terça-feira, 28 de maio de 2013

"clitóris ou caroço?" ou "os érres dão tesão"

"Hoje é dia 21 de outubro de 2008. Estou a beber chá.

O meu marido anda lá fora, no quintal. Na paisagem imóvel da janela, uma brisa ligeira nas folhas mais altas, vejo-o às vezes. Furtivo, o meu marido passa com a pá, ou o ancinho, ou a mangueira, ou a tesoura de podar. Na nossa casa, os catálogos de jardinagem terminam sempre como leitura de casa de banho. O meu marido anda de botas e chapéu. Não há sol, mas aquele é o chapéu da jardinagem. Também as calças dobradas na canela e as botas. Agradeço a Deus pela jardinagem. Obrigado, Senhor, pela jardinagem. O meu marido precisa de distracções. Não lhe chega a televisão, adormece. O meu marido é doente cardíaco. O vidro da janela é grosso e eu ouço mal. Ouço bem um apito fininho, constante, branco, uma linha, ouço mal tudo o resto. O vidro da janela, eu ouço mal, mas sei que o meu marido está a assobiar. As pequenas plantas fazem-no feliz.

Actualmente, o meu clitóris não é mais sensível do que qualquer outra parte do meu corpo. É feito de pele, como os meus ombros, cotovelos, joelhos. Creio que endureceu. Ainda é de tarde, são quase cinco horas, mas já se sente o início da noite. Aqui, nos arredores de Reggensburg, há pássaros que só aparecem a esta hora. Não sei porquê, alguém deve saber. São pássaros pequenos que fazem barulho. No passado, o meu clitóris deu-me grandes alegrias. Marcou o meu epicentro. Sou uma mulher, não deixei de ser uma mulher, mas agora tenho outros interesses. Não sei ainda quais são. Talvez a mágoa. Talvez a mágoa seja agora um dos meus interesses. Presto bastante atenção à mágoa, é certo. Neste verão que terminou, parecia-me que a mágoa tinha um cheiro entre os primeiros instantes de cada dia, uma nesga de luz matinal na janela do quarto. O meu marido na cozinha, acordado há horas, as chávenas a chocarem umas nas outras, e eu a decidir se estava acordada, se era outra manhã, se queria outra manhã, acordar, e a parecer-me que a mágoa tinha um cheiro. O meu marido nunca se apercebeu. O meu marido esqueceu-se de tocar-me há talvez quinze, dezasseis anos, nunca mais se lembrou. Em Fevereiro, faço setenta anos. Esta parte do ano, outubro, ficou sempre ligada na minha cabeça aos outubros de quando era adolescente e ia para a escola. Na minha imagem mental dos meses, agora parece maio. Há cinco meses, em maio, eu ainda estava chocada. Ontem, ao lavar-me, passei a mão pelo clitóris e, instintivamente, admirei-me. Por instantes, pensei que pudesse ser uma verruga, um sinal, um caroço.

 "um caroço deste tamanho"

Os arredores de Reggensburg têm asseio, os muros estão sempre acabados de pintar. Temos vizinhos a boa distância. Gosto do vento, mesmo daquele vento frio a meio do inverno. Reggensburg fica a cerca de 225 quilómetros de Amstetten. Nunca fiz essa viagem, nem para um lado e nem para o outro. Quando saímos de Amstetten, fomos viver para Dortmund, ficámos lá dez anos. Depois, fomos para Weimar, ficámos lá dois anos, até o meu marido se reformar. Podíamos ter procurado casa em qualquer lado. O meu marido insistiu na Baviera porque ficava perto da Áustria, acabamos por concordar com Reggensburg. Quando pede alguma coisa, o meu marido gagueja. Às vezes dizia: Amstetetetetetten. Sozinho, planeava fins-de-semana em Amstetten. Dizia: vivemos cinco dos nossos melhores anos naquela cidade, porque não queres voltar? Eu começava por negar que não quisesse voltar. Depois, inventava desculpas sem tentar sequer fazer sentido. Não sei o que ele pensava de mim. Até podemos ficar no teu hotel, dizia o meu marido, sem saber o que dizia. Literatura. Adorava que o meu marido gostasse de ler. Tenho a certeza de que adoraria os russos: Tolstoi, Dostoievski, Gogol. Ah, Gogol. Quando quis trabalhar, o meu marido conseguiu-me uma posição a gerir uma pousada quase no centro de Amstetten. Após uma semana de serviço, meados de setembro, o Josef possuiu-me na cama dupla do quarto 28.

Sempre usámos este verbo um pouco antigo, talvez um pouco livresco, século XIX. Quando o Josef começava a rosnar, eu dizia-lhe: possui-me, possui-me. Tenho de falar dos seus olhos azuis. Os olhos azuis do Josef brilhavam, seriam suficientes para iluminar uma sala. Não estou a exagerar. Ou talvez só um pouco. Quando o Josef me sorriu, me tratou por menina, quando me apontou o olhar cheio de entoações, desfiz-me invisivelmente. A partir daí, tratou-se de seguir um sentido. Às vezes, quando deixávamos cair a cabeça sobre as almofadas da cama, eu ficava a fazer-lhe festas no pequeno bigode colado aos lábios. Não era ridículo. Eu sorria, enquanto a nossa respiração abrandava ao mesmo tempo. Depois, ele olhava para mim e sorria também. O Josef sabia sorrir. À noite, o meu marido contava-me todos os pormenores da vida dos seus colegas, mas eu não o ouvia. O Josef gostava de sexo de pé. Eu inclinava-me na direcção da janela e ele ficava por trás, apreciava a paisagem. Em certos assuntos, muitos, eu considerava o Josef um poeta. Amstetten era uma cidade sem sobressaltos, as campainhas das bicicletas, as estações do ano nos dias certos. O Josef tinha umas pernas firmes, que eu gostava de apertar no interior das minhas.

Quando estava bom tempo, aos sábados, o meu marido e eu fazíamos piqueniques. O Josef tinha cinquenta e oito anos, mais quatro do que eu, e bastava que me tocasse com um dedo. Se nos cruzávamos na rua, eu tremia. Ninguém podia suspeitar. Ele sorria sem olhar para mim. Uma vez, estava num restaurante, e o meu marido perguntou-me: estás com frio? Era o Josef. Quando ganhei coragem para olhar melhor, não era o Josef, não era sequer parecido, mas tremi, não consegui controlar-me. Quando o Josef punha a cabeça no meio das minhas pernas, eu fazia-lhe festas no cabelo. Havia semanas em que nos víamos duas vezes, três vezes, havia semanas em que não nos víamos. Dependia de muitos factores. Conheci o Josef quando tive aulas de dança, salsa. Estive em três aulas. Depois de conhecê-lo, desisti. Deixei de ter tempo. Precisava de todos os instantes para pensar nele.

O meu marido estava muito triste na noite em que me contou que tínhamos de partir para Dortmund. Eu disse-lhe algumas frases inacabadas, palavras incompletas. O meu marido disse: pois é. O meu marido nasceu na Saxónia, a meia dúzia de quilómetros de Dresden e, no entanto, já tinha adoptado um sotaque austríaco. Artificial, enjoativo, mas sentido. O meu marido é obediente. O Josef tinha verdadeiro sotaque austríaco, claro. Os seus érres davam-me tesão. Durante anos, eu corava só de lembrar-me dos seus érres. Nessa noite, o meu marido tinha a cabeça entre as mãos, a realidade. Eu não podia fazer outra coisa. Desde esse dia, até à partida, eu e o Josef comemo-nos como animais, como lobos, em todas as camas da pousada. Engolimo-nos. Em Dortmund, eu sonhava com ele. No duche. Em Weimar, comecei a conformar-me. Em Weimar, tivemos uma cadela, Lassie. O meu marido apareceu com ela pequenina, quando chegámos. Morreu uma semana antes de partirmos para Reggensburg, bem-educada. Conformei-me que não voltaria a ver o Josef. Por isso, nunca quis voltar a Amstetten. O Josef era um segredo para sempre. Havia momentos em que me parecia que só tinha existido na minha imaginação, mas isso é algo que me acontece com todo o passado. Há momentos em que me parece claramente que algum detalhe do passado, a minha mãe, sexo oral quando namorava com o meu marido, sopa de abóbora, só existiu na minha imaginação.

Eu não tinha qualquer fotografia do Josef. Mesmo já em Reggensburg, havia vezes em que me sentava no sofá, de braços cruzados, a esforçar-me para recordar o seu rosto. Quando não conseguia, ia à cozinha e fazia panquecas. Era uma espécie de compensação e, ao mesmo tempo, um hábito. Depois, noutros dias, via-o em tudo. Havia um calor. O rosto dele era como uma chama. Tentei aprender a bordar. Via o rosto dele nos novelos de linha, no pano esticado. Foi talvez por isso que, quando apareceu a imagem dele na televisão, não me admirei logo. Acho que não gerei sequer um pensamento, não reagi. Analisando, reconheço agora que a ordem dos meus instintos perante a sua imagem seria não verbalizar. Foi com alguns segundos de atraso que me apercebi que o Josef, o Josef, o meu Josef, estava na televisão. Não sei qual foi o meu aspecto. Perdeu-se para sempre a imagem do meu rosto porque estava sozinha, não estava ao espelho, estava em brasa, a ouvir. Eu não queria acreditar. Foi em abril. Quando acordo a meio da noite com pesadelos, acredito por instantes que posso sentir-me aliviada, que não é real, mas depois, acordada, o pesadelo é ainda mais intenso porque é real. O Josef punha a língua toda dentro da minha boca. Abril, abril, quando desliguei a televisão, cambaleei pela sala. Agarrei-me a móveis para não cair. E pensei: não. Pensei: não. Até cheguei a sorrir. Não pode ser. Em roupão, tirei o carro da garagem e fui comprar revistas e jornais. Nenhum tinha a notícia. Liguei o rádio do carro e não falavam de outra coisa. No dia seguinte, todos os jornais tinham a notícia.

O Josef tinha mantido a filha presa na cave durante vinte e quatro anos. Tinha-a violado repetidamente e tinha tido sete filhos com ela, um dos quais morreu. Na televisão e no rádio, chamavam-lhes filhos-netos. A filha do Josef e alguns dos seus filhos-netos viviam na cave. Um deles, uma rapariga com dezanove anos, nunca tinha visto o sol. Eu era obrigada a ouvir o meu marido comentar esta história e a repetir: em Amstetten, quem diria em Amstetten, e nós lá, quem diria. E perguntava-me se eu conhecia aquela rua. Eu respondia. Já me tinha perdido naquela parte da cidade. Este ano, em abril, choveu muito pouco. Tenho saudades de quando chovia em abril. Eu fixava a imagem do Josef na televisão e acreditava que os seus olhos líquidos me viam. Não tinham envelhecido. Eram os mesmos. Os lábios eram os mesmos. O Josef traiu o nosso segredo com o seu próprio segredo. Mas, agora, o seu segredo já não existe, toda a gente o conhece. Agora, só existe o nosso. "

Retirado daqui.
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Na senda daquilo que o Diogo já escreveu sobre o José Luís Peixoto. Explico porquê: hoje, acabei por converter uma alma que, saudavelmente, nunca tinha lido nada do autor, embarcando no que a dissonância que a qualidade existente nas suas obras e o sucesso que têm induz, embora apenas o tenha feito através da mera exposição dos textos do seu blog pessoal, onde partilha o que escreve para os órgãos de comunicação social e, também, publicita uma míriade de eventos de modo a, naturalmente, não perdermos pitada da sua congenialidade. O texto, de título "Traição", que nunca tinha lido, facilitou significativamente o processo. E por que não partilhar um texto de um dos vencedores do prémio José Saramago? Ele escreveu este, até, especialmente para uma revista de São Paulo, numa operação indefectível, permitindo revelar e relevar a capacidade literária lusitana em terras brasileiras.

Salve-se a referência ao Josef Fritzl, "o monstro de Amstetten", para recordarmos a desculpa mais original, por ser a mais desproporcional, para alguma coisa já cometida: "só queria proteger a minha filha das drogas".

domingo, 26 de maio de 2013

A tribo de Naftali



94.
"Viver é ser outro. Nem sentir é possível se hoje se sente como ontem se sentiu: sentir hoje o mesmo que ontem não é sentir – é lembrar hoje o que se sentiu ontem, ser hoje o cadáver vivo do que ontem foi a vida perdida.

Apagar tudo do quadro de um dia para o outro, ser novo com cada nova madrugada, numa revirgindade perpétua da emoção – isto, e só isto, vale a pena ser ou ter, para ser ou ter o que imperfeitamente somos.

Esta madrugada é a primeira do mundo. Nunca este cor rosa amarelecendo para branco quente pousou assim na face com que a casaria de oeste encara cheia de olhos vidrados o silêncio que vem na luz crescente. Nunca houve esta hora, nem esta luz, nem este meu ser. Amanhã o que for será outra coisa, e o que eu vir será visto por olhos recompostos, cheios de uma nova visão.

Altos montes da cidade! Grandes arquitecturas que as encostas íngremes seguram e engrandecem, resvalamentos de edifícios diversamente amontoados, que a luz tece de sombras e queimações – sois hoje, sois eu, porque vos vejo, sois o que [serei?] amanhã, e amo-vos da amurada como um navio que passa por outro navio e há saudades desconhecidas na passagem."

- O Livro do Desassossego

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Bom Domingo.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Fogo!



Juntem-se à minha volta, caros concidadãos, patrícios e amigos, e formem um círculo: pois eu sou aquele que passou os portões do Inferno e viu, com os seus próprios olhos, o reino do Demo. Eu senti o calor sufocante das labaredas eternas e fiquei cercado pelos lagos de lava. Não se atrevam a desviar o olhar, caros irmãos, e leiam, pois ontem eu estive no Inferno na terra e o seu nome verdadeiro não é Inferno – é Loja do Cidadão.

Esqueçam os contos expelidos pelas bocas desditosas dos charlatães do quotidiano que ousam declarar que os infernos terrenos se encontram nas maiores aglomerações de sofrimento materialista. Na Suazilândia, onde mais de um quinto da população tem SIDA, e uma minoria desgraçada vê-se mesmo obrigada a ingerir fezes, de forma a cumprir a obrigatoriedade de revestir o estômago antes de tomar a medicação da síndrome cruel. Na Somália, onde o governo não controla o país, que é assolado diariamente por milícias islamitas que impõe com mão férrea a lei de sharia. Na Síria, onde guerra civil é violenta e o fim não existe. Ou aqui mesmo, em Portugal, onde a maioria da população vê-se obrigada a observar impávida enquanto um clube regional, representando uma tribo selvagem e bárbara do Norte, rouba descaradamente o título de campeão nacional de futebol.

Enfim, esqueçam estas tragédias. Cesse o chorar dos violinos e o tilintar dos pianos. O Inferno na Terra é a Loja do Cidadão, nas suas diversas filiais, todas igualmente mefistofélicas, todas capazes de corromper ou mesmo de roubar aquilo que o Homem tem de mais precioso – a sua alma – bela, virginal e cristalina. Este é um lugar que combina, com um requinte luciférico, a tortura da existência burocrática do escritório português com o sofrimento sem fim da sala de espera de um hospital. Aqui é o lugar onde o tempo não passa.

As televisões mudas sintonizadas na TVI e os monitores que indicam os números das senhas da fila dividem as atenções dos presentes. O horror espelhado nas suas faces inertes é a representação viva de um grito munchiano. As pessoas esperam e olham. Procuram padrões nas paredes. Os funcionários informam e explicam. Carimbam guias e assinam documentos. Os telefones tocam e as gavetas abrem. Algumas pessoas dormem. Outras parecem não saber onde estão. Roga-se pelo acender de luzes e pelo correr das águas canalizadas. Fazem-se contas das pensões e pagam-se multas. Adolescentes hesitantes pedem o registo criminal vigiados pelo olhar destemido de mães desapontadas. Nada causa tanta submissão como o amor maternal enraivecido.

Isto é o que se vê todos os dias nestas casas assombradas. No entanto, ainda piora. Dentro do inferno burocrático existe um compartimento especial, onde as chamas são mais altas e mais fortes e as almas, que antes queimavam lentamente, agora são sublimadas. As filas são enormes e começam antes do sol levantar. Estes são os desgraçados, os corajosos, os loucos.

Estes são aqueles que se encontram na porta da Segurança Social. Casais jovens que carregam bebés irritantes. Homens de meia-idade com pastas de documentos que parecem ter a rigidez de tijolos vermelhos. Ao contrário dos condenados das outras partes do Inferno, estes parecem ter outra expressão na cara. Não é horror, indiferença ou resignação. Não é melancolia. É um aviso para os transeuntes de que alguma coisa, algures, correu muito mal. Eu vejo isso num sorriso perverso no canto da boca que todos eles parecem mostrar, como se estar preso no vórtice das boas intenções estatais fosse a coisa mais engraçada do mundo. No final da tarde, eu saio do trabalho e vejo que o edifício já está vazio. O Sol desce e as filas já se dissiparam. Por momentos, eu não sei o que é pior. Entrar e beneficiar de ajuda ou ficar cá fora e ter que fazer de tudo para não precisar dela.

domingo, 19 de maio de 2013

Expurgações de um benfiquista



Agradeço o intento prestado pelo cansaço acumulado da queima, que somente após a fatídica final europeia consegui saciar, mas revelou-se insuficiente. Entretanto ocupei-me a distrair-me com a beleza intemporal de Audrey Hepburn em "Roman Holiday", filme que lhe valeu o primeiro dos seus três Óscares, com a loucura de Tony Montana, mediada entre problemas no processo de raiva e os efeitos histriónicos do consumo excessivo de cocaína, com dois dos melhores álbuns de Elton John (“Madman Across the Water” e “Capitan Fantastic and The Brown Dirt Cowboy”), que como nem toda a gente sabe se encontram no início da sua carreira, recorri à inestimável companhia de Dostoiévski e Umberto Eco, comecei a ver “Arrested Development”, vi novelas, vi documentários no Odisseia sobre a crescente raridade do panda vermelho, que actualmente só com muita dificuldade se consegue encontrar no seu habitat natural, a complicada subsistência do urso polar, no Verão do Ártico, quando o gelo derrete, a ímpar essência do tamboril, o peixe pedestre, e a fascinante história da Titanoboa, uma espécie de cobra extinta há já 60 milhões de anos, cuja existência se conhece pela comparação das suas vértebras fossilizadas com as das cobras actuais, permitindo seguramente inferir que tivesse cerca de 13 metros de comprimento, 1,1 metros de diâmetro e pesasse mais de uma tonelada, tentei autohipnotizar-me com cartazes do “Spring Breakers”, bem como estive com amigos, bebi, fumei os necessários cigarros e bebi e fumei, mas pura e simplesmente não dá. A normalidade não é um bom lar para a desolação, sendo o seu único.

Acho difícil acreditar nas Moiras, as três irmãs que conjuntamente teciam o destino de homens e deuses. Também me mostro algo relutante quanto a ser Deus a escrever todos os pergaminhos da nossa existência. Pelo que ficarei valentemente chateado caso chegue ao céu e a santíssima entidade efectivamente exista. Significaria que o xoninhas teria ficado este tempo todo na cobardia de não comprovar a sua existência, após ter enrabado, e sem vaselina, espiritualmente a nação benfiquista. Apesar de a situação não ser do pior que o Senhor do Universo alegadamente consegue [ver a Bíblia], é o suficiente para ter a obrigação de prestar contas. Peço-lhe encarecidamente que vá contemplar criações suas, nomeadamente a Scarlett Johansson, a Olga Kurylenko e a Allison Brie e deixe o Benfica arredado do seu experimentalismo trágico-dramático.

Acredito na concepção abstracta de fado português quando é compreendido como a constatação de um elemento fatalista numa história já passada. É dessa sina malfadada que o primado de Jesus se caracteriza, com o capítulo apoteótico a dar-se nesta época. A genuflexão (nunca pensei conseguir arranjar contexto para utilizar esta palavra sem ser em argumentos porno) de Jesus no Dragão, prostrado e incrédulo, foi a sua representação perfeita. Recordemos o que aconteceu na totalidade do assombrado reinado jesuíta: Benfica campeão nacional na primeira época; na segunda, o Benfica perde 5-0 no Dragão e é eliminado nas meias-finais da Liga Europa com o Braga; na terceira, o Benfica infantilmente concedeu na segunda metade da época uma vantagem de oito pontos, cinco deles em jornadas consecutivas contra Vitória e Académica, e o Porto termina por festejar na Luz; nem sequer preciso de me dar ao trabalho de descrever a actual. Reparar, unicamente, que se encontra incompetência relativamente ao campeonato, o empate caseiro com o Estoril simplesmente não poderia ter acontecido, e ausência de fortuna relativamente à Liga Europa, pontificada pelos contornos da derrota, por si só já dolorosos, mas ampliados ainda pela similitude com o que tinha sucedido no Dragão.

O legado de Jesus vive desta ambivalência: devolveu o Benfica à disputa, mas não a consegue ganhar. Voltámos a ombrear verdadeiramente com o Porto em domínio nacional, mas perdemos sempre no ombro-a-ombro. Nas alturas de fogo, quando a vitória tem de acontecer, o Benfica claudica invariavelmente. O Benfica de Jesus tem o mérito de finalmente parecer à altura dos desígnios de um clube com a sua dimensão e o demérito de não os conseguir alcançar. Tendo a próxima época como inflexível limite, sou ainda assim favorável à continuidade do técnico da Amadora.

É inevitável os portistas da minha geração lerem este texto através de uma confortável superioridade. E é legítima, é alardeada pela sobranceria da glória. Mas também eles sabem da felicidade da sua condição, e que a posição hegemónica da última década, sensivelmente, poderá ser agora ramagem caduca. Pretendi isolar especialmente a parte atinente ao período de Jesus enquanto treinador do Benfica, mas é até simples recordar outros períodos da história recente do clube que podem ser adicionados à sina que me despendi a retratar. Ainda assim, benfiquistas, nada temeis. Leiam Shakespeare, “Péricles”, onde o dramaturgo se compadece a demonstrar que até o mais dramático dos cenários pode conhecer um final feliz. Temo-lo do nosso lado para a próxima época, em que é absolutamente inaceitável a possibilidade de não ganhar novamente o campeonato. E fazê-lo não é, diga-se, mais do que a nossa obrigação.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Insónia, Televendas e Telejornal (eu não consegui pensar num título)


São dez horas da noite. Um homem enfia-se na cama. Está orgulhoso. Sente-se triunfante. Conseguiu resistir aos encantos sedutores e malignos do entretenimento cibernético. Em outras noites, falhava. Sentia-se como um fracassado. Um desperdício de moléculas. Uma vergonha para a família. Uma desgraça para a nação. Uma ovelha negra incapaz de adormecer a horas decentes. Nessas noites, olhava para o relógio e era meia-noite, mas pouco depois eram três da manhã. E este vagabundo tinha que acordar às seis. E acordava, meio morto, meio vivo, dominado pelo ímpeto dos impulsos suicidas matinais que infestam a população preguiçosa.

Mas nesta noite, o caso era diferente. Conseguiu resistir. No meio deste vinte e cinco de Abril individual conseguiu derrubar o regime ditatorial da escassez de sono. Acordará feliz (quase) e cheio de energia. Se tudo correr bem, dormirá as abençoadas e recomendadas oito horas de sono. Poderá ser um membro produtivo da classe trabalhadora e contribuir para o produto interno bruto. A criatura lê um livro. Ajuda a adormecer. Meia hora bastará, pensa ele. O tempo passa e ele continua sem sono. Lê mais. São onze horas. Lê mais um pouco. É meia-noite. Continua sem sono. Decide tentar dormir mesmo assim.

Vira-se para o lado esquerdo. Pondera a natureza imutável do teto. Vira-se para o lado direito. Pensa na vida. Pensa nela. Pensa no arqui-inimigo quotidiano que todos temos. Passa mais uma hora. Vira-se de barriga para baixo, com a cara enfiada na almofada. Pondera novamente o teto. Percebe que fracassou. Percebe que está cheio de fome. Como as horas são impróprias e a necessidade fala mais alto, qualquer coisa serve. Azeitonas, sardinhas enlatadas, bolachas, batatas fritas e chocolate. Não consegue comer mais. Não quer ler. Ele decide ligar a televisão.

São duas horas da manhã. A única coisa que passa é o programa de televendas. Primeiro estranha. Mostra desprezo. Sente a superioridade que advém de ser uma pessoa que abomina este exercício de marketing. Depois apaixona-se pelo festival de horror do empreendedorismo americano. Não percebe como aquele programa consegue cativá-lo daquela forma.

Oh, sim, pensa ele, canta para mim, ó musa, e diz-me quais são as coisas que eu preciso de comprar urgentemente. Num mundo de escolhas infinitas, é relaxante observar alguém tentar convencer-te, com um entusiasmo desconcertante, que aquilo é exactamente o que falta na tua vida. Tu não precisas de pagar a renda. O preço da gasolina é irrelevante. Aquilo de que tu precisas é de um cortador de pêlos do nariz. Tu precisas de uma caneta mágica que remove os riscos do teu carro. Tu precisas da lâmina que te permite cortar os vegetais da forma mais prática e interessante. Tu precisas de exercitar os teus abdominais se mexeres um único músculo. Tu precisas da máquina igual à Bimby mas que não se chama Bimby.

Esquece o teu trabalho. São três da manhã, mas só se vive uma vez. Agarra naquela garrafa de vinho que não acabaste. Bebe o resto. Não te preocupes com copos. Bebe da garrafa. Não preocupes quando entornares vinho tinto no colchão. Alguém deve vender alguma coisa que resolve isso facilmente. Quando estiveres bêbado e forem quatro da manhã, vai à casa de banho e faz caretas no espelho. Vê como já tens aquilo que se parece com o início de rugas. Ri-te sozinho. Não te preocupes. No televendas estão a anunciar que o creme de baba de caracol consegue amaciar as deformações cutâneas mais profundas.

Às cinco da manhã, adormeces. Aliás, desmaias. Às seis, o despertador toca e tu, resignado, acordas. Ainda estás um pouco bêbado. Aceitas que aquilo não é um sonho e aceitas que és um adulto e aceitas que tens mesmo que trabalhar, e que, afinal de contas, já te sentiste pior. A televisão ainda está ligada. O noticiário substitui as televendas. Oh não, pensas tu, o desfile de malucos a tentarem vender o impossível acabou de começar.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

há poucos gajos inteligentes e muitas torradeiras no lugar onde deviam estar gajos minimamente inteligentes

Maia Panjikidze, ministra dos Negócios Estrangeiros da Geórgia, em posse há 5 meses, veio a Portugal e deu uma entrevista ao programa Sociedade das Nações. A simpática senhora é uma competente político, ideal no discurso para fazer os actos de charme que a Geórgia precisa, pretendendo integrar a NATO e a União Europeia, e isso o comprova o facto de ter sido claro que tanto o Nuno Rogeiro como o Martim Cabral facilmente denotavam uma postura favorável a estas pretensões no final, mas mais interessante foi por o conflito Rússia-Geórgia ser dos últimos conflitos europeus em que é possível ver em directo as dissenções diplomáticas, por ora. Mas há uma coisa que ressalta sempre, no programa, independentemente do convidado: Nuno Rogeiro. Dá para aprender história apenas pelas perguntas que faz. Quem vê o programa perde a conta das ocasiões em que os entrevistados afirmaram "essa é uma excelente pergunta", antes de redarguir menos comodamente. Ensine-se o que seja sobre entrevistas nos cursos de jornalismo que será sempre inútil. Seria mais sensato adestrar conteúdo que servisse como base para fazer as perguntas devidas; a única forma que pode melhorar uma entrevista é a retórica. Mais: a superioridade intelectual não dissimulada, felizmente, que tem com o Martim Cabral é deliciosa. Ri-me quando ele se vira para o Martim e diz, no último programa, "estás a brincar", enquanto debatem, ou o Nuno Rogeiro corrige o Martim, a participação de Portugal na 1ª Guerra Mundial.

Por outro lado, e para apontar a raridade de mentes como a do Nuno Rogeiro, e justificar o título, um associado da FENPROF, não reparei quem, apenas ouvi, disse que tudo faria para que o Governo actual deixasse de exercer funções porque "está literalmente a demolir o ensino". É apenas pelo literalmente. Sempre tentei acreditar que, pelo menos, qualquer professor que tenha tido o saiba empregar da maneira correcta. O que qualquer torradeira consegue aos 8 anos.

E celebremos todos a vitória gorda do "filho" do El Gigante, que não me admiraria que fosse pior que o seu antecessor, uma das entidades esotéricas mais rapidamente criada postumamente, que já endossa passarinhos abençoadores.

Por último, não podia simplesmente fazer de conta acerca da minha longa inatividade - a omissão do "c" foi apenas para ferir uma personalidade, segundo maior especialista no acordo ortográfico da cidade do Porto; de Guimarães, tenho de fazer a adenda, senão ele não me perdoaria. E grande adepto do Guimarães; foda-se, isto é demasiado fácil.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Eleições Antecipadas


Duas demissões marcaram este Carnaval. A mais surpreendente foi naturalmente a de Domingos Paciência, que apenas ocupou o cargo de treinador do Deportivo durante um mês e até se havia estreado com uma vitória sobre o Málaga. A outra foi a do papa Bento XVI, que se declarou sem condições físicas para cumprir o mandato até o seu término, que tradicionalmente ocorre aquando do último suspiro do Sumo Pontífice.

Esta atitude tem sido, desde o seu anúncio, aclamada como louvável e corajosa, principalmente quando temos ainda bem presente na memória o final de mandato do seu predecessor João Paulo II que, quer pelo seu inabalável conservadorismo, quer por orgulho, arrastou a sua liderança da Igreja Católica por infrutíferos e penosos anos de existência semi-vegetativa.

Mais do que coragem, a sua renúncia foi um acto de resignação. Não é fácil o trabalho de um papa, ao contrário do que sua pacata rotina poderá levar a inferir. Para começar, mais de um sexto da população mundial reconhece a sua palavra e acção como divinas, o que é desde logo uma pressão inimaginável para o comum mortal. Ser representante de Deus na terra é uma função de grande responsabilidade, principalmente por se estar a representar uma entidade indefinida. A representação de qualquer entidade ou função térrea é simplificada pelas acções e objectivos serem concretos e observáveis. O papa, por seu lado, tem o árduo papel de representar Deus para a raça humana e nem sequer lhe poder perguntar o que fazer nessa condição, pedir conselhos, "o que farias no meu lugar?", já que Deus, como se sabe, é um tipo de parcas palavras.

Depois de assumir o cargo, o papa teve então de se recompôr da embriaguez de poder provocada por ter mais gente à porta de sua casa do que o concerto do Rod Stewart em Copacabana. Aí, começou a ser bombardeado de polémicas. Para começar, ninguém foi com a cara dele, era malvada e pouco piedosa. Com aquela cara, e sendo alemão, era claro que era nazi. Nunca mais se livrou desse rótulo.

A mais sonante polémica foi o escândalo de pedofilia que rebentou na sua Igreja. Escândalo pelo teor do crime em si, escândalo pelo encobrimento por parte da seita, escândalo pela protecção judicial de um cidadão por este ser líder dessa seita; nada induz mais impunidade do que um vestido branco, jóias sortidas e a vaga evocação de valores morais absolutos. Isto ainda assume contornos mais gravosos se considerarmos que Ratzinger foi arcebispo e cardeal em Munique, onde encobriu um caso já provado de um clérigo que violava crianças.

Outras polémicas foram florescendo: Bento XVI promovia o genocídio ao reafirmar a sua oposição ao uso do preservativo no continente em que uma percentagem abissal da população está contaminada como o vírus HIV; e o seu mordomo Paolo Gabriele trouxe a público documentos que expuseram as perversidades e a corrupção na sede da Igreja Católica.

A demissão do papa mais não foi, então, do que a resignação de que nenhum destes assuntos poderá ser resolvido sem a contradição directa com os incontornáveis dogmas católicos. Foi a desistência de liderar uma instituição de ideias retrógradas numa sociedade progressista, racional, científica e cada vez mais desconfiada da santidade da Igreja.

Pode, no entanto, ter contribuído decisivamente para um processo social importante: o da desmistificação da figura do papa, e sua consequente humanização. As limitações físicas do papa e o seu apercebimento do mesmo contribuirá para entendermos que o papa é exatamente como nós. Lê o jornal de manhã, bebe Fanta de laranja ao almoço (facto verídico), tem medo e arrependimentos, ri-se da própria flatulência e chora no último episódio da novela. Não tem poderes mágicos de qualquer espécie e a única coisa que o distingue de mim e do leitor é aquele chapéu e ter ouro suficiente na mão direita para comprar um pequeno país.

Não podemos, neste contexto, deixar de lembrar Francisco José Viegas, que deixou a Secretaria de Estado da Cultura pelos mesmos motivos que Ratzinger deixou o papado, e concluir que a saúde não discrimina entre um reles escritor português e um feiticeiro alemão.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Epilepsia Democrática

É interessante e ao mesmo tempo, é irritante - confirmar como os nossos pais, avós e professores estavam certos. Eles sabiam tudo e tudo o que eles diziam estava certo. A minha mãe a avisar estava frio e verificar, cheio de frio, que teria sido melhor eu levar um casaco. A minha avó a avisar que ia chover e verificar, encharcado, que teria sido melhor eu levar um guarda-chuva. O meu pai a avisar que a vida era difícil e verificar, com toda a certeza, que a vida é mesmo difícil. O meu avô a avisar que isto não anda para a frente e verificar, incrédulo, que, de facto, isto não anda para a frente.

Na semana passada, durante o caminho de casa, perto do Palácio de Cristal, o mundo parou. Um carro estava mal estacionado junto à berma, com a porta do motorista ainda aberta. À frente do carro, estava parado uma ambulância dos bombeiros, ainda com as luzes ligadas. Dois socorristas auxiliavam uma rapariga pálida sentada na berma. Um carro da Guarda Municipal também se encontrava parado à frente da ambulância. Dois agentes encontravam-se parados a alguns metros do local, a direccionar o trânsito. Um carro da Polícia de Segurança Pública passava no local, numa velocidade extremamente baixa, com os dois agentes a analisarem a cena. Uma ambulância do INEM chegou ao local, alguns segundos depois, com as sirenes ligadas, a irromper pelo trânsito em contramão.

Um grupo de populares encontrava-se à volta deste evento e formavam um grupo junto à rapariga. Transeuntes olhavam, desviavam as suas rotas, e juntavam-se espontaneamente ao grupo. A fila de trânsito aumentava cada vez mais e todos os motoristas olhavam para a rapariga. Alguns chegaram a sair dos carros. Mais pessoas saíam das casas e dos edifícios, brotavam das janelas com uma curiosidade alarmante e, com o desespero de refugiados junto a um camião de ajuda humanitária, receberam a sua dose diária de escândalo. À distância, grupos de reformados à porta dos cafés, discutiam o acontecimento. “Parece que ela teve um ataque de epilepsia” – disse um dos reformados. “Tiveram que telefonar três vezes ao INEM” – disse outro dos reformados. Duas ambulâncias, dois carros das forças de segurança, dezenas de pessoas – tudo isto por causa de um ataque epiléptico.

Isaltino Morais foi condenado a sete anos de prisão efectiva em 2009. Ainda está em liberdade, à espera do ouvir o veredicto do seu milésimo recurso. Miguel Relvas obteve uma licenciatura em Relações Internacionais depois da Universidade Lusófona conceder-lhe trinta e duas equivalências. É Ministro-Adjunto e tem a audácia pornográfica de não demonstrar qualquer intenção de se demitir. A deputada Glória Araújo foi apanhada a conduzir com um nível de alcoolemia alto o suficiente para ser considerado um crime. Também diz que não se vai demitir. Macário Correia, presidente da Câmara de Faro, foi condenado pelo Supremo Tribunal Administrativo a perda de mandato, devido a licenciamentos ilegais de construção. Recusa-se a abandonar o cargo, afirmando: “Estou condenado por razão nenhuma”.

A STCP realiza uma greve. Não cumpre os serviços mínimos inscritos como sacrossantos na Constituição. Os estivadores realizam uma greve onde não têm um único argumento a seu favor. Causam prejuízos na ordem dos mil milhões de euros e prometem mais. A CP realiza a sua milésima greve apesar de representarem um dos grupos de funcionários públicos mais privilegiados da nação. Não cumprem os serviços mínimos e voltam a marcar, igualmente pela milésima vez, uma greve a coincidir com um feriado, de modo a causar o máximo de transtorno para o utente e o máximo de conveniência para os grevistas. Há uma semana, o Governo decidiu obrigar os funcionários da CP e os seus familiares a pagarem os bilhetes para usufruir dos transportes ferroviários. O Sindicato, sem qualquer vergonha, interpõe uma providência cautelar.

Durante o Secundário tive amigos que frequentavam aulas de Inglês do 11º ano sem saberem dizer uma única frase em inglês, com sujeito e predicado. Nas aulas de condução ensinam-me que não posso transpor linhas contínuas e que esse acto constitui uma “infracção muito grave”. Na manhã seguinte observo um carro da PSP a transpor uma linha contínua enquanto os agentes se encontram na viatura, sem cinto de segurança. Não estavam a caminho de nenhuma emergência. O maestro Graça Moura gastou 720 mil euros do Estado Português em itens tão variados como charutos, passeios de balão, cuecas de fio dental, jóias, vinhos raros, quadros, refeições, estadias em hotéis de luxo e um frigorífico, comprado na Tailândia. Afirmou que gastou esse dinheiro a promover no estrangeiro a Orquestra Metropolitana de Lisboa no estrangeiro. Foi condenado a pena suspensa. Mantém a sua inocência.

Ninguém assume a culpa por nada. Não existe responsabilidade. Não existe ética. Não existe honra. O PCP continua por aí. Comemora-se a emissão de mais dívida. E nos cartazes da Geração à Rasca lêem-se pérolas demagógicas como “Se não nos deixam sonhar, não os deixaremos dormir”. Dizem que “as pessoas não são números”. Reclama-se da emigração para países mais desenvolvidos onde se recebem salários mais altos. É por estas e por outras que estamos neste estado civilizacional deplorável. É por estas e por outras que, nas palavras solenes do meu avô (menos o palavrão), esta merda não vai para a frente.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Raios e Coriscos

A água molha. Numa altura em que no debate público ninguém concorda com ninguém sobre nenhum assunto relevante, num Universo que não compreendemos e numa Existência que não podemos compreender, o mínimo que se devia exigir era que a natureza aquosa da água fosse uma unanimidade. No entanto, sempre que São Pedro decide ligar a torneira celestial, a reacção que se observa nas pessoas ainda é a de uma surpresa desconcertante.

Eu entendo aqueles que se encontram a deambular pelas cidades sem a protecção amigável de um guarda-chuva no momento do dilúvio. Os seres humanos, como os animais terrestres que são, consideram que o contacto involuntário com a água é desagradável. Logo é natural que fiquem surpresos. É natural que corram e procurem abrigo. O que me irrita é que aqueles que se encontram dentro de edifícios, debaixo da protecção concreta de tectos e paredes, apresentam surpresa e incredulidade pelo facto de, no meio do segundo mês mais chuvoso do ano, estar a chover. E mais, não conseguem conter o impulso de partilhar com todos à sua volta, como Arquimedes na banheira, essa surpresa e incredulidade.

O frio esfria. O facto de temperaturas baixas incomodarem os seres humanos também faz todo o sentido. Como a nossa temperatura corporal é cerca de 37 graus, sentimo-nos mais confortáveis em temperaturas amenas. No entanto, sempre que os termómetros registam temperaturas ligeiramente abaixo dos 10 graus, o espanto e o choque surgem como se tivéssemos sido transportados, numa questão de segundos, do calor do deserto do Saara para o frio das tundras da Sibéria.

Com a chegada da demoníaca trindade de chuva, vento e frio, as pessoas transformam-se em criaturas soturnas e traumatizadas, entes dados às tendências insuportáveis do caseirismo de conversa de circunstância. Fogem para as lareiras e aquecedores com a paranóia de gazelas perseguidas. Pregam, com psicopatia nos olhos, o evangelho das portas e janelas fechadas, de modo a evitar a temível e letal, corrente de ar. Cobrem-se de mantas e cobertores. Comem chocolates e tomam chá numa regressão infantil de Peter Pan friorento. Ficam necessitados, irritadiços, frágeis e sonolentos.

Podemos discordar sobre tudo. Mérito artístico, valor estético, ideologia política, inclinação sexual, crença religiosa, tradição moral e clube futebolístico. Mas devíamos chegar a um consenso sobre os fenómenos meteorológicos. No Verão está calor e não chove; na Primavera está ameno e, às vezes, chove; no Outono está ameno e, frequentemente, chove; e no Inverno está frio e chove – muitas e muitas vezes. Todos sentimos frio e todos ficamos molhados. Eu sei que existe muita incerteza na previsão do estado do tempo. A meteorologia é uma ciência traiçoeira. Ela partilha isso com os piratas e as ciências económicas. Mas pelo amor de deus minha gente, isto não é metafísica, isto é meteorologia.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Manifesto Anti-Peixoto


Devo alertar os leitores que o título (que se refere ao José Luís, escritor, e não ao César, jogador do Gil Vicente) é de uma individualização deturpadora e ofensiva. Aquilo contra o qual eu me manifesto nesta crónica não é o singular e insignificante ser José Luís Peixoto (JLP), cuja existência isolada seria incomodativa, mas nunca perturbadora ao ponto de merecer denominar esta crónica. Acontece que JLP é o símbolo da nouvelle vague de escritores nacionais que têm como denominadores comuns a falta de talento, o pretensiosismo e um número de vendas desproporcional à qualidade das suas obras. Justin Bieber, no mundo da música, sofre do mesmo preconceito. Ele está longe de ser o pior artista musical do século XXI. Teve, no entanto, o azar de se tornar a imagem mais emblemática dentro de todos os artistas sem talento que se tornam um sucesso, algo para o qual a sua inqualificavelmente irritante figura ajudou substancialmente. JLP é o Justin Bieber da literatura nacional, pela semelhança na desproporcionalidade entre o seu talento e a sua fama. Não é o pior escritor: Valter Hugo Mãe (parece que agora já se pode escrever com maiúsculas), por exemplo, faz JLP parecer o Faulkner. Mas admito que, por implicação pessoal, JLP tornou-se na figura máxima dessa vaga de artistas sem arte.

Devo registar também a minha experiência não muito vasta com suas produções. Li uma obra sua, intitulada Hoje Não, que mantenho orgulhosamente num lugar proeminente de uma estante de livros, para me lembrar que, faça o que eu fizer com a minha vida, só atinjo o fundo da inutilidade quando a minha cabeça produzir alguma coisa daquele calibre. Li também alguns textos avulsos, de qualidade semelhante. Poderão os seus fãs dizer que é pouco, que é preciso aprender a gostar, como de vegetais, música clássica ou cerveja. Acontece que, em qualquer actividade que envolva talento, há dois tipos de praticantes que são imediatamente reconhecíveis por quem aprecia essa actividade: os que têm muito talento e os que não têm jeito nenhum. JLP enquadra-se neste último padrão.

No entanto, a sua falta de aptidão literária nunca seria merecedora de tão agressiva postura da minha parte. A qualidade artística do mundo moderno é escassa e, se alguma coisa me chocasse, seria sempre que algum artista tivesse verdadeiro talento e não a sua inexistência. O André Mota já aqui havia discorrido acerca desta moderna problemática entre a qualidade e o lucro. E, como ele sagazmente observou, essa dicotomia só surgiu pela crescente demanda de produtos artísticos sem qualidade, o que levou á deturpação de todo o conceito artístico. Como José Rodrigues dos Santos verbalizou: “Literatura é o que as pessoas leem”. Ele conseguiu definir a sua própria mediocridade melhor do que qualquer outro.

O meu problema é que a ausência de talento é nos dias de hoje compensada com um arrepiante pedantismo. Sempre houve artistas com a mania que eram bons; alguns eram-no, outros não. Actualmente, não parecem surgir os que realmente são; proliferam, ainda assim, os que têm a mania. A culpa dessa arrogância injustificada não é, como é óbvio, exclusivamente de JLP. A maior parte da mesma é, isso sim, dos seus leitores. Se poemas como este fossem descartados como filosofia poética de fachada, vazia, inócua e redundante, José Luís Peixoto deixava-se destas vidas. Sendo idolatrado por a escrever, naturalmente que se cria na sua mente uma ilusão de dom literário que manifestamente não tem.

Principalmente na área da música, espalhou-se um contra-movimento que consiste em queixas sucessivas de que se queria ter vivido décadas antes, para poder conviver de perto com a boa música. Ainda que entenda esta visão e partilhe com ela alguma da fantasia, vivemos numa era em que temos acesso a toda a produção artística da história da humanidade, à distância de segundos, que podemos contemplar, admirar e sorver todas as vezes que quisermos. E, neste cenário de universalização da toda a arte, quando temos todos os livros dos melhores autores mundiais da história da literatura à nossa disposição, as pessoas esgotam José Luís Peixoto. E agora optei por voltar a utilizar os seus três nomes, para ilustrar melhor este cenário: de todos os livros da história, as pessoas não lêem Shakespeare, Mark Twain, Dostoiévski, James Joyce, Oscar Wilde, porra, nem sequer o Eça. As pessoas esgotam José Luís Peixoto.

Isto é, porventura, pessimismo da minha parte. Os seus leitores são, para todos os efeitos, leitores, espécie de uma crescente raridade. O que é chocante em JLP é a unanimidade da sua qualidade: já venceu o prémio José Saramago quando este ainda fazia parte do júri (uma tremenda desilusão pessoal) e está traduzido em mais de uma dezena de línguas. Custa-me crer que gente que já conviveu com a melhor literatura consiga reconhecer um pingo de qualidade nas suas ocas palavras. Talvez seja essa a origem da minha implicância para com JLP: a sua escrita deve ter um efeito encantador qualquer ao qual eu pareço ser imune.

Termino com a já referida ressalva de que JLP não é o pior escritor nacional. É mau, muito mau, mas não o pior. É, no entanto, o ponto máximo de um processo de desalfabetização muito assustador e cujas consequências se verificarão muito para além do mundo puramente cultural ou intelectual.

E, para que não vos falte nada, deixo-vos com a messiânica, concreta e perspicaz solução apresentada por José Luís Peixoto para resolver a crise:

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Vende-se: Madeira e Açores


O país sustém a respiração enquanto espera pelo veredicto sagrado do Tribunal Constitucional. Estamos num estado de animação financeira suspensa. Mas é ingénuo pensar que esta decisão é, de facto, assim tão importante. Independentemente do resultado desta decisão, sabemos que não temos soluções ou alternativas. Os portugueses não sabem o que querem. Os portugueses apenas sabem o que não querem.
Os portugueses não querem aumentos de impostos e não querem cortes na despesa. Portanto, ofereço aqui o meu pequeno contributo para a resolução da crise. Muitos poderão não gostar desta solução. Mas eu garanto que funcionará e que será (quase) indolor.

Uma reportagem do Washington Post analisava a possibilidade dos Estados Unidos venderem o estado do Alasca para abaterem a sua dívida galopante. O estado americano está avaliado entre 2,5 e 5 biliões. À primeira vista, pode não parecer uma ideia válida. Ridícula, até. Mas com a crise financeira americana esta ideia deveria aglomerar um apoio popular abrangente, que é aquilo que eu espero receber com a minha proposta.

Então, é com muito pesar que proponho o seguinte: vender a Madeira e os Açores. Lamento fornecer munição àqueles que argumentam que o Governo está a vender as jóias da coroa ao privatizar as empresas públicas. Mas na minha opinião, o tempo de vender os anéis acabou. Agora é tempo de vender alguns dedos.

Eu sei que, perante esta proposta aberrante e inusitada, a primeira reacção do leitor será um estado singular de desprezo, indiferença e divertimento. Mas peço e imploro por um momento de seriedade, lucidez e paciência. Pensem bem. Vendemos dois arquipélagos e não temos que aumentar os impostos nem cortar na despesa. Não existe outra solução que possibilite este limbo financeiro orgásmico.

A logística desta operação é menos complicada do que pode parecer para a mente mais céptica. Em primeiro lugar, cerca de 500 mil pessoas habitam nestas formações rochosas isoladas. Essas pessoas terão que ser realojadas no ventre morno da pátria-mãe continental. Tendo em conta os níveis actuais de emigração e a crise nos sectores da imobiliária e construção, parece ser uma solução perfeita. Excepções podem ser concedidas a açorianos e madeirenses cujos sotaques são demasiado profundos para uma integração pacífica no continente. Esses indivíduos deverão emigrar ou a sua permanência poderá ser negociada com os países compradores.

Resolvida a despovoação de mais de três mil quilómetros quadrados de terras exóticas e virginais, podemos começar a falar da transacção. Vários países estarão interessados. Os Estados Unidos possuem uma base militar nos Açores, o que transforma a maior economia do mundo num candidato perfeito para a aquisição completa desse arquipélago paradisíaco. As aspirações de dominação mundial dos ianques beneficiarão certamente de um activo tão precioso quanto um arquipélago no meio do Atlântico. Outros candidatos poderão ser a China, com a sua ânsia de afirmação militar e liquidez monetária, ou a Alemanha, com o seu imperialismo neoliberal e nazismo latente. As monarquias petrolíferas do mundo árabe poderão também estar interessadas numa perspectiva de ganância e empreendedorismo turístico.

Por fim, podemos falar de números. Temos de ter em conta a polivalência utilitária dos arquipélagos. O nosso trunfo é a diversa gama de objectivos que pode ser acolhida no charme vulcânico dos Açores e/ou na glória verdejante da Madeira. A nossa fraqueza é o nosso desespero negocial. Mas falemos, sorrateiramente, então de valores específicos.

Um cavalheiro não fala de dinheiro mas, falando apenas no cenário hipotético da venda dos últimos resquícios do ímpeto colonialista da nação lusitana, eu diria que 100 mil milhões seria um bom preço pelo conjunto. Numa venda separada aceitaríamos 40 mil milhões pelos Açores e 80 mil milhões pela Madeira. Não existe nenhuma fórmula aritmética que me levou a estes números. Simplesmente me parece um número bonito, redondo e maior do que o pacote de empréstimo da Tróica. Ambas as regiões estão altamente endividadas e a sua actividade económica já viu melhores dias. Por isso, e como estamos entre amigos, na compra da Madeira levam também o Rúben Micael. Nós, ficamos com o Cristiano Ronaldo e 100 mil milhões de euros, uma quantia mais do que suficiente para acabar com esta crise e ficarmos no bom caminho para, daqui a dez anos, causarmos a próxima.

domingo, 13 de janeiro de 2013

Os Três Pintelhos do Apocalipse Mediático


É um fenómeno recorrente que as notícias de questionável relevância acabem por ser das mais debatidas. Esta última semana foi pródiga da proliferação de pintelhos catroguianos. Dois a nível local, um nos inevitáveis Estados Unidos, onde os pintelhos compõem um denso matagal. Como pintelhos que são, optaria sempre por ignora-los. No entanto, a dimensão que atingiram merece ser comentada. Para ser breve e sistemático, algo que raramente sou, dedicarei um parágrafo a comentar cada um destes assuntos mediáticos, sem me alongar na desnecessária contextualização.

O caso do cão Zico e da comoção que o seu abate está a provocar é porventura o mais perturbador, porque contém várias provas de que o enlouquecimento do povo não é esporádico nem circunstancial. É, no entanto, baseado em premissas voláteis, sem sentido e, consequentemente, perigosas. A onda que se espalhou contra o abate do cão que matou a criança é das mais assustadoras provas de que as pessoas ainda não perceberam muito bem até onde pode chegar a questão da defesa dos animais. Quando chega a este ponto, é um fanatismo bem mais perigoso do que aquele seguido pelos defensores das touradas. Podem dizer o que quiserem sobre a santidade dos animais, da sua dor, da sua categoria na natureza ser a mesma que a nossa; nunca me convencerão de que o pitbull em questão, ou qualquer outro animal da história do planeta, conseguirá sentir um milésimo da dor que os pais da criança estão a sentir, ao verem que a sociedade se preocupa mais em salvar o cão do que em manifestar desagrado pela morte do filho; e, no processo, prefere culpar os pais enlutados. Se me dessem a escolher entre uma caneta para assinar uma tão desprezível petição e uma caçadeira para matar o cão na hora, os dentes que perfuraram o crânio de um bebé de 18 meses iam ficar estilhaçados com o chumbo. Daniel Oliveira escreveu no Expresso tudo aquilo que eu mais poderia dizer sobre o assunto, e prolongar-me mais seria parafrasea-lo. O próprio artigo do cronista originou polémica, e quase todos os que se opunham à sua opinião faziam-no com a ressalva "Eu concordo com quase tudo o que ele normalmente diz, mas neste assunto não". Eu assumo que comigo passou-se exactamente o oposto.

Passemos ao caso de um animal ligeiramente mais racional: a famigerada Pepa. A Pepa foi crucificada em praça pública por manifestar um desejo consumista: atingimos o cume da montanha da hipocrisia. Mais uma vez, temos um caso de má interpretação de valores. Tudo o que fuja ao politicamente correcto é escandaloso. Isso não é ter valores, é histeria e vício de indignação, sem deixar de referir o preconceito incrível sobre a senhora pela pronúncia dela. Se houver uma petição para oferecer uma mala à Pepa, eu assino e contribuo.

Por fim, temos o caso de Massoud Adibpour, um jovem que está a fazer furor nas ruas de Washington, ao exibir mensagens de optimismo a condutores e transeuntes. Essa pequena gota de óleo contaminou já o oceano que é a internet, e o rapaz prestou já declarações a vários meios de comunicação internacionais. Eu tenho uma opinião muito própria sobre o optimismo, que aqui exponho: a felicidade e as expectativas têm de ser sempre relativas às circunstâncias da realidade. A felicidade é sempre moldada pelos factos. Se os factos forem positivos, a sensação resultante é boa. Se os factos forem negativos, os sentimentos serão conformes. Se as coisas não decorrerem desta forma, algo funciona mal. Ser optimista é ser feliz em más circunstâncias. É louvável, mas anormal, e irresponsável. O copo, muitas vezes, não está só meio cheio. Está meio vazio, e é preciso encarar essa metade vazia como tal. Senão vamos ficar surpreendidos quando o copo chegar ao fim, porque não consideramos que metade já não existia. Em relação a este rapaz em específico, aparenta ser um anormal que tenta espalhar motivação pelas pessoas que se deslocam aos seus trabalhos, para fazerem algo de realmente produtivo com a sua vida.

Deixo aqui também, não uma petição, por ser mais improdutiva do que aquela que pedia a demissão de Miguel Relvas, mas um sincero pedido: ignorem os pintelhos. Eu, excepcionalmente desta vez, não os ignorei para ilustrar o quão irrelevantes estes deveriam ser. Não comentem, não discordem, não concordem, não se indignem, não partilhem, não coloquem "gostos" no Facebook. Só assim vamos, a pouco e pouco, criar um espaço de discussão pública em que o Zico, a Pepa e o Massoud terão o fim que todos devemos concordar: o seu abate. Mas outro tipo de abate: o mediático.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Homo Irrationalis


A reportagem que abriu o Telejornal da RTP desta noite foi um documentário da BBC sobre a vida selvagem de um fascinante espécime: um ser humano estudante do secundário. As características físicas são variadas, mas segundo o que se pôde observar na peça, as mais comuns serão a monocelha e boné nos machos, um péssimo gosto de vestuário das fêmeas e buço em ambos os géneros; particularidades que, também pela amostra, facilmente se conclui serem hereditárias.

A mais encantadora característica deste símio é uma invejável capacidade de contentar-se com migalhas. É fácil compreender a filtragem feita pela jornalista da RTP na montagem da reportagem (quero, pelo menos, acreditar que assim foi). No entanto, os jovens entrevistados mostram todos um regozijo anormal por terem tido "poucas negativas". Excepto um espécime, de nome Mónica, que faz a sua fugaz aparição logo no início da reportagem e que define a sua prestação como "mais ou menos" por ter tido seis negativas, todos os outros parecem satisfeitos por terem tido poucas disciplinas às quais não conseguiram chegar a metade da prestação desejada.

Fátima Trindade, apresentada como Técnica Superior de Educação Especial e Reabilitação, define as turmas separadas de alunos pelo pior desempenho como segregadora pela criação de "turmas dos meninos burros". Apesar do seu cargo pressupor uma maior sagacidade ao falar desta matéria, a senhora revela, sem dúvida, a limitada visão que é a de rotular como discriminatória qualquer observação das óbvias diferenças entre os espécimes.

O que o ministro Nuno Crato afirma, acerca dos diferentes ritmos de aprendizagem dos diferentes alunos, é tão óbvio que qualquer oposição a uma solução, por esta ter esse facto como premissa, é uma demagoga e ingénua preocupação com a igualdade. Já aqui falei sobre isso, mas, apesar de correr o risco de me tornar repetitivo, igualdade nunca existe e nunca irá existir.

As diferenças não irão desaparecer se as ignorarmos; pelo contrário, alastrar-se-ão e intensificar-se-ão. Mais vale encarar as diferenças do que tentarmos viver a utopia de uma sociedade que Aldous Huxley descreveu no Admirável Mundo Novo. Isso, sim, seria a solução perfeita para Fátima Trindade; não haveria turma dos meninos burros, porque este nunca nasceriam. Porém, a genética humana ainda não tem desses luxos, pelo que colocar os meninos burros, que existem, todos juntos, mais não faria senão ensiná-los ao ritmo adequado.

Não o faremos, porém. Democracia é igualdade. Somos todos filhos de Deus. Vamos, fiéis aos nossos princípios, deixar o menino burro com os outros meninos, porque é igual a eles; até que chega o momento em que a vida lhe mostra que não é igual. Aí, estou certo, não estará lá a Fátima Trindade para amamentar o jovem primata com enganosas ilusões.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Uma Ameaça à Democracia

No dia 3 de Janeiro de 1889, Friedrich Nietzsche enlouqueceu. Segundo reza a lenda, o filósofo alemão passeava pelas ruas de Turim quando, ao avistar um cavalo a ser chicoteado por um cocheiro, correu na direcção do animal e abraçou-o em prantos. A veracidade das particularidades equídeas deste episódio caricato nunca foi confirmada, mas naquela manhã fresca do Inverno italiano, sabemos com toda a certeza que o ilustre Nietzsche enlouqueceu, nunca mais recuperando totalmente as suas faculdades mentais.

É num estado análogo de loucura que encontramos o debate político da nação portuguesa. Ainda não se observam hordas de manifestantes a chorar abraçados a cavalos. Não temos as auto-imolações gregas, nem os massacres sanguinários americanos. A nossa loucura é outra. A nossa loucura é retórica.

A loucura é pensar que existem alternativas benignas à política do governo actual. A nossa loucura é o debate que parte do princípio que estamos a viver o pior momento de toda a história de todos os países que já existiram. A nossa neurose, a cruz que carregamos, o nosso sinal na testa é a retórica utilizada que advém da proposição que estamos perigosamente próximos do caminho com destino ao nível de vida da África subsariana.

É num clima apocalíptico que se debate em Portugal. As nuvens escuras adensam-se. A razão nem sequer se ouve no meio de todo o barulho. Fala-se da União Europeia como a única coisa que separa o continente europeu de um estado de guerra total. Fala-se do Governo como uma expressão política de fascismo. Fala-se de Passos Coelho como Salazar ou Hitler. Fala-se de Vítor Gaspar como o Anjo da Morte. Fala-se como se existissem portugueses a favor da fome, do desespero e da miséria. Fala-se de indiferença social. Fala-se da Constituição como uma Bíblia infalível. Fala-se, com seriedade académica e ódio nos olhos, de atentados à democracia. Sim, de acordo com estas almas iluminadas, nem mesmo a nossa pobre democracia sobreviverá às garras do neoliberalismo.

Uma proclamação em favor da democracia é um exercício de redundância. É como defender a paz mundial ou o acesso a água potável. Por mais que abundem comparações do Governo actual ao regime do Estado Novo, somos livres. Todos nós somos livres. Ainda que seja possível ouvir como uma frequência alarmante o brado “Fascismo nunca mais!” ou o rugido onomatopeico “Fascistas!”, lamento informar que o fascismo já não existe. A liberdade ganhou. Nós ganhamos. Eu acho que, trinta e oito anos depois da Revolução, devemos pelo menos esquecer este assunto, enterrar os fantasmas e, juntos, dançarmos sobre a cova poeirenta do Salazar.