domingo, 19 de abril de 2015

Sobre a banalidade dos homens - II


“This is the day upon which we are reminded of what we are on the other three hundred and sixty-four.” - Mark Twain, sobre o primeiro de Abril

Rodrigo de Borja, conhecido profissionalmente como Papa Alexandre VI, teve um pontificado de onze anos, entre 1492 e 1503. Subornou cardeais para garantir a sua eleição. Atribuiu cargos importantes a membros da sua família e a membros da família da sua amante, Vanozza Catonei, com quem teve quatro filhos. Organizou os três casamentos da sua filha Lucrécia de acordo com necessidades políticas. Vendeu indulgências como se fossem commodities em mercados internacionais. Os rumores que circulam à volta do seu mito incluem palavras como incesto, homicídio, envenenamento e orgia.

Quando Jorge Bergoglio se transformou no Papa Francisco, ele decidiu morar na casa de hóspedes do Vaticano, rejeitando o luxo do tradicional apartamento papal. Lavou os pés a doze detidos de prisões romanas. Abdicou dos tradicionais ornamentos dourados que embelezavam decadentemente a figura papal. Trocou o trono extravagante do Bispo de Roma por uma cadeira respeitável. Substituiu os tradicionais sapatos vermelhos de couro por um par de sapatos banais. O seu ascetismo foi aplaudido. Até alguns ateus de serviço se juntaram à salva. Outras pessoas, no entanto, criticaram a santíssima decisão, assim como a torrente ingénua de elogios que se seguiu.

Afirmaram que não era suficiente - o Papa não tinha montado uma tenda humilde na Praça de São Pedro. Os museus do Vaticano estão cheios de tesouros avaliados em milhares de milhões de euros enquanto nações inteiras passam fome. A instituição católica continua tingida por uma opacidade tenebrosa que oculta escândalos chocantes. É natural que existam discordâncias, mesmo nas coisas mais simples. Afinal, unanimidades absolutas só no Comité Central do PCP. Mas uma pergunta impõe-se: o que é que podemos concluir sobre a natureza humana quando mesmo actos deste género são criticados?

Nada de mais, para ser sincero. É perigoso extrair conclusões abrangentes de pedaços avulsos de informação. Mas aceitando esse perigo, poder-se-ia arriscar e concluir que um certo cinismo irónico venceu, instalando-se como o tom preponderante do nosso discurso cultural.

É um mundo onde as nossas almas se retraem com náuseas cada vez que se fala de honra e moral e certo e errado, como se essas questões fossem simples e o debate já estivesse resolvido. Assume-se que nascemos livres e puros, que a bondade é intrínseca no coração humano, e que a única coisa que resta é a busca da felicidade e a procura pelo prazer. Aqueles que ousam pregar do púlpito, mesmo do púlpito secular, são ostracizados pelo relativismo céptico de quem se julga o detentor inquestionável da sabedoria.

É certo que o Papa não realizou nenhum acto extraordinário na sua decisão de recusar a mansão papal. O mundo não mudou porque ele decidiu rejeitar a ostentação que tradicionalmente cobria o sucessor de São Pedro. Mas esta questão tem implicações mais graves e mais subtis.

Esqueça-se o Papa Francisco e considere-se o Jorge Bergoglio. É um homem. Come e dorme. Olha-se ao espelho. Arrota. Bate com o dedo mindinho nos móveis. Usa papel higiénico. Tem erecções. Ele provavelmente até acorda da mesma forma que nós. Abre os olhos, mas não quer sair da cama. Fecha os olhos, e cede àquele impulso misantropo de pequena duração que nos faz duvidar do valor da existência fora do conforto enrodilhado de cobertores quentes. Depois, num gesto corajoso, masoquista e banal, arranca as cobertas, pousa os pés no chão frio de madeira envernizada e luta para manter os olhos abertos.

Esta pequena batalha – acordar – é partilhada por todos. É superficialmente insignificante. Mas quantos de nós, se estivéssemos na posição do Papa, teríamos abdicado do que ele abdicou? Acordar pode ser uma batalha pequena, mas é uma batalha que seria ganha com maior facilidade no conforto do apartamento papal. Qualquer um de nós, uma grande maioria, provavelmente, teria muita dificuldade em recusar todos aqueles símbolos de poder. Mesmo sendo o representante máximo de uma religião que prega a humildade, aproveitaríamos a oportunidade suprema de sermos algo próximo de mestres do universo, alguém que vive num palácio, veste-se de seda, adorna-se com ouro e influencia o mundo com apenas meia dúzia de palavras. E sejamos honestos. Um homem que é voluntariamente abstinente precisa de todos os outros prazeres que a humanidade tem para oferecer. Ao retirar-se o sexo da equação, o mínimo que podem fazer pelo homem é cobri-lo com ouro e oferecer-lhe um palácio onde se serve lagosta todos os dias.

Os tempos são outros. O mundo de hoje nunca toleraria a devassidão que reis e papas desfrutaram no passado. Mas criticar o Papa Francisco desta forma não é um exercício de cepticismo saudável. Não há nenhuma grande hipocrisia escondida no papado. A hipocrisia é criticar este Papa por fazer coisas que poucos fariam. Não que ele seja assim tão exemplar, ou assim tão bom e puro, mas, nós, na esmagadora maioria, não somos nem exemplares, nem bons, nem puros. O problema aqui não é reconhecermos a superioridade moral do Papa. É não reconhecermos que, na maioria dos casos, o nosso pontificado estaria mais próximo de Alexandre VI do que de Francisco. E certamente que não teríamos lavado os pés de ninguém. Nem sequer os nossos.

terça-feira, 17 de março de 2015

Sobre a banalidade dos homens


“Galileu escrevia muito bem. Li-o em traduções medíocres. Disse, diante dos inquisidores, que isto não se movia: gozava, ao dar-lhes razão, inteligente como era: porque isto, de facto, não se move.” - Sebastião Alba

Há erros que deixam de existir depois da morte. Pais alcoólatras se transformam em santos, filhos ingratos em anjos, terroristas em mártires, homens banais em mitos. Esse esmalte purificador é uma das vantagens inegáveis do passado. Depois de tempo suficiente, até o mal deixa saudade. As memórias ganham contornos mágicos que nos garantem que o presente é sempre pior e que o futuro nunca será melhor.

Os museus estão entupidos com exemplos. Os retratos pintados de reis eternizam a imagem sagrada de líderes serenos e magnânimos. As esculturas de filósofos gregos criam ideais de sabedoria e tenacidade que nunca conseguiremos atingir. As fotografias a preto e branco de estrelas de rock falecidas lembram-nos que nunca teremos tanto estilo como aqueles que possuem a sorte de serem eternamente jovens. Raramente lembramo-nos da violência, da crueldade, da loucura ou da imoralidade desses vultos do passado.

Nem é necessário argumentar, bastam as imagens. Contraste-se a serenidade magnânima dos reis do passado com o escárnio jocoso com que olhamos para o bigode farfalhudo de D. Duarte Pio; a serenidade tenaz dos filósofos do Antigo com a ironia com que avaliamos a utilidade da filosofia no mundo moderno; a rebeldia estilosa que Jimi Hendrix levou para a cova com o declínio biológico que Bob Dylan tem a sorte de usufruir; a evocação respeitosa de Che Guevara com a comicidade involuntária de Fidel Castro e os seus fatos de treino.

Consideremos o nosso caso nacional. Enquanto Mário Soares definha à frente das câmeras, a memória de Sá Carneiro recebe um elogio fúnebre eterno. Sá Carneiro é o pai espiritual da social-democracia portuguesa e, se não tivesse morrido, o país seria diferente. Era um político inigualável, um estadista exímio, um homem à frente do seu tempo, um conciliador de vontades, capaz de unir gregos e troianos, portuenses e lisboetas, sal e açúcar. Era o único homem que poderia ter carregado este naco de terra nas suas próprias costas em direcção ao progresso que a nossa constituição comunista tanto exalta. Sá Carneiro é o melhor político que alguma vez existiu em Portugal. Com comendas de tal ordem, facilmente se conclui que o maior erro político de Mário Soares foi não ter morrido tragicamente num acidente de avião. Se queres fazer obra, morre.

No presente, a glorificação do banal assume outra forma. Pasmamo-nos com os excessos alucinados do culto norte-coreano de deificação política, mas, ignorantes da nossa retumbante estupidez, não conseguimos ver que fazemos a mesma coisa. Numa versão aguada, é certo, mas que funciona segundo a mesma lógica.

Rejeita-se a responsabilidade e deposita-se toda a esperança numa figura mítica, num milagre dos céus ou num acaso da sorte que obrigue o universo a reconhecer legitimidade dos nossos desejos. Com isso, descobre-se no desamparo a solução para todos os problemas. Quando aquilo que é necessário são realismo e homens mortais que reconhecem as suas limitações, aquilo que pedimos são promessas e semi-deuses. Não nos espantemos então com a constituição moral e a competência técnica da nossa classe política: quando clamamos por homens que pensam que são o Messias, os únicos que levantam o braço são os estúpidos, os ignorantes, os loucos, ou os ambiciosos o suficiente para afirmar que são o filho de Deus.

Os partidos no poder desempenham dois papéis alternadamente. No governo, esbarram contra a realidade; na oposição, prometem diamantes e galáxias. O eleitorado adapta-se: àqueles que apoiam, exigem reciprocidade, preferencialmente manifestada em recompensas materiais; àqueles a quem se opõem, exigem perfeição, sabendo e ignorando que esta não existe. Nos interlúdios, perdemo-nos na eclosão mediática de “escândalos” que a imprensa encontra, eventos com o valor de uma moeda de cinco cêntimos perdida no chão; tem valor, mas não é suficiente para me fazer parar. Ignoramos a doença, mas ficamos ultrajados com os sintomas. Confrontados com a complexidade inerente a qualquer problema, contentamo-nos com o fatalismo de costume, cedendo à generalização desinformada de que os políticos são todos os iguais.

É como ver babuínos a atirar fezes uns aos outros: até seria engraçado, se não fosse tão tristemente previsível. O apelo desaparece rapidamente, passando do fascinante para o engraçado, do engraçado para o patético, e do patético para a repulsivo. O resultado final é o mesmo. Ficamos todos um pouco mais sujos, um pouco mais cansados e muito menos respeitáveis, sabendo que nada mudou e que ninguém aprendeu nada, confundindo o alívio nos intestinos com um sentimento de realização. E continuamos aqui, com merda a pingar da testa, à espera que alguém, Sá Carneiro ou D. Sebastião ou António Costa, tanto faz, retorne, num dia qualquer, ou numa manhã de nevoeiro, cheio de jet-lag, para salvar esta nação cheia de pessoas à espera de serem salvas.

segunda-feira, 9 de março de 2015

Fiscais

O nosso primeiro-ministro é um líder político cujo discurso e actuação sempre se pautaram pelo rigor financeiro e pelos apelos ao sentido cívico e de responsabilidade. Quando se descobrem registos de que o seu passado não é assim tão isento de falhas, é natural que palavras como hipocrisia e falsidade pululem pelas vozes da opinião pública.

Eu vou tentar que este texto não possa ser confundido com uma apologia ao comportamento de um primeiro-ministro que já em muitas ocasiões demonstrou pouca habilidade política, nomeadamente a gerir situações com esta. Também eu tenho muitas interrogações em relação a este caso, assim como certezas de que algumas coisas foram mal manejadas, e as tentativas de desculpabilização e de absolvição roçam o ridículo. O homem estava tão desesperado que foi pagar uma multa prescrita. A quem e como é que falta averiguar.

No entanto, o meu problema com este caso é bem mais político do que ético. A fuga ao fisco é uma tradição que não pode ser esquecida, e muito menos condenada por quem a ajudou a propagar. Não peço ao cidadão que ignore o facto de termos um primeiro-ministro com um passado fiscal incumpridor e, sobretudo, obscuro. Deve haver escrutínio, deve haver rigor. Rogo apenas a que haja coerência de ideias, quer no elogio, quer na crítica. E não o faço exclusivamente a quem, como podem julgar, tem na fuga aos impostos um hábito. É importante porque não só os incumpridores fiscais pecam por falta de coerência ao opinar sobre este caso.

Para haver coerência, naturalmente terá de haver uma referência, um padrão opinativo. Isso não existe no cidadão comum. O cidadão quer políticos honestos, mas condena quem mostra honestamente que andámos a viver em regabofe e que é preciso pôr um travão. O cidadão reclama serviços públicos de alcance global, mas ataca a tirania do Governo quando este cobra os impostos que permitem ao Estado cobrir essas despesas. Um dia alongar-me-ei sobre as inconsistências argumentativas do povo português. Para já, alerto para a sua existência, e para o quão precipitado é avaliar o comportamento ético de alguém pelo seu passado de descontos para a segurança social.

Outra coisa: Passos Coelho não é um baluarte da honestidade. Mas o que é preciso não olvidar é que, como o primeiro-ministro se esconde por trás dos erros do seu antecessor, não podemos esconder atrás dele as falhas os nossos enganos colectivos - sociais e políticos - que foram decorrendo ao longo das décadas de democracia.

A nível de exemplo e de integridade, este caso é um escândalo lamentável e evitável. Mas o diagnóstico que Passos sempre fez do sistema fiscal é correcto e certeiro. Não se deixem enganar pelas suas fugas ao fisco: há oncologistas que fumam.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

O Predador Alemão


Como qualquer outra presa racional, analiso o nível da ameaça. O predador é temível, dizem. Adapta-se facilmente à mudança. Organiza-se em bandos que trabalham de forma eficiente e produtiva. Escuto rumores desconcertantes sobre o seu passado. Parece que outrora, liderados por um homem louco, mataram muita gente. E, pelo que dizem, estão a tentar acabar connosco. Não tenho a certeza se ouvi bem, mas acho que lhes chamam “alemães”.

No entanto, devo confessar: quando vi o predador ao vivo, não encontrei sinais ameaçadores.

Normalmente andam em grupos de quatro: dois adultos, homem e mulher (presumivelmente um casal), e duas crianças (presumivelmente a prole). Falam numa língua ríspida e desagradável, é certo, mas sorriem constantemente. O cabelo dos filhotes era anormalmente loiro (quase branco). O vestuário que usavam possuía uma combinação de cores arrojada (amarelo-torrado, rosa-salmão, vermelho-vivo), mais extravagante do que os indígenas lusitanos ousariam vestir.

O gesto mais assustador que testemunhei foi quando o macho adulto levantou os braços subitamente para tirar uma fotografia (com uma câmera “Leica”, julgo eu) à Basílica da Estrela. Quando correram para apanhar o eléctrico, não vislumbrei atributos físicos fora do normal. Temi que estivessem a aproveitar o espaço fechado do eléctrico para matar presas com maior facilidade. Mas tudo o que aconteceu foi que a fêmea adulta pagou pelos bilhetes enquanto o resto da família se sentou nos bancos. Não sei explicar, mas quando o eléctrico partiu, ainda sorriam. Para ter a certeza, verificarei na minha enciclopédia, mas penso que observei a subespécie alemã de “turistas”.

Acabei por concluir que aqueles espécimes eram excepções, versões mais mansas das criaturas sanguinárias que habitam no centro da Europa. Afinal de contas, por onde quer que se ande, para onde quer que se olhe, abundam vozes desesperadas a avisar dos perigos que eles trazem. Roubam-nos crescimento, dizem. Desviam crescimento também. Eles nada dão, só emprestam, e em condições que são meramente “favoráveis”.

Há quem diga que até já são os alemães que mandam em Portugal. Nada acontece sem a sua aprovação. Há quem jure que quando os portugueses votaram para eleger o governo, há quase quatro anos, havia alemães disfarçados em todos os locais de voto, incumbidos com a missão de cumprir a vontade da líder germânica, designada pelos compatriotas como “Merkel”.

Mas depois fiquei ainda mais confuso.

A “BMW”, uma empresa alemã, é a quarta marca de carros mais vendida em Portugal. E, segundo fontes anónimas, vendem carros caríssimos. O que é estranho, tendo em conta a gritante pobreza da nação lusitana. São os alemães que nos obrigam a conduzir carros de elevada qualidade, só pode ser isso. Mas há mais: descobri que a Alemanha (o habitat natural dos “alemães”) é um dos maiores investidores estrangeiros em Portugal. Pensei que se tratava de um erro. Mas é verdade. A “Leica”, a marca da câmera fotográfica carregada pelo macho adulto que observei, é uma empresa alemã, e noventa por cento das suas câmeras fotográficas são produzidas em Portugal. A Autoeuropa, outra empresa alemã, é responsável por dez por cento das exportações portuguesas.

Depois percebi. É um truque. É que estes alemães, enfim, querem estimular a nossa dependência. Não sei exactamente porquê, mas as razões são irrelevantes. Tenho a certeza que não podemos confiar neles. Tantas vozes em uníssono não podem estar erradas. O Mário Soares, a nossa estrela mais brilhante, a nossa fonte inesgotável de lucidez neste poço escuro de ignorância, não pode estar errado. Alguém tem de fazer alguma coisa. Isto tem de parar. Basta de investimento a longo-prazo, basta de turistas ricos e felizes, bastas de carros potentes, basta de maquinaria industrial de elevada qualidade. Basta.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Direito de Resposta


Caríssima Teolinda Gersão,

Li a sua carta. O ataque de riso subsequente quase me matou. Mas, mesmo assim, obrigado. Teria sido um prazer ter morrido depois de uma leitura tão interessante. Digo isto com toda a sinceridade. Numa altura em que meio mundo corre atrás de soluções mágicas para a crise da imprensa, a sua carta bacoca encapsulou com requinte todas as razões que conduzirão os órgãos de imprensa a uma morte lenta e incauta.

Mas falemos daquilo que tanto a preocupa. A praxe. A vil praxe. A ignóbil, corrupta e abjecta praxe. Não faço tenções de representar a classe dos “caloiros”. Não sou um caloiro. Nem sequer fiz parte da praxe. Mas acho que é correcto afirmar que as pessoas que constituem esse conjunto vasto e diverso de seres humanos não gostam de serem endereçadas como uma manada de animais irracionais nesse tom altivo de avó preocupada. Respondo apenas como uma pessoa normal, alguém sem uma sardinha a assar, apenas um cidadão preocupado.

Não irei oferecer argumentos a favor da praxe. É difícil encontrar um assunto que seja tão desinteressante quanto esse. Mas posso dizer que os seus argumentos são tão ridículos quanto o seu nome. Na sua visão, até os animais possuem um nível maior de protecção do que indivíduos que participam na praxe. Mesmo que a sua asserção tenha sido metafórica, a falsidade da ideia é gritante. Indivíduos que são praxados, ou, na linguagem técnica que a senhora rejubilou em usar, “caloiros”, possuem exactamente as mesmas protecções legais que qualquer outra pessoa. A lei não é suspensa no momento em que pessoas se vestem de preto e seguram colheres gigantes. A liberdade é um conceito estranho, não é? É a noção maluca de que, desde que não atentem contra a liberdade alheia, às vezes outras pessoas podem querer realizar actos com os quais não concordamos. Mesmo que esses actos consistam em abdicar parcialmente da liberdade individual.

Quanto a esta analogia intelectualmente devastadora – “Que fariam se um professor vos mandasse rastejar no chão? De certeza que não obedeciam, e o professor teria problemas, e apanharia com razão um processo em cima.” - é mesmo necessário explicar-lhe o quão ridículo qualquer actividade ritualística parece fora do seu contexto natural, especialmente para alguém que não está incluído nesse ritual? É por essa razão que não vemos cirurgiões a cantarem o hino nacional durante operações ou pessoas vestidas de Pai Natal durante a Páscoa. Não sei quando é que foi a última vez que a senhora saiu de casa, mas o mundo não funciona segundo a lógica de desenhos animados onde o certo, o errado, o bem e o mal são óbvios e lineares. E, caso não saiba, a aplicabilidade dos preceitos morais de contos de fadas na vida real é mais limitada do que a senhora parece pensar.

Como em qualquer outro contexto, por vezes abusos e exageros ocorrem. Mas isso não invalida a actividade praxística como um fenómeno cultural legítimo. De forma semelhante, a gestão de Isaltino Morais não invalidou o município de Oeiras, a eleição de António José Seguro não invalidou o Partido Socialista, e o bigode do Hitler não invalidou nem a Alemanha, nem a existência de pêlos faciais. O seu erro foi pensar que aquilo que falta às dezenas de milhares de pessoas que todos os anos participam proveitosamente das actividades praxísticas é acesso a senso comum, algo que, tendo em conta o tom condescendente que utilizou na carta, a senhora julga ter em quantidades infinitas. Não será a razão pura que acabará com a praxe, assim como não é a razão pura que explica e legitima inúmeros fenómenos sociais.

Agora, se me permite, serei eu a dar-lhe um pequeno conselho. Se a senhora quer falar sobre abusos desnecessários, não é necessário incomodar-se e escrever artigos de opinião idióticos. Tudo o que tem a fazer é olhar para o seu próprio Cartão do Cidadão, ler as palavras lá inscritas e questionar a crueldade demoníaca que é infligir a alguém o nome de “Teolinda Gersão”. Eu sei que não é tão prestigiante quanto publicar um artigo num jornal, mas pelo menos pouparia tempo, que é algo que, se fiz bem as contas, a senhora não tem de sobra.

Atenciosamente,

Leandro Silva

PS: Bem sei que gozar com o nome de alguém é infantil e ridículo, especialmente quando feito por um adulto, e, ainda pior, por um adulto chamado Leandro. Mas se há algo que me irrita, se há algo que põe o meu sangue a ferver como metal derretido é pseudo-pedagogia paternalista despejada sobre adultos vacinados. Juro. Essa merda há-de me levar para a cova.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Horror na Moda Lisboa


Dependendo de circunstâncias práticas e perspectivas filosóficas, a vida pode ter valores diferentes. A vida é boa, a vida é má, a vida é curta e a vida é difícil. Mas nenhuma outra experiência no âmbito da existência humana consegue proclamar, com tamanha certeza, que a vida é estranha, do que ir à Moda Lisboa. A minha definição original do Inferno na Terra envolvia bombardeamentos aéreos, fome generalizada, epidemias imparáveis e o som constante de metralhadoras automáticas. Essa definição mudou. Eu estive diante dos portões do Inferno, e vi a sua verdadeira forma: não tem fogo, não está localizado debaixo da terra e o seu nome é, garanto-vos, Moda Lisboa.

As coisas que eu vi e as coisas que eu testemunhei alteraram permanentemente a forma como eu interpreto a interacção humana. Não foi apenas uma coisa. Foi tudo. Foi como se eu tivesse ingerido LSD e depois tivesse sido teletransportado para uma escola secundária para adultos onde era Carnaval todos os dias. Um grupo de pessoas se juntou para sentarem-se em arquibancadas chiques para observar manequins de plástico a andarem como dinossauros bípedes vestidos com roupas que gritavam loucura como a actriz principal num filme do Hitchcock.

Aquilo que foi mais estranho é que a roupa – a razão pela qual todos lá estávamos - parecia ter a mesma importância que notícias de instabilidade política na Tanzânia. Durante o próprio desfile, não havia uma multidão coesa a formar um bloco de atenção colectiva. Eu arriscaria a dizer que nem metade daquelas pessoas estavam ali para ver os desfiles. A maioria dos presentes dedicaram o seu tempo a mexer em telemóveis, roer unhas, fumar cigarros electrónicos, tirar selfies e fazer festas em cães minúsculos carregados em bolsas.

Mas aqueles que assistiram verdadeiramente aos desfiles foram possuídos por descrença pura. Eu não sei se aquilo é arte, ou se alguém, algures, está a rir-se dos idiotas que levam aqueles trapos a sério. Aqueles que tentavam justificar a relevância artística das obras diziam: é moda. Não tem que fazer sentido. É conceptual. É algo que não deve ser interpretado. É algo que deve ser experienciado. A verdade é que, pelo aspecto da “obra” apresentada, a Chanel poderia usar o revestimento do estômago de fetos chineses abortados na roupa e aquelas pessoas iriam elogiá-los pelo uso audaz de “reciclagem biológica”. Tudo para manter viva a ilusão de que o julgamento da arte, e especialmente da moda, não está sujeito a qualquer tipo de objectividade.

A roupa não era simplesmente má, e eu não posso limitar esta crítica à asserção de que a roupa apresentada não fazia sentido. Porque fazia. Fazia muito sentido. O problema é que aquilo não era roupa. Era um pedaço de tecido desenhado por pessoas sem ideias que pensam que agir de forma aleatória é equivalente a ser artístico. Eu estava pasmo, mas apaziguado pela confirmação de que não estava sozinho na minha estupefacção. Reconheci no olhar daqueles que assistiam aos desfiles os contornos faciais daquilo que eu sentia: confusão, indiferença e choque.

E as pessoas. Se eu começar a descrever as pessoas presentes, terei dificuldades em parar de escrever. A Biologia e a Geografia podem colocar a origem do Homem em África, o nosso imaginário cultural pode ver no continente africano uma terra mística de primitivismo selvagem, mas é ali, ao longo da passarela, debaixo dos holofotes, à frente dos flashes e entre os espelhos, que é possível observar a expressão natural do Homem como um primata, um primo distante de chimpanzés, gorilas e orangotangos.

É provavelmente o lugar deste planeta com a maior concentração de purpurina por metro quadrado. Duvido se muitas daquelas pessoas tinham almas - ou já foram vendidas, ou estão a gritar desesperadas numa caverna recôndita dentro dos seus corpos. O Diabo aparece em todo lado, mas especialmente nos pequenos detalhes. Aquilo que se vê não é atenção ou zelo. É obsessão na sua forma mais pura. Eu consigo ver todas aquelas pessoas a passarem horas à frente de espelhos, cercados por montanhas de roupas, à procura de uma combinação milagrosa de compatibilidade estética. As escolhas não foram feitas com o objectivo de cativar, impressionar ou atrair. Elas foram feitas com a intenção clara de subjugar, intimidar e desprezar.

Os olhos são descritos como janelas para a alma, espelhos que reflectem as nossas intenções verdadeiras, mas aqui eles reflectem julgamento impiedoso. Os olhos perscrutam a sala em movimento horizontas (identificação do alvo) e em movimentos verticais (julgamento do alvo). O estatuto, as castas, as reputações – tudo aquilo que os sistemas sociopolíticos tentam anular têm aqui a sua expressão máxima. Entradas separadas para Pessoas Muito Importantes. Famosas chegam atrasados e são simplesmente transportados para início da fila. A hierarquia de lugares é real – quem se senta aonde, em que fila, ao lado de quem.

Eu dei por mim a sentir medo de cantos escuros e corredores vazios. Tudo parecia indicar que, dadas certas circunstâncias, alguém esfaquear-me-ia nas costas e abandonaria o meu corpo no beco das traseiras, apenas porque sim. Desconfiei de todos – os fotógrafos, os empregados de mesa, os seguranças, a socialite milenar de óculos escuros, os estudantes de moda vestidos com roupas ainda mais implausíveis do que aquelas pavoneadas na passarela, as mulheres ocupadas e sérias que escreviam mensagem nos telemóveis com a violência repetitiva de martelos pneumáticos.

Quando finalmente saí do recinto, percebi que o meu esfíncter tinha estado contraído durante todo aquele tempo. A minha respiração estava rasa. Tudo no meu corpo indicava que eu tinha acabado de passar por um evento potencialmente mortal. No quotidiano as pessoas tentam esconder as suas emoções verdadeiras e esforçam-se para reprimir qualquer instinto de julgamento. Mas ali o julgamento é realizado à descarada, com o conforto natural de turistas alemães numa praia nudista e com a intrepidez indiferente de uma prostituta a ler a TV Guia sentada numa cadeira de praia na berma da Via Norte enquanto espera por clientes. Neste país, que adora viver como um depravado hipócrita às escuras, isso é maravilhoso. Perturbador, mas maravilhoso. Pena que essa maravilha esteja tão apaixonada pela sua própria mediocridade. Mas posso dizer: mal posso esperar pelo próximo ano. Desta vez hei-de levar o meu chapéu de safari e os meus binóculos.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

A Retórica Bovina da Palha


“(Os governantes) são todos uns ignorantes e idiotas” – Mário Soares

É uma paisagem típica do Verão alentejano. Os arbustos secos sobre o solo árido. As planícies ocupadas por campos de milho. As casas isoladas no cimo dos montes. Os batalhões de sobreiros e os pelotões de oliveiras. Mas eles não estão sozinhos. Ela também está lá. A palha. Empilhada no reboque que é puxado por um tractor vagaroso. Atirada ao ar por crianças e espalhada pelo vento. Enrolada em fardos redondos e paralelepipédicos. Mastigada pelas bocas ruminantes do gado feliz. É exactamente ali que ela deve estar. É ali que ela pertence.

Abra-se um jornal, leia-se uma revista e veja-se um programa televisivo. Observe-se o parlamento, os noticiários, os fóruns de opinião e os debates políticos. Depois de estarmos devidamente apetrechados com um fato de protecção química e um tubo de oxigénio, leia-se as caixas de comentários. Não sei como é que ela chegou ali, mas sei que ela – a palha – migrou do seu tradicional posto agrícola para as bocas dos nossos agentes culturais, sociais e políticos, onde se instalou sem quaisquer intenções de sair no futuro. Brevemente, se nada se fizer, passará a dispor de estatuto de dialecto oficial.

Essa palha, depois de navegar pelo sistema digestivo da humanidade, passando pelo intestino grosso da cidadania e pelo recto da consciência social, origina o produto final da retórica humana – uma mistela podre, malcheirosa e desprovida de nutrientes. Uma espécie de epidemia assolou esta nação e causou uma regressão evolutiva que nos relegou para criaturas que comunicam através de chavões, grunhos e clichés.

Generaliza-se impunemente sobre os desejos íntimos das “pessoas”. Fazem-se interpretações míticas sobre o “futuro da nação”. Propõe-se, com uma seriedade cómica de académico a apresentar o resultado de décadas de investigação, que a solução está na “estratégia”. Decreta-se que aquilo que é necessário é “esperança”. Promete-se “mudança” pela bilionésima vez e, nós, como esposas submissas que atribuem as nódoas negras causadas pelos punhos do marido aos degraus das escadas, aceitamos tudo. Depois, numa bipolaridade promíscua, recebemos estas palavras vazias como declarações eternas de amor, e acreditamos cegamente quando nos dizem que a culpa não é nossa, que a culpa é “deles”, dos outros, dos maus, “daqueles que nos governam”, dos “mercados”, da “austeridade”.

Aceitamos a retórica e contentamo-nos com o alívio das piadinhas de costume. Os trocadilhos são produzidos com a eficiência monstruosa de uma fábrica chinesa. Qualquer coisa serve - utiliza-se a palavra “irrevogável” como arma de arremesso, chama-se isto de “piegas” e aquilo de “neoliberal”, reduzem-se os “submarinos” a argumentos desesperados e, quando tudo falha, pronuncia-se a sigla mágica – “PPP” – que garante a vitória em qualquer discussão, e permite que o arguente se deleite enquanto a união soprada do lábio inferior e superior produz a repetição triunfante do som da letra “p”.

No “Prós e Contras” observam-se debates que transformam as conversas bêbadas e inflamadas no tasco duvidoso da esquina na apologia de Sócrates. Os dois candidatos à liderança do único partido da oposição afirmaram, numa corrida entre uma tartaruga e uma tartaruga coxa, perante os olhos incrédulos de metade do país (aqueles que não tinham entrado em coma), que a solução para crise é o crescimento económico e que a solução para criar crescimento económico é fazer com que a economia cresça. Este fenómeno acontece repetidamente, e em nenhuma ocasião ocorreu aos jornalistas presentes nas proximidades questionar este exercício carnavalesco de lógica da batata. Expressões como “reindustrialização”, “qualificação”, "cadeias de valor" e “aumento de riqueza” são pronunciadas, e os cavaleiros da verdade, os paladinos da democracia, os guerreiros da cidadania dão-se por satisfeitos, crentes que, graças aos seus esforços altruístas, a liberdade abrilesca do povo continuará protegida dos abusos do poder corrupto.

No fundo do buraco, o cenário é ainda mais deprimente. Nas entrevistas conduzidas depois das partidas de futebol, os jogadores falam. Foi um jogo difícil, fomos prejudicados pela arbitragem, entramos bem na segunda parte, entramos mal na primeira parte, soubemos sofrer, merecíamos a vitória, lutamos pelo empate, o resultado é justo, o resultado é exagerado, o segundo cartão amarelo era desnecessário, foi penálti, não era fora-de-jogo, temos que trabalhar, o importante é a equipa, já estamos a pensar no próximo jogo, graças a Deus, graças ao apoio dos adeptos, é assim o futebol, às vezes perdemos, às vezes ganhamos, boa noite. O problema não está na repetição semanal das declarações nas quais jogadores de futebol vomitam a mesma massa amorfa de betão discursivo. O problema é que os canais de televisão insistem em realizar estas entrevistas e os espectadores insistem em assisti-las.

Não nego. O choque inicial é fútil e interesseiro: estas pessoas recebem mesmo dinheiro por isto? Mas depois, como alguém que prestou atenção às aulas de Formação Cívica, o choque transforma-se em genuína preocupação social. Enquanto o Putin continuar em Donetsk e o vírus da Ébola continuar no sovaco africano, é aqui que reside o núcleo da “crise de valores” da civilização ocidental (da qual fazemos parte, aos Domingos e feriados). Na evocação de banalidades. Na celebração do irrelevante. Na dramatização do inevitável. Na constatação do óbvio. Na institucionalização da linguagem. Na cauterização do significado. Na evisceração da complexidade. Na espiritualização do politicamente correcto. Estes fenómenos não são novos, mas agora, graças à difusão sifilítica nos “meios de comunicação” e nas “redes sociais”, o seu impacto é exponencialmente maior. Mas não nos preocupemos em demasia. Não pensemos. Afinal de contas, hoje em dia, quem é que tem tempo para tal coisa?

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Águas Passadas


"A maioria dos homens persegue o prazer com tanta impetuosidade que passa por ele sem vê-lo." - Soren Kierkegaard

Quão difícil era a vida. O silêncio imposto por fantasmas. A inexistência de cuidados médicos. A ameaça distante, mas presente, da fome. A frieza humana que era um pré-requisito para viver. Era a ditadura - esse horror tão básico e tão comum que é incompreensível para as almas da minha geração privilegiada. A minha mãe jura que o meu avô já foi um homem soturno e agressivo, e eu, confrontado com a amabilidade desarmante que o define nos dias de hoje, tenho dificuldades em acreditar, mas enquanto caminho sozinho pela casa vazia dos meus avós maternos, vejo os sinais desse passado.

As portas grossas, pesadas e ruidosas da casa possuem três fechaduras e duas travas de ferro. As fechaduras comportam chaves maiores do que as minhas mãos. O movimento rotativo das chaves abana toda a estrutura da porta à medida que o intrincado mecanismo de linguetas encerra a casa com o resguardo preventivo de um castelo medieval à espera das tochas e dos engaços de uma multidão enlouquecida. Na antiga sala de estar os sinais multiplicam-se. Nas fotografias a preto-e-branco de familiares mortos – de tuberculose, de desgosto, em acidentes de trabalho, de cirrose, na guerra, por motivos desconhecidos – não se observa um sorriso. A base metálica do ferro de engomar era aquecida por brasas cuja incandescência deixaram cicatrizes na ponta dos dedos da minha mãe. A lamparina a azeite que era a única fonte de luz numa casa onde viviam seis pessoas. Um pequeno armário expõe com frieza museológica os pertences íntimos do meu bisavô – um relógio de bolso (que ainda funciona), um garrafinha minúscula com água-de-colónia (que ainda perfuma) um canivete enferrujado (que não abre) e um par de óculos (com apenas uma lente).

Ando pelo corredor escuro que percorre a sala, a cozinha e os quartos. Toda a casa acumula em colecções dispersas os objectos dessa vida agreste: atiçador de brasas, canetas de tinta permanente, cartões-postal das colónias, gravuras religiosas e souvenires daqueles que fugiam para a França. Sou obrigado a desviar a minha cabeça para não magoar as pequenas andorinhas brancas de porcelana suspensas no ar. No final da tarde, sem os óculos, olho para elas, para o seu movimento delicado que dança em ciranda com o vento e com as cortinas, e imagino-as vivas, a voar em órbitas singelas. Entro nos quartos, agora vazios, e vejo as camas que ainda hoje são arrumadas com lençóis limpos todas as semanas. Sou obrigado a baixar novamente a cabeça. As molduras das portas são baixas, como eram as pessoas que ali dormiam.

Agora, no presente, olho à minha volta, para as caras que povoam a mesa da sala de jantar na casa de uma amiga. Conversa-se, pela quarta ou pela vigésima vez, sobre os méritos e os deméritos do novo iPhone. Sei o que quero dizer: não vejo nenhum melhoramento significativo entre o Nokia 3310 de 2002 e o iPhone 6 de 2014. Ambos são usados exactamente com o mesmo fim – comunicar através de palavras (e para assegurar as mães de que continuamos vivos e bem alimentados). O mundo não mudou entre um teclado com botões e um ecrã táctil. Mas nada faço; calo-me e ouço.

A experiência passada ensinou-me que estas intervenções são mal recebidas (até mesmo agora, relendo aquelas palavras, reprovo a minha pretensiosidade nostálgica), mas não consigo evitar que elas surjam na minha cabeça. Eu sou o que sou e não há nada a fazer. Não consigo evitá-lo - odiar aquela conversa, odiar os móveis da IKEA onde nos sentamos, odiar o apresentador eufórico que promete dinheiro na televisão ligada (para fazer ruído de fundo, não é?) durante o jantar. Não consigo evitar tudo isto e não consigo deixar de me interrogar: a vida do passado era difícil e por vezes cruel, mas pelo menos não duvidavam se aquilo que chamamos de cultura e inovação não são apenas fogos-de-artifício que explodem para nos distrair enquanto mãos nos separam de tudo que faz de nós humanos. E o pior vem depois. O pior é pensar - ao deparar-me com a última ronda de publicação de fotos privadas de celebridades - que estamos a abandonar, muito entusiasmados, o maravilhoso primitivismo animal, para abraçarmos, como uma turba alucinada, os enfeites brilhantes da masturbação digital.

Sei que a defesa do passado é uma causa perdida. A nostalgia não passa de uma ilusão delicodoce. Sei que não possuo argumentos fortes. O uso básico da razão é suficiente para retirar a todas as palavras que escrevi a massa que as sustenta. Este é um caso emotivo. Eu penso o que penso, sinto o que sinto e sou o que sou. A razão diz-me que caminhamos em direcção a um ideal incerto de progresso e que, como tudo, este tem benefícios e malefícios. Mas não consigo deixar de sentir que estamos a caminhar de mãos dadas em direcção a um precipício. Com medo das emoções, contentamo-nos com o alívio proporcionado por sensações fugazes. Aterrorizados pelas possibilidades do silêncio, aceitamos um entorpecimento gratuito. O mundo já não gira: ele pisca, vibra e recebe wi-fi. Mas a verdade continua a mesma: hoje, como há dez mil anos, quando abandonamos o significado, a razão engole tudo. Os antigos sofriam e não sorriam nas fotos, mas pelo menos, durante o jantar, não tinham que testemunhar isto: os sorrisos ensaiados das caras obcecadas em gravar obsessivamente o quotidiano em fotos e vídeos. Desprezamos o passado. Idolatramos o futuro. O presente desaparece, perdido algures entre os terabytes dos discos rígidos, pens e clouds.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

O Fascismo da Pró-Actividade


"Can you believe it? Fifty miles from McDonald's. I didn't think there was anywhere in the world that was fifty miles from McDonald's." - Neil Gaiman

Nos meus piores momentos, admito, não tenho uma opinião positiva sobre a humanidade. Não é uma perspectiva detentora de raridade exótica. Os prazeres da misantropia provavelmente existem desde que dois homens decidiram partilhar a mesma caverna. O reconhecimento do inferno alheio é algo que qualquer pessoa, seja por dez minutos ou por dez anos, já sentiu. Não é necessário ir longe. Basta ligar qualquer televisão ou tentar discutir qualquer assunto político e perceber que, na sua larga maioria, os seres humanos não passam de algoritmos glorificados, programas que respondem de uma maneira tristemente previsível face à presença de certos estímulos.

Apenas por diversão, façam o seguinte. Defendam o desmatamento da Amazónia. Tentem argumentar que a ajuda externa destruiu a economia do continente africano. Afirmem que a aritmética garante que o corte de pensões é inevitável. Declarem que o Holocausto causou menos dor ao mundo do que qualquer álbum dos U2. Aquilo que responderão será o seguinte: a Amazónia é um património inviolável, mandar dinheiro para África é bom, cortar pensões a velhinhos é cruel e os U2 são o maior fenómeno musical do século XX.

Leio anúncios de emprego. O desespero. A tragédia. O horror. As minhas mãos ganham vida própria e insistem em tentar tapar os meus olhos. É um esforço inútil. Através das frestas entre os dedos, vejo que as minhas hipóteses de sobrevivência neste mundo moderno são ténues. Afinal de contas, querem pessoas com “cinco anos de experiência”, “fluência em alemão e francês”, “facilidade de comunicação”, “boa apresentação”, “espírito empreendedor”, “determinação”, “capacidade de liderança” e “espírito de equipa”. São todas exigências razoáveis. Aquilo que destrói a minha vontade de viver e que me impele a saltar para o fundo do precipício mais próximo é a “pró-actividade”, um atributo que, garantidamente, nove em cada dez empregadores não saberão definir.

Selecciono os anúncios de emprego. Vou às entrevistas. Na recepção estão algumas dezenas de pessoas da minha idade, vestidas com o seu melhor fato-de-ir-à-missa, a variarem a sua atenção entre os telemóveis silenciosos e os quadros pendurados na parede, para onde os seus olhos apontam com a incerteza de um passageiro desesperado por um lugar no último bote salva-vidas. Chega a minha vez. Entro na sala. Três homens de meia-idade estão sentados numa mesa em disposição paralela de júri. Parecem entediados. Sento-me na cadeira vazia. As perguntas de rotina aparecem. Pedem-me para descrever o meu percurso académico e profissional. Pedem-me para enumerar as razões que fazem com que eu seja o “candidato ideal” para esta vaga. Perguntam-me por que razão sou superior aos restantes candidatos. Respondo a todas as questões. Sorrio. Rio das pequenas piadas que contam. Resisto ao impulso de coçar o nariz. Mantenho a compostura. Perguntam-me se sou “pró-activo”. Perco a compostura.

Não, digo eu, não sou pró-activo. Também não sou um sociopata com superpoderes, que é aquilo que o vosso anúncio parece descrever. Não tenho a capacidade de prever o futuro. Não sei antecipar as dificuldades. Sou preguiçoso, indiferente e indisciplinado. Se me contratarem, vou passar o dia a navegar a Internet e a fingir que trabalho. Vou roubar cápsulas de café da máquina Nespresso que está na recepção. Tendo em conta o salário miserável que oferecem, até vou roubar rolos de papel-higiénico. Nem sequer tenho a certeza do nome desta empresa. Aliás, já me esqueci dos vossos nomes. Em certos dias, quando vier para o trabalho completamente bêbado, nem me lembrarei do meu próprio nome. Não sou motivado. Estou aqui apenas a contar os minutos até me qualificar para receber o subsídio de desemprego. Não trabalho bem em equipa. Não, não vou “dar tudo pela empresa”. Vocês fazem publicidade digital para pequenas empresas. Pelo amor de deus, não estamos nas trincheiras de Flandres. Não é preciso levar isto tão a sério. E, já agora, meus senhores, peço desculpa, mas eu aconselharia a esta empresa um sério investimento em rebuçados de mentol. Sem ofensa, mas os vossos hálitos cheiram a merda. Já fizeram todas as perguntas? Posso sair? Meus senhores, muito boa tarde. Cumprimentos às famílias.

Acordo. Estava a fantasiar. Percebo que passei demasiado tempo a fingir que estava a pensar numa resposta para a pergunta. Considera-se pró-activo, perguntam eles. Sim, respondo eu, sou “pró-activo”. Não somos todos?

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Roger

Roger Federer é um tipo simples. A esposa está esteticamente distante das super-modelos que normalmente abrilhantam as bancadas dos jogos dos cônjuges e namorados (ver, a título de exemplo, a mulher mais deslumbrante do mundo). Juntos têm dois pares de gémeos e é impossível, ao ver aquela família, não imaginar um lar agradável e harmonioso. O jogo do suíço é tão natural e relaxado quanto parece ser toda a sua vida. Como desportista, conquistou tudo; ao juntar a sua genuinidade humana, conquistou uma legião mundial de fãs. Roger é um homem inteligente, um gentleman cordato e ajuizado. Tem o ar confiante, discreto e ponderado que faz toda a gente afirmar sem reservas que lhe confiaria os filhos só de olhar para ele. No court e na rua, demonstra uma invejável compostura (excepção feita a estes deliciosos bloopers numa entrevista a Pedro Pinto, e estes, ainda mais irresistíveis, com Nadal, numa publicidade a um jogo de caridade). E, por referir o espanhol, os seus duelos históricos com Rafa são tão épicos que até os leigos do ténis apreciavam a rivalidade no seu apogeu, naquele contraste de estilos tão gritante.

Wimbledon é o meu torneio predilecto. Não sei dizer se é a graciosidade estética do verde da relva, se os tradicionais equipamentos brancos, se o ritmo frenético de jogo. É onde o ténis atinge o seu ponto mais legítimo. Foi para ser jogado em Wimbledon que o jogo foi inventado.

Djokovic, o seu oponente na final de ontem, é um adversário à parte. Tem uma regularidade e firmeza inéditas no circuito. Em qualquer que seja o terreno, qualquer que seja o adversário, a vitória de Djokovic é altamente expectável. Isso é ao mesmo tempo admirável e fastidioso. O seu jogo parece previsível, monótono, e no entanto é de uma eficiência notável; escolhe sempre o movimento certo no momento certo, e combina-o com execuções técnicas irrepreensíveis. Djokovic nunca perde o ponto, é preciso ser o adversário a ganhá-lo.

Federer não é desses aborrecimentos: limitar-se a responder é de uma simplicidade ultrajante. Roger quer fantasia, quer vertigem, quer tornar o impossível realizável à frente dos nossos incrédulos olhos. A recuperação do quarto set é um triunfo psicológico brutal, ao trepar o iceberg que é Djokovic com 5 jogos consecutivos de concentração, crença, perseverança e mestria. No quinto set, cedeu o jogo de serviço que não podia ceder. Não é assim que terminam os filmes.

Depois do pior ano da carreira, sem sequer atingir uma final de Grand Slam, Federer deixava-nos tristes. Nada temos a ver com o assunto, mas a queda de um génio põe-nos sempre comovidos. Esta final de Wimbledon era, para Roger no seu auge, o mínimo exigível. Para um Federer questionado pelas exibições medíocres, repleta de erros e de uma excruciante falta de confiança, foi mostrar que pode-se perder a forma, podem-se perder encontros, mas a capacidade de nos fazer contemplar o seu jogo com a admiração apenas destinada aos grandes artistas é algo que irá perdurar nos courts, e no nosso imaginário.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Crónica de uma Morte Anunciada

Escrevo-vos melancólico, desiludido por não ter conseguido abstrair-me da esperança supérflua que me acossou nos últimos dias e que tentei afugentar com o pragmatismo das probabilidades. Falo-vos com Bach nos ouvidos, ainda tonto das cervejas que tive de ir ingerindo para afogar a angústia da passagem dos minutos. Na obra The Well-Tempered Clavier, Bach apresenta-nos um conjunto de peças em todos os 24 tons, maiores e menores. É uma viagem entre sensações tão distintas que nos põe atordoados e indecisos, entre a palpitação do sofrimento e o vazio desconfortável da sua ausência.

Os contrastes dicotómicos são o que dá o especial sabor da vida. Não pode haver uma classificação categórica de positivo e negativo neste pólos. É a viagem entre um e outro que nos embala no conforto. É o facto de perdermos que nos faz festejar as vitórias. Acaba por calhar a todos e desta vez fomos nós. Não há, no entanto, que ignorar que isto não é sorteio, e que cada um constrói a sua sorte. E a selecção menosprezou de tal forma aquilo de que era responsável que fica a lamentar o insucesso com os factores rotineiros, entre arbitragens e fado, aos quais acrescentou o insustentável clima tropical.

As razões do nosso fracasso são explícitas, e é o facto de estarem à frente do nosso nariz que torna tão frustrante não terem sido atempadamente remendadas. Apresentámo-nos no Brasil com um grupo que só ao mais esperançoso (e/ou ingénuo) português não suscitou o mais profundo cepticismo. Entre jogadores inerentemente inúteis, entre outros cujas temporadas foram fustigadas por problemas físicos constantes, atenuados por meia-dúzia em boa forma física e futebolística, que acabaram por assistir sentados aos restantes a (tentar) jogar, haveria pouco espaço para infundadas expectativas.

A preparação roçou o amador, e não me refiro apenas à preparação física, uma questão tão pornográfica que até a a minha mãe conseguiu constatar. Quando Paulo Bento diz que, num clima propício a lesões musculares, nada fazia prever a lesão de um jogador que passou a época a mancar, só pode estar a gozar com a nossa cara, na nossa cara.

Mas o que é verdadeiramente preocupante é a inexistência de estratégia colectiva numa equipa que, para o mal ou para o bem, joga junta há tantos anos, orientada pelo mesmo treinador. Tudo parecia esboçado, improvisado em cima do joelho, ora por iniciativa dos jogadores mais criativos, ora por tentativas desesperadas de avançar no terreno por linhas demasiado tortas para serem viáveis a longo prazo: passes longos, precipitados, aleatórios, impacientes. Admito que não tenha faltado coração, mas não houve pernas, nem uma cabeça colectiva. Essa imaginação conjunta não é milagrosa, é fruto do trabalho de um seleccionador que terá gasto demasiado do seu tempo livre a deliciar-se e a ignorar a regressão futebolística dos seus pupilos predilectos em vez de buscar alternativas individuais e colectivas ao seu pré-definido plantel de escolhas. A coragem elogiada ao nosso treinador é precisamente o oposto: é cobardia, medo da mudança, de renovar uma selecção claramente necessitada dessa reestruturação. Nunca irei entender a tolerância dos meios de comunicação com as opções incompetentes deste treinador, que continua a apostar em jogadores que vão acumulando desempenhos desastrosos: Meireles, Veloso, Postiga, o indescritível João Pereira... Não pretendo criticar a quente, mas estes já não são jogadores com qualidade para jogar numa selecção de topo, mas continuam porque são todos uma grande família, e voltarão mais cedo do Brasil com um ambiente de grande irmandade.

Repito: hoje sofremos tanto porque um dia festejámos. Mas o que me tira o sono, como todos os problemas da vida, não é a preocupação do presente, mas a falta de solução de futuro. Não porque a geração que se avizinha, não tendo por certo um Cristiano Ronaldo para a sustentar e credibilizar, não tenha potencial para se revelar bem superior àquela que acaba estendida e suada num relvado brasileiro; mas porque os problemas que levaram ao insucesso da selecção são estruturais e essa estrutura ameaça seriamente manter-se incorrigível. Esperemos que a aprendizagem, o que distingue o inteligente confiante do burro teimoso, tenha servido para que o nosso descalabro do Brasil continue a ser a excepção.

domingo, 22 de junho de 2014

O Desespero e o Plano Nacional de Leitura


“The cradle rocks above an abyss, and common sense tells us that our existence is but a brief crack of light between two eternities of darkness.” – Vladimir Nabokov

A proposição de que os seres humanos lêem cada vez menos baseia-se demasiadas vezes nos encantos traiçoeiros da intuição humana em vez do poder incontornável dos factos. A afirmação é utilizada frequentemente como base de confirmação para o declínio da sociedade ocidental moderna. As mentes mais pessimistas facilmente extraem desse cenário o sopro das trombetas do apocalipse. Mas essa afirmação tem uma fraqueza estrutural: já foi proclamada demasiadas vezes sem que as suas previsões calamitosas se confirmassem. É um adágio tão antigo como a espécie humana: uma geração berra, exasperada, sobre a depravação cataclísmica da geração seguinte.

É demasiado cedo para serem extrapoladas conclusões ambiciosas sobre os efeitos a longo-prazo das mudanças drásticas nos hábitos de leitura na sociedade, mas o que sabemos é que os factos confirmam a tendência geral. Os jornais e as revistas sangram leitores como porcos indefesos no matadouro. Em 1978, oito por cento dos americanos afirmavam não ter lido um livro durante o período de um ano. Em 2014, esse número aumentou para vinte e três por cento. Não me parece absurdo assumir uma tendência análoga na sociedade europeia.

O Fado das Palavras Mortalmente Feridas é chorado com aparente unanimidade. As excepções são os sociólogos de sempre que, entusiasmados com a instantaneidade da cibernética, proclamam uma revolução na leitura. Afinal de contas, dizem eles, lemos mais tweets e posts e legendas e notas de rodapé. Até pode ser verdade que pessoas que nunca pegaram num jornal agora consomem mais notícias em formato escrito graças à conversão da imprensa à Internet. Mas esse facto não invalida a tendência, da mesma forma que a cedência à masturbação por parte de um padre não implica a quebra do voto de castidade.

E isso não vai mudar com uma apologia à leitura que tem demasiados problemas. A alma iluminada que discorre sobre a glória incomparável da leitura de livros utiliza uma atitude de superioridade irritante e ofensiva. Ele, o leitor, um oráculo supremo de sabedoria requintada que lamenta o adensar das trevas da corrupção. O outro, o não-leitor, um poço infinito de ignorância abjecta que trará inadvertidamente a destruição social. Acontece que a superioridade intelectual de alguém que lê livros comparativamente a alguém que prefere a televisão é uma verdade auto-evidente, mas isso não pressupõe uma superioridade moral.

A abordagem pedagógica utilizada pelas instituições públicas também tem deficiências. Esta abordagem utiliza uma mistura perigosa de preceitos científicos com uma atitude romântica. Afirmam que os benefícios da leitura para a cognição são inegáveis. Juram que a ciência até provou que a leitura de romances tem efeitos positivos em termos de inteligência emocional, um atributo essencial para o sucesso no mercado de trabalho. O pacote é finalizado com um conhecido embrulho didáctico: falam dos encantos da imaginação e do prazer das estórias. Esta abordagem nunca terá sucesso. Ninguém gosta de condescendência autoritária. Além disso, nenhuma criança alimentada à base de açúcar alguma vez ficará convencida do charme das ervilhas.

A minha defesa da leitura utilizaria uma abordagem diferente. Não seria uma apologia dos méritos da educação académica e da importância do sucesso laboral. Não seria uma apologia da maravilha imaginativa e dos prazeres do alheamento à realidade. A leitura não é importante apenas porque nos ajuda a viver funcionalmente em sociedade, mas porque a linguagem é a única forma significativa que temos de compreender a realidade. Quanto mais abrangentes forem os hábitos de leitura, quanto mais proficiente for a expressão oral e verbal, maior é a exactidão e a complexidade do significado que as palavras carregam.

Considerem bem a frase de Nabokov. A informação que dela extraímos é simples: a vida é curta. Mas quando pensamos nessa informação, não inferimos nada de extraordinário. É um cliché. É algo que repetimos numa tentativa desesperada de instigar em nós próprios a consciência das suas implicações preocupantes, que nem sempre fazemos as coisas que queremos fazer por não reconhecermos a efemeridade do tempo. Apenas identificamos um facto adquirido representado por uma frase banal que poderia habitar num autocolante promocional, numa tatuagem bêbada nas costas, ou numa t-shirt barata.

Agora, quando lemos a frase brilhante de Nabokov, as implicações dessa informação ganham uma aplicabilidade avassaladora. A frase captura a urgência de viver. Transmite-nos o choque abismal do improvável, a passagem avassaladora do tempo, a grandeza titânica do universo e a nossa insignificância gloriosa. O cliché surge e é desfeito pelo vento, como uma declaração de amor adolescente inscrita na areia. A frase enregela o estômago, torce o coração e urge ao cérebro que materialize o desespero em acções que reflictam os nossos desejos mais íntimos. O cliché transforma-nos em escravos ignorantes da gratificação instantânea. A frase lembra-nos que vivemos num berço a baloiçar sobre o abismo, mas que não devemos temer as profundezas e a escuridão.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Cuadrado

É um fenómeno recorrente que certos indivíduos deixem de apreciar tanto um artista musical quando este passa a ser mais reconhecido pela generalidade do público. Não sofrendo desta síndrome, admito que quem a tenha valorize o egoísmo de estar sozinho na admiração dessa arte, e que essa sensação de descoberta e de isolamento contribua para que o artista seja ainda mais estimado. 

Existe também uma indefinida e frustrante sensação de impotência quando alguma manifestação artística que nós achamos de insuspeita e inatacável qualidade não provoca nos outros o entusiasmo que nós acharíamos adequado. Acontece com música, com filmes, com séries, com livros, mas também (e talvez sobretudo pela paixão que acarreta) no futebol.

Cuadrado é um caso de estudo neste tipo de fenómeno. Felizmente partilho com um amigo a paixão pelo jogo do colombiano da Fiorentina, e essa partilha foi fulcral para que eu não duvidasse da minha sanidade mental, pois durante muito tempo sentia-me só da apreciação dos seus predicados futebolísticos. Nos monótonos jogos da Série A de Domingo à tarde, Cuadrado é um oásis de mestria, de vigor, de felicidade, de futebol em estado puro. Eu e esse meu amigo dizê-mo-lo há muito: está aqui uma pérola, um dos jogadores mais talentosos do mundo. É estupendamente veloz, tem agilidade, jogo de cintura, destreza, vivacidade. Mas, mais do que isso, é um atleta surpreendentemente astuto. Com o seu género reguila e desfraldado, tinha tudo para ser um jogador egoísta e com poucas noções colectivas. Ele, no entanto, desengana preconceitos; a sua imprevisibilidade é a sua inteligência, a sua perspicaz visão de jogo. É abnegado, é filantropo; não descansa à sombra do talento, sabe que só triunfará com a equipa. São virtudes raras num jogador da sua posição e do seu estilo. Se Deus tivesse uma forma geométrica, era Cuadrado.

Agora que brilha no maior palco de todos, é normal que o mundo o reconheça. Estou felicíssimo por ele, porque mais do que talento, que é ingénito, Cuadrado teve a humildade de aprender a usá-lo. Merece que a carreira dele seja impulsionada por um Mundial fenomenal que ameaça fazer. Mas este meu contentamento não me impedirá, depois de anos a pregar as indubitáveis virtudes deste génio, de correr à cabeçada quem agora, depois da Copa, se dirigir a mim e perguntar "Conheces o Cuadrado, da Colômbia? O tipo joga muito".

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Insensatez


“Longa é a arte, tão breve a vida” - António Carlos Jobim

António Carlos Jobim e Vinícius de Moraes formaram uma das parcerias musicais mais brilhantes de toda a história. As canções que surgiram nas suas cordas vocais e nos seus dedos definiram uma era. Ambos são ícones da cultura brasileira. Ambos tiveram vidas pessoais caóticas. Ambos tiveram mortes que denunciaram a natureza nociva dos seus hábitos. A história deles é a história da humanidade – grandes homens que são, em tantas ocasiões, pessoas terríveis; homens bons que são, em tantas ocasiões, pessoas infelizes; e homens felizes que são, em tantas ocasiões, pessoas insatisfeitas.

Eu comecei a ouvir a música de Tom Jobim em 1996, numa altura em que os seus pulmões geniais já não desfrutavam dos prazeres do oxigénio. A notícia da sua morte só chegou em 1997, três anos depois da passagem do grande maestro para o Outro Lado. António Carlos Jobim morreu aos sessenta e sete anos, em 1994, num país estrangeiro, de paragem cardíaca, devido aos constrangimentos dolorosos do cancro, depois de uma vida onde assegurou o seu lugar no panteão dos imortais e depois da existência típica de relações pessoais instáveis e alcoolismo contínuo. Quando o seu maior amigo e parceiro, Vinícius de Moraes, morreu em 1980, em circunstâncias semelhantes, Tom Jobim não foi ao funeral. Mais tarde afirmaria: “Foi a morte de Vinícius que me deu a convicção de que não somos imortais”.

A minha primeira concepção da morte era a de um assassinato. As parcas explicações proporcionadas por familiares tinham-me deixado com a impressão macabra de que Jesus Cristo matava pessoas e levava-as para o céu. A ideia não era tão soturna quanto a descrição dá a entender num primeiro impacto. Eu não via qualquer malícia no acto. Não associava o acto a violência, mas apenas a uma injustiça cósmica que me fazia desconfiar das estátuas ensanguentadas do Rei dos Judeus. Ainda hoje aquelas figuras de gesso sombrias, com os seus olhos suplicantes, abdominais perfeitos e braços musculados, parecem estar prestes a ganhar vida.

A minha segunda concepção da morte veio com o primeiro funeral. Os meus seis anos impossibilitavam qualquer compreensão abrangente das funcionalidades práticas do fenómeno mortuário, mas o desespero abismal que ficava nos vivos, contrastado com a permanência estática das pedras tumulares e com a rigidez fria do cadáver, começava a incrustar na minha cabeça as noções confusas da tragédia da irreconciliabilidade. Eu sabia que havia aspectos da morte que podiam ser reconhecidos e explicados, mas que a sua mera existência nunca seria aceite. As semanas que seguiram o funeral foram espaços de tempo drenados da alegria quotidiana que define a vida das crianças em famílias felizes, e eu nunca mais voltei a pensar na vida como um circo diário de gratificação.

Dezassete anos depois, dia sim, dia não, passo pela Basílica da Estrela, vejo mais um carro funerário e, resignado, penso: lá vai mais um pobre coitado (ou cabrão sortudo, dependendo das crenças que mantinha e das particularidades da vida que deixou para trás). Raramente sei quem é o defunto da ocasião. Às vezes morre uma figura de relevo, um antigo Secretário de Estado ou um poeta menor, e o Diário de Notícias comunica que o funeral será ali. Noutras ocasiões morre um desgraçado qualquer na Segunda Circular ou na CREL, num desses lugares que povoam o imaginário do relatório do trânsito matinal. Uma pequena multidão negra costuma formar-se junto à entrada da Basílica e, nos dias de pouco trânsito, é possível ouvir as notas desvanecidas das melodias fúnebres tocadas no órgão.

Agora a morte tem várias concepções. É um fenómeno biológico, uma eventualidade absoluta e uma desgraça inescapável. É um monstro debaixo da cama, uma notícia irrelevante, o desconhecido na escuridão e um risco a ser medido. Ela vem em várias formas - bombas que caem, balas que voam, ossos que partem, carros que batem, aviões que caem, órgãos que falham e tecidos que rasgam. Eu sei todas essas coisas sobre a morte, mas aquilo que eu não sei é em que medida a vida – uma vida bem-vivida – é o resultado do desfrutar efémero da actualidade ou da luta ingrata pela eternidade. Interrogo-me se o louvor derradeiro da vida dos nossos antepassados caçadores-colectores está no prazer ténue que extraíram do saciar primitivo de vontades, ou se está imortalidade dos bisontes pintados nas paredes das cavernas.

Todos os homens vivem segundo os preceitos da moralidade, da ambição e da felicidade. Mas a tentativa de combinar as três dimensões ainda parece ser o reduto de super-homens. Eu quero ser bom, grande e feliz, mas as acções conducentes a cada um destes atributos entram invariavelmente em conflito. É uma batalha com três frentes em que o avanço numa delas significa o recuo automático em outras. Aquilo que nos faz felizes nem sempre é aquilo que nos traz significado. Em demasiadas ocasiões, aquilo que é necessário para a ambição não é aquilo que é certo.

Essa tentativa de combinar as três dimensões pode ser a definição mais aproximada daquilo que significa ser adulto. Provavelmente estas dúvidas são apenas o resultado da tendência humana de pensar que uma alternativa teria sido sempre superior. Haverá sempre uma incerteza intrínseca na concretização de escolhas. Os acordes da obra de Tom Jobim ajudam-me a reconciliar a ideia de que homens nascem e homens morrem e eu nunca irei compreender as razões. Mas eu tenho a certeza que, independentemente das minhas escolhas, nunca irei ser aquela pessoa que, quando confrontada com a morte, decide não ir ao funeral.

domingo, 15 de junho de 2014

Febril

O recente livro Conservadorismo, do João Pereira Coutinho, tem uma falha gravíssima. Entre o tradicionalismo burkeano e o thatcherismo, o autor esquece-se de referir uma matriz conservadora de grande relevo académico: o Bentismo. Esta corrente, que deu os seus primeiros passos com Scolari, mas que atingiu a sua dimensão máxima com Paulo Bento e adquiriu daí o seu nome, é mais do que uma atitude de conservação de valores. É uma total estagnação e uma indiferença a todos os factores externos às suas convicções e preconceitos.

A não convocação do Quaresma foi unanimemente a decisão mais polémica, sobretudo em detrimento de três jogadores duvidosos: um que não jogou quase toda a temporada por grave lesão, um jovem de qualidade mas sem estaleca para estas andanças e um parceiro de equipa do Harry Potter que veio de uma época degradante. Nem as supostas atitudes de insurreição podem justificar: Quaresma está claramente mais maduro e assim se iria apresentar num Mundial que fez tudo para participar; e não consigo não me lembrar de um Paulo Bento tresloucado à volta do árbitro do infame jogo com a França em 2000.

Abstive-me de comentar publicamente a convocatória após o seu anúncio por achar difícil encontrar palavras para qualificar o meu estado de alma, algures entre a resignação de que esta geração está perto do declínio e a raiva de não haver quem a renove. Está repleta de jogadores que atravessaram problemas físicos, jogadores envelhecidos e longe do seu auge. Tem um banco que qualifico de imprestável, para não ser demasiado cruel. É custoso acreditar logicamente nas chances deste grupo.

No entanto, a febre do mundial traz uma irracionalidade que é simultaneamente uma bênção e uma maldição. Amanhã vão entrar os do costume e é pelos do costume que eu irei sofrer. Infelizmente, creio que bastante.


(Tive de ver o que valia a Croácia do meio-campo de sonho contra o Brasil anfitrião, o bastante entretido futebol dos mexicanos, a laranja mecânica a cilindrar uma das melhores selecções da história com duas lendas a um nível abissal, o Chile a entrar fortíssimo com a classe de Valdívia mas a não valer para o susto por culpa própria, uma Colômbia interessantíssima que com o Radamel poderia assustar ainda mais, a Costa Rica a chocar o mundo humilhando um Uruguai privado do seu maior astro, um extraordinário Inglaterra-Itália recheado de craques, o simpático Japão a sucumbir ao físico dos elefantes, a Suíça a ganhar dramaticamente com o herói Behrami em esplendor e o Palacios a ajudar a lógica a imperar contra uma França que pode dar muito mais. Hoje ainda aí vem o Messi e amanhã entram as quinas em campo. E querem que um gajo estude para os exames do mestrado.)