sexta-feira, 4 de Abril de 2014

O Segredo


“So we beat on, boats against the current, borne back ceaselessly into the past.” – F. Scott Fitzgerald

Quando ouvi o anúncio do lançamento de mais uma versão cinematográfica do The Great Gatsby, eu já sabia a resposta. Não iria ver. Por diversas razões: uma questão de nojo, quando deparei-me com a sobre-estilização de Baz Luhrmann; uma questão de princípio, por ter preconceitos quase fundamentalistas sobre a adaptação fílmica de certas obras literárias; e uma questão de pragmatismo - não consigo entender como qualquer ser humano lê a frase final do romance, que exponho na epígrafe, e pensa que é possível capturar isso com uma câmara.

O escritor corre um risco sério com este tipo de frase: a hipótese da pretensiosidade. Corre-se o risco de se parecer moralista sem oferecer conteúdo palpável. Quando executado com destreza e cautela, o resultado final são os mandamentos universais da humanidade - frases apreciadas mesmo por aqueles que nunca abriram o livro de onde foram retiradas. Quando executado com arrogância e desleixo, o resultado final são obras de auto-ajuda e livros do Paulo Coelho. Mas, verdade seja dita, eu tenho uma fraqueza terrível por esse tipo de obra.

Não por achar o seu conteúdo particularmente relevante para a Angústia Humana, mas porque a sua visualização permite-me experienciar o tipo de ódio pulsante do qual eu necessito com o mesmo ímpeto que um arrumador de carros necessita de heroína. Todas essas obras afirmam possuírem a receita sagrada, a solução instantânea, o pó de perlimpimpim, a poção encantada e a panaceia universal. Para mim começou com “O Segredo”. Esta peça audaz afirmava que o pensamento positivo não era apenas um mantra motivacional. Era um fenómeno neurológico com resultados tangíveis. De acordo com os autores, um pensamento positivo emite uma frequência para o universo, e, se essa frequência for positiva, o universo corresponderá igualmente com frequências positivas.

Ou seja, se pensarmos num Ferrari vermelho na nossa garagem, em rios de dinheiro a correrem na nossa direcção e numa supermodelo estoniana na nossa cama, o universo acabará por providenciar esses desejos. Como é óbvio, a absurdidade desta asserção é tão evidente que a sua mera enunciação deveria acarretar pena de morte automática. Mas isso não evitou que “O Segredo” se transformasse num livro que vendeu vinte milhões de cópias e num documentário com receitas de sessenta e cinco milhões de dólares. Tudo isso com um certificado de recomendação da Oprah Winfrey, o mais próximo que o século XXI tem de um selo de aprovação da Santa Inquisição. Entre 2007 e 2011, “O Segredo” foi o livro mais vendido em Portugal.

No entanto, essa obra é uma aberração particularmente aberrante. A maioria das obras deste género possui apenas asserções inofensivas que não ofendem a mais humilde das inteligências. Mas existe um atributo comum entre todas estas obras que me parece fulcral: a importância de se saber o que se quer. Se o indivíduo tem esta informação, o resto passa a ser uma questão de perseverança. O meu problema é que eu não sei o quero, tampouco sei para onde quero ir. Qualquer que seja o desejo, a possibilidade ou o cenário, eu sou capaz de conceber mil razões positivas e mil objecções negativas. Na minha consciência não existe um debate frutífero sobre as valências e os riscos.

E a razão para esse combate mental interminável é que não possuo a capacidade de auto-ilusão. Aqueles que conseguem concretizar os seus sonhos devem necessariamente possuir a capacidade de, consciente ou inconscientemente, ignorar tudo aquilo que pode correr mal. E, como liricamente nos diz Fitzgerald, o passado é um colete-de-forças pesado. Por mais que a perseverança e o pensamento positivo ajudem, o verdadeiro triunfo surge apenas quando somos bem-sucedidos na tarefa hercúlea de nos iludirmos e esquecermos a vergonha dos erros do passado e, ao contrário do que muitos afirmam, não existe nenhum segredo para nisso.

quinta-feira, 27 de Março de 2014

As Faces de Cristo


“The greatest hazard of all, losing one’s self, can occur very quietly in the world, as if it were nothing at all. No other loss can occur so quietly; any other loss - an arm, a leg, five dollars, a wife, etc. - is sure to be noticed.” - Soren Kierkegaard

Durante a minha jornada pela Europa, eu visitei diversos museus importantes - o National Gallery em Londres, a Galeria Uffizi em Florença, o Museu do Vaticano, o Louvre em Paris, Rijksmuseum em Amesterdão. Nessa peregrinação maravilhosa eu tive diversas epifanias ligeiras sobre a natureza da existência, observei in loco os hábitos alimentares das diversas raças europeias e cheguei a uma conclusão muito importante: eu queria fazer aquilo para sempre.

A dádiva de viajar proporciona uma rara sensação de esperança eufórica que é impossível de ser recriada no quotidiano sedentário da humanidade neolítica. Existe uma liberdade indescritível em poder escolher rumos infinitos por este continente glorioso. A distância da tecnologia traz uma claridade mental que apenas pode ser descrita como um estado primitivo de paz nirvânica. A ansiedade ligeira que vive alojada no núcleo incandescente dos nossos cérebros - que eu nem sequer sabia que existia - desaparece, e traduz-se numa concretização inesperada da capacidade de viver no momento.

Uma multitude de atributos – vaidade, orgulho, ambição, raiva, inveja – desaparecem da balança mental, e o seu peso deixa de se fazer sentir na racionalização mental e na ponderação accional. O poder da viagem é tão grande que as minhas descrições desse fenómeno transformam-me num guru budista irritante que vê no asceticismo uma quimioterapia espiritual e que secretamente deseja que toda a humanidade fizesse cessar o sustento doentio do produto interno bruto. A flacidez das almofadas deixa de importar, a inutilidade do colchão deixa de irritar, a alimentação ganha uma dinâmica utilitária e deixamos de ser tão exigentes com a higiene de uma casa de banho.

Mas um aspecto recorrente que me pareceu peculiarmente interessante foi outro. Os museus expunham inúmeros quadros onde a figura proeminente era Jesus Cristo: o recém-nascido abençoado, o bebé nos braços da mãe, o adulto iluminado, o mártir crucificado, o homem morto, o ídolo ressuscitado. A tipologia que mais me impressionava era a representação de Jesus como um homem, virado para a frente, a olhar directamente na nossa direcção.

Em muitos quadros, o olhar era passivo e espectral, como se o homem soubesse que a sua permanência neste mundo não iria durar muito mais tempo. Em outros, ele parecia desgastado e severo, como um mineiro a descer no elevador da mina, que sabe que nada de bom o espera nas profundezas. Em casos raros, ele mostrava expressões faciais completamente ausentes da escala emocional humana, em que as suas características levavam-nos a crer que Jesus Cristo sabia de algo que nós nunca seríamos capazes de compreender. Mas o que todos aqueles quadros tinham em comum é que nenhum deles cedia à tentação de retratar Jesus Cristo como um idiota feliz retirado directamente da propaganda norte-coreana.

No entanto, nenhum daqueles quadros representa a verdade. Nenhum daqueles pintores, por mais talentosos que fossem, foi uma alma iluminada com acesso a um canal directo para o divino. As particularidades das obras, neste caso a face de Jesus Cristo, contam-nos mais sobre as intenções esperançosas do artista, do que sobre as intenções verdadeiras do filho de deus. No momento da criação aqueles olhos olhavam directamente para o pintor, que se via forçado a ver na tela branca um espelho indirecto. O resultado disso é que não se vislumbra uma réstia de compaixão naqueles olhos. Mas também não se vislumbra qualquer sinal de julgamento. O instinto do julgamento é uma ferramenta automática das tendências mais desprezíveis da consciência humana. É uma das bases primordiais dos nossos sistemas socioculturais. A negação desse instinto é uma das mensagens da estória cristã e um objectivo valoroso de todo um movimento artístico.

As figuras daqueles quadros não fazem brotar sentimentos de culpa, antes intensificam aquilo que o contemplador já sentia antes do confronto. E, infelizmente, na maior parte das ocasiões, essa intensificação incide sobre sentimentos negativos. Mas nesses quadros, Jesus não demonstrava o desapontamento paternal resultante de um julgamento. Era pior. Era um desapontamento que ele parecia tentar não deixar transparecer. Era a desilusão tão humana que ele tinha em si mesmo. Era a desilusão dos pintores, a nossa desilusão colectiva na humanidade, a nossa desilusão individual em nós próprios. Isso é algo que, julgo eu, é recorrente no ser humano. Nós somos os nossos piores juízes. Nós gostamos de nos sentirmos mal sobre nós próprios.

Isso foi, em parte, o que permitiu a rápida disseminação da Cristandade pelo mundo. A interpretação da religião cristã tende a confirmar os nossos piores medos. O medo de que somos todos potenciais demónios a vaguear na terra, e que a bondade está restrita aos mártires, anjos e santos. Essa tendência leva-nos a projectar deuses perfeitos que vivem em reinos inacessíveis, e faz-nos esquecer que o desapego ao julgamento, especialmente sobre nós próprios, é o ideal mais nobre a que a alma humana pode aspirar. No Livro de Génesis, quando Deus afirma que criou o Homem à sua imagem, essa não é a expressão omnipotente da sua bondade infinita na Criação. É apenas o Homem a ver-se, desapontado, ao espelho, e a decidir, desesperado, criar uma mentira que consiga fazê-lo esquecer, mesmo que momentaneamente, que a vida é injusta, a morte é certa e o julgamento, tanto humano como divino, é uma tragédia inevitável.

segunda-feira, 24 de Março de 2014

Sósias

Uma das maiores particularidades que nos distingue enquanto indivíduos será sempre a nossa capacidade de percepcionar parecenças entre as pessoas. Todos nós já estivemos na posição de partilhar com um grupo de amigos que duas pessoas são, aos nossos olhos, a cara chapada um do outro, para sermos confrontados, como resposta, com confusão e indignação. Pouco haverá de mais frustrante do que alguém nos dizer que duas pessoas, que nós vemos como gémeos separados à nascença, nada têm a ver uma com a outra.

Estas semelhanças não são efectivamente, na maioria dos casos, de detecção instantânea. Por pertencerem a contextos distintos, não damos por ela até que o nosso cérebro acenda uma lâmpada e ilumine a inevitável associação, que sempre esteve à frente dos nossos olhos. Reparem, por exemplo, como o actor Adrien Brody, d’O Pianista, é igualzinho ao actor português Miguel Guilherme. No outro dia, o tenista João Sousa eliminou o cotadíssimo Gilles Simon, que é inegavelmente semelhante ao actor Joaquin Phoenix.

Alguns de vocês já protestarão por esta altura, por impulso, sem atentar devidamente aos traços faciais dos pares que enuncio. Cada um vê com os olhos que tem, e nunca com outros. Mas não neguem, por favor, que o actor Kit Harigton, conhecido por Jon Snow de Game of Thrones, é a reencarnação do Jim Morrison, vocalista dos The Doors. Nem que o Pedro Martins, treinador do Marítimo, é o irmão campónio do nosso primeiro-ministro.

Já que estamos no futebol, digam lá se o Chicarito do United não tem parecenças com o Bruno Mars. Não recusem de imediato, considerem e vejam mais além. Tal como têm o Walcott, jogador do Arsenal, e o automobilista Lewis Hamilton. O Tymoschuck é, sem tirar nem pôr, o Kurt Cobain, assim como o Ricardo, jogador do Porto, é a versão humanizada do papagaio Zazu, do Rei Leão. E o Khedira é muito parecido com a versão Ali G do Sasha Baron Cohen.

Se o leitor vai lendo estas linhas abanando a cabeça em jeito de discordância, um desafio: visite a página da wikipédia do poeta Edgar Allan Poe e veja se consegue ignorar que a foto tem de ser, na verdade, do actor Bill Murray caracterizado.

Naturalmente, já estou habituado a carregar o ónus de abrir os olhos à população. Para já, esta é composta apenas pelos meus escassos leitores. Àqueles que discordaram das minhas associações estéticas, fica o conselho de serem mais minuciosos na observação. Aos outros, agora que a minha palavra é suficiente, e desprovido que estou de provas visuais do que vou afirmar, garanto que uma das minhas tias-avós alemãs é igual ao Mick Jagger e que a minha mãe, quando sorri, é tão parecida com a Janis Joplin que já lhe pedi que cantasse a “Piece of my Heart” para tirar as teimas. Não é ela.

domingo, 23 de Março de 2014

Acertar à primeira


“Se em tudo o mais forem idênticas as várias explicações de um fenómeno, a mais simples é a melhor" - Guilherme de Ockham

Ele tinha entrado na esquadra às duas e meia da manhã, chegado junto ao balcão da recepção e exigiu ser preso. O agente de serviço reconheceu o cheiro a álcool e ignorou as palavras, esperando poder voltar para as palavras cruzadas que o mantinham entretido durante o turno mortificante da madrugada:

- “Prenda-me.”

O homem tinha pelo menos cinquenta anos. Era uma daquelas pessoas abençoadas com a dádiva inexplicável de um envelhecimento generoso. A voz fraturada denunciava a sua verdadeira idade. O seu cabelo era castanho e estava penteado com brilhantina. A barba era grisalha e bem aparada. Ele vestia um fato preto completo feito à medida. Não tinha entornado uma única gota de álcool no casaco. A roupa parecia ter sido engomada naquele mesmo dia.

- “Prenda-me, caralho.”

Ele cheirava a água-de-colónia. A única razão que permitiu o agente identificar o cheiro a álcool foi o homem ter-se debruçado sobre o balcão. Ele não se tinha dirigido para o balcão a cambalear. As suas mãos não faziam movimentos desajeitados. Ele tinha-as pousado no balcão, completamente abertas, com as palmas na superfície. O seu piscar de olhos mantinha-se ágil e pouco frequente. A sua postura era ergonómica. As costas não se vergavam e o pescoço mantinha-se hirto. Ele não alternava o peso do corpo entre as duas pernas, como uma criança amuada faria numa situação de espera.

- “O senhor está bem?” – perguntou o agente.

O agente sentiu-se estúpido a fazer aquela pergunta, mas não sabia o que haveria de dizer. Ele estava no segundo ano de serviço. Não era a primeira vez que o agente tinha-se deparado com um indivíduo alcoolizado a realizar exigências absurdas, mas nunca tinha ouvido aquela exigência em particular. O homem não respondeu à pergunta, mas a sua inexpressividade impávida alterou-se para um sorriso lamentoso. Ele levantou os braços e esticou-os, com a parte interior exposta, para facilitar a colocação das algemas.

- “Prenda-me, se faz favor.”

O agente ficou confuso. Era como se o homem pensasse que o problema fosse a falta de boa educação no seu pedido.

- “Desculpe, meu senhor, mas eu não tenho legitimidade para o prender. O senhor não cometeu nenhum crime.”

O homem debruçou-se sobre o balcão e esbofeteou o agente com a mão direita. Ele colocou os braços atrás das costas e sentou-se no chão à espera da concretização do seu pedido. O agente ainda se manteve sentado durante alguns momentos. A estalada não tinha sido forte, mas ele não tinha qualquer alternativa. Levantou-se, gritou pelos dois colegas que estavam na sala ao lado, e algemou o homem. Apenas um dos agentes saiu da sala.

- “O que se passa?”
- “Este homem acabou de me agredir.”
- “O quê?”
- “Este gajo bateu-me, caralho. Ele entrou aqui e pediu para ser preso. Eu disse-lhe que não podia prendê-lo e ele bateu-me. O que fazemos?”
- “O que é que achas? Temos de prendê-lo. Não há outra alternativa.”

Os agentes processaram a papelada, comunicaram o evento ao tenente e levaram o homem para a cela colectiva da esquadra, onde já estavam um homem que tinha tentado roubar uma câmara a uma turista e um arrumador de carros que tinha arranhado um veículo.

- “Queres explicar-me o que se passou realmente?”
- “Não sei, pá, não consigo entender isto. Eu juro que foi mesmo como eu disse. O velho entrou aqui, sem qualquer agressividade, e exigiu ser preso.”
- “Ele está podre de bêbado.”
- “Eu sei, nota-se, mas o homem aguenta bem o álcool. Ele não arrastava palavras. Não parecia confuso. Nada.”
- “O que é que pode levar alguém a querer ser preso?”
- “Talvez o gajo matou alguém, arrependeu-se e veio aqui poupar-nos trabalho. Já viste se há alguma notificação de homicídio nos canais de comunicação?”
- “Não há nada. Já falei com as outras esquadras. A noite está calmíssima.”
- “Talvez isto é alguma espécie de activismo político. Talvez o gajo esteja a tentar passar alguma mensagem sobre a crise actual. Se calhar o gajo é famoso e chamou as estações de televisão antes vir aqui.”
- “Alguma coisa tem que ser. É melhor a gente telefonar ao Major. Este gajo ainda acaba por ser alguém importante e a gente é que fica aqui a segurar a granada. Ninguém aparece aqui e pede para ser preso. Não disseste que ele estava a usar um fato caro?”
- “Caríssimo! Aquilo era seda ou uma qualquer coisa assim. Tem mesmo que ser alguém importante. Ouve o que eu te digo. Isto vai dar merda. Mas é melhor não acordar o major. Ele entra às sete e meia. Quando ele chegar nós contamos tudo.”

Passaram quatro horas. Já tinha amanhecido, mas ainda faltava uma hora para o Major chegar. Os dois agentes continuavam a especular sobre os motivos misteriosos do homem.

- “Talvez morreu alguém. O gajo estava com roupa de funeral.”
- “É possível. Aposto que morreu-lhe a esposa. Agora ele está arrependido por tê-la tratado mal e veio aqui para se crucificar.”
- “Tem que haver alguma razão.”

O terceiro agente de serviço apareceu na sala da recepção. Ele tinha acabado de voltar das celas.

- “Quem é o homem de fato na cela colectiva?”
- “É um homem que chegou aqui de madrugada, pediu para ser preso e, depois de eu recusar, deu-me uma estalada.” – disse o primeiro agente.
- “Agora estamos aqui a tentar perceber as razões do homem” – disse o segundo agente.
- “Nós achamos que o gajo é alguém importante e que isto é uma alguma espécie de acto político” – disse o primeiro agente.
- “Ou ele matou alguém e arrependeu-se.” – disse o segundo agente.
- "Ou ele está farto de viver." - disse o primeiro agente.
- "Ou ele está desempregado há tanto tempo que não aguenta mais" - disse o segundo agente
- "Ou foi à falência e agora está arruinado" - disse o primeiro agente
- "Ou a mulher descobriu que ele tinha uma amante" - disse o segundo agente

O terceiro agente coçou a cabeça e disse:

- “Eu não sei, pá. Quando eu passei nas celas, ele estava a dormir, mas acabou por acordar com o barulho das chaves. Chamou-me e disse que não sabia o que estava a fazer ali. Tinha vomitado na cela toda. Já vos ocorreu que o gajo devia estar podre de bêbado? Vocês nunca fizeram coisas estúpidas enquanto estavam assim?"

sexta-feira, 21 de Março de 2014

Palma

Amanhã o Público lança, no contexto da Colecção Canto&Autores, o CD de estreia do Jorge Palma, acompanhado por um livro que recorda a sua vida e obra. Custa menos de sete euros, e vou adquiri-lo.

O álbum não é, musicalmente, o meu predilecto do artista. É, no entanto, um álbum rico em duas vertentes. Primeiro, o contexto histórico justifica redobrada atenção ao seu processo criativo. Em 1973, largou o país e voou para norte, onde se instalou como exilado político na Dinamarca. Sempre preferiu passear a guitarra pelo mundo civilizado do que a espingarda pela África colonizada. Arranjou emprego num hotel, que serviu de sustento enquanto escrevia e compunha canções em casa, onde vivia com a sua primeira mulher. Foram essas composições que publicou em 75, de regresso a um Portugal livre. Tal como na música, partilhou com os ouvintes a aventura fora do país e deu-lhe o seu infalível cunho pessoal: baptizou o álbum de "Com uma viagem na Palma da mão".

Musicalmente, e é esta a segunda vertente, acusa natural juventude. A voz, essa então, é quase irreconhecível, virgem da rusticidade que os anos de álcool e tabaco lhe conferiram. Apenas em alguns momentos se reconhece o timbre, como numa foto antiga em que as feições são as mesmas.

Quase todas as músicas do "Com uma viagem na Palma da mão" foram ignoradas pelo tempo, mesmo pelo próprio. Contudo, há que destacar um ambiente de música de intervenção distinto dos demais. Mais vivo, mais cosmopolita, mais optimista dentro da desgraça. Tem influências que o acompanharão no resto do percurso musical, como os acústicos americanos Bob Dylan e Simon & Garfunkel, mas também com muito bluegrass, muito jazz. Houve-se também muito Elton John nas entrelinhas. Mostra também já a poesia de que é feito, o lirismo que o destacará como um dos artistas portugueses mais consagrados.

Tive o prazer de o ver duas vezes ao vivo. Uma foi a solo, no Coliseu, onde actuou com o seu filho Vicente. A outra foi com os Cabeças no Ar, uma fantástica superbanda portuguesa de apenas um álbum, composta pelo próprio, por João Gil, Tim e Rui Veloso. Foram a Guimarães, e protagonizaram um extraordinário concerto, genuíno e íntimo.

Actualmente, a sua imagem pública é desgraçada. Graças a recorrentes episódios de duvidoso decoro, as pessoas apenas reconhecem a Jorge Palma os vícios que este não faz por esconder e só conhecem as músicas mais recentes, a anos-luz da genialidade que foram as suas composições, sobretudo no percurso ascendente de maturação dos anos 80 e que lhe permitiu expelir pérolas como o brilhante "Lado Errado da Noite".

Felizmente, a obra está aí e é demasiado boa para não ser partilhada. Rogo aos amantes da boa música que percam tempo a explorar o portefólio de um homem que transpira música, de um aventureiro, de um artista que eleva este epíteto à sua verdadeira dimensão, uma dimensão de mais sofrimento do que prazer, mas dentro da inevitabilidade de um percurso que lhe estava traçado no sangue.

As pessoas merecem conhecer a tua poesia musical, a tua música poética. Faço a minha parte, Jorge, o resto é contigo.

segunda-feira, 17 de Março de 2014

Há ler jornais e há ler o Expresso

O meu processo semanal de leitura do Expresso é faseado e ritualizado. Começo, como em quase todas as publicações periódicas, pelo final. Exploro celeremente a contracapa, lendo sem atenção curtas notícias e a crónica de um dos Henriques, o mais velho, o Monteiro, homem de verdades, mas de arrogância infundada.

Prossigo na mesma direcção, em contramão. Segue-se o desporto, leitura desnecessária por eu obter toda a informação de que necessito nesta área de outras fontes mais especializadas. Leio na mesma, contudo, pela frescura da escrita que transforma totalmente a abordagem aos temas; e por, admito, não resistir a sugar toda a informação, mesmo que redundante, sobre o desporto-rei. Nesta secção, é agradável acompanhar a tabela “Palpites”, em que figuras públicas afiançam semanalmente aquele que eles acham que será o desfecho dos jogos dos grandes; são-lhes posteriormente atribuídos pontos por cada palpite certeiro. E é sintomático ver este ano a posição de Manuel Serrão, incorrigível portista e optimista, que augura sempre o sucesso do seu clube e o insucesso do rival, e que figura no último lugar da tabela classificativa.

Desfolhando mais para trás, descobre-se o In Memoriam, um texto necrológico acerca de uma figura internacional relevante que tenha falecido na semana relativa à publicação. O conceito é idoso, mas assume uma nova alma por ser assinado pelo genial José Cutileiro, que produz autênticas odes a heróis e vilões, a homens cuja história de vida, muitas vezes, ignorava e que passo conhecer, fascinado pelo factual de que a história se encarregou, e pelo lírico que Cutileiro, um ex-embaixador que sabe tudo o que há para saber acerca da diplomacia internacional, se incumbe brilhantemente de redigir.

A seguir, opinião. Um antro de ódios, paixões e indignações com o condão de não permitir que nenhum leitor o explore sem sentir também ele ódios, paixões e indignações, sejam os mesmos, sejam exactamente os opostos. Delicio-me com o segundo Henrique, o mais novo, o Raposo, sujeito que imagino insuportável no convívio diário, mas de inegável talento e perspicácia. A seguir, um pouco de Daniel Oliveira, sempre divertido em doses moderadas, de punho erguido contra o sistema, que tem a particularidade de conseguir ser histérico organizadamente. Discordo das suas ideias, mas sabe expô-las; grita e barafusta, mas através de alíneas.

De seguida, os gémeos Avillez Figueiredo e Pedro Adão e Silva. Não tendo relação de sangue, são gémeos de género: dois senhores à volta dos 40 anos, jornalistas-politólogos de profissão, que escrevem na mesma página do jornal, expressando as mesmas preocupações económicas, usando o mesmo registo que alterna a subtileza da ironia com a dureza dos números, por baixo de uma foto com um sorriso semelhante. Leitura que tem tanto de útil como de fastidiosa.

A seguir, alto lá. Com uma rápida vista de olhos às páginas seguintes, concluo que surgem em número alarmante as palavras empreendedorismo, franchising, marketing, administração, inovação científica, tecnologia, estratégia, gerenciamento e globalização. Não é para mim, voltarei à linearidade da imprensa clássica e recomeçarei pelo início.

Pedro Santos Guerreiro recebe-me com um rasgado sorriso, cuja jovialidade não consegue reproduzir na palavra escrita. Ricardo Costa é, em bom português, um chato de merda. Não deve dar para aguentar dez minutos à mesa com este enfadonho e maçador indivíduo. É um tipo inteligente, mas é cinzento, sem carisma e sem relevantes aptidões. Raramente perco tempo a ler os seus escritos. O extraordinário Pedro Mexia, um oásis de inteligência e ponderação, fecha com chave de ouro a minha exploração dos artigos opinativos. Nunca leio o Sousa Tavares: armado em paladino da (sua) verdade, é mais socialite que jornalista; tem a mania que é polémico, mas é inócuo e desconhecedor.

Finalmente, chego às verdadeiras notícias, na pureza do conceito. Política nacional, economia, mundo. Notícias a fundo, que se distanciam do padronizado formato e das já muito disseminadas informações, intercaladas com curiosas reportagens e interessantes entrevistados. Design organizado e discreto, informações gráficas constantes e relevantes. A crise na imprensa é muito mais que económica. Consequência ou não da menor procura, a inevitável adaptação dos órgãos de comunicação ao jornalismo 2.0. não precisava de passar, mas passou, por uma deterioração dos princípios jornalísticos. Não porque os princípios foram esquecidos; são, de resto, constantemente evocados. Mas são ignorados, por grande parte da comunicação, seja em nome de um bem maior, a subsistência, seja em virtude da pura inabilidade dos profissionais. Neste contexto, parece-me importante realçar a qualidade do trabalho jornalístico do Expresso, longe da perfeição, mas que é competente sem ser elitista, informativo sem ser maçador.

Dito isto, uma breve crítica: entendo que a imensidão de conteúdo complique o processo que vou sugerir, mas deviam considerar um formato mais compacto. Até a mim, portador de compridos membros superiores, a leitura do jornal é um desafio, uma constante luta contra as colossais páginas que insistem em mover-se, em que as letras na parte superior da página são ilegíveis e em que cada desfolhar é semelhante ao movimento de nadar de bruços. Corrijam isto, caros editores, e terão em mim um fã para a vida.

terça-feira, 11 de Março de 2014

Um Ponto Filosófico de Situação Existencial


“Quem vive sob o domínio da sensação tenta realizar todas as possibilidades, mas estas não lhe proporcionam mais do que uma actualidade transitória. A ameaça do tédio é perpétua e consequentemente a busca de novidades conduz, em última instância, ao desespero” - Soren Kierkegaard

"Que ideia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas)."
- Alberto Caeiro

(Devido aos constrangimentos dos blogues com meio de expressão, as ideias aqui discutidas são apresentadas numa forma simples, reconhecendo que, no meio da minha ignorância técnica, sem o devido enquadramento filosófico, fundamentação teórica e exposição meticulosa das racionalizações subjacentes, muitas das afirmações e conceitos aqui inscritos poderão parecer redutores e facilmente contrapostos com objecções conhecidas.)

A história do sacrifício de Isaac é, ao mesmo tempo, a história mais interessante do Antigo Testamento, a lição mais interessante da filosofia ocidental e a pintura mais bela de Caravaggio. Deus ordena Abraão que sacrifique o seu filho Isaac. Abraão é assombrado por uma ordem divina tão cruel, mas, mesmo com uma imensidão de dúvida, leva Isaac para o cimo de uma montanha e amarra-o num altar sacrificial. No momento em que levanta a lâmina para acabar com a vida do seu próprio filho, Abraão é interrompido por um anjo, que comunica-lhe que Deus agora sabia que ele tinha fé.

O filósofo dinamarquês, Kierkegaard, argumentou que esta história representa a progressão final da atitude livre do homem para com a vida. De acordo com o autor existem três fases nessa progressão: a estética, a ética e a religiosa. O indivíduo tenta viver de acordo com os ditames da beleza e do prazer, mas sente as limitações intrínsecas da gratificação instantânea. O plano ético surge com a ansiedade sobre essas limitações e quando o indivíduo preocupa-se com as implicações morais das suas acções relativamente aos outros. A impossibilidade de aceitar o absolutismo moral do plano ético sem a existência de Deus leva o indivíduo a aceitar a fé da fase religiosa. Essa transição final é a história de Abraão e Isaac. O pai sabia que matar o seu filho era moralmente errado, explicitamente errado segundo a moral divina, mas, sendo comandado por Deus, realizou o sacrifício num acto supremo de fé.

A redoma protectora que os nossos pais instalam quando nascemos é imaterial. É um aquário maravilhoso de amor e boas intenções. Ela é a lente correctiva que nos permite ultrapassar a fragilidade da infância sem questionarmos o mundo que os nossos pais juram estar à nossa volta. Apenas é possível vê-la no passado, quando já estamos do outro lado, fora da sua alçada. Ao pensar na minha experiência dentro dela, eu vejo nitidamente um vidro cristalino que me acompanhava sempre, que impossibilitava o acesso à visão desconstruída do mundo nas suas partes constituintes e que transformava os progenitores na autoridade benevolente final.

A adolescência é a fase em que saímos dessa campânula parental. Aproximamo-nos inconscientemente da sua superfície e, suspeitando a sua presença, passamos para o outro lado e recebemos um choque existencial. Do outro lado a razão diz-nos que aquilo que fazia sentido é apenas um fenómeno auto-referencial, e aquilo que tinha significado é apenas um fenómeno aleatório. No entanto, ainda sentimos as emoções derivadas do sentido e do significado. O amor da nossa mãe não tem significado, mas ainda sentimos os seus efeitos. Esse conflito – a noção simultânea de que tudo importa e nada importa - tem um potencial destruidor. O concretizar do quotidiano estagna quando o infinito absorve o finito. Os nossos pais passam a ser os recipientes de uma enorme raiva devido ao seu papel como propagadores da Grande Mentira. É difícil pensar num emprego, ver um filme, ou estar com amigos, quando não sabemos qual é o nosso lugar no universo. Este é o problema básico do existencialismo filosófico.

Qualquer criança se depara com o dilema existencial quando recebe as respostas rebuscadas de adultos face às questões mais básicas: por que nascemos, de onde viemos e para onde vamos. Eu nunca ultrapassei este problema. Eu tenho uma experiência maior em lidar psicologicamente com o desespero que dele advém, mas não há nenhum trabalho literário, corrente filosófica ou dogma religioso que consiga eliminar ou resolver este problema. O ser humano sintetizou várias substâncias incapazes de produzir respostas, mas capazes de fazer com que a pergunta desapareça momentaneamente. No entanto, também este efeito meliorativo acaba por cessar. Existem pessoas capazes de ignorar este problema, vendo um imperativo existencial satisfatório na obtenção de prazer e no colmatar da dor. Eu adoraria conseguir viver satisfeito nesse hedonismo moderno ou no naturalismo humilde de Alberto Caeiro, mas, na minha experiência, o sofrimento mental superioriza-se sempre ao prazer físico e, apesar da sua genialidade no papel, Fernando Pessoa morreu de cirrose hepática aos quarenta e sete anos de idade, dificilmente sendo considerado um protótipo de uma vida bem vivida.

Para efeitos de simplificação radical, eu vejo o mundo em duas visões. As duas visões são quase diametralmente opostas, aparentemente irreconciliáveis. Na visão do pessimismo o mundo é uma sopa aleatória de moléculas, onde as nossas vidas são apenas ilusões desprovidas de significado, sem qualquer desígnio aparente. A nossa existência é uma eventualidade irrelevante do cosmos. Os grandes conceitos da humanidade – felicidade, amor, altruísmo – são apenas mecanismos evolutivos expressos em variações bioquímicas no cérebro com o objectivo de sustentar a manutenção de um sistema de organização de matéria. A moral, a ética e a lei são apenas linhas imaginárias na areia da praia universal. A vida, alegria, sofrimento e morte são tão significativas quanto a transformação estelar de hidrogénio em hélio, erupções vulcânicas, a sobreposição de sedimentos rochosos ou a trajectória errante de cometas e meteoros. O conceito de deus não tem qualquer lugar nesta visão. O absolutismo nesta visão é visceralmente incapacitante. No fundo deste poço, não é possível sair da cama.

Na outra visão o mundo é um colosso de ordem onde as nossas vidas são a procura significativa de felicidade, regidas pelo certo e errado, com o desígnio supremo de honrar Deus através da prática do amor. A nossa existência é a expressão do acto da Criação de uma entidade perpétua cuja natureza não compreendemos na totalidade. Os grandes conceitos da humanidade – felicidade, amor, altruísmo - são razões absolutas para viver. A moral, a ética e a lei representam o quadro orientador da operacionalidade dessas razões absolutas. O mundo orgânico dispõe, na sua essência, de uma supremacia existencial sobre o mundo inorgânico. Existe mais significado no núcleo de uma ameba unicelular do que em todas as galáxias e buracos negros deste universo. O conceito de Deus é inseparável desta visão. O absolutismo nesta visão é impossível, pois a lista de argumentos contrários é demasiado extensa para ser completamente ignorada. Sobre as especificidades características atribuídas à entidade divina – omnisciência, omnipotência, omnipresença – não me pronuncio, apesar de existirem diversos argumentos a favor e contra. A minha concepção de Deus admite apenas a entidade criadora em si, e, ao assumir que a sua existência se dá num plano incompreensível para a mente humana, fora do tempo e do espaço, não me pronuncio sobre os seus atributos, por tal não ser possível.

Depois de ter passado muito tempo preso na ideia de que eu tinha que escolher uma destas visões, a minha solução foi aceitar as duas visões. Não consiste em fundi-las dialecticamente, mas em aceitar a sua possibilidade e as suas respectivas eventualidades ao mesmo tempo. Envolve alguma resignação, algo que ainda não está completamente assente no meu espírito, mas é a única forma de conseguir viver fora das paredes almofadadas da cela de um hospital psiquiátrico. Existem forças no universo que são simplesmente demasiado poderosas para serem convertidas sistematicamente em palavras. O infinito indiferente não destrói o finito quotidiano apenas porque não compreendemos tudo. A vida vale a pena viver e poderá não ter qualquer significado. O amor é uma expressão do infinito cósmico e é um subproduto evolutivo de uma realidade finita. Isto foi o que Kierkegaard chamou de ironia. A capacidade de viver com a presença simultânea de duas noções opostas.

Eu sei que esta visão é logicamente imperfeita. Não afirmo possuir toda a verdade, nem tenho a certeza de possuir alguma verdade. Tendo em conta o pouco que sabemos da nossa realidade extraordinariamente complexa, seria ilusório e arrogante afirmar que atingi a verdade num plano existencial superior. Apesar de tudo isto, eu não aceito o agnosticismo. Eu não penso que estas verdades são incognoscíveis. No seu estado actual, os nossos pobres cérebros humanos são incapazes de compreender aquilo que não está relacionado directamente consigo mesmo e com a metodologia de organização sensorial das suas formas limitadas de percepção. É na computadorização exponencial do futuro e nas descobertas vertiginosas da física quântica que residem a esperança iluminada do esclarecimento.

Tenho apenas uma certeza – algo existe. Algo ao invés de nada. Eu não sei porque nascemos, mas sei que nascemos. Eu não sei de onde viemos, mas sei que estamos aqui. Eu não sei para onde vamos, mas sei que quero ir. Estaria a mentir se dissesse que me sinto completamente seguro na minha posição filosófica e que não tenho momentos de desespero que tendem mais para a visão do pessimismo do que para o optimismo. Mas, na maior parte das noites, quando pouso a cabeça na almofada, estou extremamente grato por estar aqui. Há uma imagem mental a que recorro quando estas dúvidas são mais fortes e as preocupações da minha vida parecem irrelevantes neste universo indefinível. Nos documentários da vida animal existe a cena clássica – a passagem migratória das zebras num rio povoado por crocodilos. Inevitavelmente, uma das zebras é atacada e tenta fugir desesperadamente do poderoso réptil. A sua repulsa por essa violência é tamanha que chegamos a observar situações em que o animal tem um dos membros preso nas mandíbulas, mas continua a tentar libertar-se e chegar à segurança da margem. Esse desespero instintivo, essa recusa brutal da morte em todas das coisas vivas, é a minha canção de embalar, as notas reconfortantes que me levam a fechar os olhos com a esperança de viver e a vontade de voltar a abri-los no dia seguinte.

segunda-feira, 3 de Março de 2014

O Templo Suburbano


Com o furor que se instalou depois do deflagrar de armas químicas no conflito sírio, não entendo por que razão ainda não se produziu um chiqueiro comparável relativamente ao crime contra a humanidade que é a aerosfera das lojas modernas de roupa. Pelo menos na Síria estamos a falar de uma substância que causa uma morte quase instantânea, enquanto nas lojas de roupa estamos a lidar com gases tóxicos cujo objectivo parece ser o de infligir o máximo de sofrimento injustificado sem acabar com a vítima.

A morte é um fenómeno que ainda experienciei e que não tenho qualquer intenção em experienciar, mas julgo pelo menos ter a certeza de que este representa o fim de percepções sensoriais terrenas como o olfacto. Nas lojas de roupa dos centros comerciais não temos a hipótese de desfrutar desse alívio agridoce. As Zaras e as Mangos insistem em disseminar versões diferentes de um gás tóxico que pode ser descrito como um perfume de avó francesa com um toque de antraz. O ar é de tal forma espesso que este aproxima-se perigosamente do estado sólido. Não sei decifrar o motivo para este atentado contínuo. Eu quero comprar uma camisa nova, mas a impossibilidade de me manter dentro de uma loja durante mais que dois minutos seguidos dificulta a selecção, experimentação e pagamento de uma peça de roupa.

Infelizmente, este nem sequer é o pior atributo dos centros comerciais. Aos Domingos, estes templos pós-modernos atraem hordas suburbanas de pessoas que apreciam desmesuradamente o acto de vaguear sem rumo por corredores labirínticos de lojas. Durante a temporada fria, o aquecimento do recinto parece atraí-los, como répteis de sangue-frio a realizarem a termorregulação homeostática ao sol. Qualquer passeio por uma cidade portuguesa de pequena-média dimensão transmite o clima de uma geografia pós-apocalíptica. No entanto, o mundo não acabou. Simplesmente migrou temporariamente para os centros comerciais. É por essa razão que tendo a evitar estes espaços com a mesma aversão que me leva a evitar a costa da Somália e o deserto do Chade. Sartre já dizia que o inferno são os outros, mas ele nem sequer podia imaginar a danação misantrópica que o esperaria num centro comercial.

Não julgo ter alguma perspectiva nova sobre o fenómeno do consumismo, nem quero compor qualquer diatribe sobre os perigos da alienação individual causada pelo malvado sistema capitalista. Não é isto que me preocupa. É a incapacidade humana de simplesmente estar. É a mesma razão que leva alguém a preferir automaticamente a televisão a um livro. A razão pela qual se pensa que a verdadeira ameaça à democracia está nos mercados financeiros, ao invés da tendência assustadora da abstenção. É esse motivo que leva alguém a não querer estar informado. É o que origina a incapacidade de finalizar uma viagem de carro antes de responder a uma mensagem escrita. É a força motriz da propagação de redes de internet sem fio, com objectivo final de transformar o mundo num inferno conectado em banda larga.

Os centros comerciais vivem dessa deficiência moderna. Eles preenchem o vazio que surge das deambulações hiperactivas de um reduzido limiar de atenção. O chocante é que, além do simples acto de compra, nenhuma função, actividade ou prática significativa pode ser desempenhada nessas catedrais. Eu não tenho nenhuma recordação importante de algum momento passado num centro comercial. Apesar disso, é ali que, cada vez mais, congregamos e comungamos à procura de nada em particular. Toda a estrutura é desenhada de forma a alimentar essa procura fútil. Os estímulos são sobrecarregados. A ideia é atenuar ao máximo os efeitos da imaginação. O ar é quente e perfumado. O sistema de som transmite constantemente música insuportável. As luzes são intensas e variadas. As cascatas cospem água. Os anúncios no altifalante fazem promessas babilónicas. Todos parecem confortáveis. A multidão percorre o espaço alegremente como cavalos mecânicos a girar num carrossel abandonado.

quinta-feira, 27 de Fevereiro de 2014

Em defesa da República Centro-Africana


“The idea that large historical events are determined by luck is profoundly shocking, although it is demonstrably true." – Daniel Kahneman

«Stringer Bell: "What are the options when you've got an inferior product in an aggressive marketplace?"
Stringer Bell’s Community College Business Professor: "You know, the new CEO of World Com was faced with this very problem. The company was linked to one of the biggest fraud cases in history. So he proposed . . ."
Stringer Bell: "To change the name."»
- The Wire

O trabalho do psicólogo israelo-americano, Daniel Kahneman, tem implicações capazes de abalar a estrutura do entendimento humano. O cientista demonstrou como o raciocínio é um processo altamente tendencioso marcado por vieses que nos levam a aceitar como verdadeiro e real aquilo que é falso e inexistente. Se por um lado é a nossa ignorância desses vieses que nos permite funcionar de forma eficiente, por outro muitas das nossas escolhas e impressões são determinadas por factores sobre os quais estamos complemente alheios.

As descobertas fenomenológicas relativas à irracionalidade da bolsa de valores são particularmente preocupantes. De acordo com o autor, em muitos casos existe uma maior eficiência num chimpanzé a atirar dardos num alvo do que num investidor a escolher as acções. A maioria dos investidores não tem sequer a capacidade de obter rendimentos superiores à taxa de valorização de uma determinada bolsa de valores. É possível prever fluxos de investimento tendo em conta a prevalência mediática das empresas. As pessoas que dizem ter previsto crises financeiras não foram mais do que apostadores sortudos num evento determinado por um número de factores muito superior à sua capacidade de processamento. Factores tão simples como o nome de uma empresa, ou a sua sigla, podem determinar desempenhos positivos na bolsa de valores.

É este último ponto que eu pretendo utilizar na minha defesa resignada da República Centro-Africana. As suas tragédias não se distinguiram num mercado continental particularmente saturado pela barbárie. A minha tese é que uma das razões principais para esse destino infeliz é que o seu nome monocórdico impossibilitou a formação de uma marca internacional. Parece redutor, mas convém dizer – sem ofensa, mas este é o pior nome de toda a história. O nome de um país deve ter um significado, aludir a uma história, fonetizar um sentimento ou transmitir uma impressão. Não pode representar uma mera caracterização geopolítica, especialmente quando o país possui aquele que é o pior aparato de relações públicas internacionais, impossibilitando-o de ordenhar a colossal glândula mamária da solidariedade ocidental.

Durante décadas, ouvimos falar de todos os países africanos. Todos os países do continente-berço têm um problema central, um atributo marcante, um motivo de fama, enfim, alguma coisa para posicioná-lo no imaginário ocidental e justificar as remessas de ajuda humanitária. Eles têm nomes exóticos como Malawi, Costa do Marfim, Congo e Zimbabwe. Alguns são os recipientes da atenção angelical de Angelina Jolie e da Madonna. Outros são chorados em canções medíocres patrocinadas pelo Bono. A região do Darfur, no Sudão, conseguiu a façanha de um dos seus mosquitos ter picado o George Clooney, infectando-o com a estirpe local de malária.

A Suazilândia tem a sida. A Somália tem os piratas. A Sierra Leoa tem os diamantes de sangue. Angola tem a Isabel dos Santos. A África do Sul compensa a sua limitação nominal com os seus feitos nacionais: o histórico fim do apartheid, um sistema democrático funcional, uma cultura poderosa, a liderança política regional e uma economia pujante. Na maioria a fome, sede, doença e guerra matam milhões numa forma chamativa o suficiente para projectar os clamores de aflição para um curto segmento nos telejornais do mundo ocidental. A República Centro-Africana, por sua vez, é uma representação paradigmática da marcha sombria de tragédias sem fim do Berço da Humanidade. Este é um país onde tudo o que pode acontecer de errado, acontece, e tudo o que pode ocorrer de mal, ocorre, muitas vezes numa sequência simultânea de tragédias simbióticas.

Durante o século XIX o país foi um mercado de tráfico de escravos. O país foi colonizado pelos franceses, cuja administração incluiu os abusos tradicionais de subjugação civil e violência generalizada, e durou até 1960. A independência nacional veio com a sucessão habitual de regimes autoritários, ditadores sanguinários, juntas militares e golpes de estado. A guerra tem sido especialmente prolífica neste pedaço de mundo – guerras civis, conflitos étnicos, milícias religiosas, insurgência rebelde e violência sectária. Neste momento o país parece estar a aproximar-se perigosamente do genocídio. Apesar de possuir todos esses atributos agregadores de solidariedade ocidental, o país é apenas o 83º maior recipiente absoluto de ajuda humanitária e o 69º maior recipiente em ajuda internacional per capita.

Os eventos históricos e a situação actual da República Centro-Africana são o resultado de uma confluência complexa de factores. Não pretendo fingir que entendo a tragédia da nação, submeter qualquer análise relevante ou oferecer qualquer solução para os seus problemas. No entanto, relativamente à sua instauração na mente da civilização industrializada, julgo que posso ajudar. O que a República Centro-Africana precisa é de uma campanha de marketing, algo que deve ser iniciado por uma mudança urgente de nome, e continuado de forma sistemática com vídeos virais de celebridades americanas. Aquilo que mais instiga o envio de dinheiro é o cultivo cuidadoso da culpa. Esse incitamento deve ser realizado de forma chamativa, pois, apesar de o mundo ocidental adorar pregar sobre as virtudes altruístas da sua alma caridosa,a verdade é que, se existe algo que nós não perdoamos, é o tédio.

sexta-feira, 21 de Fevereiro de 2014

Contra a paternidade


“É muito provável que aproveite estes últimos anos da minha vida, porque não os quero consumir aqui. Eu não quero, eu não aceito esta gente, não aceito o que estão a fazer ao meu país. Não votei neles, não estou para ser governado por este bando de incompetentes” – Fernando Tordo

E pronto. Seguindo o exemplo das intervenções indignadas de José Luís Peixoto e vAlTEr hUgO mÃe, eis que mais um dos nossos estratosféricos vultos de letras decide presentear-nos com um testemunho pesaroso da calamidade nacional. O recipiente do Prémio José Saramago 2009, João Tordo, divulgou uma “carta ao pai” onde expeliu a tristeza profunda que diz sentir devido à emigração do pai, o cantor Fernando Tordo, que partiu para o Brasil. Eu odeio ter que criticar um filho confrontado com a partida do pai, mas apenas o faço porque João Tordo publicou a sua “carta” num exercício público absorto onde decidiu misturar uma circunstância familiar com a situação político-económica de Portugal e ligar causalmente o destino da sua família com a acção directa do Estado português. Não satisfeito em realizar essa conexão linear redutora, o autor tem a imbecilidade de caracterizar o panorama actual de uma forma farisaica e intitulada.


O pressuposto teórico destes depoimentos é sempre o mesmo: o governo actual, no âmbito de uma intervenção política extremista desprovida de qualquer apoio popular, decidiu, meramente por capricho ideológico e por sadismo psicopático, empobrecer a população portuguesa. Está lá tudo. A vitimização pessoal paranoica. A narrativa histórica enviesada. O exercício de tautologia moral. A apresentação de factos isolados desprovidos de contexto. A simplificação de circunstâncias extraordinariamente complexas. A massagem do ego. A indignação inócua. A mendigagem calculista. A chantagem emocional.

O autor não se presta à racionalização. Não é como se a escolha arriscada de uma carreira intrinsecamente instável no mundo da música num país pequeno tivesse sido realizada livremente por Fernando Tordo. Não devemos considerar as limitações do sistema de pensões de um país altamente endividado envolvido num programa de ajuda financeira. Não existem quaisquer implicações da concessão de reformas aos sessenta e cinco anos num país onde a esperança média de vida ronda os setenta e nove. A única coisa que importa são os direitos inalienáveis de Fernando Tordo e os “valores de Abril”.

Longe de mim querer defender “os nossos governantes”, a quem o João Tordo atribuiu quatro crimes tão infantis que parecem ser o produto final de uma sessão de brainstorming num infantário, mas essas asserções burlescas a isso me obrigam. Este governo não acabou com a cultura - reduziu significativamente a despesa pública dirigida a essa área num momento em que cortam-se pensões e salários. O governo não acabou com a felicidade. Os portugueses são alegremente infelizes desde 1139. O governo não acabou com a esperança. A realidade é a verdadeira responsável. Quem cometeu um crime foi quem primeiramente criou a falsa esperança - as nossas elites socialistas, onde se podem incluir o nosso ilustre emigrante.

Essa falsa esperança foi infinitamente mais nociva do que o efeito entorpecente de “reality shows da televisão” e das “telenovelas” que o autor tanto teme. As lágrimas comunistas de Fernando Tordo são apenas o silvo daquele que vê o apagar das brasas da sua sardinha. E, se for para falar em destruição cultural, nem sequer é preciso ir muito longe. Basta que João Tordo e os seus compinchas da literatura portuguesa contemporânea continuem a produzir as suas obras, e teremos todos motivos suficientes para chorar a morte da nação.

segunda-feira, 17 de Fevereiro de 2014

Série "A Esquerda Portuguesa" - 3ª Parte - A Esquerda Caviar


“Acho que é possível um entendimento bastante grande com o Bloco de Esquerda” – Mário Soares

"Controlar o crédito é a medida essencial para ter uma política virada para o investimento."
– Francisco Louçã

“E quando não se pode pagar, a única solução é não pagar. Olha a Argentina. A Argentina disse «nós não pagamos». Passou-se alguma coisa? Não, não se passou nada.” – Mário Soares

Antes de começar o capítulo final deste modesto compêndio sobre a Esquerda portuguesa, tenho a obrigação de confessar os meus pecados. É necessário sentir a brisa purificadora da admissão na minha alma para poder iniciar esta inquisição retórica. Num país onde se fala tanto e não se diz nada, onde se diz tanto e não se faz nada, e onde se faz tanto e não se acerta nada, o dever mais patriótico é indubitavelmente ficar calado. Este é o meu primeiro pecado. O segundo prego da minha crucificação foi assente pelo martelo da tendenciosidade. A minha cultura familiar instituiu uma predisposição para o desprezo semiautomático relativamente às ideologias de esquerda. Por essa razão, durante um breve e inocente período, numa fase de rebeldia adolescente, aceitei os preceitos inaceitáveis da revolução marxista. Foi ao testemunhar a substancialização prática destes dogmas nas minhas primeiras incursões no mercado laboral que tomei a decisão imprescritível de virar a canoa e remar contra a corrente. A violência desta viragem acabou por verter para a minha argumentação e, por isso, eu, pecador, me confesso. No entanto, recuso-me a admitir a minha colocação na lateral-direita do campo da imoralidade. Não escrevi estes textos por malícia ideológica ou por gozo sociopático, apesar de admitir ter recorrido a ataques baixos perniciosos que me deram muito prazer. Esta é a terceira transgressão. Adicionalmente, quero que vossas excelências saibam que disponho de um coração, e que este já foi partido por uma orgulhosa militante do Bloco de Esquerda. Este facto potenciou marginalmente o enviesamento. Ser humano – é esse o meu quarto e último pecado.

O objecto deste capítulo – a Esquerda Caviar – faz-me sentir como um hominídeo desprovido de polegares oponíveis. Não consigo encontrar a ponta do fio do emaranhado labiríntico de correntes ideológicas. O sucesso da vespa-do-mar, uma espécie de medusa com um nível preocupante de dominância nos oceanos, deve-se, em parte, à sua prodigiosa capacidade reprodutiva. Hermafroditismo, clonagem, fecundação externa, autofecundação, cópula, fissão, fusão, canibalismo – todos estes métodos são utilizados pela triunfante e assustadora criatura. De uma forma semelhante, a Esquerda Caviar parece dever a sua génese, ascensão e estabilização à sua capacidade inesgotável de se multiplicar e em ver no sectarismo a sua base ontológica. Os subprodutos deste milagre gerador são uma miríade de movimentos, correntes, associações, partidos e agremiações essencialmente idênticas, que fazem circular artigos, manifestos, cartas abertas e missivas essencialmente idênticas, mas que acreditam, na sua medula, serem entes políticos drasticamente diferentes. Esta fraternidade de gémeos múltiplos recusa-se a reconhecer qualquer partilha de material genético e isso contribui para explicar o brotar desenfreado de cogumelos de esquerda nas raízes do regime. Logo, para que seja possível simplificar o objecto de investigação, limitar-me-ei a analisar uma amostra significativa, que será a Esquerda Caviar na sua variação bloquista.

O Bloco de Esquerda é resultado de uma orgia entre o Partido Socialista Revolucionário, a União Democrática Popular, a Política XXI e a Frente de Esquerda Revolucionária. Tanto quanto é possível derivar ilações superficiais da nomenclatura institucional, podemos concluir que esta foi uma união que fazia sentido na medida em que os seus nomes comunicavam claramente o seu objectivo - instituir, através de valores revolucionários, um regime socialista, democrático, popular e moderno. A ideia parecia simples, mas a cultura, por vezes, é mesmo incapaz de se sobrepor ao determinismo biológico. O sucesso inicial surgiu no mesmo ano da fundação do partido, em 1999, com a eleição de dois deputados para a Assembleia da República. Esse sucesso acabaria por culminar em 2009, quando o partido elegeu dezasseis deputados para a Assembleia da República e três deputados para o Parlamento Europeu.

Desde então, a expressão do gene dominante sectarista tem sido avassaladora e o passado glorioso do partido parece estabelecer-se de forma permanente como um curioso capítulo menor na história moderna portuguesa. Devido a divergências irreconciliáveis, a Frente Esquerda Revolucionária abandonou o Bloco de Esquerda, dando origem ao Movimento Alternativa Socialista. A União Democrática Popular recusou a sua extinção como associação política e impossibilitou a adopção de uma plataforma integrada de socialismo homogéneo. Um dos seus militantes mais conhecidos, Daniel Oliveira, anunciou o seu abandono do partido, acusando a direcção de ceder ao sectarismo interno e externo. Um dos seus rostos mais visíveis e uma das deputadas mais dotadas em termos de projecção vocal, Ana Drago, abandonou a comissão política do partido, devido a divergências relacionadas com uma candidatura integrada da Esquerda Caviar para as eleições europeias. Depois da saída do líder histórico, Francisco Louçã, o partido adoptou um modelo de “liderança bicéfala” e, com argumentos de “inovação” e “modernidade” e “igualdade”, provaram que são incapazes de concordar em algo tão simples como a estrutura hierárquica e mostrando aos cientistas políticos aplicações nunca antes conhecidas do termo “sectarismo”.

O sucesso do Bloco de Esquerda surgiu através da sua promoção de “causas fracturantes”. A despenalização do aborto, a despenalização do consumo de drogas, a legalização de drogas leves, o casamento homossexual, a adopção homossexual e, se Deus quiser, haverão de chegar à eutanásia. O resto pode ser resumido como um populismo oportunista que se expressa no apoio inquestionável a todos os sectores da sociedade que não contenham milionários. Os salários e as pensões devem ser aumentados, as propinas devem ser abolidas, as taxas moderadoras são inconstitucionais e o sector financeiro deve ser tratado como um cão raivoso à solta. Através da pintura deste tipo de plataforma temática numa tinta de estilo e irreverência, apelando às glândulas hormonais da rebeldia juvenil, o partido atraiu rapidamente uma massa revolucionários falhados, trotskistas nostálgicos, vegetarianos fundamentalistas, sociólogos marxistas, feministas militantes, amantes de árvores e apreciadores dos efeitos entorpecentes da canábis - tudo gente chiquérrima. Acima de tudo, o partido beneficiou de dois factores centrais: a novidade e o chocante numa cultura antiga e conservadora. No entanto, esta era a bela fachada da casa de horrores. No fundo, as motivações políticas do Bloco de Esquerda são tão questionáveis como a loucura ortodoxa do Partido Comunista Português. Ambos os partidos adoram os mesmos profetas do socialismo e vêem nos mandamentos marxistas a receita para a prosperidade eterna. Eles podem habitar casas diferentes, mas são vizinhos separados por um muro transparente. As suas casas são assombradas pelos mesmos fantasmas que vieram dos mesmos horrores da grande experiência social. A diferença fulcral entre estas duas estirpes do mesmo vírus é que, enquanto os comunistas aceitam a sua identidade e fazem questão de pavoneá-la com orgulho, os bloquistas, num exercício de ironia suprema, mantêm-se num armário ideológico, envergonhados de quem são, loucos e nus, a jurarem, de pés juntos e de punho erguido, que estão vestidos.

Este exercício foi um luxo intelectual e, se é que existe tal coisa, um dever moral. Quando questionado sobre a moralidade da existência homossexual, o Papa Francisco, afirmou que ele não era ninguém para julgá-los e que o dever cristão consistia na integração em detrimento da marginalização. Ao contrário do actual Bispo de Roma, eu aceito e pratico o julgamento. Eu considero-o uma ferramenta indispensável para a navegação nas águas perigosas da fossa séptica que é a política portuguesa. Sem o julgamento, o Bloco de Esquerda seria uma organização representativa de um credo válido num sistema político multipartidário que beneficia do confronto entre opiniões divergentes. A filosofia ensina-nos que a humanidade necessita do conflito dialéctico. A discussão é enriquecida por pontos de vista contraditórios. No entanto, as implicações centrais da ideologia do Bloco de Esquerda e da Esquerda Caviar são fundamentalmente erradas. Não admito o princípio absoluto de aceitação de opiniões meramente devido à sua divergência. Não existe um reconhecimento mínimo de validade na opinião divergente do socialismo. Essa ideologia nega a realidade dos instintos humanos mais básicos e insiste no controlo de algo incontrolável. Não tenhamos pena deles. Eles tiveram o seu tempo. Eles tiveram glórias e continentes inteiros. Em seu nome, actos horríveis foram cometidos. Mas não pensemos duas vezes. Neste país o tempo do socialismo deve acabar. No entanto, se houve algo que ele nos ensinaram, se houve algo de digno nos seus evangelhos normativos é que, a roda da história, por vezes, precisa de um pontapé vigoroso no rabo. Todos devemos tentar fazer a nossa parte e eu estou a tentar fazer a minha com esta contribuição insignificante. Devemos, sem misericórdia, sem qualquer permanência num reduto afectivo, usar a almofada argumentativa e, com rectidão impessoal, acabar com o sofrimento deste irritante paciente terminal.

quinta-feira, 13 de Fevereiro de 2014

Um Facto Particularmente Triste


“Being powerful is like being a lady. If you have to tell people you are, you aren't.” – Margaret Thatcher

Eu não tenho uma casa. Não me refiro a um edifício capaz de me abrigar da chuva, mas a uma cidade aonde eu pertença inteiramente. Eu nasci no Rio de Janeiro, onde vivi até aos onze anos, quando minha família mudou-se para Braga, onde vivi até aos dezoito. Por causa da faculdade, mudei-me para o Porto, onde vivi durante cinco anos. Há quatro meses que vivo em Lisboa, onde cheguei à conclusão que os pastéis de Belém nem sequer são os melhores pastéis que existem em Belém.

Isto não é um facto particularmente triste. Eu não medito sobre este assunto nas noites longas de chuva. É uma pedra no sapato. Como a segunda cerveja, é uma fonte ligeira de desorientação. Eu estaria a mentir se não dissesse que é incómodo ter levado uma existência seminómada que, como um circo itinerante, impossibilitou o assentar de raízes permanentes. O Rio de Janeiro é a minha cidade natal, mas a minha identidade é portuguesa. Braga é a cidade onde vivi os meus anos formativos, mas é a cidade dos meus pais. O único lugar onde consegui criar laços de familiaridade foi no Porto, a cidade adoptiva que, nos últimos cinco anos, foi para mim uma querida ama-de-leite.

Mas este texto não é sobre isso. É sobre um facto particularmente triste. É sobre a contínua obsessão nacional com galardões duvidosos. O nosso miserável costume de tentar capturar recordes mundiais com feitos como “a maior aula de judo do mundo”, “a maior aletria”, “a mesa mais comprida”, “o maior tacho de caracóis” ou “o maior pão com chouriço”. Se o nosso hábito de exaltar todos os feitos realizados por portugueses e por indivíduos com ligações remotas a Portugal pode ser considerado adorável, esta vocação para a adoração de troféus de plástico é incompreensível.

É neste sentido que a eleição da cidade do Porto, pela segunda vez, como “o melhor destino europeu do ano”, apoquenta-me. Não é uma honra verdadeira. Não é como se, num movimento espontâneo de reconhecimento alheio, o Porto tivesse sido condecorado pelo seu encanto como destino turístico. De forma a possibilitar a repetição o triunfo, ocorreu um movimento de “mobilização” para o incentivo ao voto online. Estiveram envolvidos neste esforço instituições como a Câmara Municipal do Porto, o Aeroporto Sá Carneiro e o Futebol Clube do Porto.

Aquilo que é triste é que nós somos talvez o único povo assolado pela pequenez de espírito necessária para encetar numa acção deste género. Certamente que não se ouviu o rufar de mobilização popular no rol das cidades “perdedoras” como Viena, Madrid, Berlim, Roma e Budapeste. Estas cidades são gigantes confiantes no seu valor que não viram a necessidade de corromper uma competição pela glória insípida de um prémio insignificante. A nossa justificação para esta campanha consistirá no seu potencial publicitário. Algo que, cujo efeitos, defendo eu, serão provavelmente residuais. A enorme valorização do Porto como destino turístico nos últimos anos deve-se a factores exógenos como o desenvolvimento de rotas de aviação de custo baixo. Os atributos centenários da cidade fazem o resto do trabalho.

Isto não é uma polémica e eu não estou a tentar criá-la. Eu não estou a tentar argumentar pela nulidade total deste tipo de iniciativa. É apenas um apontamento na margem do caderno nacional. Eu acho que somos um país maravilhoso e que não precisamos deste tipo de acção reveladora de complexos de inferioridade. Eu acho que o Porto é uma cidade deslumbrante que não precisa de se manter fixada em clichés antigos da “cidade do trabalho” e ideais vãos sobre a sua “singularidade”. Mesmo quando existem tantos que, como eu, considerem o Porto a nossa casa neste mundo.

domingo, 9 de Fevereiro de 2014

Crónica de uma Morte Rogada


Numa existência em que o funcionamento dos sistemas biológicos são determinados pela vontade inexorável de sobreviver, o suicídio é um fenómeno desconcertante. A aceitação ou a recusa da validade da vida era, de acordo com Camus, o único problema filosófico sério. É um problema intimamente ligado ao conceito de significado e à forma como atribuímos sentido ao mundo em que vivemos. No dia 25 de Novembro de 1970, o celebrado escritor japonês, Yukio Mishima, fez essa escolha. Depois de se barricarem num quartel, o autor e quatro outros homens tomaram o comandante militar local como refém. A ocasião foi utilizada por Mishima para difundir um manifesto político em que preconizava a devolução de poder ao Imperador e a revisão da Constituição pacifista. A reacção obtida foi nula e, como resultado, o autor e três dos seus companheiros cometeram suicídio através de um ritual de esventramento denominado como “seppuku”.

Eu não tenho quaisquer ilusões sobre o mérito intelectual da nossa classe política. Sei que é fútil pensar que um sistema político partidocrático marcado pelas idiossincrasias culturais portuguesas levará à ascensão hierárquica justa de cidadãos competentes. Os anais dos governos democráticos proporcionam um vasto registro público com os nomes de ministros e secretários sem qualquer mérito ou competência. Os nossos dois últimos primeiros-ministros são dois baluartes desta tendência inquietante, mas receio que António José Seguro represente mesmo um patamar particularmente baixo desta mediocridade.

Ao aceitar os ditames desta infeliz propensão política, é difícil argumentar sobre a peculiaridade do líder socialista. Afinal de contas, os exemplos abundam – Miguel Relvas, Armando Vara, Paulo Campos e Rui Pedro Soares são alguns nomes que habitam na memória recente. Além disso, eu já gastei tempo, oxigénio e palavras a tentar definir a mediocridade flagrante de António José Seguro. O secretário-geral socialista brinda-nos quase todos os dias com gemas de rara imbecilidade, mas esta última ideia, pronunciada ontem, é, como António José Seguro, muito especial.

O líder da oposição propôs a criação de um “tribunal especial para investidores estrangeiros”. A acção desta inovadora instituição seria activada apenas em querelas que envolvessem “montantes significativos”, de forma a criar um “ambiente amigo” para a “criação de emprego”. No entanto, este é um homem audaz. Ele não se limita a plantar ideias abstractas no mundo e deixá-las florescer em toda a sua grandiosidade. Ele oferece também implicações práticas e concretas. O tribunal, diz-nos este anjo iluminado, operará num “prazo máximo” a ser estabelecido, de forma a garantir a resolução rápida de processos judiciais envolvendo investimento estrangeiro.


Se eu tivesse estado na mesma sala onde esta proposta foi anunciada, provavelmente neste momento estaria a escrever este texto num pedaço de papel numa cela de prisão. Esta é uma daquelas ocasiões raras em que eu sinto-me verdadeiramente ofendido e, dessa forma, considero moralmente justificável encetar neste modo discursivo de ataque pessoal. Este é um período grave da história do nosso país. Um governo amplamente incompetente utiliza uma política improvisada de austeridade sem qualquer desígnio profundo de reforma. E a única coisa que o líder do único partido da oposição com intenções de governança tem para oferecer neste momento oneroso são barbaridades inócuas e propostas infantis.

O modo mais simpático de dizê-lo é que o nosso sistema judicial é ineficaz. Em 2010, o tempo médio de resolução de um processo legal em Portugal rondava os três anos (1096 dias), um valor quatro vezes superior à média europeia. O tempo médio de execução legal de uma dívida é superior a quatro anos (1600 dias). São abundantes as histórias de julgamentos prolongados durante décadas resultando na prescrição de crimes. Qualquer empresário português tem um rol enorme de histórias sobre pesadelos burocráticos intermináveis. O país já foi condenado em diversas ocasiões nas instâncias europeias devido à morosidade do nosso sistema judicial. A classe dos juízes e o Ministério Público são duas das instituições mais desprezadas em Portugal. Para resolver problemas desta magnitude, António José Seguro propõe corromper o princípio de igualdade ao discriminar arbitrariamente processos legais recorrendo a critérios duvidosos de distinção. Não satisfeito com afirmar essa abominação lógica, Seguro ainda decide afirmar a existência de poderes mágicos do estabelecimento de prazos.

Eu já li diversos artigos em que as fraquezas de António José Seguro são substanciadas na sua alegada “falta de carisma” ou “falta de liderança”. Não tenho qualquer intenção em refutar essas afirmações. O líder socialista parece mesmo ser o homem mais entediante deste planeta. Mas os seus modos inofensivos fazem com que seja fácil menosprezar as suas maquinações diabólicas. As próximas eleições legislativas serão no próximo ano e a demência socialista ameaça desfazer a curto-prazo o progresso limitado conseguido por este governo. Um político como António José Seguro faz-me ter saudades das tradições e lugares de outrora. O tempo em que líderes japoneses arruinados cometiam suicídio por questões de honra. Esperemos que António José Seguro não tenha que arruinar o país antes de se arruinar ou que, pelo menos, se isso acontecer, alguém tenha o bom senso de lhe oferecer depois uma espada bem afiada.

sexta-feira, 7 de Fevereiro de 2014

Quinze Minutos de Miró


“Já estou a caminho. Devo chegar quinze minutos atrasado. Ainda vai dar tempo para tomarmos um café.” – Português anónimo

Há dias, quando ouvi estas frases num parque de estacionamento subterrâneo em Lisboa, fiquei em choque. Oitocentos e setenta e quatro anos como nação soberana, mil modos de fazer bacalhau, setecentas e vinte páginas d’Os Maias, mil cento e duas estrofes d’Os Lusíadas e oitenta mil milhões de euros do empréstimo da troika – nenhum destes números é capaz de encapsular como aquelas três frases singelas a maldição que é ser português.

Considerem bem o encadeamento maravilhoso daquelas palavras familiares. A mentira suave da primeira frase, a indiferença rotineira da segunda e a presunção deliciosa da última. Os suíços valorizam o tempo na sua tradição de relojoaria. Os alemães tratam a pontualidade como uma virtude sagrada. Para o português, aqueles quinze minutos de atraso não contam verdadeiramente. São um património imaterial da nação lusitana. Um direito de berço. Uma lei divina entregue pessoalmente por Deus.

Esta relação impassível que temos com o tempo é um sintoma da doença maior. É um daqueles factos que parecem um estereótipo cultural, mas não é. O nosso desrespeito pelas convenções verte para tudo o que fazemos. As fezes de cão nos passeios. As beatas de cigarros no chão. A condução psicopática. O estacionamento criativo. A evasão fiscal. A corrupção miúda. Os horários da administração pública. A relação simbiótica entre greves e feriados.

No entanto, este humoroso retrato generalista da nação não se compara à imagem absurda com que se fica do homo lusitanus depois de dar uma vista de olhos por qualquer órgão de comunicação social. Se aquilo que nos dizem é verdade, o português importa-se com os quadros do Miró. O português valoriza o “serviço público”. O português quer ter um debate sobre as “praxes”. O português é contra as touradas. O português é um activista político incansável. O português pensa que os Estaleiros Navais de Viana do Castelo são um empresa cheia de potencial. O português é contra a política “deste governo”. O português respeita o Mário Soares.

É inquestionável que um dos papéis da comunicação social é seleccionar os temas de relevo e determinar a intensidade da cobertura que cada um desses temas deve ter. É óbvio que um órgão de comunicação social nunca pode definir a sua cobertura apenas segundo as lógicas da vontade dos portugueses. Mas as recentes escolhas da agenda temática levam a concluir com um grau de certeza inabalável que as redacções estão a falhar catastroficamente na construção da harmonia entre aquilo que os portugueses valorizam e aquilo que os portugueses devem valorizar.

Neste caso mais recente, eu posso garantir que o português não quer saber dos quadros do Miró. O português nem sequer sabe quem é o Miró. Na eventualidade hilariante dos quadros ficarem num museu nacional, o português não irá visitá-lo. Se por acaso visitá-los num fim-de-semana parado de Agosto, olhará para eles com choque e com a certeza de que o seu filho de sete anos seria capaz de produzir uma obra comparável. Além das alegrias do futebol e da emoção das novelas, aquilo que o português valoriza é a felicidade. A educação dos seus filhos. A saúde da sua família. Algo que tem diminuído consideravelmente nestes últimos anos. Algo que não é resolvido com uma imprensa que, no meio da terceira bancarrota da democracia, num escândalo financeiro que envolveu perdas superiores a três mil milhões de euros, decide-se enfatuar com um debate cultural sobre a venda de quadros de um pintor estrangeiro.

Enfim, é o resultado do balanço final. A entrega da factura da festa. Não há dúvidas de que este governo está a fazer um trabalho medíocre, mas a análise desse trabalho está a ser muito pior. As televisões produzem informação superficial. As rádios funcionam como televisões sem imagem. Os jornais transformaram-se em panfletos comunistas. Apesar disso, todos se proclamam como mananciais do “jornalismo de referência”. Esta comunicação social informa como se estivéssemos a viver no fim do mundo. As suas notícias reflectem-no. Quando aquilo que se precisava era de calma, inteligência e ponderação, aquilo que obtemos são gritos desesperados, o método universalmente reconhecido como a forma mais adequada de comunicar.

sábado, 1 de Fevereiro de 2014

O Futuro Japonês


Quando se observam as especulações conceptuais realizadas na década de cinquenta sobre o que seria o mundo actual, verificamos que essas não passaram de divagações afastadas da realidade. Não existem robôs sencientes. As nossas armas de fogo não disparam raios laser. Não nos movimentamos em carros voadores. Ainda não visitamos nenhum planeta. Não existem colónias na Lua. Não nos alimentamos à base de comprimidos. O motor de combustão ainda é ubíquo.

Actualmente a humanidade ainda tenta prever, com um grau inferior de erro, o futuro da segunda metade do século XXI. O autor americano, Ray Kurzweil, é consagrado pelo seu trabalho relacionado com essa tentativa de previsão. Num exercício pseudocientífico que se situa algures entre a astrologia e a neurocirurgia o autor já fez diversas previsões que se concretizaram de forma semelhante ou parcial. A explosão da Internet, aumento exponencial da capacidade de processamento de computadores, o surgimento de tecnologia de tradução textual de voz e o aparecimento de carros de condução autónoma.

No entanto, as suas previsões aplicadas ao futuro próximo são consideravelmente mais audazes. Entre outras coisas, o autor teoriza o surgimento de inteligência artificial, a proliferação de robôs no sector industrial primário e o desenvolvimento de robôs médicos na escala nano (milésimo de milionésimo), que serão inseridos no nosso corpo para realizarem manutenção. O autor prevê, para a década de 2030, o mapeamento total do cérebro humano e a possibilidade de ser realizado o upload da nossa mente num computador muito mais inteligente do que humanos. Para a década de 2040, o autor prevê que as pessoas passarão a maior parte do tempo imersas em realidade virtual e que existirão híbridos humanos-robô, potencialmente imortais.

É óbvio que parece uma previsão extraordinariamente rebuscada. Mas o futuro dá-nos diversos sinais. Em 1997, um computador chamado Deep Blue venceu um conjunto de seis partidas de xadrez contra o campeão mundial Garry Kasparov. Em terras nipónicas insistem em tentar criar robôs feminizados assustadores para fins de gratificação sexual. Na imprensa lêem-se suspiros da cura da sida e de vitórias na batalha contra o cancro. A assistente virtual do Iphone demonstra uma complexidade operativa espantosa.

O filme de Spike Jonze, Her, conta a história de um homem que se apaixona por um sistema operativo com inteligência artificial, carácter humano e personalidade feminina. Esta dramatização envolve uma sociedade futurista onde esses sistemas operativos são tratados como humanos por pessoas desapontadas pela imperfeição complicada da interacção humana real. Os dilemas existenciais surgem relacionados com a dificuldade em aferir se, num mundo onde a inteligência artificial é comparável com a inteligência humana, os sistemas operativos são uma forma real de existência.

Eu não gosto desta visão do futuro, mas recuso-me a ceder a tendências luditas. Não recuso os produtos do avanço do engenho humano. Não choro de nostalgia pela falsa romantização de certos períodos do século XX. Eu não sei como será o mundo em que viveremos no futuro distante, mas, se for de alguma forma semelhante ao futuro projectado, e se for tão horrendo quanto o plano do novo estádio do Real Madrid, espero que tenham o bom senso de inventar também uma máquina do tempo, para que eu possa fugir para o passado.