sábado, 1 de fevereiro de 2014
O Futuro Japonês
Quando se observam as especulações conceptuais realizadas na década de cinquenta sobre o que seria o mundo actual, verificamos que essas não passaram de divagações afastadas da realidade. Não existem robôs sencientes. As nossas armas de fogo não disparam raios laser. Não nos movimentamos em carros voadores. Ainda não visitamos nenhum planeta. Não existem colónias na Lua. Não nos alimentamos à base de comprimidos. O motor de combustão ainda é ubíquo.
Actualmente a humanidade ainda tenta prever, com um grau inferior de erro, o futuro da segunda metade do século XXI. O autor americano, Ray Kurzweil, é consagrado pelo seu trabalho relacionado com essa tentativa de previsão. Num exercício pseudocientífico que se situa algures entre a astrologia e a neurocirurgia o autor já fez diversas previsões que se concretizaram de forma semelhante ou parcial. A explosão da Internet, aumento exponencial da capacidade de processamento de computadores, o surgimento de tecnologia de tradução textual de voz e o aparecimento de carros de condução autónoma.
No entanto, as suas previsões aplicadas ao futuro próximo são consideravelmente mais audazes. Entre outras coisas, o autor teoriza o surgimento de inteligência artificial, a proliferação de robôs no sector industrial primário e o desenvolvimento de robôs médicos na escala nano (milésimo de milionésimo), que serão inseridos no nosso corpo para realizarem manutenção. O autor prevê, para a década de 2030, o mapeamento total do cérebro humano e a possibilidade de ser realizado o upload da nossa mente num computador muito mais inteligente do que humanos. Para a década de 2040, o autor prevê que as pessoas passarão a maior parte do tempo imersas em realidade virtual e que existirão híbridos humanos-robô, potencialmente imortais.
É óbvio que parece uma previsão extraordinariamente rebuscada. Mas o futuro dá-nos diversos sinais. Em 1997, um computador chamado Deep Blue venceu um conjunto de seis partidas de xadrez contra o campeão mundial Garry Kasparov. Em terras nipónicas insistem em tentar criar robôs feminizados assustadores para fins de gratificação sexual. Na imprensa lêem-se suspiros da cura da sida e de vitórias na batalha contra o cancro. A assistente virtual do Iphone demonstra uma complexidade operativa espantosa.
O filme de Spike Jonze, Her, conta a história de um homem que se apaixona por um sistema operativo com inteligência artificial, carácter humano e personalidade feminina. Esta dramatização envolve uma sociedade futurista onde esses sistemas operativos são tratados como humanos por pessoas desapontadas pela imperfeição complicada da interacção humana real. Os dilemas existenciais surgem relacionados com a dificuldade em aferir se, num mundo onde a inteligência artificial é comparável com a inteligência humana, os sistemas operativos são uma forma real de existência.
Eu não gosto desta visão do futuro, mas recuso-me a ceder a tendências luditas. Não recuso os produtos do avanço do engenho humano. Não choro de nostalgia pela falsa romantização de certos períodos do século XX. Eu não sei como será o mundo em que viveremos no futuro distante, mas, se for de alguma forma semelhante ao futuro projectado, e se for tão horrendo quanto o plano do novo estádio do Real Madrid, espero que tenham o bom senso de inventar também uma máquina do tempo, para que eu possa fugir para o passado.
terça-feira, 28 de janeiro de 2014
Duque
A morte gosta de brincar com a presa antes de acabar com ela, como o sádico gato que ela é. Pega-nos pela cauda, estrebuchamos de cabeça para baixo, convulsivamente. Larga-nos por um segundo em que julgamos poder escapar, para nos encurralar num canto da vida em que, conformados, desistimos.
A chuva avisou-me de que algo estava errado. Não era uma precipitação agressiva, de pureza invernal, antes melancólica, desalentada como se, noticiada a sua morte, tivesse também ela perdido a esperança e as forças.
No bar não chovia. Decorria a primeira festa do ano lectivo, cheirava a euforia e a deboche. Apoiado na muleta, o Duque observava os colegas junto ao balcão. Dirigi-me a ele.
- Faço-te companhia. Não gosto de dançar.
- Estou só a descansar.
- Bebemos?
- Bebemos. Pago eu. Dois shots de tequila.
- Odeio tequila.
- Eu odeio pagar.
Escorregou bem, afinal.
- Como te chamas mesmo? Só te conheço por Duque.
- Agostinho.
- Não sabias ter um nome mais feio? O que é isso, um Agosto mais curto?
Riu-se. Lembro-me de comentar com um amigo, no dia seguinte, que fiquei admirado com a sua disposição, fulgor físico e resistência ao álcool, depois de todas as bebidas que se seguiram. Admirado. Como se o normal fosse ceder, prostrar-se sem dignidade, como se todo o ser humano devesse admitir que é naturalmente frágil e desistir perante esta condição.
Agarrou a outra muleta, que descansava encostada ao balcão.
- Onde vais?
- Eu estou morto, Diogo. Não interessa onde eu estou.
Não dei por ele partir. Terá deslizado porta fora, com a suavidade que a perna amputada já não permitia, despido dos pesos que a puta da vida lhe atirara, e que ele carregou nas costas com a tenacidade dos campeões. Perdeu a perna e a mãe para o impiedoso monstro negro, que decidiu brincar com a presa mais um bocado. A vida não tortura por malícia, fá-lo por indiferença. Despreza-nos como vermes; ninguém estará lá para a raça humana senão ela própria. Se para a vida somos células imprestáveis, resta-nos sermos, uns para os outros, memórias comuns, felicidades partilhadas.
Existem provas testemunhais de casos de força sobre-humana em situações desesperadas. Há casos de pessoas que, movidas por uma inconcebível adrenalina, conseguiram levantar carros que haviam caído em cima de outras. Talvez o Duque nunca tenha sido mais forte do que nós. Talvez só tenha tido mais carros para levantar. Talvez só tenha criado mais anticorpos contra a descrença, contra a desilusão. Se o Duque foi capaz de bloquear os socos da vida com uma pujança homérica até ao golpe final, talvez o que com ele podemos aprender é que todos nós somos deuses acorrentados, prontos para combater o desprezo que o universo nos reserva, agarrando-nos enraivecidamente a esta coisa estranha e milagrosa chamada vida.
Vou pedir mais um shot. Brindemos juntos ao Duque.
A chuva avisou-me de que algo estava errado. Não era uma precipitação agressiva, de pureza invernal, antes melancólica, desalentada como se, noticiada a sua morte, tivesse também ela perdido a esperança e as forças.
No bar não chovia. Decorria a primeira festa do ano lectivo, cheirava a euforia e a deboche. Apoiado na muleta, o Duque observava os colegas junto ao balcão. Dirigi-me a ele.
- Faço-te companhia. Não gosto de dançar.
- Estou só a descansar.
- Bebemos?
- Bebemos. Pago eu. Dois shots de tequila.
- Odeio tequila.
- Eu odeio pagar.
Escorregou bem, afinal.
- Como te chamas mesmo? Só te conheço por Duque.
- Agostinho.
- Não sabias ter um nome mais feio? O que é isso, um Agosto mais curto?
Riu-se. Lembro-me de comentar com um amigo, no dia seguinte, que fiquei admirado com a sua disposição, fulgor físico e resistência ao álcool, depois de todas as bebidas que se seguiram. Admirado. Como se o normal fosse ceder, prostrar-se sem dignidade, como se todo o ser humano devesse admitir que é naturalmente frágil e desistir perante esta condição.
Agarrou a outra muleta, que descansava encostada ao balcão.
- Onde vais?
- Eu estou morto, Diogo. Não interessa onde eu estou.
Não dei por ele partir. Terá deslizado porta fora, com a suavidade que a perna amputada já não permitia, despido dos pesos que a puta da vida lhe atirara, e que ele carregou nas costas com a tenacidade dos campeões. Perdeu a perna e a mãe para o impiedoso monstro negro, que decidiu brincar com a presa mais um bocado. A vida não tortura por malícia, fá-lo por indiferença. Despreza-nos como vermes; ninguém estará lá para a raça humana senão ela própria. Se para a vida somos células imprestáveis, resta-nos sermos, uns para os outros, memórias comuns, felicidades partilhadas.
Existem provas testemunhais de casos de força sobre-humana em situações desesperadas. Há casos de pessoas que, movidas por uma inconcebível adrenalina, conseguiram levantar carros que haviam caído em cima de outras. Talvez o Duque nunca tenha sido mais forte do que nós. Talvez só tenha tido mais carros para levantar. Talvez só tenha criado mais anticorpos contra a descrença, contra a desilusão. Se o Duque foi capaz de bloquear os socos da vida com uma pujança homérica até ao golpe final, talvez o que com ele podemos aprender é que todos nós somos deuses acorrentados, prontos para combater o desprezo que o universo nos reserva, agarrando-nos enraivecidamente a esta coisa estranha e milagrosa chamada vida.
Vou pedir mais um shot. Brindemos juntos ao Duque.
segunda-feira, 27 de janeiro de 2014
O Plural de Praxe
Ressalvo, primeiramente, que esta pequena acha que lanço para o incêndio mediático que se alastra no país não se trata de uma resposta à opinião do meu amigo Leandro, cuja leitura, de resto, recomendo vivamente. Conservassem todos os que teceram considerações sobre o assunto a sua astúcia. Raramente os humildes cronistas deste espaço repetirão temáticas já exploradas por outro, e isto acontece sobretudo porque partilhamos grande parte das opiniões sobre grande parte dos assuntos e não há necessidade de redundâncias. Neste caso, porém, considero pertinente partilhar uma opinião de alguém manifestamente integrado e interessado, como é o meu caso.
Reitero que também eu fui rejeitando fazer parte deste insano furacão, para que a praxe conservasse alguma da pouca virgindade que lhe resta, mas essa foi já definitivamente e erroneamente rasgada. Este texto não se trata, no entanto, de uma apologia reaccionária da tradição praxística. Muito menos explorarei aqui, em espaço desapropriado, questões que considero irem além daquilo que a sociedade civil merece saber. Discorrerei, portanto, numa análise que prometo ser tão fria quanto a minha exasperação me permita.
Assim sendo, começo por dizer que compreendo a indignação anti-praxe. Não as dimensões que atingiu, nem os moldes com que é exposta, mas a aversão que a origina. Mesmo antes da implosão atómica desta bomba de cólera, já o afirmava: a praxe tem, aos olhos estranhos dos elementos que de fora a observam, contornos bizarros. Daí que os seus preceitos sejam apreendidos gradual e internamente, para que surjam contextualizados e não através de infografias no telejornal. Entendo a estranheza que a praxe causa àqueles que não a compõem, principalmente quando os media noticiam apenas o lado negro da mesma. E é natural que assim aconteça: a praxe bem feita não suscita interesse alheio ou jornalístico. Mesmo quando existem pequenos abusos, tratam-se de questões que podem e devem ser resolvidas pelas pessoas envolvidas.
A sociedade civil vê-se implicada, isso sim, quando os abusos cometidos se tratam de crimes graves. Li já por aí que esta é uma óptima oportunidade para a praxe se abrir à sociedade, expor as suas virtudes, porque "quem não deve, não teme". Este é o mesmo tipo de falácia argumentativa que legitima uma sociedade orwelliana, que justificaria câmaras dentro de todas as casas porque em algumas existem casos de violência doméstica. A privacidade e o secretismo são direitos que são retirados a quem deve, e não a quem não deve. Dito isto, o pacto de silêncio da comunidade praxística da Lusófona causou muita indignação, mas se for aplicada exclusivamente à comunicação social, e naturalmente nunca alastrada às entidades judiciais e às famílias das pessoas envolvidas, é uma decisão sensata, na medida em que impede a proliferação de versões contraditórias e porventura inventadas, em respeito do sobrevivente que tem, ele sim, de esclarecer a situação; mas teve também o condão de aumentar a curiosidade e fúria contra esta sociedade secreta.
Como o Leandro bem explicitou, a praxe tem poucos alicerces racionais passivos de serem usados para justificar a sua existência a alguém de fora, e raramente vão para além do saturante, mas legítimo, argumento da integração. Talvez esta dificuldade de explicação lógica justifique o prazer dela retirado. Todos sabemos que a vida é uma corrida de obstáculos que, de forma a estes serem contornados, tem de ser vivida de forma lógica, coerente, inteligente. O que torna, desde logo, grande parte desse percurso entediante. O que a vida traz de bom, no entanto, são os prazeres inviolados por essa racionalização. Futebol. A companhia de uma mulher. O cheiro de um livro antigo. Praxe. Pequenos deleites que têm origens que extrapolam a vertente lógica. Se ignorarmos a emotividade do prazer, de nada serve a frieza da racionalização. Ou se conjugam os dois pólos ou o suicídio é o destino provável.
Perturba-me que todo este turbilhão pró e contra praxe surja na sequência de uma tragédia que extrapola em muito a banalidade deste debate. Defensores da praxe invocam o bom senso na execução da mesma como factor diferenciador; opositores invocam o bom senso para a sua supressão. Custa-me, no entanto, encontrar o bom senso em qualquer um dos lados, perdido que me encontro entre os ataques enfurecidos a uma actividade que ignoram e o fanatismo dos que defendem a praxe como se de uma religião se tratasse. Nada está acima do debate, mas é impossível tê-lo se não se despirem preconceitos, na mais pura semântica do termo. De parte a parte.
No meio de tudo isto, tem de se referir um aspecto incompreensivelmente negligenciado: a utilização do termo "praxes" no plural é o equivalente etimológico a um pontapé nos testículos. Dói fisicamente ler tal expressão. Não é ofensiva, pelo contrário, mas é intensamente e inexplicavelmente enfurecedora. No entanto, a sua repetida utilização na comunicação social traduz, inadvertidamente, algo que esta parece ignorar: a pluralidade e diversidade de práticas praxísticas, que legitima a continuidade da sua existência, alheia a energúmenos, que no início da tradição praxística jamais teriam lugar no ensino superior, que bebem a supremacia como uma droga e que teimam em desonrar, não só a capa, como toda uma geração. Geração essa que padece de males bem mais graves do que a praxe, que a única dor que me trouxe foi a de me fazer perceber, a pouco e pouco, que os acordes de guitarra que ressoam pelo Porto nas Serenatas se tornam a cada ano mais agradáveis, mas a cada ano mais distantes.
Reitero que também eu fui rejeitando fazer parte deste insano furacão, para que a praxe conservasse alguma da pouca virgindade que lhe resta, mas essa foi já definitivamente e erroneamente rasgada. Este texto não se trata, no entanto, de uma apologia reaccionária da tradição praxística. Muito menos explorarei aqui, em espaço desapropriado, questões que considero irem além daquilo que a sociedade civil merece saber. Discorrerei, portanto, numa análise que prometo ser tão fria quanto a minha exasperação me permita.
Assim sendo, começo por dizer que compreendo a indignação anti-praxe. Não as dimensões que atingiu, nem os moldes com que é exposta, mas a aversão que a origina. Mesmo antes da implosão atómica desta bomba de cólera, já o afirmava: a praxe tem, aos olhos estranhos dos elementos que de fora a observam, contornos bizarros. Daí que os seus preceitos sejam apreendidos gradual e internamente, para que surjam contextualizados e não através de infografias no telejornal. Entendo a estranheza que a praxe causa àqueles que não a compõem, principalmente quando os media noticiam apenas o lado negro da mesma. E é natural que assim aconteça: a praxe bem feita não suscita interesse alheio ou jornalístico. Mesmo quando existem pequenos abusos, tratam-se de questões que podem e devem ser resolvidas pelas pessoas envolvidas.
A sociedade civil vê-se implicada, isso sim, quando os abusos cometidos se tratam de crimes graves. Li já por aí que esta é uma óptima oportunidade para a praxe se abrir à sociedade, expor as suas virtudes, porque "quem não deve, não teme". Este é o mesmo tipo de falácia argumentativa que legitima uma sociedade orwelliana, que justificaria câmaras dentro de todas as casas porque em algumas existem casos de violência doméstica. A privacidade e o secretismo são direitos que são retirados a quem deve, e não a quem não deve. Dito isto, o pacto de silêncio da comunidade praxística da Lusófona causou muita indignação, mas se for aplicada exclusivamente à comunicação social, e naturalmente nunca alastrada às entidades judiciais e às famílias das pessoas envolvidas, é uma decisão sensata, na medida em que impede a proliferação de versões contraditórias e porventura inventadas, em respeito do sobrevivente que tem, ele sim, de esclarecer a situação; mas teve também o condão de aumentar a curiosidade e fúria contra esta sociedade secreta.
Como o Leandro bem explicitou, a praxe tem poucos alicerces racionais passivos de serem usados para justificar a sua existência a alguém de fora, e raramente vão para além do saturante, mas legítimo, argumento da integração. Talvez esta dificuldade de explicação lógica justifique o prazer dela retirado. Todos sabemos que a vida é uma corrida de obstáculos que, de forma a estes serem contornados, tem de ser vivida de forma lógica, coerente, inteligente. O que torna, desde logo, grande parte desse percurso entediante. O que a vida traz de bom, no entanto, são os prazeres inviolados por essa racionalização. Futebol. A companhia de uma mulher. O cheiro de um livro antigo. Praxe. Pequenos deleites que têm origens que extrapolam a vertente lógica. Se ignorarmos a emotividade do prazer, de nada serve a frieza da racionalização. Ou se conjugam os dois pólos ou o suicídio é o destino provável.
Perturba-me que todo este turbilhão pró e contra praxe surja na sequência de uma tragédia que extrapola em muito a banalidade deste debate. Defensores da praxe invocam o bom senso na execução da mesma como factor diferenciador; opositores invocam o bom senso para a sua supressão. Custa-me, no entanto, encontrar o bom senso em qualquer um dos lados, perdido que me encontro entre os ataques enfurecidos a uma actividade que ignoram e o fanatismo dos que defendem a praxe como se de uma religião se tratasse. Nada está acima do debate, mas é impossível tê-lo se não se despirem preconceitos, na mais pura semântica do termo. De parte a parte.
No meio de tudo isto, tem de se referir um aspecto incompreensivelmente negligenciado: a utilização do termo "praxes" no plural é o equivalente etimológico a um pontapé nos testículos. Dói fisicamente ler tal expressão. Não é ofensiva, pelo contrário, mas é intensamente e inexplicavelmente enfurecedora. No entanto, a sua repetida utilização na comunicação social traduz, inadvertidamente, algo que esta parece ignorar: a pluralidade e diversidade de práticas praxísticas, que legitima a continuidade da sua existência, alheia a energúmenos, que no início da tradição praxística jamais teriam lugar no ensino superior, que bebem a supremacia como uma droga e que teimam em desonrar, não só a capa, como toda uma geração. Geração essa que padece de males bem mais graves do que a praxe, que a única dor que me trouxe foi a de me fazer perceber, a pouco e pouco, que os acordes de guitarra que ressoam pelo Porto nas Serenatas se tornam a cada ano mais agradáveis, mas a cada ano mais distantes.
domingo, 26 de janeiro de 2014
A Verdade da Mentira
"Competing is intense among humans, and within a group, selfish individuals always win. But in contests between groups, groups of altruists always beat groups of selfish individuals." - E. O. Wilson
Eu odeio que isto esteja a acontecer. Com cada palavra que eu escrevo neste maldito teclado, um pedaço da minha alma se dissipa no vento. O meu ego desapontado olha para mim e, com os braços cruzados, vira-me as costas e vai-se embora. Infelizmente não consigo aguentar mais. Eu tentei, juro que tentei, ignorar o circo mediático que chegou ao país, e decidiu montar a tenda para discutir a morte de seis jovens no âmbito de uma actividade praxística. Apesar das amplas distracções proporcionadas pelos palhaços de serviço, temo que o fedor do esterco dos animais seja demasiado violento para continuar a ser ignorado.
Em primeiro lugar, uma declaração de desinteresse. A minha participação em praxe durou um dia. Eu considero essa prática académica ridícula, mas não singularmente ridícula. A minha recusa da mesma existe apenas no mesmo plano de recusa da bócia, sushi, caça a golfinhos e pepinos. Já experimentei (com a excepção da caça a golfinhos) e cheguei à conclusão definitiva de que não gostei. Não é para mim, mas há quem goste. Não há nada de errado com isso.
Eu não tenho a capacidade de suspender parcialmente a razão, o senso comum e a moralidade em nome da integração social. Mas se existe um grupo de adultos vacinados que tenham a vontade e a capacidade de fazê-lo, em nome do seu próprio prazer, sem prejudicarem terceiros, desde que todos o façam de livre vontade e desde que todos estejam devidamente habilitados para a utilização dos seus respectivos cérebros funcionais, não existe nada que eu ou alguém possa dizer para dissuadi-los de fazerem o que quiserem.
O chiqueiro discursivo que se tem observado neste caso é altamente revelador da ignomínia bipolar que tende a marcar o debate em Portugal. O debate é reduzido a uma mera proposição preta e branca de “ou isso, ou aquilo”. Num dos extremos, a praxe é uma actividade legítima, sustentada pelos mais nobres pilares de irmandade e bondade, com objectivo honroso de integração social, não estando sujeita a qualquer crítica. No outro, a praxe é uma aberração proto-fascista, um culto baseado na submissão sadomasoquista absoluta dos mais fracos, com o objectivo desprezível da fruição da autoridade, e que deve ser proibida. Como sempre, a verdade está algures entre os extremos, no território cinzento, longe do fundamentalismo passional, da cegueira emocional e do ódio moralista.
É óbvio que numa análise lógica objectiva, centrada nos valores socioculturais vigentes no mundo ocidental, a praxe não tem qualquer base para defender a sua existência. No prisma da generalização é uma prática académica que discrimina enquanto alega integrar, que pratica rituais tendencialmente imorais baseados em pressupostos ilegítimos de autoridade. É uma actividade largamente desprovida da tradição que alega ter, e na qual se baseia para justificar uma miríade de actos objectivamente desumanos. A praxe é logicamente inconsistente, mas não singularmente inconsistente, pois é essa a natureza dos conceitos abstractos com os quais organizamos a nossa existência.
As nossas vidas são definidas por essa inconsistência lógica. É a ambiguidade moral que nos permite existir ordeiramente sem a erupção de histeria em massa. Os nossos princípios éticos são as máximas às quais as nossas acções aspiram respeitar, não são leis absolutas impositoras de obediência total. Todos somos culpados de propagar a hipocrisia, a mentira e a falsidade. Não existe uma vida possível no mundo da verdade absoluta. Somos criaturas de espírito tribal dadas ao ritualismo. A nossa pulsação é bombeada pelo imperativo genético de que a sobrevivência depende da integração em grupos. No seu âmago, a praxe é apenas um subproduto cultural desses imperativos – um conjunto de ritos objectivamente irracionais que cultivam o altruísmo no seio do grupo e o egoísmo do grupo relativamente a outros. Isto é que todos nós fazemos nas nossas famílias, agremiações culturais, clubes de futebol e partidos políticos.
Quanto à natureza específica de actos habitualmente associados à praxe, apenas tenho a dizer que a livre vontade aqui é a chave. Durante toda a história da humanidade, pessoas extraíram prazer de trocas concertadas de submissão e poder entre indivíduos livres. Isso pode parecer errado objectivamente, mas a praxe não é diferente de outras actividades inseridas neste espectro marginal de fetichismos praticados por minorias, como o sadomasoquismo sexual. Estas actividades não possuem legitimidade objectiva isolada, mas quando contextualizadas como interacções livres sem malefícios para terceiros, a sua legitimidade vem à superfície.
Naquela noite, o erro dos jovens do Meco não foi a prática de rituais praxísticos. Foi a estupidez de estarem dentro do mar, durante uma noite de Inverno. Não existe mais nada. Não existe qualquer necessidade de um debate sobre a praxe. As pessoas gostam de coisas estranhas - é a explicação mais simples do fenómeno praxístico. Aquelas mortes são o subproduto da inconsciência juvenil e não uma consequência directa da existência de um culto estranho. Esta embrulhada tem, no entanto, os seus benefícios indirectos. Eu sou um amante de história medieval e, na ausência de tecnologia que possibilite viajar no tempo e na ausência de disponibilidade para viajar para a Suazilândia, isto é o mais próximo que eu alguma vez estarei de testemunhar uma caça às bruxas.
terça-feira, 7 de janeiro de 2014
Anjos e Demónios
Agora que a poeira já começou a assentar sob a campa sagrada do Eusébio, julgo que é adequado falar sobre algo que me parece verdadeiramente perturbador em toda a cobertura mediática da tragédia. Não tenho nada a dizer sobre o Eusébio. O brilhante, mas preguiçoso, Diogo Hoffbauer já escreveu sobre isso e expressou tudo aquilo que eu penso sobre o nosso Messias de chuteiras.
Aquilo que me perturbou verdadeiramente foi um aspecto menor de toda esta comoção. A nossa imprensa insiste em disponibilizar tempo de antena ao Mário Soares. No rescaldo da morte, foram divulgadas as declarações do nosso Ilustre Senador sobre o Pantera Negra. Era um homem de “pouca cultura”, disse ele, que passava o dia a beber whisky e a frequentar restaurantes de carácter duvidoso.
Como agora acontece neste mundo cibernético, as reacções foram quase imediatas. As multidões chorosas devem ter ficado chocadas. O Facebook deve ter inflado com tanta indignação. Os servidores do Twitter devem ter entupido. As nossas personalidades da “opinião” não fizeram por menos, e decidiram massacrar o Grande Pajem da Esquerda por ter vozeado declarações tão ignorantes, estúpidas e desrespeitosas. Aproveitaram certamente este deslize para criticar a figura em todas as vertentes da sua vida - pessoal, cultural e política. Acusaram-no de snobismo, elitismo, presunção e vaidade.
A questão aqui é que a culpa não é do Mário Soares. Independentemente do espectro ideológico, qualquer pessoa que acompanhe a imprensa nacional já deve ter percebido que há cerca de dois anos que Doutor Mário não diz outra coisa senão barbaridades absurdas. A culpa é dos supremos idiotas que, dia sim, dia não, insistem em encostar microfones à boca caduca do Pai do Regime. Estes jornaleiros de pasquim procuram, com a avidez de piranhas em águas ensanguentadas, declarações que sejam chocantes e chamativas. Tudo para cumprir a missão repugnante de atrair espectadores, obter visualizações e somar “gostos”, estando completamente indiferentes ao dever de informar objectivamente.
Eu consigo suportar as opiniões datadas de Jerónimo de Sousa relativamente à sociedade, política e economia. Elas são inofensivas. São os sons flatulentos de um cadáver que passou do prazo de validade e insiste em ocupar um lugar no parque de estacionamento dos vivos. Eu não levo a mal. Não é pessoal. Sei que existem pessoas com opiniões que considero aberrantes, mas são pessoas que possuem mentes sãs e que possuem a legitimidade necessária para serem confrontados com a amplificação da caneta jornalística.
Eu não tenho qualquer pretensão de sapiência médica, mas parece-me óbvio, ou pelo menos provável, que o Doutor Soares esteja a ficar senil. Não no sentido patológico e cruel da demência, mas no sentido de que o antigo Presidente está a ser afectado pelo declínio inevitável e natural das suas faculdades mentais. A sua mente já não possui a destreza de outros tempos. A sua bússola emocional desregulada impede-o de absorver informação contextual e medir o peso das suas palavras.
Eu não vejo nas afirmações do Mário Soares sobre o Eusébio nenhuma intenção maldosa ou qualquer depravação moral. Eu desprezo os tablóides imundos povoados por seres humanos abjectos que, depois de recolherem aquelas afirmações, decidem difundi-las com uma intenção clara de manipulação. O objectivo deles é estimular uma glândula traquina que todos nós temos. A glândula que regula aquele instinto perverso que nos leva a tapar os olhos, mas a não resistir em ver o acidente através das brechas entre os dedos. Este jornalismo mucoso estimula o alívio perante a tragédia alheia, vê no chocante uma versão mais nítida da verdade e engana-nos com a ilusão de que todos somos anjos a observar, incólumes, a devassidão dos demónios.
segunda-feira, 6 de janeiro de 2014
Eusébio
A minha geração nunca viu jogar Eusébio. Ele apresenta-se-nos como um figura de contornos mitológicos, como Viriato. As únicas provas das suas façanhas estão em vídeos em que a única coisa com menos qualidade do que a imagem é o futebol praticado. A geração Y, habituada à alta-definição, aos relvados perfeitos, ao delicado trato da bola, à minuciosa estratégia e à intensidade do futebol actual, vê naquelas películas importantes registos históricos, mas dificilmente os apreciará pelos predicados futebolísticos das equipas.
Tendo eu propensão para procurar conhecer a história que antecedeu o meu nascimento, e sendo ávido consumidor do desporto-rei, perdi já várias horas da minha vida a apreciar os dotes dos heróis futebolísticos de outrora, cujos nomes estão canonizados, e que tantas vezes nos são repetidos que me sinto incomodado por desconhecer por completo as suas capacidades. Quero saber como jogavam craques como Di Stefano, Puskas, Pelé ou Charlton, como quem quer ler Shakespear ou ver filmes do Hitchcock. Deparo-me, então, com a mesma dificuldade: antes do renascer dos anos 70, o futebol praticado, mesmo ao mais alto nível, era manifestamente primário. Uma quantidade de passes e remates disparatados ao nível da Liga Vitalis e, acima de tudo, uma carência de zelo táctico de bradar aos céus: linhas defensivas pouco numerosas, descoordenadas, sarrafeiras e permeáveis a falhas de marcação que envergonhariam alunos em torneios inter-turmas.
Daí que as declarações recentes de Eusébio tenham caído mal a toda a gente, pela patética falta daquela humildade que agora tantos lhe atribuem, mas acima de tudo aos amantes de futebol da minha geração. Quando ficámos estupefactos quando Eusébio se disse triste por o compararem a Ronaldo, não o ficamos tanto pela soberba do pantera, nem mesmo pela sua confusão entre o Liechtenstein e o doutor fictício que criou um monstro. Ficamos porque sabemos que o Frankenstein de 2012 é bem melhor, táctica e tecnicamente, do que a Coreia do Norte de 1966. Sabemos que Ronaldo, num século XXI carregado de craques, em que o futebol atingiu uma importância e qualidade apoteóticas, disputa taco-a-taco um lugar como melhor jogador da era moderna com um sério candidato a melhor de sempre. E qualquer comparação de quem quer que seja a Ronaldo nunca pode ser depreciativa.
Posto isto, quero deixar claro um aspecto: o futebol praticado nos anos 60 tinha contornos amadores, e isso permitia que os melhores se destacassem mais. Mas Eusébio não enganava, era muito melhor que os outros, jogava melhor e pensava melhor. E partilha com Ronaldo uma quantidade surpreendente de características físicas e futebolísticas (velocidade, potência, instinto) mas também de carácter: ambição, inconformismo, amor pelo jogo e muita auto-confiança. Eusébio, tal como Ronaldo, sabia o quão bom era. Quando chegou a Lisboa, com 19 anos, à equipa campeã europeia, declarou que tinha a certeza que iria entrar na equipa. Uma segurança narcisística, essencial para certos jogadores, como é para Ronaldo.
Deixo também claro que também eu sinto um orgulho irracional por partilhar com o pantera o país que também irracionalmente amamos. Tem destas coisas a vaidade da homogeneidade lusitana: todos festejamos o mesmo, todos sofremos pelo mesmo. Com uma figura lendária como Eusébio temos todos uma inexplicável ligação emocional, pela sua grandeza de quinas ao peito. Ver o jogo com a Coreia do Norte arrepia, como arrepia o golo de Rui Costa aos ingleses na Luz e os três de Ronaldo na Suécia, com uma diferença: não o presenciei em directo, estava até longe de ser concebido. A universalidade dessa emoção nacional, que o futebol ajuda como mais nenhuma arte a carregar, ajudaram a consagrar Eusébio como um deus entre mortais.
Tal como as de um adolescente Ronaldo na final do Euro 2004, as lágrimas de Eusébio em 1966 foram nossas também. Merece que as derramemos agora por ele.
Tendo eu propensão para procurar conhecer a história que antecedeu o meu nascimento, e sendo ávido consumidor do desporto-rei, perdi já várias horas da minha vida a apreciar os dotes dos heróis futebolísticos de outrora, cujos nomes estão canonizados, e que tantas vezes nos são repetidos que me sinto incomodado por desconhecer por completo as suas capacidades. Quero saber como jogavam craques como Di Stefano, Puskas, Pelé ou Charlton, como quem quer ler Shakespear ou ver filmes do Hitchcock. Deparo-me, então, com a mesma dificuldade: antes do renascer dos anos 70, o futebol praticado, mesmo ao mais alto nível, era manifestamente primário. Uma quantidade de passes e remates disparatados ao nível da Liga Vitalis e, acima de tudo, uma carência de zelo táctico de bradar aos céus: linhas defensivas pouco numerosas, descoordenadas, sarrafeiras e permeáveis a falhas de marcação que envergonhariam alunos em torneios inter-turmas.
Daí que as declarações recentes de Eusébio tenham caído mal a toda a gente, pela patética falta daquela humildade que agora tantos lhe atribuem, mas acima de tudo aos amantes de futebol da minha geração. Quando ficámos estupefactos quando Eusébio se disse triste por o compararem a Ronaldo, não o ficamos tanto pela soberba do pantera, nem mesmo pela sua confusão entre o Liechtenstein e o doutor fictício que criou um monstro. Ficamos porque sabemos que o Frankenstein de 2012 é bem melhor, táctica e tecnicamente, do que a Coreia do Norte de 1966. Sabemos que Ronaldo, num século XXI carregado de craques, em que o futebol atingiu uma importância e qualidade apoteóticas, disputa taco-a-taco um lugar como melhor jogador da era moderna com um sério candidato a melhor de sempre. E qualquer comparação de quem quer que seja a Ronaldo nunca pode ser depreciativa.
Posto isto, quero deixar claro um aspecto: o futebol praticado nos anos 60 tinha contornos amadores, e isso permitia que os melhores se destacassem mais. Mas Eusébio não enganava, era muito melhor que os outros, jogava melhor e pensava melhor. E partilha com Ronaldo uma quantidade surpreendente de características físicas e futebolísticas (velocidade, potência, instinto) mas também de carácter: ambição, inconformismo, amor pelo jogo e muita auto-confiança. Eusébio, tal como Ronaldo, sabia o quão bom era. Quando chegou a Lisboa, com 19 anos, à equipa campeã europeia, declarou que tinha a certeza que iria entrar na equipa. Uma segurança narcisística, essencial para certos jogadores, como é para Ronaldo.
Deixo também claro que também eu sinto um orgulho irracional por partilhar com o pantera o país que também irracionalmente amamos. Tem destas coisas a vaidade da homogeneidade lusitana: todos festejamos o mesmo, todos sofremos pelo mesmo. Com uma figura lendária como Eusébio temos todos uma inexplicável ligação emocional, pela sua grandeza de quinas ao peito. Ver o jogo com a Coreia do Norte arrepia, como arrepia o golo de Rui Costa aos ingleses na Luz e os três de Ronaldo na Suécia, com uma diferença: não o presenciei em directo, estava até longe de ser concebido. A universalidade dessa emoção nacional, que o futebol ajuda como mais nenhuma arte a carregar, ajudaram a consagrar Eusébio como um deus entre mortais.
Tal como as de um adolescente Ronaldo na final do Euro 2004, as lágrimas de Eusébio em 1966 foram nossas também. Merece que as derramemos agora por ele.
quinta-feira, 19 de dezembro de 2013
O Terramoto de 1755 em Fukushima
Não é possível evitar uma sensação de culpa quando apreciamos a beleza do Convento do Carmo. O edifício parece mais bonito e integrado na cidade em ruínas do que como uma estrutura íntegra. É nisto que penso enquanto sento-me num banco no Largo do Carmo a observar os claustros e as naves remanescentes do templo sagrado onde ficou encerrado o túmulo destruído de D. Nuno Álvares Pereira. Em 1755 um dos maiores terramotos da história causou a morte de dezenas de milhares de portugueses, principalmente em Lisboa, com a onda de choque inicial, as derrocadas e os desabamentos consequentes, os incêndios infernais que se seguiram, e um maremoto que finalizou a tragédia com notas apoteóticas de requinte.
Apesar de ter sido uma catástrofe menor na história geral das calamidades, este evento teve repercussões enormes. Está ligado ao surgimento da sismologia, assim como inquéritos filosóficos, que eclodiram com o choque dos homens perante o confronto com o mal sem explicação num planeta indiferente. As convulsões sociais e as mudanças políticas resultantes levaram à ascensão de uma figura - o Marquês de Pombal - e à imposição marcas indeléveis na história nacional. O Terramoto de Lisboa surgiu como o pontapé que derrubou a estrutura política podre e acelerou o início do declínio do Império Português.
Em 2013, tão próximos já de 2014, parece quase anedótico falar de um terramoto em Portugal. Um país de gente tão pacífica e inofensiva, sem catástrofes naturais recorrentes, sem criminalidade violenta, sem fauna e flora perigosa, sem terrorismo sectário ou outros fenómenos exóticos que causam tanta morte neste mundo. Mas aconteceu mesmo. O chão que estamos a pisar, aqui e agora, moveu-se. O chão moveu-se. A terra emitiu um som horrendo. O mundo abanou. O mar invadiu a terra. É afirmado que, como habitantes do mundo desenvolvido, tomamos demasiadas coisas como certas. É afirmado que não valorizamos o amor da nossa família, que não agradecemos aos anjos e santos pela comida abundante e pela água limpa, e que assumimos, de forma ingénua, que nada de mal nos pode acontecer. Pensamos que os acontecimentos das nossas vidas têm sempre explicação e são, por isso, previsíveis, através do prisma prático do senso comum. Mas eu não concordo com essa asserção. De todas as variáveis da vida, aquelas que consideramos como certas, seguras e previsíveis são as mais óbvias e passíveis de serem ignoradas. O chão não se move. Edifícios não caem. O mar não invade a terra. Todos nós, mesmo os ateus, vivemos com a noção inabalável de que existem certos aspectos divinos no equilíbrio inabalável da Terra. O sol, a lua, o céu, as montanhas, o ar. São apenas peças perfeitas de um cenário permanente.
Nas descrições oferecidas por sobreviventes do terramoto, e subsequente tsunami em Fukushima, mostram-nos que esse equilíbrio é instável. Alguns factos marcantes demonstram o que acontece quando o chão nos trai. Um dos sobreviventes, um homem de meia-idade, mencionou que a primeira coisa que notou foi a ausência absoluta de pássaros. Não consigo pensar num mundo tão estranho como aquele desprovido do chilrear adorável e irritante dos pássaros. O sobrevivente disse ainda que notou que não eram só os pássaros que faltavam. Era tudo. Não havia som. Não haviam sons claros e discerníveis. Não haviam máquinas, carros, passos, respirações, combustões, estalares, choques ou vozes. Não havia nada. Ele disse que, por momentos, pensou que era o último habitante da Terra. O pior, disse, é que ele não conseguia sentir nada. Ele tinha-se deparado com o maior dos horrores. Um evento causado pelas maiores magnitudes da Natureza. Mas ele não conseguia sentir nada, nem quando viu uma mulher a segurar o corpo inanimado do seu filho, nem quando começou a notar nos cadáveres, centenas deles, ou quando viu cães a comerem carne humana.
Quando o som voltou, as suas únicas manifestações eram gritos, sirenes, choros, explosões e pedidos de ajuda. Mesmo com esses sons de sofrimento, ele disse que não conseguia sentir nada, e que essa ausência acabaria por durar dois dias inteiros. Ele queria chorar ou pelo menos sentir um aperto no peito, um frio no estômago. Alguma coisa. Qualquer coisa. Era como se o seu cérebro não fosse capaz de processar emoções. Estava em choque, disse-lhe uma médica dos serviços de emergência, numa tenda improvisada de assistência hospitalar. Esse vácuo chegou ao seu fim quando, na fila do refeitório da tenda, uma menina perguntou-lhe queria passar à frente, visto ser mais velho do que ela. À sua volta, reparou que reinava uma serenidade forte e digna. O desespero tinha desaparecido. Ele recusou a oferta simpática da criança, dizendo não ter muita fome, e saiu da fila, para fora da tenda. Os pássaros tinham voltado. Eram poucos, mas suficientes para fazer com que o homem se ajoelhasse e, consolado, começasse a chorar sobre o chão que tinha-se movido. O futuro era incerto, mas, indubitavelmente, mesmo num mundo onde o próprio chão pode ceder, a vida continuava. Não era uma questão de escolha ou força de vontade. Simplesmente era.
segunda-feira, 9 de dezembro de 2013
Série "A Esquerda Portuguesa" - 2ª Parte - A Esquerda Estalinista
“Portugal é uma República soberana, baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade popular e empenhada na sua transformação numa sociedade sem classes.” – Constituição de 1976 da República Portuguesa
“Socializar os meios de produção e a riqueza, através das formas adequadas às características do presente período histórico… e abolir a exploração e a opressão do homem pelo homem.” - idem
“O PCP é perfeito? Não. Nada é perfeito na construção humana. Mas é o mais próximo da perfeição.” – Honório Novo
As dúvidas abundam. Nem sei bem por onde começar. A tarefa é hercúlea, sisífica e ingrata. Não me agrada criticar de forma tão dura uma fatia assustadoramente significativa dos meus compatriotas. Também não gosto de bater em cegos, ou de cantar para os surdos, e muito menos de antagonizar os mudos. Cegos, surdos e mudos a liderarem cegos, surdos e mudos. No fundo, é isto que esta gente é. É a forma mais gentil de caracterizá-los. As outras formas envolveriam termos mais agressivos, como palavrões maliciosos, envolvendo as minhas dúvidas sobre a inteligência desta gente, e maledicências científicas, como as designações oficiais de doenças catalogadas pela psiquiatria, que envolveriam as minhas dúvidas sobre a sanidade mental desta gente.
Não sei se devo tratar o Partido Comunista Português como o habitat natural e único desta espécie muito exótica da Esquerda Portuguesa, ou se devo ignorar os pequenos fungos comunistas que vão a votos de quatro em quatro anos para receberem um certificado desaprovador da sua existência patética: o Partido Comunista dos Trabalhadores Portugueses/Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado, o Movimento Alternativa Socialista e o Partido Operário de Unidade Socialista. Isto é gente que acha que o PCP faz parte dos “partidos do poder”, que acha que a sua forma ortodoxa de interpretação da doutrina marxista não passa de uma deturpação neoliberal de patifes capitalistas.
Se tenho as minhas dúvidas sobre a dissecação do PCP, imaginem as dúvidas que surgem quando me confronto com estes tumores sectários. Isto é gente inqualificável. A língua falha. Não há palavras, nem gestos. Por isso, no âmbito desta humilde análise, não serão mais mencionados. Consideremo-los por um instante e apenas um instante. Depois, a sua presença maniqueísta será levada pela brisa leve, como o ar fétido de uma flatulência discreta, que, depois de causar alguns segundos de sofrimento e riso nos presentes, nunca mais retornará para assombrar a consciência humana com a indecência do seu ser.
A intenção dos comunistas é clara. Infelizmente, eles não são tímidos. Eles não são discretos. Está logo ali, à mão, inscrita na sua marca registrada, a foice e martelo, cruzados, reminiscentes simbólicos do trabalho, num mar emblemático de vermelho. Quando iniciei o meu percurso académico, vi na Semiótica uma ciência oculta, uma corrente mística, digna de xamãs e astrólogos, virada para o seu umbigo cerimonial, e inútil na sua dissecação dos elementos básicos da comunicação. Agora, parece-me a ferramenta perfeita, algo que, curiosamente, é aquilo que uma foice e um martelo decididamente não são. O que é que diz sobre uma causa quando o seu logótipo consiste na exposição gritante de duas ferramentas agrícolas, quase obsoletas na sociedade moderna, cuja utilização ubíqua em tarefas de sobrevivência está restrita a países subdesenvolvidos, envolvidos em guerras e imersos em fome, e muitas vezes rendidos aos encantos enganadores dessa mesma causa? Eu digo-vos: diz muito. Essa simbologia revela-nos que a causa comunista existe para servir os interesses da causa comunista, e não para trazer ao mundo a utopia de igualdade e prosperidade que os seus manifestos fazem de tudo para pintar com pinceladas realistas.
Aqui reside a contradição mortal que destrói a legitimidade existencial deste movimento. A validade do comunismo já não existe, tendo sido anulada quando o mundo deixou de ser o lugar onde a vida era “solitária, pobre, sórdida, brutal e curta”. O mundo que levou Karl Marx e Friedrich Engels a dissertar sobre a crueldade do contrato capitalista, sobre a alienação individual intrínseca em sistemas de propriedade privada e sobre a escravidão salarial, foi, em grande parte, extinto pelas forças verdadeiramente revolucionárias do mercado, pelo seu poder incomensurável de catalisação de mudança positiva e pela sua potencialização avassaladora da liberdade individual. A poesia da relação entre a simbologia comunista e o lugar da ideologia no mundo de hoje é óbvia e a minha pena é que não seja igualmente óbvia para todos, especialmente para aquelas pragas egípcias que habitam em Setúbal, Lisboa e no Alentejo, e que continuam a achar, teimosamente, que a política é uma "luta", um empréstimo condicional é um "pacto de agressão", e que a tentativa de igualar despesas e receitas é a "destruição do Estado social".
Em outras palavras, o Jerónimo de Sousa há muito que deixou de ser o líder de um partido político com esperanças, mesmo que ténues, de chegar ao poder, mas sim o líder de um grupo de múmias acordadas que tenta, a todos os custos e sem se importarem em poluir o debate público com o seu bafo pestilento, manter os seus respectivos lugares de proeminência social e relevância mediática, e todos os tachos, benesses e privilégios que a sua condição de actores políticos acarreta. Mesmo que para isso tenham que evitar ao máximo afirmar que são comunistas, daqueles que apoiariam, nos dias de hoje, a União Soviética ou a China Maoísta, desde que isso permitisse a manutenção do seu estado de graça. Quando o PCP vai a votos, utiliza a designação mais simpática de CDU, a Coligação Democrática Unitária, uma entidade cuja nomenclatura tem tanto valor de aplicação prática como a “República Democrática do Congo” ou o “Ministério para a Suprema Felicidade do Povo”.
Gostaria muito de poder escrever aqui sobre os atributos positivos associados a este movimento político – boa música, boa erva e militantes femininas de beleza helénica – mas isso enfraqueceria a minha tese. Portanto aqui afirmo, sem quaisquer reservas, que ouvir um comunista discursar é o equivalente ao sofrimento sonoro que surgiria se um trio eléctrico baiano tivesse um filho com uma parada militar norte-coreana. Aquilo que ouvimos não faz sentido, não tem qualquer base factual, está completamente desligado da realidade, ignora décadas, séculos e milénios de história, fala de dignidade sem ter tido o trabalho de ver a sua definição num dicionário e, além disso, assustam-me. Aliás, aterrorizam-me.
Eles fazem um excelente trabalho em esconder as suas facetas mais perturbadoras. Em público, limitam-se a alimentar a impaciente besta mediática com soundbytes de indignação vazia. No Parlamento, dão soluções populistas e absurdas, desconectadas das regras da aritmética, como a revitalização do sector da construção civil. Eles reservam a loucura para os seus canais de comunicação oficiais, como a revista “Avante!”, onde recentemente li um artigo iluminado, escrito por um membro feminino da comissão do partido, em que escrevia, com a acutilância mordaz da tradição literária queirosiana e com a erudição isenta dos sociólogos portugueses, que os resquícios actuais do conflito coreano tem duas divisões claras que correspondem, de forma inequívoca, ao certo e ao errado. Um dos lados, localizado no norte e correspondente ao certo, é uma nação de paladinos do proletariado, que, depois da guerra, desenvolveram a sua indústria e garantiram um amanhã mais feliz aos pequenos norte-coreanos*. A outra nação, mais ao sul e correspondente ao errado, foi invadida pelo grande capital americano e retirou das mãos do povo o sonho de uma nação esfomeada, isolada e nominalmente comunista.
Sou suspeito, admito. Venho de uma família de talhantes minhotos, conservadores, católicos e amantes da sua propriedade, que considera como verdades absolutas, entre várias ideias, a de que, depois do Mondego, acaba a nação portuguesa, passando apenas a existir uma vasta planície de ninguém, feita de fogo e cinza, povoada por comunistas armados com engaços, ansiosos por nacionalizarem fábricas e erguerem punhos. Mas a Esquerda Estalinista não nega quem eles são. Esta análise é influenciada pela minha cultura, mas não é unicamente derivada por preconceitos ideológicos que daí poderiam advir. Eu limito-me a respeitar o poder básico dos números e estatísticas. A imprensa portuguesa é que parece ter-se esquecido. Eles olham para os comunistas com o fascínio com que os visitantes do jardim zoológico olham para um leão enjaulado, julgando ver nele um gatinho manso, ao invés de uma besta sanguinária. Esta benevolência interpretativa que a imprensa concede aos amáveis estalinistas, revela-se na ilusória, infeliz e falsa narrativa mediática que nos é oferecida para contextualizar qualquer acção do PCP: implantaram sozinhos a democracia pelo seu amor à liberdade e à pátria. Quarenta anos depois do 25 de Abril, os comunistas ainda mamam, afoitos e de bom grado, nesse seio purificador da revolução.
Para ser um comunista é necessário ser um fanático. É necessário estar disposto a ser um membro leal de um culto cujo rol de ideais tem a mesma validade que os sacrifícios humanos dos maias. É preciso também sofrer de amnésia seletiva e esquecer dos cinquenta milhões de chineses mortos no Grande Salto Adiante, dos cinco milhões de ucranianos mortos na Grande Fome e dos dois milhões de cambojanos massacrados pelo Khmer Rouge. Convém referir, que estes são apenas três exemplos de uma lista enorme de atrocidades, calamidades e monstruosidades facilmente associadas à irracionalidade ácida do comunismo.
Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. A estirpe comunista portuguesa não tem tamanhas ambições, concedo. Depois de falharem na implantação do sonho vermelho durante o PREC e o Verão Quente, os comunistas portugueses acalmaram, e aceitaram ocupar uma bancada traseira, onde os seus fartos rabos podem descansar sem se preocuparem com o aparecimento cruel de hemorroidas e as suas gordas bochechas podem produzir os sons da escandalização populista sem se preocuparem com a proximidade desarmante do mundo real. Enfim, eles são almas muito mais gentis, que encarnam aquele estado de espírito muito português: aquele medo recôndito de que alguém, algures, de algum modo, está a fazer de tudo para impedir-nos de sermos felizes.
*Literalmente: em média, os norte-coreanos têm menos 3cm-8cm do que os sul-coreanos. Este facto não está, de nenhuma forma, relacionado com o comunismo. É pura coincidência.
segunda-feira, 2 de dezembro de 2013
Orgulho Lusitano
O nacionalismo é um fenómeno peculiar. Como pronunciou Doug Stanhope na sua embriagada sabedoria, faz-nos odiar pessoas que nunca conhecemos e orgulharmo-nos de feitos que não são nossos. Seja dos golos do Ronaldo ou dos tipos que apareceram na Time por terem inventado um café altamente alcoólico, partilhamos todos, do mais ferveroso comunitário ao mais altivo individualista, uma satisfação mais ou menos acentuada pelas façanhas dos nossos conterrâneos. Há essa aura de irmandade entre o mais rico e o mais pobre, o marxista e o hayekiano, o portista e o benfiquista, o inteligente e o néscio. Num mundo em que as diferenças entre os cidadãos são, por ambas as partes, cada vez mais realçadas, este orgulho nacionalista, herança da vaidade colonial, tem um papel importante na agremiação do nosso povo.
Falo-vos do louvável nacionalismo lusitano numa semana em que me deparei na imprensa internacional com dois artigos relativos a esta histórica província que habitamos. O primeiro, publicado pelo NY Times, foi muito divulgado nas redes sociais pela analogia entre o declínio da população de burros mirandeses e a situação dos humanos seus compatriotas. Escusado será dizer que esta divulgação foi devidamente acompanhada de uma inevitável dose de indignação. Quem são os americanos para nos compararem a burros de carga?
Exacerbado nacionalismo a funcionar; entendo a revolta contra os termos depreciativos da comparação. É, à primeira vista, uma pressão demasiado forte na já aberta ferida de orgulho nacional. Eu próprio, confrontado com o título, expressei um esgar de dor na dita ferida. Uma vez consultado o artigo, anestesiei-me. A peça apenas reservava um parágrafo a esta comparação; todos os restantes exploravam exclusivamente a condição do burro. O burro animal, não o que acumulou orçamentos deficitários. Podem os críticos alegar que todo o texto é uma grande metáfora, banhada de um queirosiana ironia. A verdade é que esta só é detectada quando a carapuça serve. E esta carapuça tem o tamanho ideal.
O outro artigo que acima referi é do Le Monde, que alerto não ter o hábito de ler, por eu ter um vocabulário francês comparável ao do Marco Horácio a imitar o Bölöni, mas que consta na edição deste mês do Courrier Internacional. Esta peça, contrariamente à tendência dos artigos referentes a Portugal, é elogiosa do povo luso. Realça o artigo a resistência da população em cair na tentação natural em tempos de crise de se refugiar em perigosos extremos políticos. No cenário europeu actual, são exemplos incontornáveis a assustadora Frente Nacional de Marine Le Pen, o bizarro Movimento 5 Estrelas de Beppe Grillo e o violento Aurora Dourada de Michaloliakos. Os portugueses, louva o jornal, não têm caído nessa inclinação.
O periódico gaulês justifica esta aversão a extremismos com a história recente do país. Com os fantasmas ainda mornos do Estado Novo, a extrema-direita não tem lugar no debate político, quanto mais no hemiciclo. Ainda bem que assim é. O problema é que, resultado também desse repúdio traumático à direita (de significância tão ambígua que custa generalizar o termo), vivemos numa sociedade sindicalista que, compreensivelmente ou não, se dedicou a compensar magnanimamente, a qualquer custo e de forma precipitada, décadas de direitos negados.
O Le Monde destaca acertadamente uma resistência na viragem à direita radical; carece, no entanto, este artigo de uma referência importante. A guinada à esquerda só não foi acentuada porque ela já havia sido feita. Os partidos esquerdistas radicais de grande adesão não surgiram porque já cá estavam. E só a inabilidade política os impede de crescerem (a divisão do eleitorado que resultará da criação do Livre do Rui Tavares não ajudará).
De resto, esta referência ao novo partido, de que o artigo do Le Monde é omisso, é pertinente. O partido de esquerda que emergiu nesta crise não assume uma posição extremista, pelo menos na teoria. Surge, isso sim, para que haja uma alternativa de esquerda moderada ao arco de governação. Um partido à direita do PC e do Bloco, que nada terá de eurocéptico nem se limitará ao protesto gratuito. Um fenómeno exactamente inverso do resto dos países europeus. Se isto não é sintomático do nosso ponto de partida extremista, não sei o que será.
Falo-vos do louvável nacionalismo lusitano numa semana em que me deparei na imprensa internacional com dois artigos relativos a esta histórica província que habitamos. O primeiro, publicado pelo NY Times, foi muito divulgado nas redes sociais pela analogia entre o declínio da população de burros mirandeses e a situação dos humanos seus compatriotas. Escusado será dizer que esta divulgação foi devidamente acompanhada de uma inevitável dose de indignação. Quem são os americanos para nos compararem a burros de carga?
Exacerbado nacionalismo a funcionar; entendo a revolta contra os termos depreciativos da comparação. É, à primeira vista, uma pressão demasiado forte na já aberta ferida de orgulho nacional. Eu próprio, confrontado com o título, expressei um esgar de dor na dita ferida. Uma vez consultado o artigo, anestesiei-me. A peça apenas reservava um parágrafo a esta comparação; todos os restantes exploravam exclusivamente a condição do burro. O burro animal, não o que acumulou orçamentos deficitários. Podem os críticos alegar que todo o texto é uma grande metáfora, banhada de um queirosiana ironia. A verdade é que esta só é detectada quando a carapuça serve. E esta carapuça tem o tamanho ideal.
O outro artigo que acima referi é do Le Monde, que alerto não ter o hábito de ler, por eu ter um vocabulário francês comparável ao do Marco Horácio a imitar o Bölöni, mas que consta na edição deste mês do Courrier Internacional. Esta peça, contrariamente à tendência dos artigos referentes a Portugal, é elogiosa do povo luso. Realça o artigo a resistência da população em cair na tentação natural em tempos de crise de se refugiar em perigosos extremos políticos. No cenário europeu actual, são exemplos incontornáveis a assustadora Frente Nacional de Marine Le Pen, o bizarro Movimento 5 Estrelas de Beppe Grillo e o violento Aurora Dourada de Michaloliakos. Os portugueses, louva o jornal, não têm caído nessa inclinação.
O periódico gaulês justifica esta aversão a extremismos com a história recente do país. Com os fantasmas ainda mornos do Estado Novo, a extrema-direita não tem lugar no debate político, quanto mais no hemiciclo. Ainda bem que assim é. O problema é que, resultado também desse repúdio traumático à direita (de significância tão ambígua que custa generalizar o termo), vivemos numa sociedade sindicalista que, compreensivelmente ou não, se dedicou a compensar magnanimamente, a qualquer custo e de forma precipitada, décadas de direitos negados.
O Le Monde destaca acertadamente uma resistência na viragem à direita radical; carece, no entanto, este artigo de uma referência importante. A guinada à esquerda só não foi acentuada porque ela já havia sido feita. Os partidos esquerdistas radicais de grande adesão não surgiram porque já cá estavam. E só a inabilidade política os impede de crescerem (a divisão do eleitorado que resultará da criação do Livre do Rui Tavares não ajudará).
De resto, esta referência ao novo partido, de que o artigo do Le Monde é omisso, é pertinente. O partido de esquerda que emergiu nesta crise não assume uma posição extremista, pelo menos na teoria. Surge, isso sim, para que haja uma alternativa de esquerda moderada ao arco de governação. Um partido à direita do PC e do Bloco, que nada terá de eurocéptico nem se limitará ao protesto gratuito. Um fenómeno exactamente inverso do resto dos países europeus. Se isto não é sintomático do nosso ponto de partida extremista, não sei o que será.
segunda-feira, 25 de novembro de 2013
Depressões
Não quero entrar na celeuma que envolve as eventuais pressões sobre o Tribunal Constitucional, mas devo deixar um ponto que considero importante: a Constituição não nos foi dada por Cristo numa bandeja. Está longe da perfeição divina; é atemporal, radical e ambígua. O órgão que tem como função suprema defender este documento é intocável. A Constituição não o é. E mais do que não ser intocável, pode e deve ser discutida. Sendo as normas que nos regem enquanto comunidade, deve ser o assunto mais aberto à opinião pública sem que essa opinião, quando contrária, seja encarada como um atentado à democracia. Numa perspectiva contratualista, a Constituição deve, de facto, estabelecer os limites da acção estatal. Mas isso não parece ser considerado para os dois lados. A Constituição restringe o poder executivo por conceitos abstractos como igualdade, que geram discussões de sardinha de rabo na boca, e por políticas concretas, como a "gratuitidade" de certos serviços públicos. A constituição deve arbitrar a política, não fazê-la, e infelizmente tem funcionado como primeiro recurso da oposição que detém, essa sim, o poder legislativo.
Outra coisa que eu não entendo nestas acusações de pressões sobre o Tribunal Constitucional: se o órgão supremo da Justiça não consegue executá-la imparcialmente, e imune à opinião dos agentes políticos, o problema não está nas pressões. A separação de poderes, que tantas vezes é invocada nesta questão, não fica afectada com as considerações públicas dos políticos, acima de tudo porque essa posição das forças políticas relativamente a uma eventual decisão do TC é desde logo perceptível pelos espaços próprios de discussão, como o Parlamento. Nenhum político assumiu até agora uma posição nos media que não fosse por todos já conhecida. A própria declaração de Durão Barroso, pouco sagaz e compreensivelmente polémica sobretudo vindo de um compatriota, também não pode chocar quando considerarmos que é o líder de uma organização cujas directrizes foram já barradas pelo TC. Se assumir uma posição é pressionar, os pedidos de revisão são, desde logo, pressões declaradas. Já para não entrar por aqui, aqui, ou aqui.
Outra coisa que eu não entendo nestas acusações de pressões sobre o Tribunal Constitucional: se o órgão supremo da Justiça não consegue executá-la imparcialmente, e imune à opinião dos agentes políticos, o problema não está nas pressões. A separação de poderes, que tantas vezes é invocada nesta questão, não fica afectada com as considerações públicas dos políticos, acima de tudo porque essa posição das forças políticas relativamente a uma eventual decisão do TC é desde logo perceptível pelos espaços próprios de discussão, como o Parlamento. Nenhum político assumiu até agora uma posição nos media que não fosse por todos já conhecida. A própria declaração de Durão Barroso, pouco sagaz e compreensivelmente polémica sobretudo vindo de um compatriota, também não pode chocar quando considerarmos que é o líder de uma organização cujas directrizes foram já barradas pelo TC. Se assumir uma posição é pressionar, os pedidos de revisão são, desde logo, pressões declaradas. Já para não entrar por aqui, aqui, ou aqui.
terça-feira, 12 de novembro de 2013
Jotinhas
Se há poder verdadeiramente instalado em Portugal, esse poder é o partidário. Vivemos num regime constitucionalmente partidocrático e cujos resultados deveriam ser bem ponderados. A culpa da separação cada vez mais clara entre a classe política e a sociedade civil não se baseia apenas no cepticismo crescente da segunda em relação à primeira. De resto, esse cepticismo tem motivado até, em alguns sectores, alguma iniciativa política individual ou, se colectiva, apartidária. Mas os limites são deveras circunscritos. A melhor forma de fazer alguma coisa pelo bem público é a associação a um partido, isto considerando a centralização do poder em Portugal, e por isso desconsiderando a administração local como poder verdadeiramente relevante. Ainda que como independente, qualquer um que intente a ter voz parlamentar tem de escolher um alinhamento. Conscientes que estão os agentes políticos desta necessidade, criou-se nos partidos uma ascensão hierárquica quase maçónica.
Na sequência deste processo de promoção partidária, surgiram os jotinhas. Esta precoce espécie de diamantes governativos por lapidar ingressa nos partidos quando ainda é nova demais para cursos superiores ou para ter significativa experiência profissional. Nunca foi sua ideia adquiri-los: saberiam que o futuro era risonho em cargos públicos ou instituições municipais. Viveram sempre alimentados pela autêntica máquina de saquear os cidadãos em que se tornou o Estado. São dependentes desse saque e, como tal, serão sempre um obstáculo à reforma do mesmo, entretidos que estão a sugar esse delicioso seio.
Passos Coelho e Seguro são exemplos acabados dessa geração jotinha, que domina os partidos e consequentemente a política. Chegou a vez deles, que fizeram carreira sustentados pelos cidadãos, devolverem à comunidade as capacidades políticas adquiridas entrementes. O resultado, esse, é conhecido. Um primeiro-ministro com tanta sobriedade quanto covardia e incompetência; e o um líder da oposição que, de forma a não gastar muita tinta na sua óbvia depreciação, classificarei de insípido e perigoso. Com a primeira geração de políticos partidocráticos, Portugal enfrentou a bancarrota três vezes em menos de 40 anos. Com esta segunda geração, nunca sairá da bancarrota.
É este o fenómeno que temos perante nós: um processo em que o Estado utiliza o pretexto da boa intenção dissimuladamente socialista para ir aumentando e ir-se auto-alimentando, criando esta bola de neve burocrática que vai consumindo toda a economia. O problema é que o povo alinha nisto. Dizer mal do inevitavelmente corrupto poder público e dizer mal das gananciosas privatizações é uma escandalosa contradição, e os seus apregoadores têm de ser chamados à razão.
Esta ditadura de partidos e jotinhas tem uma consequência gravíssima última: permite aos partidos impor ao País os seus próprios deputados, contra a vontade dos cidadãos votantes. A democracia representativa será sempre corrompida por uma pornográfica limitação de escolha, que leva o problema principal-agente a um nível ainda mais preocupante: um nível em que as escolhas já estão feitas por nós há muito tempo, e em que o processo democrático se limita a criar a ilusão de que nós é que temos culpa, por termos levado os políticos mais incompetentes aos patamares que estes ocupam, num ininterrupto ciclo de conformismo.
Na sequência deste processo de promoção partidária, surgiram os jotinhas. Esta precoce espécie de diamantes governativos por lapidar ingressa nos partidos quando ainda é nova demais para cursos superiores ou para ter significativa experiência profissional. Nunca foi sua ideia adquiri-los: saberiam que o futuro era risonho em cargos públicos ou instituições municipais. Viveram sempre alimentados pela autêntica máquina de saquear os cidadãos em que se tornou o Estado. São dependentes desse saque e, como tal, serão sempre um obstáculo à reforma do mesmo, entretidos que estão a sugar esse delicioso seio.
Passos Coelho e Seguro são exemplos acabados dessa geração jotinha, que domina os partidos e consequentemente a política. Chegou a vez deles, que fizeram carreira sustentados pelos cidadãos, devolverem à comunidade as capacidades políticas adquiridas entrementes. O resultado, esse, é conhecido. Um primeiro-ministro com tanta sobriedade quanto covardia e incompetência; e o um líder da oposição que, de forma a não gastar muita tinta na sua óbvia depreciação, classificarei de insípido e perigoso. Com a primeira geração de políticos partidocráticos, Portugal enfrentou a bancarrota três vezes em menos de 40 anos. Com esta segunda geração, nunca sairá da bancarrota.
É este o fenómeno que temos perante nós: um processo em que o Estado utiliza o pretexto da boa intenção dissimuladamente socialista para ir aumentando e ir-se auto-alimentando, criando esta bola de neve burocrática que vai consumindo toda a economia. O problema é que o povo alinha nisto. Dizer mal do inevitavelmente corrupto poder público e dizer mal das gananciosas privatizações é uma escandalosa contradição, e os seus apregoadores têm de ser chamados à razão.
Esta ditadura de partidos e jotinhas tem uma consequência gravíssima última: permite aos partidos impor ao País os seus próprios deputados, contra a vontade dos cidadãos votantes. A democracia representativa será sempre corrompida por uma pornográfica limitação de escolha, que leva o problema principal-agente a um nível ainda mais preocupante: um nível em que as escolhas já estão feitas por nós há muito tempo, e em que o processo democrático se limita a criar a ilusão de que nós é que temos culpa, por termos levado os políticos mais incompetentes aos patamares que estes ocupam, num ininterrupto ciclo de conformismo.
sexta-feira, 8 de novembro de 2013
Chico Fininho
Tenho evitado escrever sobre o papa Chico desde a sua ascensão, por não querer cair na tentação, sendo eu crítico da longa data da Santa Sé, de prender quem tem cão e prender quem não o tem. Afianço-vos agora que é com algum cepticismo que vejo o papa Chico tornar-se no Obama do mundo religioso.
A associação do Sumo Pontífice ao presidente americano é óbvia já que são, em termos de popularidade, duas rockstars. Uma já em declínio, que nunca mais conseguiu produzir um álbum à altura daquele que compreendeu o período de campanha das eleições de 2008; o outro cada vez conquistando mais fãs, movendo mais groupies, granjeando os mais descrentes corações.
Tudo começou logo após a sua eleição. Decidiu permanecer na Casa de Santa Marta em vez de se mudar para a habitual residência do papa. Mais: viajou de autocarro com os restantes cardeais, em vez de recorrer ao carismático papamóvel. Que humildade, que simplicidade profunda. Entre tantos outros notáveis actos de boa-fé, afagou agora um homem desfigurado que a ele se dirigiu. Um santo, apregoa-se, um santo tal e qual o seu homónimo.
Recentemente, o Papa Chico iniciou um conjunto de inquéritos a nível mundial para averiguar o que pensam os seus seguidores acerca de questões fracturantes que, historicamente, colocaram a Igreja num dos extremos do eixo. Essas questões incluem a homossexualidade, o divórcio e a contracepção, três conceitos que, directamente de palavras bíblicas ou por interpretação institucional e pessoal, têm sido condenados pelos fiéis. Esta medida foi acolhida como um acto de coragem e tolerância sem precedentes na história do Vaticano. Não questiono as boas intenções do papa Chico por trás desta ideia, o senhor parece ser de facto um tipo de genuína boa índole. O que ainda não percebi é se ele está ciente da contradição em que se está a meter.
A crença num certo movimento religioso, e portanto nos seus princípios, está para além das opiniões ponderadas e pessoais dos elementos da seita. A crença é, na verdade, a antítese dessa ponderação racional. Questionar os dogmas católicos, enquanto principal representante dos mesmos, põe em perigo a sua credibilidade perante os humanos e, já agora, perante o Pai que já proferiu a sua opinião sobre os assuntos em questão com o intuito, julgo eu, de esta ser respeitada.
Partindo da premissa que os católicos acreditam que as regras bíblicas provêm de poder divino e devem ser linearmente respeitadas, questioná-las é, na prática, pôr em casa a sua deidade. O que é um sinal de saudável iluminismo; mas representa, para a significativa população católica, uma grave contradição. É acreditar em Deus, seguir a sua palavra mas, quando esta parece pouco ponderada e tolerante às luzes do novo século, fazer uma reunião de grupo para decidir se aquilo que Deus ensinou é mesmo para cumprir. Um acto que, para quem acredita nos poderes omnipresentes e castigadores de acção divina, é de um desassombro louvável.
A não ser que, e esta é a hipótese mais provável, o papa Chico saiba, num obscuro resquício da sua consciência, da farsa de que é líder. Que os humanos, mais do que aquele livro que ele jurou seguir e proteger, devem ser aqueles que decidem o seu destino, as suas normas, os seus direitos e deveres, as suas circunstâncias.
Que a palavra de Deus nem sempre (ou nunca) é seguida da forma fiel que o seu carácter divino exigiria já é consabido. Que o principal representante da palavra de Deus seja o primeiro a promover um processo que a questiona pela raiz é a prova final de que, até dentro da Igreja, os dogmas podem ser ignorados quando estão em causa interesses térreos mais importantes. Entre os quais está, naturalmente, a popularidade do Chico.
A associação do Sumo Pontífice ao presidente americano é óbvia já que são, em termos de popularidade, duas rockstars. Uma já em declínio, que nunca mais conseguiu produzir um álbum à altura daquele que compreendeu o período de campanha das eleições de 2008; o outro cada vez conquistando mais fãs, movendo mais groupies, granjeando os mais descrentes corações.
Tudo começou logo após a sua eleição. Decidiu permanecer na Casa de Santa Marta em vez de se mudar para a habitual residência do papa. Mais: viajou de autocarro com os restantes cardeais, em vez de recorrer ao carismático papamóvel. Que humildade, que simplicidade profunda. Entre tantos outros notáveis actos de boa-fé, afagou agora um homem desfigurado que a ele se dirigiu. Um santo, apregoa-se, um santo tal e qual o seu homónimo.
Recentemente, o Papa Chico iniciou um conjunto de inquéritos a nível mundial para averiguar o que pensam os seus seguidores acerca de questões fracturantes que, historicamente, colocaram a Igreja num dos extremos do eixo. Essas questões incluem a homossexualidade, o divórcio e a contracepção, três conceitos que, directamente de palavras bíblicas ou por interpretação institucional e pessoal, têm sido condenados pelos fiéis. Esta medida foi acolhida como um acto de coragem e tolerância sem precedentes na história do Vaticano. Não questiono as boas intenções do papa Chico por trás desta ideia, o senhor parece ser de facto um tipo de genuína boa índole. O que ainda não percebi é se ele está ciente da contradição em que se está a meter.
A crença num certo movimento religioso, e portanto nos seus princípios, está para além das opiniões ponderadas e pessoais dos elementos da seita. A crença é, na verdade, a antítese dessa ponderação racional. Questionar os dogmas católicos, enquanto principal representante dos mesmos, põe em perigo a sua credibilidade perante os humanos e, já agora, perante o Pai que já proferiu a sua opinião sobre os assuntos em questão com o intuito, julgo eu, de esta ser respeitada.
Partindo da premissa que os católicos acreditam que as regras bíblicas provêm de poder divino e devem ser linearmente respeitadas, questioná-las é, na prática, pôr em casa a sua deidade. O que é um sinal de saudável iluminismo; mas representa, para a significativa população católica, uma grave contradição. É acreditar em Deus, seguir a sua palavra mas, quando esta parece pouco ponderada e tolerante às luzes do novo século, fazer uma reunião de grupo para decidir se aquilo que Deus ensinou é mesmo para cumprir. Um acto que, para quem acredita nos poderes omnipresentes e castigadores de acção divina, é de um desassombro louvável.
A não ser que, e esta é a hipótese mais provável, o papa Chico saiba, num obscuro resquício da sua consciência, da farsa de que é líder. Que os humanos, mais do que aquele livro que ele jurou seguir e proteger, devem ser aqueles que decidem o seu destino, as suas normas, os seus direitos e deveres, as suas circunstâncias.
Que a palavra de Deus nem sempre (ou nunca) é seguida da forma fiel que o seu carácter divino exigiria já é consabido. Que o principal representante da palavra de Deus seja o primeiro a promover um processo que a questiona pela raiz é a prova final de que, até dentro da Igreja, os dogmas podem ser ignorados quando estão em causa interesses térreos mais importantes. Entre os quais está, naturalmente, a popularidade do Chico.
quinta-feira, 7 de novembro de 2013
A culpa é do Baco
Antipatizo, por natureza, com qualquer tentativa de desculpabilização baseada no álcool consumido. Não porque o álcool não possa, de forma directa e inequívoca, levar a más decisões. Todos teremos, mais tarde ou mais cedo, o insuportável sentimento de vergonha na manhã seguinte a uma piela mais desacanhada. Porém, essa justificação tornou-se tal epidemia que, ao mínimo sinal de alegria, as pessoas começam a pensar fazer tudo aquilo que por vergonha social não se atreveram antes a fazer. À desinibição junta-se a certeza de que qualquer acto irreflectido, que em condições normais pudesse ser sujeito a inquisição moral pessoal ou alheia, é justificado como consequência do copo. A culpa nunca é minha, é do Dionísio. Muitas vezes esta justificativa aparece acompanhada de uma ainda mais incomodativa: a da memória. Mais uma vez, reforço: o álcool tem inegáveis efeitos na memória de curto prazo. Esse efeito, porém, só é suficientemente voraz em ebriedades tão profundas e incapacitantes que nem os actos mais horrendos podem ser cometidos, por falta de coordenação motora. Pormenores podem desaparecer com a urina que deixámos num beco na noite anterior; grandes actos de vexame muito raramente o são.
Quando o acto desculpabilizado é o consumo de drogas pesadas, e o autor da desculpa um importante detentor de um cargo público, esta minha posição é sublimemente suportada. Além das semelhanças físicas com o actor e comediante Larry Joe Campbell (que, apesar de completamente alheias ao assunto, tinham de ser mencionadas), o mayor de Toronto Rob Ford tem outro motivo para ser referido, ao admitir ter consumido crack quando já desempenhava o cargo. Posteriormente, ao tentar amenizar o seu erro, conseguiu piorá-lo: «Yes I have smoked crack cocaine. But no, do I, am I am addict? No. Have I tried it? Probably in one of my drunken stupors, probably approximately about a year ago».
Partindo da mais desapropriada desculpabilização política desde que Paulo Portas disse não saber do corte na TSU, aqui partilho um artigo do cracked.com, um site que merece ser também ele divulgado, pelo atractivo dos assuntos e o aprimorado humor da escrita: as cinco desculpas mais estúpidas alguma vez proferidas num escândalo político.
Quando o acto desculpabilizado é o consumo de drogas pesadas, e o autor da desculpa um importante detentor de um cargo público, esta minha posição é sublimemente suportada. Além das semelhanças físicas com o actor e comediante Larry Joe Campbell (que, apesar de completamente alheias ao assunto, tinham de ser mencionadas), o mayor de Toronto Rob Ford tem outro motivo para ser referido, ao admitir ter consumido crack quando já desempenhava o cargo. Posteriormente, ao tentar amenizar o seu erro, conseguiu piorá-lo: «Yes I have smoked crack cocaine. But no, do I, am I am addict? No. Have I tried it? Probably in one of my drunken stupors, probably approximately about a year ago».
Partindo da mais desapropriada desculpabilização política desde que Paulo Portas disse não saber do corte na TSU, aqui partilho um artigo do cracked.com, um site que merece ser também ele divulgado, pelo atractivo dos assuntos e o aprimorado humor da escrita: as cinco desculpas mais estúpidas alguma vez proferidas num escândalo político.
terça-feira, 5 de novembro de 2013
O Natal é quando este homem quiser
Desafio o leitor a encontrar um cidadão português que anualmente não manifeste, enfadado e indignado, o seu descontentamento com a proliferação de enfeites de natal antecipados. Culpa-se a sede capitalista, culpam-se os gananciosos argentários que exploram os indefesos consumidores que, cegos pelos luzidios ornamentos, começam mais cedo a encher os sapatinhos dos seus entes queridos.
A Venezuela, baluarte da experiência socialista no sul das Américas, foi mais longe. Nicolás Maduro já recentemente mostrara ser um homem de inabalável crença e limitado intelecto ao afirmar que o seu falecido antecessor havia reencarnado na parede de uma estação de metro. O espírito de Chávez não é, porém, o único a surgir sem aviso. Também o espírito natalício foi evocado prematuramente pelo presidente, abusando desde já de um poder supremo que, se bem se recordam, já requereu e para o qual aguarda ainda aprovação. Mas ao contrário do que sucede no plutocrático mundo ocidental, em que esse espírito emerge compurscado pela febre do capital, celebrar-se-á antecipadamente por esses lados o nascimento do Salvador graças à grave crise económica e social que o país atravessa e à injecção de alegria que a época natalícia provoca na população.
Já se desconfiava há muito, desde a crise resultante da sucessão, da falta de argúcia do líder da Venezuela. Contudo, havia que dar o natural benefício da dúvida: quem sucedesse a Chávez não poderia ser pior. A vida, essa, ri-se destas presunções, e brinda os venezuelanos com uma peça de um ainda mais elevado quilate, e de uma sabedoria ainda mais brilhante do que os enfeites adornantes do seu pinheiro que, com certeza, já enchem o seu lar de um necessariamente extemporâneo espírito natalício.
A Venezuela, baluarte da experiência socialista no sul das Américas, foi mais longe. Nicolás Maduro já recentemente mostrara ser um homem de inabalável crença e limitado intelecto ao afirmar que o seu falecido antecessor havia reencarnado na parede de uma estação de metro. O espírito de Chávez não é, porém, o único a surgir sem aviso. Também o espírito natalício foi evocado prematuramente pelo presidente, abusando desde já de um poder supremo que, se bem se recordam, já requereu e para o qual aguarda ainda aprovação. Mas ao contrário do que sucede no plutocrático mundo ocidental, em que esse espírito emerge compurscado pela febre do capital, celebrar-se-á antecipadamente por esses lados o nascimento do Salvador graças à grave crise económica e social que o país atravessa e à injecção de alegria que a época natalícia provoca na população.
Já se desconfiava há muito, desde a crise resultante da sucessão, da falta de argúcia do líder da Venezuela. Contudo, havia que dar o natural benefício da dúvida: quem sucedesse a Chávez não poderia ser pior. A vida, essa, ri-se destas presunções, e brinda os venezuelanos com uma peça de um ainda mais elevado quilate, e de uma sabedoria ainda mais brilhante do que os enfeites adornantes do seu pinheiro que, com certeza, já enchem o seu lar de um necessariamente extemporâneo espírito natalício.
segunda-feira, 4 de novembro de 2013
Dreamer
A figura de John Lennon está envolta num misticismo ímpar no moderno mundo artístico. Muitos outros músicos foram encarados como estando espiritualmente acima dos pífios mortais: Elvis Presley e os obsessivos mitos da sua sobrevivência são um exemplo incontornável. Mas nenhum se aproximou tanto do estatuto de Jesus Cristo do mundo moderno como o Beatle.
A figura física ajudou. As semelhanças com a imagem que os frescos renascentistas disseminaram como sendo do nazareno são impossíveis de ignorar. Está lá tudo: os longos cabelos castanhos, o olhar firme mas terno, o corpo delgado. Até arranjou uma mulher de outras terras para reforçar a já inevitável associação. Mas estas semelhanças nunca seriam suficientes para esta profana comparação se Lennon nunca tivesse composto aquela mensagem de paz, de forma cantada, e não pregada, mas não por isso menos popular. A Imagine, apesar de renegar a mensagem religiosa (ou pelo menos as consequências negativas que dela advêm), tem com o discurso cristão de harmonia e perdão denominadores comuns incontornáveis.
Outro factor indispensável à sua canonização foi o assassinato. Armado de um revólver na mão direita e de Salinger na esquerda, Mark David Chapman viu na raiva juvenil de Holden Caufield a inspiração para abater um ícone das raízes pacíficas da sua geração. Esta martirização foi exactamente o que faltava na consagração de Lennon como venerado semi-deus.
Mas a realidade é bem mais vil do que a nossa propensão para santificar ídolos nos permite conceber. John Lennon, que fez o mundo utopizar um primaveril mundo de concórdia, batia na mulher. Nas mulheres, para ser mais preciso. A sua primeira mulher Cynthia, mãe do seu filho Julian, e a sua musa Yoko Ono foram ambas vítimas de violência doméstica. E já que referimos o rebento, é pretinente acrescentar que, numa entrevista dada já após a morte do progenitor, este confessou que Paul McCartney sempre foi mais um pai para ele que o próprio Lennon. Não podemos condenar o petiz; além da brutalidade física que o ícone da paz reservava para as companheiras, brindava regularmente Julian com insultos frutos do ressentimento provocado pela sua concepção, que obrigara Lennon a assentar raízes numa altura da sua vida em que a rotina de casado não se enquadrava no seu documentado narcisismo.
Outras contradições valem a pena serem referidas. A opulência financeira, que publicamente condenava, era contrariada pela vida de milionário que ostentava (um pouco ao estilo Floribella, portanto). Repudiava religião, mas era um homem altamente espiritual. Fazia meditação, mas só atingia a paz de espírito abusando fisica e psicologicamente da sua família.
Não é meu intento, ao partilhar estes factos, denegrir de forma gratuita a figura de Lennon. Admiro de resto, inevitavelmente, o artista. Além de inspirado compositor, tem um timbre de voz que parece reflectir a extravagância e multiplicidade do seu carácter: tanto nos encantou com a brandura de Across the Universe como com a deliciosa aspereza de Yer Blues, passando pelo tom mecânico da psicadélica I am the Walrus e a voz descontraída e compassada em Come Together.
Quero, ao partilhar estes sórdidos pormenores da vida pessoal de Lennon, exemplificar que é perigoso desumanizar os ídolos. Já nem quero referir as eventuais consequências de conceptualizarmos a existência de seres humanos perfeitos, e do que isso faz ao frágil ego de uma população consciente dos seus pecados. Apenas me insurjo contra a injustiça em si.
Lennon é colocado lado a lado com Malcolm X, Mandela, Ghandi ou Martin Luther King como personalidades que lutaram com as suas armas contra a desigualdade, a guerra e a discórdia. John Lennon merece figurar nos anais da história como um dos músicos mais inovadores e influentes do século XX. Mas nunca como um candidato póstumo a Nobel da Paz. Exceptuando, talvez, no lugar de Obama em 2009. Verdade seja dita: Lennon surrava nas companheiras, mas nunca bombardeou um país.
A figura física ajudou. As semelhanças com a imagem que os frescos renascentistas disseminaram como sendo do nazareno são impossíveis de ignorar. Está lá tudo: os longos cabelos castanhos, o olhar firme mas terno, o corpo delgado. Até arranjou uma mulher de outras terras para reforçar a já inevitável associação. Mas estas semelhanças nunca seriam suficientes para esta profana comparação se Lennon nunca tivesse composto aquela mensagem de paz, de forma cantada, e não pregada, mas não por isso menos popular. A Imagine, apesar de renegar a mensagem religiosa (ou pelo menos as consequências negativas que dela advêm), tem com o discurso cristão de harmonia e perdão denominadores comuns incontornáveis.
Outro factor indispensável à sua canonização foi o assassinato. Armado de um revólver na mão direita e de Salinger na esquerda, Mark David Chapman viu na raiva juvenil de Holden Caufield a inspiração para abater um ícone das raízes pacíficas da sua geração. Esta martirização foi exactamente o que faltava na consagração de Lennon como venerado semi-deus.
Mas a realidade é bem mais vil do que a nossa propensão para santificar ídolos nos permite conceber. John Lennon, que fez o mundo utopizar um primaveril mundo de concórdia, batia na mulher. Nas mulheres, para ser mais preciso. A sua primeira mulher Cynthia, mãe do seu filho Julian, e a sua musa Yoko Ono foram ambas vítimas de violência doméstica. E já que referimos o rebento, é pretinente acrescentar que, numa entrevista dada já após a morte do progenitor, este confessou que Paul McCartney sempre foi mais um pai para ele que o próprio Lennon. Não podemos condenar o petiz; além da brutalidade física que o ícone da paz reservava para as companheiras, brindava regularmente Julian com insultos frutos do ressentimento provocado pela sua concepção, que obrigara Lennon a assentar raízes numa altura da sua vida em que a rotina de casado não se enquadrava no seu documentado narcisismo.
Outras contradições valem a pena serem referidas. A opulência financeira, que publicamente condenava, era contrariada pela vida de milionário que ostentava (um pouco ao estilo Floribella, portanto). Repudiava religião, mas era um homem altamente espiritual. Fazia meditação, mas só atingia a paz de espírito abusando fisica e psicologicamente da sua família.
Não é meu intento, ao partilhar estes factos, denegrir de forma gratuita a figura de Lennon. Admiro de resto, inevitavelmente, o artista. Além de inspirado compositor, tem um timbre de voz que parece reflectir a extravagância e multiplicidade do seu carácter: tanto nos encantou com a brandura de Across the Universe como com a deliciosa aspereza de Yer Blues, passando pelo tom mecânico da psicadélica I am the Walrus e a voz descontraída e compassada em Come Together.
Quero, ao partilhar estes sórdidos pormenores da vida pessoal de Lennon, exemplificar que é perigoso desumanizar os ídolos. Já nem quero referir as eventuais consequências de conceptualizarmos a existência de seres humanos perfeitos, e do que isso faz ao frágil ego de uma população consciente dos seus pecados. Apenas me insurjo contra a injustiça em si.
Lennon é colocado lado a lado com Malcolm X, Mandela, Ghandi ou Martin Luther King como personalidades que lutaram com as suas armas contra a desigualdade, a guerra e a discórdia. John Lennon merece figurar nos anais da história como um dos músicos mais inovadores e influentes do século XX. Mas nunca como um candidato póstumo a Nobel da Paz. Exceptuando, talvez, no lugar de Obama em 2009. Verdade seja dita: Lennon surrava nas companheiras, mas nunca bombardeou um país.
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