tão vazia como Emmanuel, Emmanuel não é tão politicamente inábil como Hillary, Marine não é tão burra como Donald e Donald não é tão convicto como Marine.
Irão, porém, defrontar-se duas visões antagónicas do mundo: uma que defende a ordem liberal ocidental, as instituições internacionais, abraça o esbatamento de fronteiras e a manutenção da elite política e financeira internacional; e uma outra, de contra-poder, que se assume como nacionalista, xenófoba, autoritária, proteccionista e que vê com melhores olhos uma aproximação ao Kremlin do que a manutenção das instituições e políticas actuais.
Não é só De Gaulle que se inquieta na sua campa, porque não é apenas a República Francesa que está em cheque. Está Monet, Adenauer e Schuman. Está uma visão homogénea da cultura europeia, de solidariedade e progresso, liberal e social-democrata, que nos regeu nos últimos 60 anos.
A culpa não está, repito, na polarização do eleitorado. Isso é uma consequência, nunca uma causa. O falhanço do sistema mundial está na classe política e financeira que a representou. Refastelada à sombra da ilusão da prosperidade, e assolada por um crise moral e identitária, refugiou-se na demagogia onde, já se sabe, o populismo xenófobo joga em casa. Conseguiram que os defeitos do sistema democrático voltassem à tona, tirando-nos o chão em que todos nos suportávamos. Trump é clinicamente oligofrénico, Le Pen é fascismo embelezado por filtros do instagram. Mas estávamos a precisar desta chapada populista. Lamento muito, mas é bem feita.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Os 100 Craques Que Mais Me Marcaram (#79 - 60)

79 - Paul Pogba - O mais jovem atleta nesta lista terá de carregar o pesado ónus de ser também o mais caro jogador da história de qualquer desporto. A verdade é que algo convenceu o United a pagar um prémio do euromilhões por ele, e não foram os penteados picarescos ou os fatos extravagantes. Pogba é um tesouro que aparece uma vez a cada geração. É difícil não imaginar a inevitabilidade do seu sucesso na função de médio ofensivo na Premier League, onde poderá explorar livremente o seu ilusionismo, atleticismo e violento pontapé. Se Mourinho quiser, terá nele um jogador que decide campeonatos.

78 - Alexis Sanchéz - Se querem demonstrar a um jogador ofensivo a importância da mobilidade sem bola, o mais recomendável é mostrar-lhe vídeos das movimentações de Alexis no Barcelona. Era activo, astuto e incansável na procura do espaço. Mudou-se para o Londres, onde se pôde assumir mais responsabilidades de construção e desequilíbrio. Lesto, habilidoso, criativo e um grande finalizador, já leva duas Copas Américas consecutivas pelo seu Chile, selecção na qual é a estrela mais cintilante.

77 - Alessandro Del Piero - Este senhor era já considerado uma lenda da bola quando a Juventus desceu de divisão à custa do escândalo calcio caos. O capitão permaneceu na Vecchia Signora e deu o exemplo: 20 golos na Série B e, na época seguinte, no regresso à sua casa Série A, foi eleito o melhor jogador da liga aos 33 anos de idade. Acabou a carreira com 346 golos. Tinha a respeitabilidade de um grande capitão e a probidade de um grande homem. Em suma: um verdadeiro catedrático do jogo.

76 - Radamel Falcao - O nome é em homenagem ao clássico jogador brasileiro, mas o epíteto de ave de rapina assenta-lhe como uma luva. Um esfomeado predador, com apurado instinto e saltos inexequíveis, deu ao F.C. Porto a Liga Europa com um golo na final, contabilizando 17 no total do torneio, tentos que fazem dele o melhor marcador de qualquer competição europeia nos registos. No Atlético, foi a estrela em mais uma conquista da Liga Europa, à qual somou uma Supertaça Europeia na qual foi soberano. É o melhor marcador da história da selecção colombiana. Aquela longa lesão estragou-lhe a carreira e pôs o mundo a pensar onde teria chegado a Colômbia com ele em 2014, onde o seu substituto Teo mostrou que a sua habilidade mais rara é a de conseguir falhar o que um humano normal não conseguiria.

75 - Petr Cech - A conquista da Liga dos Campeões em 2012 por parte do Chelsea é um milagre difícil de entender. A explicação é complexa e compreende várias variáveis, mas é possível isolar a mais relevante: o guarda-redes checo foi insuperável. Segurou Barcelona e Bayern com paradas atrás de paradas, confiante e inabalável. Com a chegada da coqueluche Courtois, foi despachado para o clube rival, onde continua a mostrar todas as semanas o seu tremendo valor. O famigerado acidente, que atirou Hilário temporariamente para a baliza, deu a Cech aquele célebre capacete, uma das imagens mais icónicas do futebol que, juntamente com a sua qualidade, ficará na memória colectiva dos diletantes.

74 - Edgar Davids - Por falar em objectos marcantes no futebol, que dizer dos óculos futuristas do pitbull? Obrigado a usá-los graças a um glaucoma, em campo não lhe faltava visão. Irrequieto e agitado, juntava uma combatividade anormal com o engenho do seu refinado pé esquerdo. Quando tivermos definitivas certezas sobre a idade de Renato Sanches, podemos dizer com certezas quem é que se inspirou no jogo de quem.

73 - Juan Román Riquelme - Quando se fala na extinção actual dos chamados números 10 clássicos, suspira-se por este feiticeiro. Na Europa, não triunfou no Barcelona, mas ainda emanou o seu perfume ao serviço do Villarreal, onde teve a oportunidade de brilhar na Champions. Uma das estrelas da constelação albi-celeste, tomou a decisão de voltar prematuramente para a sua Argentina natal, onde se sentia verdadeiramente em casa, deixando o futebol europeu órfão da requintada destreza com que jogava e fazia jogar.

72 - Robert Lewandowski - Jürgen Klopp achou este caprichado ponta-de-lança, que andava a marcar alguns golitos no modesto campeonato polaco. Depois de uma primeira época pouco prolífera, tornou-se um dos avançados mais impiedosos do futebol europeu. Possante, guarnecido de técnica apreciável e um bloco de gelo quando o estádio se levanta à espera do seu inevitável golo, precisa de deixar crescer o cabelo para ficar definitivamente igual a um dos melhores personagens de Sopranos, também ele um frio e cruel assassino.

71 - Kun Aguero - Aguenta todas as cargas graças ao baixo centro de gravidade e pujança física. Um perigo à solta, com movimentações inteligentes e com remates que entram todos a provocar os postes. Deu o primeiro título ao City em 44 anos com o mítico golo no último minuto do campeonato. Com os constantes problemas físicos e uma média sobre-humana de golos por minuto quando está disponível, podemos apenas especular sobre o seu impacto se passasse mais tempo em campo do que na enfermaria.

70 - Iker Casillas - Antes de vir para o Dragão coleccionar likes no insta e frangos em campo, Iker assumiu-se como um ídolo de guardiões em todo o mundo. É o espanhol mais internacional de sempre, e conquistou tudo o que havia para conquistar sucessivas vezes. Aguçados reflexos, voz de comando e uma notável humildade e discrição elevaram-no a um dos símbolos do século no futebol mundial. Por isto tudo e por ter trazido uma das mulheres mais bonitas do mundo para a cidade mais bonita do mundo, chegou ao Dragão com créditos para gastar. O problema é que já os começa a esgotar.

69 - Clarence Seedorf - Aglomerava todas os ingredientes de craque: sapiência, uma anormal capacidade atlética, lucidez e um canhão na chuteira. Um homem respeitável, honesto e inteligente, assenta-lhe como uma luva a alcunha de Il Professore, que ganhou em Itália por ter tirado o mestrado em administração. As Ligas dos Campeões eram a suas sete quintas: venceu a competição por quatro vezes, ao serviço de três clubes distintos. One of the greats.


68 - Mats Hummels - Se Hummels tivesse jogado nos anos 70, seria ele conhecido como kaiser. É o central mais confortável com bola. Apoia o ataque com serenidade, elegância e impressionantes noções tácticas e colectivas. Defensivamente, antecipa jogadas com uma impecável leitura de jogo. Forma actualmente com Boateng uma deliciosa dupla que funciona como um autêntico duplo pivô construtor.

67 - Edwin Van der Sar - Na já referida defesa do Man. United que logrou catorze jogos consecutivos em branco na liga mais competitiva do mundo, estava atrás de Ferdinand e Vidic este gigante holandês. Dois metros de sobriedade, reacções instintivas e autoridade. Coleccionou uma vitrina de prémios colectivos e individuais, tendo vencido a sua última Premier League na juventude das suas quarenta primaveras. Terminou a carreira no topo e com um lugar reservado no Olimpo.

66 - Ángel Di María - Este habilidoso trinca-espinhas evoluiu de um espalha-brasas para um faz-tudo. No Real Madrid, tornou-se num incansável todo-o-terreno, abnegado e com um pé esquerdo com a precisão de um William Tell. Partiu a loiça na final de Lisboa. O meio-campo do Real Madrid é luxuoso, mas nunca conseguiram arranjar verdadeiro substituto para a dinâmica que imprimia, a atacar e a defender. Por agora, vai-se divertindo a arrasar a Liga Francesa com o seu ilimitado talento.

65 - Antonio Cassano - Mais conhecido pela faceta bad boy, pelas incontáveis parceiras sexuais, por constrangedoras declarações homofóbicas e por andar à porrada com o treinador, este filho-da-mãe ingrato nasceu com dois dos pés mais valiosos que a genética já concebeu. Tinha com a bola uma relação de estima e afinidade, e descobria passes onde o comum dos mortais não veria opções. Vejam este vídeo (cujo título faz uma arrojada questão) e perguntar-me-ão como não está no top 10. Antonio, o futebol nunca te irá perdoar a displicência.

64 - Frank Lampard - Poucos médios terão existido com a sua capacidade de chegada às zonas de finalização. Pela inteligência e colocação de remate, e por gostar mais de penalties que um caloiro num jantar de curso, tornou-se no médio com mais golos em todos os registos da Premier League e o melhor marcador da história do seu Chelsea. Além disso, parece que chamar-lhe génio pode ser aplicável para além do plano futebolístico.

63 - Nemanja Vidic - Para o melhor trio defensivo do século ficar completo, falta falar deste guarda-costas. Vidic era de betão, um segurança mordaz na marcação e insuperável no salto. Bravo, impiedoso e sólido como titânio. Foi escolhido como melhor jogador da Premier League por duas vezes, uma das quais na famosa época dos 14 clean sheets consecutivos. Se Donald Trump o colocasse na fronteira, não precisava de dizer ao México para pagar nada.


62 - Thiago Silva - Gosto de gabar os olheiros do meu clube por terem descoberto este diamante no humilde Duque de Caxias. Não triunfou na Invicta por causa de uma tuberculose. Curou-se no frio da Rússia e, em Itália, ganhou o estatuto de um dos melhores centrais do planeta e, porventura, o mais completo. Rápido, talentoso, com impecável presença de espírito e sempre infalível nas abordagens. Se dúvidas houvesse sobre a sua influência, tentem adivinhar quem esteve suspenso no famigerado 1-7, deixando o eixo defensivo entregue aos angustiados e angustiantes David Luiz e Dante.

61 - David Beckham - Se o leitor quiser pesquisar imagens de Beckham no Google, com tamanha nudez dará por si a roçar a fronteira da pornografia. David é um homem muito bonito e casou com a terceira Spice Girl mais jeitosa (desculpem, mas a Emma e a Geri sempre me encheram mais as medidas). Mas cabe-nos a nós, homens heterossexuais apaixonados pela bola, relembrar o jogador que não corria, parecia nem suar, mas que oferecia golos cantados a quilómetros de distância, produzia na bola curvas mais perigosas do que as da Christina Hendrix e que, quando queria acertar no buraco, era melhor que Tiger Woods.

60 - Wesley Sneijder - Foi usurpado de uma Bola d'Ouro que era sua por direito, quando em 2010 carregou o Inter à conquista da Champions e a selecção holandesa até à final do Mundial. Uma mina de criatividade, hábil com qualquer pé, autor de projéteis balísticos imparáveis e, do alto do seu metro e setenta, vislumbrava tudo o que os outros não viam. Desterrou-se criminalmente cedo, para o longínquo campeonato turco, longe dos palcos que continuou a merecer pisar.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Os 100 Craques Que Mais Me Marcaram (#100 - 80)

Ah, futebol... A dimensão religiosa dos ateus, a mais barata das drogas, o mundo onde uns centímetros fazem a diferença entre um lugar na história e um lugar no Candal.
Em tantos anos como apreciador deste nobre ofício, homens houve que se elevaram sobre os comuns mortais e me fizeram perder anos de vida só para os ver brilhar. Propus-me, por desafio pessoal, a realizar a desconfortável tarefa de elaborar uma lista de cem artistas, que compilasse aqueles cujo futebol mais entusiasmou.
No decorrer dos próximos dias, irei apresentar esta lista, dividida por cinco partes. Não houve metodologia científica envolvida neste processo. Esta compilação é resultado da contemplação do futebol enquanto arte. Arte com toda a acessão desse termo, aos níveis da criatividade e da emoção inerente.
A ordenação foi o misto possível entre o prazer que retirei do seu jogo e a sua marca no futebol como um todo. É tão arbitrária que eu próprio dou por mim a contestá-la. A hierarquia é, portanto, secundária e um puro exercício de organização. Sem mais delongas, eis os artistas:

100 - Mario Gómez - El Torero nasceu com um dote raro: o de saber sempre onde se colocar. A zona ideal, onde a bola poderia e deveria cair, parecia iluminar-se para ele, pela aparente facilidade com que surgia no espaço. Brincava com o risco do fora-de-jogo como um equilibrista e, com a oportunidade, era letal com qualquer parte legal do corpo. Campeão no Estugarda e no Bayern, onde somou golos bissemanais. Ah, e os dois tentos à Holanda no Euro 2012 são para ver e rever; pela estética e como recordação de que a técnica de Gómez, entretanto enferrujada por consecutivas lesões, não costumava ser assim tão rudimentar.

99 - Shunsuke Nakamura - Os seus livres eram drones tão precisos que se eles os enviasse para a Síria, os americanos não teriam mais de se preocupar com a possibilidade de atingir hospitais pediátricos. As curvas que desferia desafiavam as leis do movimento de Isaac Newton . Um ídolo no Celtic, quando esta equipa clássica frequentava mais amiúde os grandes palcos europeus. O melhor jogador asiático do meu tempo de vida.


98 - Diego Forlán - Depois de uma passagem desastrosa por Manchester, afirmou-se em Espanha como um dos grandes avançados a jogar na Europa, ao serviço de Villareal e Atlético. Móvel, engenhoso, tecnicamente munido e proprietário de um pontapé aprimorado, consolidou definitivamente o seu lugar na elite do futebol no Mundial 2010, onde foi eleito melhor jogador da competição após carregar o Uruguai até às meias-finais.

97 - Mário Jardel - O drogado que, aquando da eleição como deputado estadual no Brasil, se identificou como sendo politicamente de direita por ser "um cara direito demais", foi em tempos um sanguinário assassino em série. O seu tempo de salto e precisão de cabeçadas eram de tal forma marcantes que deram a Carlos Tê a analogia lírica perfeita . Fez com os cruzamentos de Drulovic e as movimentações de João Vieira Pinto magníficos casamentos. Na época seguinte à sua saída das Antas, o desconhecido Pena apresentava-se no F.C. Porto para ocupar o seu lugar na equipa, afirmando "Meu nome é Pena, não Jardel". Que Pena não ser Jardel.


96 - Jerôme Boateng - Esta positiva impressão é recente e gradual. Inicialmente, era um pino. Um daqueles polivalentes à John O'Shea, que joga mal em todo o lado. Depois, comecei a ver um central muito rápido e vigoroso. Desde a última época, promete mudar o paradigma do defesa central, ao construir jogo de forma tão constante como um médio criativo. Os seus passes longos são tão imaginativos e precisos que é difícil acreditar que se trata do mesmo matacão que tremia sempre que a redondinha lhe era enderaçada.


95 - Michael Carrick - Poucos médios terão sido tão injustamente desvalorizados. Além de uma capacidade anormal de passe e leitura de jogo, a sua inteligência posicional elevam-no acima dos demais, de uma forma tão relevante quanto subtil. Não se convençam por mim: esta laudatória lista de citações sobre Carrick por parte de algumas das lendas do desporto transmite a sua relevância melhor do que eu alguma vez poderia.

94 - Diego Godín - Se grande parte do mérito atribuído ao sucesso recente do Atlético está na liderança de Simeone, é preciso não esquecer o seu alter ego no relvado. Godín é a personificação da impetuosidade, concentração, competitividade e compostura táctica que caracteriza o batalhão que é este balneário. Na última jornada da época 2013/2014, marcou no Camp Nou o golo que deu o título ao Atlético, um prémio justíssimo para o grupo e, especialmente, para o comandante dessa armada.

93 - David Trezeguet - Este radioso sorriso do Rei David nos festejos é uma das mais vivas memórias futebolísticas da minha infância. O mais conhecido destes sorrisos foi na final do Euro 2000, quando havia golos a dar taças automáticas. Época após época, na Série A e na Champions, os golos caíam em catarata. Conhecia cada palmo da área como se fosse a sua sala de estar. Era ágil, inteligente e fulminante.



92 - Gheorge Hagi - Junho de 2000, eu tinha 9 anos e estava num casamento. Numa pequena sala, os convidados masculinos acumularam-se à volta de uma pequeníssima televisão para assistir ao Portugal - Roménia, do Europeu. Por entre cabeças e mau contacto na antena, distinguia-se nos romenos alguém que tratava a bola com tal subtileza e sabedoria que passei a acreditar em amor à primeira vista. Era o Maradona dos Balcãs, já com avançados 36 anos, a dar lições de futebol a jovens aficionados como eu. Um irrefutado craque.

91 - Fabio Cannavaro - Há um qualquer fenómeno místico em terras transalpinas que fomenta o surgimento dos defesas mais correctos e eficientes. Quando já não havia Baresi ou Maldini, Cannavaro conduziu a defesa italiana que foi a base da vitória no Mundial 2006. A sua eleição como melhor do mundo esse ano foi tudo menos unânime, mas ninguém atreve atacar a influência e qualidade deste central, que pouco mais alto era do que Moutinho.


90 - Juan Cuadrado - Considerado um flop no Chelsea, e sendo actualmente a terceira opção para o lugar de ala direito na Juventus (atrás de Dani Alves e do limitado Liechsteiner), limito-me a ter de remeter os leitores para o texto que redigi em 2014 de forma a justificar a inclusão deste tremendo talento.




89 - Jaap Stam - Se o leitor acha que o seu chefe é assustador, nunca teve de ser marcado homem a homem por este titã. Intimidava com o seu tamanho e a sua postura de liderança. Um Adamastor que não permitia dobrar o seu cabo. Eleito melhor defesa da Liga dos Campeões por duas vezes consecutivas e presença assídua na selecção holandesa, é um dos últimos da sua espécie.


88 - Henrik Larsson - A minha mãe sabe o quão temível era este sueco, já que teve de lavar a minha roupa interior depois da final da Taça UEFA de 2003. Duas golpadas certeiras, e no último lance do jogo, até Pedro Emanuel desesperou por ter cedido canto, consciente de que poderia ter dado a Larsson um pitéu perfeito, mortífero que era de cabeça. Acabou a carreira com 471 golos, entre equipas suecas, Celtic, United, Barça e selecção. Quando era golo e ele estava em campo, não era preciso ir ver quem marcou.



87 - Lúcio - Um chefão à antiga. Feio, mandão e insuperável na impulsão. Depois de uma carreira na Alemanha, onde ao serviço do Leverküsen foi melhor jogador da Bundesliga em 2002 (ano em que foi campeão mundial com Scolari e Anderson Polga) e posteriormente tricampeão pelo Bayern, ainda foi para o Inter limpar a Liga dos Campeões. Aliava a dureza a uma impressionante velocidade, rigor e personalidade.


86 - Hulk - Chegou em dia de apresentação, com nome de super-herói, um promissor arcaboiço, mas o Q.I. futebolístico de um Sancidino com trissomia. Cresceu e, com ele, cresceu o meu Porto. Balas de canhão, arrancadas devastadoras, demolia de tal forma nos contactos físicos que os árbitros desconfiavam da sua legalidade. Depois dos jogos contra o Benfica na época de Villas Boas, se Givanildo me fizesse uma serenata propondo matrimónio, sentir-me-ia impelido a aceitar.



85 - David Alaba - Quando Guardiola diz que um jogador é um Deus, temos de prestar atenção. A dimensão de polivalência que a sua carreira assumiu não é circunstancial. Alaba é adaptável e mutável porque tem todas as características de que um jogador precisa em qualquer posição e para qualquer função táctica. E um pé esquerdo que leva a bola a cair onde ele bem entender.



84 - J. S. Verón - Quem cresceu a ver a Argentina do início do século, tem de se lembrar deste careca que era tão raçudo quanto talentoso. Brilhou na Série A e na Premier League, onde encantava pela força, stamina e visão de jogo. Quando se lembrava de puxar a culatra, o guarda-redes só poderia esperar que a bola não lhe quebrasse o nariz.



83 - Cesc Fábregas - No Arsenal, tornou-se um dos jogadores mais talentosos e respeitados do planeta. Um médio com uma formidável classe e discernimento. Depois de vários defesos cheios de novelas, regressou à Catalunha, onde inevitavelmente encaixou como a última peça do puzzle. Foi uma ajuda predominante na Espanha que conquistou tudo. A sua argúcia táctica até lhe permitiu jogar a falso 9. O seu actual momento de forma não apaga tudo o que construiu.



82 - Michael Ballack - Até o Fenómeno o lixar na final, o Mundial 2002 foi seu. Um médio de elite tremendamente completo, fisicamente robusto e com invejável engenho. Sabia tudo sobre o jogo e fartou-se de marcar golos pelo seu potente remate e noções do espaço. E não se controlava quando a UEFA impunha a sua lei sobre a lei da justiça desportiva.



81 - Oliver Kahn - Um dos jogadores mais carismáticos da história e provavelmente aquele com pior feitio. Acumulou episódios de raiva dignos de um pittbull maltratado. Era um espectáculo dentro do espectáculo. Por trás desta problemática personalidade, estava um dos melhores de sempre a calçar as luvas. Grande, intimidante, marcar-lhe um golo era penosa tarefa. Ganhou tudo o que havia para ganhar ao serviço do seu Bayern e foi eleito melhor jogador do Mundial 2002, apesar do frango concedido ao Fenómeno na final.


80 - Rio Ferdinand - Em 2008/2009, o Man. United bateu um dos mais impressionantes recordes defensivos do jogo, conseguindo catorze jogos consecutivos sem sofrer golos na EPL. Ferdinand formava então com Vidic aquela que foi a mais rija e inabalável dupla de centrais que presenciei. Nas duas transferências que protagonizou, para Leeds e depois para o Man. United, bateu o recorde do defesa mais caro do futebol. Um impressionante atleta, sólido, carismático e com uma tremenda influência em todo o grupo.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Ditadura das canetas

Ontem tive o prazer de me estrear no exercício do meu direito de voto enquanto sócio portista.
Quando entrei e me dirigi à minha mesa de voto, uma menina bonita recolheu o meu cartão, ditou o meu número de sócio ao colega e entregou-me o boletim. Acto contínuo, sorriu para mim e fez o alerta:
"Se quiser votar na lista candidata, pode colocar já o boletim na urna".
É uma nuance deliciosa destas eleições: os estatutos do F.C. Porto não prevêem votos em branco. Tudo isto porque o boletim não consiste na tradicional cruzinha. O boletim mais não é do que os nomes das pessoas que constituem o elenco da direcção. A opção do eleitor consiste apenas em colocar a lista imaculada na urna ou tornar o voto nulo, acrescentado ao boletim alguma inscrição.
De resto, habituado que estou à prática democrática, imaginava tudo aquilo feito com maior rigor, secretismo e profissionalismo. Nunca havendo votado em eleições desportivas, deduzi pelas institucionais que teria um local devidamente resguardado que acomodasse o meu direito ao secretismo, uma caneta presa a um cordel e a privacidade para tirar uma selfie com o boletim de forma a mostrar no facebook como cumpri o meu dever. Nada: apenas uma descuidada zona de mesas avulsas e o balcão de um bar, destinados aos judas manifestantes que não votam acriticamente.
Ora, quando me dirijo para a tal zona, constato que não tenho caneta. Aquilo que numa situação normal (assumindo como normalidade não haver canetas para ceder em local de eleições) me obrigaria a votar em branco, nestas circunstâncias obrigar-me-ia a atribuir o voto a Pinto da Costa. Tudo se iluminou: quem não leva caneta é obrigado a votar em Pinto da Costa. Foi aí que me apercebi deste maquiavélico plano, que consiste na segregação dos sócios contestatários. Quem vota na lista encabeçada por Pinto da Costa, não tem de fazer absolutamente mais nada senão depositar na urna o boletim no momento em que este lhe é entregue. Quem pretende não fazer parte do rebanho, tem a vida mais dificultada. Desde logo, terá de se dirigir a uma zona específica para traidores. Alinhados num balcão, de caneta em punho, como se estivessem a apostar na Placard, a rasurar nomes e redigir protestos. Dado o carácter despótico deste sufrágio, concluí logicamente que estaríamos a ser filmados, identificados e posteriormente a nossa traição será justamente punida. De resto, olhei imediatamente à volta à procura de locais de onde pudesse emanar gás que pusesse logo fim a esta manada. Não vi nada, mas joguei pelo seguro e coloquei a camisola por cima do nariz e da boca.
Pedi uma caneta emprestada ao senhor ao meu lado. Disse-me que com certeza, que só queria terminar de escrever algo. "As suas últimas palavras", pensei. Não sei se seriam, mas foram-no certamente para mim: quando me virei para lhe devolver a caneta, depois de rasurar os nomes da lista única, o senhor já lá não estava. Vou guardá-la como símbolo da resistência contra o autoritarismo, o sistema corrompido e a falta de esferográficas.
Quando se começou a especular acerca do F.C. Porto pós-Pinto da Costa, o plano parecia óbvio. Com uma estrutura oleada e consistente, o presidente iria apontar um príncipe herdeiro (provavelmente Antero), que daria continuidade ao projecto e asseguraria uma estável transição para uma nova era, alicerçada nos mesmos valores de sucesso e competência. As últimas épocas vieram assombrar a naturalidade desta rota, colocando os adeptos a questionar se será de todo benéfico prosseguir este caminho, já que o sucesso é miragem e a competência muito incerta.
Tudo isto porque houve uma clara inversão das prioridades: o sucesso desportivo não era só o objectivo do clube. Era a causa e a consequência de todo o trabalho da máquina. Não era só a estrutura que levava às vitórias, era o sucesso que alimentava a estrutura. Vitórias dão dinheiro, através de prémios e vendas, dão prestígio, dão adeptos satisfeitos, ambiente saudável, condições para a prolongação do êxito. Priorizar os ganhos pessoais não foi apenas um erro do ponto de vista da irresponsabilidade e do desprezo dos adeptos que os alimentam. Foi um plano mal pensado do ponto de vista pessoal. Não dá para continuar a sugar de uma vaca seca.
Enunciar os erros dos últimos anos seria redundante, porque estes não só são óbvios, como já foram inúmeras vezes repetidas por outros portistas frustrados. A escolha de um treinador inexperiente para liderar um longo e ambicioso projecto foi de uma atroz incompetência. Vinha com promessas de torres de vigilância, de aposta nos jovens e da adopção um tiki taka à portuguesa. O tiki taka de Lopetegui tinha idiossincrasias peculiares: era um tiki taka em que os centrais faziam passes longos, os jogadores sem bola não se movimentavam e a percentagem de posse de bola se sobrepunha a uma progressão sustentada no terreno. Estas características expunham desde logo uma evidência: ou Lopetegui não percebia as próprias ideias, ou as suas ideias eram péssimas. Confirmou-se que ambas eram verdade. As individualidades que constituíam o plantel da última época ajudaram a disfarçar ligeiramente os defeitos patentes. Quando uma equipa em crise e sem ideias de jogo tem de resolver as situações com Varelas, Osvaldos, Maxis, Ángels, Cissokhos, Suks e Chidozies, tudo fica demasiado exposto. E com essa exposição veio à tona a falta de planeamento nos bastidores, mas sobretudo da tal priorização de negócios ocultos e compadrio.
Nestas eleições, não foi (apenas) a popularidade de Pinto da Costa que foi a votos. O estatuto e respeito do presidente são inquestionáveis, de tal forma que foi por trás dessa respeitabilidade que muitas trafulhices foram sendo encobertas. A gratidão a Pinto da Costa é eterna e imutável, assim como permanecerá inalterada a reverência à sua liderança. O que foi a votos foi sobretudo a manutenção do status quo. E foram pesadas questões éticas e morais que se sobrepuseram, porventura, até às desportivas.
Pinto da Costa será sempre recordado como um dos melhores dirigentes da história do futebol mundial. Tem agora o seu derradeiro grande desafio: não deixar como última imagem um papel permissivo de fantoche mediador de negócios desportivamente ruinosos e de escudo protector de um grupo administrativo que se apropriou de uma estrutura virada para a vitória e a transformou num submundo de incompetência, jogos empresariais, lavagem de dinheiro e desculpas esfarrapadas. Se tudo se mantiver assim, não serão necessárias canetas para que Pinto da Costa saia pela inglória porta pequena, vítima de um nível de exigência e de uma fasquia que foi ele próprio a elevar.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Pai Nosso

Estou assombrado pelo espírito do Charlie que afinal ne sommes pas.
Estou perdido. Entre aqueles que não perceberam a piada ou aqueles que não a admitem. Entre os severamente ofendidos e os que ainda se estão a rir como se esta fosse a piada mais engraçada do mundo (nem sequer é original, o Bloco definitivamente não se lembrou dela, já foi mais do que usada em campanhas pró-homossexualidade).
"Não faz sentido a analogia". As palavras são de Manuel Barbosa, porta-voz da Conferência Episcopal. A incapacidade de decifrar piadas que recorrem a metáforas, ironia e outras figuras de estilo é amiúde um problema patológico, uma dislexia. Nada surpreendente: quer o senhor acredite realmente no seu pai espiritual, quer o faça por ser charlatão, terá com certeza uma doença. Ou é esquizofrénica ou é moral. "Penso que há um certo aproveitamento, num período em que na Igreja se está a viver um tempo forte de Quaresma, depois da Páscoa e o Ano de Misericórdia. Não sei se é coincidência ou se é propositado", lacrimeja Manuel Barbosa. Juntem a vossa gargalhada à minha.
O CDS também está chocado. De facto, não se faz: "utilizar imagens religiosas para alegadamente tirar um proveito político" é rasteiro. "Em política, como na vida, podemos discordar das ideias dos outros, mas não podemos ofender os sentimentos dos outros", chora Mota Soares. Baixem as armas: feriram o democrata-cristão. A dor na ferida católica começou a latejar, mas não pode ser assumida. Demagogia é o único analgésico. Não pode é ser hipócrita, caro Mota Soares. Não se esqueça que Passos Coelho, primeiro-ministro que o senhor serviu, é um conhecido ateu e decidiu encontrar a fé em plena campanha para as legislativas, quando disse não se separar da sua cruz. Até Ângelo Correia, seu pai político, que o conhece desde petiz, estranhou o repentino achar de tamanha fé e até ironizou. Ganhar votos através das crenças alheia é muito à lá política americana no século XX. Acusar o Bloco de fazer o inverso é muito pouco cristão. E se já se provou que a memória deste senhor é curta, relembre-se estas nojentas declarações deste mesmo senhor, de há onze anos: Mota Soares disse que vê "como absolutamente normal que as cerimónias oficiais incluam o benzer de uma ponte, de um edifício", já que (atenção, isto sim pode ferir susceptibilidades) "mesmo no Estado há espaço para o divino e é preciso não confundir laicidade com ateísmo".
Então há espaço para o divino na política ou não há espaço para o divino, caro democrata-cristão? Ofensivo não é haver uma inocente piada religiosa em campanha. Ofensivo é termos tido um ministro sem o alcance mental, democrático e de serviço público para entender que liberdade religiosa não é só para religiosos, é para ateus praticantes também. Que acha bem benzer pontes em cerimónias estatais, mas a pilinha casada, essa, só pode combinar com pipi, nem que seja o Estado a obrigar. A liberdade do contribuinte é importante, Sr. Mota Soares; mas sacudir a liberdade de expressão e a obrigação de laicidade do Estado para o lado, como meros inconvenientes, é meio caminho andado para o regresso de uma ditadura baseada em Fátima.
Na política portuguesa, nunca lutarei sempre do mesmo lado. A minha bússola política está sempre dividida entre a liberdade social do cidadão, defendida pelo Bloco, a liberdade do cidadão enquanto agente económico, defendida por...bem, absolutamente ninguém. Explorarei essa questão em segundas núpcias. Hoje, senti sobretudo que todas as partes descuraram um segmento importante da discussão. A questão dos paternalismos tem de ser debatida na sua plenitude e ofende-me que isso não esteja a ser feito. Porque eu tenho três pais: o meu progenitor de sangue; o pai de todos nós, que está no céu e que seja santificado o seu nome; e o Pai Natal, que há cinco anos me deu uma guitarra eléctrica e que por isso não gosto de o ver negligenciado.