quinta-feira, 18 de julho de 2013

Hiato estival









Nos próximos 10 dias os autores do blog estarão de férias, com o primacial propósito de encontrar Fernando Seara em terras de Sintra. Que seja possível, retornados, fazer uma composição imagética menos alucinada sobre a actualidade política nacional.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Não tem nada a ver com o Governo



Uma boa notícia: a Biblioteca Nacional Digital tem uma nova interface. A ocasião é válida para proceder à sua divulgação. A BND comporta um considerável número de obras disponíveis para consulta em pdf, trespassando os diferentes períodos da literatura portuguesa, em grande parte dos casos com edições originais ou de época. Vale a pena.

Cada um vai realizar diferenciadamente a sua pesquisa, embora acredite que quase todos acabem, mais cedo ou mais tarde, por chegar a Pessoa. Também o fiz, evidentemente. E, embora não precisando, fica o seguinte link, directamente da pena do supra-Camões, como exemplificativo residual das pérolas às quais é possível aceder do espólio cultural lusitano: http://purl.pt/13962

sexta-feira, 12 de julho de 2013

O Estado das coisas




Findado o período de indefinição política, e proclamada a fórmula semi-presidencial de “salvação nacional”, de Aníbal Cavaco Silva, fica como consolo Paulo Portas não ter sido presenteado pela descarada e chantagista manobra política que o seu pérfido e ungulado espírito desenhou, com o país pelo meio. A imprevisível decisão do Presidente da República tem como característica deixar, sem excepção, toda a classe partidária defraudada, com o acordo de PSD e CDS chumbado, o PS sem as eleições legislativas antecipadas que queriam simultâneas com as autárquicas, e BE e PCP arredados de equação. Simbolicamente reconfortante, mas insignificante.

Revolve a associação política do PS ao memorando, furtando outra tentativa de ilusionismo despudorado, tentar fazer por creditar que não há relação alguma entre a carga fiscal que é necessária actualmente e as expansivas despesas conducentes a Portugal ficar num estado de insolvência, e dependente de financiamento externo, bem como, abstracta e sistematicamente, que Matemática é tão elástica quanto um jovem chinês de 16 anos e que a palavra crescimento é o Wingardium Leviosa da teoria económica.

Do que resta da coligação é fácil de falar. O mar de contradições é grande e as feridas ululantes. É um acto de fé poder acreditar que uma coligação que durante dois anos foi publicamente disfuncional, sendo a sua existência ameaçada pela demissão do líder do menor dos partidos, transfigure-se e passe a ser articulada e eficiente quando afinal somente se levou um puxão de orelhas pelo meio. E quando o que mudou é o seguinte: fica o partido socialista vinculado, nos próximos episódios saberemos em que dimensão, e como Ministro das Finanças sai Vítor Gaspar para entrar Maria Luís Albuquqerque, nada menos que a nomeação que impeliu Portas a importar para a política o estilo de Francesco Schettino; coincidentemente, nem o povo português viu com bons olhos a obediência de Portas à sua consciência, nem o mundo em geral ficou esperançado na espécime humana com a atitude do capitão do Costa Concordia. Relativamente ao que seria premente verdadeiramente debater, de resto, o paquidérmico líder do CDS tem em mãos a reforma do Estado, e já deveria ter apresentado um documento a tal respeito no mês passado. Coisa pouca e irrelevante, adiemos a discussão, e só se nos recordarmos de a fazer.

De todas as contradições, a maior será, efectivamente, termos este cocktail digno de um bar de Pedrógão, sob a égide semântica da estabilidade nacional, quando foi a própria coligação a definitivamente comprometê-la. Não pretendo retirar-lhe as suas virtudes. É custoso vê-la imprudentemente desconsiderada e reduzida à força de uma frase por ser tão obviamente necessária numa altura como a actual, de lamentável perda de soberania, ainda que seja algo ao qual a masoquista democracia portuguesa, perfeitamente descritível como um viciado com problemas de reabilitação, pareça começar a estar habituada.

Hoje houve debate parlamentar sobre o estado da Nação. Como em qualquer parlamento que não sabe separar o particular do geral, nem reparar que infelizmente os nossos fatais problemas vão muito além da crise de meia-idade de Portas, discutiu-se o estado do Governo. Oremos, irmãos desafortunados.

sábado, 6 de julho de 2013

Breves apontamentos mentais de um dia longo de trabalho


- É incrível a quantidade de homens de Famalicão que são semelhantes ao semi-ditador cubano, Raúl Castro.

- Todos os dias de manhã um homem fuma um cigarro à janela de um prédio em tronco nu. A sua mão direita segura um cigarro. Eu não sei se o homem está completamente nu, mas tendo em conta a posição em que se encontra a sua mão esquerda, estou muito preocupado.

- Tenho uma ideia brilhante para um novo negócio: clínicas dentárias low-cost. O segredo está na localização das clínicas. Serão concentradas em locais estratégicos como Gondomar e Areosa, onde o estado da nação dentária é precário.

- A existência ubíqua de tatuagens em espécimes nessas mesmas localidades, com as incrições "Amor de Mãe", "Amor de Pais" ou com temas marítimos, é alarmante.

- Ainda existem muitas mulheres que querem casar e ter filhos antes dos vinte e quatro anos de idade. Que Deus me ajude.

- Ninguém sabe o que é o défice, mas toda a gente sabe qual é a solução para crise, e nenhuma dessas soluções exige o corte da despesa pública.

- Há quem escreva "febras" ao invés de "fêveras". Tenho dúvidas sobre qual dos dois vocábulos é a forma mais correcta. Há também quem escreva "bábulas" ao invés de "válvulas". Tenho a certeza sobre qual é a forma correcta. Pelo menos ainda não vi ninguém dizer ou escrever "Presidenta".

- Existe uma relação inversa entre a desteridade de um condutor e a quantidade de fumo negro exalado pelo veículo.

- Quase todos os cartazes eleitorais que tenho visto no Norte choram por ajuda ao nível da comunicação política.

- Aos mulheres da Trofa deveriam saber que pintar o cabelo de loiro não é uma injecção automática de beleza. Especialmente quando a operação estética parece ter sido realizada pelo Fábio Coentrão.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Fim da coligação: primeiras notas

- Não vi ninguém do CDS na tomada de posse da Maria Luísa Albuquerque. O que foi noticiado foi a demissão do ministro de Estado e Negócios Estrangeiros; a ruptura da coligação, ainda que previsível, não está oficializada. Assim, os ministros e secretários de estado do CDS faltaram à cerimónia, seguindo Paulo Portas como ovelhas que são. Se Portas tivesse elogiado a escolha de Maria Luísa Albuquerque, teriam comparecido, sorridentes, aprumados e igualmente elogiosos.

- Cavaco Silva está aliviado. Já não está nas suas mãos a queda do governo.

- A saída de Vítor Gaspar, pouco antes da última avaliação da troika, deixa-nos com um futuro incerto, mas deveras preocupante. Os juros da dívida, esse sugador demoníaco que faz a Merkel esfregar as mãos, já dispararam.

- O grande problema das políticas erróneas deste governo é que ficaram coladas a uma definição de "ultra-liberalismo" rotulada de forma leviana e demagógica. Terá uma consequência óbvia: uma guinada brusca do próximo Executivo na direcção contrária a este ultra-liberalismo, sem consciência que irão esbarrar num muro de dívida e défice.

- António José Seguro será o próximo primeiro-ministro, mais precocemente do que era preconizado. A única hipótese, altamente remota, de isto não se verificar é a demissão de Passos Coelho e a ascensão de um candidato do PSD que esteja publica e politicamente incólume e credível. Veremos se AJS conseguirá a maioria absoluta; quer consiga, quer não, Paulo Portas, para salvar o próprio couro, cavou ainda mais a vala em que o país se encontra soterrado.

sábado, 29 de junho de 2013

Desonra e Infâmia

Há uns dias, ao fazer a ronda semanal pelas crónicas da Visão, cruzei-me com um texto de José Luís Peixoto. Por muito grosseira que considere a sua escrita, é uma actividade prazerosa deleitar-me com as suas iluminadas palavras - de quando em vez, para não enjoar. Na última que li, José Luís Peixoto fazia uma ode a' Os Maias, um livro que, nas suas palavras, mudou a sua vida para sempre.
Leio há pouco, com horror, que José Luís Peixoto é apenas um dos escritores que darão continuidade a'Os Maias, numa iniciativa do Expresso.
A ideia não é original; recordo-me de ter de fazer o mesmo exercício, relativamente ao livro Se perguntarem por mim, digam que voei, da Alice Vieira, num concurso literário em que participei no 7º ano. Esse livro, tal como Os Maias, tem um final aberto o suficiente para essa ideia ocorrer quase instintivamente ao leitor. Receio, porém, o alastramento desta adulteração de obras intocáveis. Há uns tempos, também pela mão de JLP, os Lusíadas foram reescritos. Sim: José Luís Peixoto pegou numa das maiores obras líricas da humanidade, e reescreveu-a.
Entendo que a ideia de pegar nos Magnum Opus dos dois maiores artistas da palavra em língua portuguesa e vê-los reescritos pelo pior é ludicamente muito interessante. Pelo humor, pelo entretenimento, pela jocosidade, é uma boa experiência. Mas se é para se levar a sério, é um sacrilégio de proporções bíblicas. E José Luís Peixoto, mesmo considerando ele a sua escrita, por certo, de qualidade inabalável, deveria reconhecer que prosseguir um livro terminado há mais de um século por um colega escritor que pretendia que este terminasse daquela forma para a eternidade é profanação de herança artística. O mesmo se aplica, naturalmente, aos restantes redactores dos próximos capítulos d'Os Maias.
Nem é caso para dizer que Eça rebola no seu túmulo ao saber desta notícia. O mais provável é que este se levante e venha resolver o assunto pelas próprias mãos. Se a indignação que sinto me levantaria a mim do mundo dos mortos, nem quero imaginar o que pode fazer ao cadáver putrificado de Eça. Por via das dúvidas, dormirei de porta trancada, para que o seu regresso por vingança não passe por minha casa, onde Os Maias permanecerão inalterados.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Movimento de Revolução Manca


Confesso um guilty pleasure ao acompanhar a situação da legalidade dos candidatos dinossáuricos às autárquicas. O caso está revestido de uma incompetência e bizarrice tal que, depois de curada a incredulidade, consigo daí retirar um prazer sado-masoquista. Ainda mais retiro, naturalmente, quando verifico que, apesar de tudo, o candidato que passou uma década a gastar o dinheiro dos contribuintes a deixar obra na minha cidade de Vila Nova de Gaia, deixando-a a segunda mais endividada do país, não deverá poder repetir o furacão despesista (ou "investidor pró-progresso", como ele se auto-intitula, apesar da óbvia cacofonia) na cidade onde passo o meu dia. Se não for a democracia a parar este megalómano alucinado, que seja um dúbio acórdão; utilitarista que sou, penso que sairemos todos beneficiados desta salgalhada constitucional.
Assumo, no entanto, alguma esperança que Seara, na capital, ainda tenha hipóteses de se candidatar. Considerando a dualidade que tem caracterizado esta novela, as hipóteses são dificeis de medir, mas existentes. A minha simpatia com Seara é tudo menos política; porém, uma personagem tão complexa, uma personalidade que está tão em cima do limbo entre a genialidade e a imbecilidade, merece que se abra mais espaço mediático para este poder explorar. Já seria um progresso se a comédia que é neste momento judicial passasse a ser meramente política. Porque chamo comédia ao espaço mediático ocupado por esta lenda de Sintra? Não há recursos semânticos num dicionário suficientes para conseguir explicar, caro leitor. Recomendo assim que tire as suas conclusões, através desta amostra que, de tão pequena, me envergonho de partilhar.







quarta-feira, 26 de junho de 2013

Moreirices

Aquando da sua recente filiação oficial ao Partido Socialista, Isabel Moreira classificou a derrota do seu novo clube nas legislativas de 2011 como "injusta". Terei de voltar a conferir as estatísticas, mas se a memória não me falha, o PS teve mais posse de bola, mais oportunidades (lembro-me de um remate do Teixeira dos Santos à barra depois de um passe de morte do Amado), mas o contra-ataque do PSD foi letal, beneficiando até de um golo num fora de jogo milimétrico.
Não entendo como o resultado de um sufrágio universal numa democracia pode ser injusto, quando esta foi precisamente a fórmula mais justa que a humanidade conseguiu conceber para legitimar governantes. Entendo que Isabel Moreira queira com esta afirmação condenar o governo que se seguiu à eleição; ignora, no entanto, que as eleições são a melhor forma que os cidadãos têm de sancionar ou premiar o trabalho de um governo. Há dois anos, castigaram Sócrates nas urnas, e viram em Passos Coelho a alternativa mais credível. Uma expectativa que saiu gorada, não pela agenda ideológica que apregoa a oposição, mas por uma enxurrada de erros crassos, mais até do foro político que económico. E serão castigados nas próximas legislativas. Como é justo.
Isabel Moreira, numa tentativa inevitável de ataque ao governo aquando da sua adesão ao principal partido da oposição, conseguiu, isso sim, atacar o sistema eleitoral e, mais além, a democracia. O seu pai deve estar orgulhoso.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Série “A Esquerda Portuguesa” - Introdução – A Insustentável Facilidade em Ser de Esquerda


“As pessoas não são um número, são cada uma delas uma história pessoal. Não são apenas uma percentagem para multiplicar, dividir, somar ou subtrair, mas homens e mulheres com as suas ambições, os seus desejos, a sua vontade de viver.” – José Luís Peixoto

As pessoas não são números, diz-nos, sagazmente, a Esquerda (neste caso através do Espírito Santo Revolucionário, Porta-Voz Supremo, Mestre Superior da Palavra e Prémio José Saramago 2001 - José Luís Peixoto). Eu não quero discordar desta afirmação. O peso da boca de quem profere estas palavras é demasiado. Seria o maior vitupério cultural alguma vez cometido por um homem designado como português. Discordar frontalmente de uma afirmação proferida pelo Vulto das Letras é o equivalente a tentar parar um carro com a mera intersecção de um corpo humano. O resultado não será a paragem do veículo. O resultado será a projecção violenta do corpo, vulgo atropelamento.

Portanto, vamos para uma realidade alternativa onde as Leis da Física Literária não se aplicam. Um lugar onde a única coisa que José Luís Peixoto tem em comum com José Saramago é o primeiro nome. Um lugar onde Zezinho Luisinho Peixoto não aprendeu a ler, nem a escrever, e ficou condenado a passar o resto da sua existência analfabeta nos latifúndios intermináveis do sertão alentejano a plantar batatas numa terra demasiado seca para a agricultura. Um destino trágico, certamente, mas com um esforço hercúleo de contenção lacrimosa, deixemo-nos levar por este Novo Mundo e vamos, então, finalmente, por mares nunca dantes navegados, discordar do Senhor Escriba Real, José Luís Peixoto.

Essa afirmação, proferida diversas vezes, sob diversas formulações, por diversas personalidades da Esquerda, é fundamentalmente incorrecta. As pessoas são números. As pessoas são o número um, no caso de considerarmos que a forma humana constitui um indivíduo, e que esse indivíduo é um único elemento, indissociável e indivisível. Esta é uma afirmação irrefutável, pelo menos para pessoas que não se encontram sob o efeito de ácido lisérgico ou cogumelos psicadélicos e, dessa forma, não aceitam a divergência entre o homem e a matéria. As pessoas também podem ser outros números. As pessoas podem ser duas pernas ou cinco dedos. As pessoas podem ser 4415 euros, que é o encargo médio do Estado por cada aluno até ao ensino secundário. As pessoas também podem ser 72, que é a idade que as crianças portuguesas nascidas em 2011 terão quando acabarem de pagar a sua parte da factura das Parcerias Público-Privadas. Na maior parte dos casos as pessoas são também mais de oitenta mil milhões de neurónios. Uma das várias excepções é precisamente os membros da tribo que ignora todos estes números e cuja designação está indicada no título da introdução deste pequeno e humilde tratado amador especulativo: A Esquerda Portuguesa.

Ingénuo não é a palavra adequada para descrever esta categoria geográfica política. Neville Chamberlain foi ingénuo quando pensou que Hitler iria parar na Checoslováquia. Adolf Hitler foi ingénuo quando pensou que era mais inteligente que Napoleão. Estupidez também não é a palavra adequada. Pôncio Pilatos foi estúpido quando cedeu aos judeus e decidiu condenar Jesus à morte. Jorge Jesus foi estúpido quando insistiu em colocar Emerson na lateral-esquerda do Benfica. Perdoem-me, mas não quero ser incongruente. Esta esquerda é ingénua, sim, e também é estúpida, mas estes são apenas dois dos atributos presentes no rol de adjectivos necessários para qualificar esta aberração sociológica. Chamemos-lhes então de ingénuos-estúpidos-ignorantes-loucos-pretensiosos-hipócritas-arrogantes-insípidos-amnésicos-megalómanos-picuinhas-enjoados-incompetentes-fariseus-paranóicos e no caso do Mário Soares e do Jerónimo de Sousa, senis. Acho que chega. Eu sei que muitas das coisas que eu aqui afirmo são excessivas. Eu sei o quão ridículo tudo isto pode parecer. Mas este exagero surge da necessidade de lutar fogo com fogo. Esta caracterização pode parecer um exagero sectarista ou uma hipérbole imperdoável onde se sacrifica alguma factualidade pelo poder lúdico destas ferramentas estilísticas. Quem se considera de esquerda olhará para esta lista de quinze pecados e verá apenas a enumeração extremista de um neoliberal. Mas o que me faz expressar tamanha cólera pela esquerda política é que toda a sua argumentação está assente na premissa de que eles possuem o monopólio da solidariedade autêntica e que as intenções da direita não passam de uma misericórdia mal-amanhada que o gigante Golias mostra ao diminuto David.

Essa premissa arrogante alarga-se e infecta todo o modo de funcionamento das instituições político-sociais que funcionam debaixo da autoproclamada alçada da Esquerda. Eles protegem os pobres como se a sua privação material desse-lhes, por si só, razão. A escassez material dá origem a uma altivez moral semiautomática, como se a fraqueza ou a insuficiência fizesse com que eles estivessem indubitavelmente certos e fossem os inquestionáveis possuidores da verdade. A abundância material, por sua vez, é um sinal de uma perversidade digna da condenação mais veemente, tornando certa, moral e boa, a subsequente expropriação da riqueza em nome da protecção dos pobres inofensivos. Para eles o mundo é simples. A crise tem um culpado: o capitalismo. O conflito israelo-árabe tem um culpado: os israelitas. A greve tem um culpado: o governo. A lógica desta dinâmica é a de uma injustiça gritante contínua, cujo papel é a catalisação da revolta premente, que é o sangue que corre nas veias mefíticas dos pseudo-revolucionários urbanos. Para eles a política é uma luta, o poder é a revolta e a reivindicação é um prazer. A arte do exercer a autoridade é uma exaltação colectiva puxada pela adrenalina pulsante da busca eterna pela novidade. A perspectiva de mudança funciona como uma droga, cuja capacidade de entorpecimento exige sempre uma dose cada vez maior. A política de esquerda vive no domínio imediato das sensações, da necessidade de gritar pelo oásis imaginário na linha do horizonte do deserto. A Esquerda não é um debate sério das ideias ou uma ponderação balanceada de soluções, mas sim um desporto radical teórico com uma capacidade estonteante de atrair um número enorme de revolucionários de sofá com desequilíbrios hormonais, que falha redondamente em ajudar a Humanidade e cujas ideias são responsáveis pelas maiores calamidades do mundo moderno.

O que geralmente não entra na perspectiva da Esquerda Portuguesa é que é a coisa mais fácil do mundo afirmar que queremos o bem para as pessoas. Todos queremos o melhor para as pessoas. O pior é quando se dá um passo em frente e afirmamos que sabemos fazê-lo, e que é simples e que temos um conjunto de soluções concretas para tal, não porque acreditamos verdadeiramente nestas soluções, mas porque procuramos agradar as multidões com uma injecção súbita de alívio do facilitismo. Como distribuir centenas de milhares de computadores a crianças em idade escolar com a certeza inabalável de que isso é melhor alocação de recursos possível para melhorar o sistema educativo. É fácil dizer que temos uma “receita”, um “plano”, uma “estratégia” e uma “aposta” cheia de acções positivas. É fácil dizer que precisamos de crescimento económico. Todos estamos de acordo com ideia de crescimento económico. Todos concordamos que o objectivo é melhorar a qualidade de vida das pessoas, preservando primeiro a liberdade e tentando criar, de forma sustentável, crescimento económico. O difícil é dizer que não sabemos o que é melhor para toda gente, que não temos nenhuma solução mágica para criar a curto prazo um número absurdo de relações comerciais que melhorem simultaneamente a vida de dez milhões de pessoas e que, provavelmente, a melhor coisa a fazer, a melhor política, digamos, é, simplesmente, não atrapalhar. O difícil é ter a humildade de assumir que a melhor acção de Estado é a inacção, e que as coisas não são fáceis, nem rápidas, mas que com o engenho humano e liberdade divina, um bocado de paciência e perseverança, (quase) tudo é possível.

Vamos, agora, aceitar a premissa da esquerda e afirmar que as pessoas não são números. Partindo deste princípio, números não são uma forma válida de representação da realidade e não constituem um método útil para o processamento de informação. Aquilo que a Esquerda nos parece querer dizer é que, de uma forma muito simples, a Matemática é uma ciência falsa, afastada da realidade, portanto podendo ser justamente comparada com Astrologia ou Cristaloterapia. Obviamente, não é isto que a Esquerda sugere, mas este tipo de raciocínio é o destino do caminho pavimentado pela afirmação “as pessoas não são números”. Nesse mesmo mundo, existem unicórnios e baús de ouro no final de cada arco-íris. Nesse universo, Vítor Gaspar não passa de um contabilista diabólico, um psicopata vazio, desprovido de emoções, um técnico com a eficiência da máquina genocida Nazi, um homem capaz de destruir milhões de vidas enquanto está sentado na sua sala a editar uma folha de Excel. E Passos Coelho é, claro, a reincarnação de Salazar, o monstro incompetente, cego ao sofrimento do povo, surdo às alternativas da Esquerda e mudo perante o poder dos mercados merkelianos. Ao assumirmos que as pessoas não são números, a negação aritmética permite-nos afirmar todo o tipo de alarvidades sobre os nossos opositores e permite-nos reclamar de tudo. Permite-nos gritar pela injustiça que são os cortes da despesa e pela injustiça que são os aumentos de impostos. O desfasamento entre a esquerda e a realidade reside na sua necessidade permanente de estar em oposição, mesmo quando está no poder. A Esquerda necessita de inimigos. Eles necessitam de demónios eternos, de fantasmas e de paranóia, pois a sua casa é assombrada e a sua nação é a penumbra.

Para acabar, esqueçamos Gaspar e voltemos a Jesus. Não o Messias, Rei dos Judeus, mas o mascador descortês de pastilhas elásticas da Amadora. Como afirmei, foi estúpido ao insistir em colocar Émerson na lateral-esquerda do Benfica. Qualquer pessoa com um mínimo de razoabilidade na sua caldeirada de personalidade sabia que aquilo não era material para jogador de futebol, mas sim para roupeiro. O problema foi que depois de passar uma época inteira a sublinhar a qualidade do jogador, na época seguinte dispensou-o pela calada, e substituiu-o por Melgarejo. O jovem paraguaio era extremo-esquerdo, mas Jesus garantia que transformá-lo-ia num grande defesa. Como qualquer pessoa possuidora da plenitude das suas capacidades psíquicas conseguiria ver, Melgarejo não era bom o suficiente para jogar na lateral do Trofense. Mas então Jesus foi ainda mais audaz. Depois de ter substituído um jogador horrível por um jogador adaptado, decidiu continuar esta sequência de decisões com mais uma solução miraculosa: um jogado horrível e adaptado, chamado André Almeida. O resultado está à vista. Jorge Jesus pode ser o treinador do Benfica, mas bem que poderia ser o Secretário-Geral do futuro Partido Bloquista do Socialismo Comunista de Esquerda. Aqui está, demonstrado de forma análoga, os tiques magníficos da Esquerda Portuguesa. Depois da primeira solução mágica ter corrido mal, decidiram criar uma outra solução igualmente mágica, seguido de mais uma solução mágica, presos no túnel eterno de esfaqueamentos num cadáver, com a convicção de que um desses golpes acabará por, inevitavelmente, trazê-lo de volta à vida.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Ofélia

O amor da minha vida trabalha no consultório do meu dentista. É sua recepcionista e auxiliar. Vou lá há já vinte anos, sendo portanto o único dentista que frequentei, e ela não envelheceu nada durante todo o espaço temporal que representa a minha vida com preocupações dentárias. Exagero: desapareceu alguma da vitalidade dérmica da juventude. Mas as rugas são escassas e, de alguma forma, até lisonjeiras. Tem uns olhos azuis pequenos como safiras, tez branca como uma boneca de porcelana, um nariz impertinentemente arrebitado, e um sorriso imaculado.
Lá estava ela, ao balcão, a receber a minha chegada com a sua imortal beleza. Estava, no entanto, ocupada. Uma senhora de idade, de braço dado com uma mais nova, disparava incessantemente pequenos pedaços da história da sua vida.
- Ele até me disse para comer sopa, não gosto muito, mas já não sou nova, e eu sei que sopa me faz bem, até por causa do dente, já mo dizia a minha mãe...
Sentei-me no sofá de cabedal e verifiquei que literatura havia disponível para entreter a minha impaciência. As opções eram escassas e de questionável qualidade: uma TV+, uma TVGuia e uma TV qualquer-coisa. Peguei na primeira, porque a capa prometia que, se eu a lesse, ia conhecer as confissões sexuais dos concorrentes da Casa dos Segredos, e pareceu-me uma oportunidade a não perder.
- ...que faleceu com sessenta e seis anos, muito nova, eu já fiz setenta e três em Fevereiro...
A minha musa acenava continuamente, mais para mostrar que ainda estava viva do que eu jeito de aquiescência, e conservava um sorriso forçado ligeiramente caído para a direita. Trazia, como sempre, o cabelo amarrado num rabo de cavalo. Ocorreu-me que nunca a vi de cabelo solto; esta imagem mental, com muito vento à mistura, ocupou-me durante os dois minutos seguintes.
- ...o meu marido é mais velho, mas esse já não se importa com os dentes, já não tem muitos, mas tem muita saúde para a idade...
O discurso tinha como pano de fundo o agoniante ruído da broca que, na sala ao lado, torturava o pobre paciente que me antecedia. A saturação começava a apoderar-se do meu amor. Nunca soube o nome dela; agora era muito tarde para perguntar, seria um acto mais insolente que corajoso, e estranho para ambos. Ela conhece-me desde que me cresceu o primeiro dente, e eu não soube aproveitar a minha já ida aura infantil para me aproximar dela, e a inocência para lhe questionar a graça. Agora, a não ser que o seu nome surja nalgum vocativo alheio, o meu amor permanecerá anónimo.
- ... ainda no outro dia foi ao cardiologista e está de ferro, ao contrário de mim, que às vezes tenho uns apertos que não me deixam dormir de noite...
Vamos fugir, meu amor. Vamos deixar a velha tagarela para trás, a broca para trás, a vida para trás, e fujamos juntos. Minha Ofélia, minha Ana Plácido, minha Beatriz, minha Julieta.
- ...às vezes até durmo no sofá, para não acordar o meu marido quando me levanto, mas isso faz-me ficar com dores nas costas...
A senhora mais nova, presumivelmente filha, que segurava a velha linguareira pelo braço começava agora a puxá-la, com a consciência óbvia da inconveniência do monólogo da mãe, que só esta parecia não detectar. Após algumas tentativas frustradas de retomar a conversa, pediu à mais nova que lhe segurasse na carteira e no casaco, que ainda tinha de ir ao quarto-de-banho. Foi a minha aberta; o meu amor sorriu para mim e cumprimentou-me pelo nome. Não me posso dar ao mesmo luxo: limitei-me a um envergonhado e formal “boa tarde”.
- Podes esperar mais cinco minutos, que o Dr. Pedro deve estar quase despachado.
A sua voz é uma exótica mistura de doçura e rouquidão. A agoniante dor do siso que me levou àquele consultório adormeceu por momentos. Estou em crer que é a sua voz a receber-me, mais do que a anestesia, que me retira a sensibilidade.
Reparei que havia o Correio da Manhã em cima do balcão. Perguntei se poderia levar. Ela condescendeu, com uma pequena risada.
- Claro, já fiz as palavras cruzadas.
“Merda”, pensei. Era exactamente isso que eu ia fazer. Mas não quis rejeitar esta oferenda do meu amor e entretive-me a pôr-me ao corrente dos pequenos casos de criminalidade que proliferam pelo país.
- Diogo, podes vir.
Não era a voz do meu amor. Na porta, surgiu a outra auxiliar do dentista, esta gorda e com um penteado menos ortodoxo, e que faz pausas constantes para ir à varanda fumar. Também trabalha lá desde que me lembro, e também ela envelheceu pouco, mas é consabida a capacidade da pele das gordas resistir à secura das células.
Despedi-me do meu amor com o olhar, que não mo retribuiu, ocupada que estava a escrever qualquer coisa numa agenda.
Cumprimentei o meu dentista. É um médico competente, homem de estatura baixa e espírito bonacheirão. Mandou-me sentar, deu-me cuidadosamente a anestesia e, depois da gorda me colocar o tubo sugador de saliva debaixo da minha já adormecida língua, começou o tratamento. Creio que me portei bem. Caso o meu amor entrasse na sala, já não se ia deparar com a jovem criança que chorava copiosamente ao som da broca; ia deparar-se com uma velha criança que consegue com questionável sucesso conter uma magnânima vontade de chorar copiosamente. Nada atrai mais uma linda quarentona que um jovem magro, com um tubo na boca, de punho cerrado e a dar pontapés no ar para controlar a dor provocada por um dente que não soube lavar decentemente.
Despachado, preparei-me para a despedida. Dirigi-me ao balcão, onde ela parecia aguardar-me pacientemente. Desapareceu durante um minuto no consultório, e voltou com uma folha na mão direita. A bata médica não lhe faz justiça, certamente, mas nunca a vi com outra indumentária.
- O Doutor disse para marcar para daqui a quinze dias para continuar o tratamento. Quer à mesma hora?
- Sim. À mesma hora.
- São dez euros e setenta e oito.
Tudo o que quiseres, meu raio de sol.
- Tens aqui o recibo. Assina aqui.
Ao passar-me a caneta para mão, toquei-lhe de forma muito ligeira no dedo indicador com o meu anelar. Devido a este suave mais intenso contacto, foi a tremer que rabisquei qualquer coisa na linha de assinatura.
- Vemo-nos daqui a quinze dias, então.
Mal posso esperar, meu amor.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Um pequeno resumo das coisas que aprendi no mundo empresarial português

Ao longo do meu percurso profissional, várias figuras de proa da indústria portuguesa deram-me vários conselhos importantes, muitos dos quais fiz questão de anotar. Aqui fica um breve resumo desses ensinamentos que, curiosamente, incluem bastantes referências a animais.

Em primeiro lugar, cada caso é um caso. Temos de pôr os pontos nos ii e os traços nos tês. Não pode ser oito nem oitenta, pois a pressa é inimiga da perfeição, mas temos sempre que ter em conta que quem não arrisca não petisca. O importante é agarrar o boi pelos cornos, ter a coragem de chamar o boi pelo nome e nunca, sob nenhuma circunstância, pôr a carroça à frente dos bois. Devemos sempre ter calma e tranquilidade, mas parar é morrer. A gente vai andando e devagar se vai longe. Lembrem-se sempre: quem corre por gosto não cansa, mas quanto mais depressa, mais devagar.

Temos é que estar atentos: gaivotas em terra, temporal no mar. Aliás, há mar e mar, há ir e voltar. E por falar em água, quem anda à chuva, molha-se, e existe gente por aí que estava mesmo a pedi-las. Especialmente em Abril, onde as águas são mil. Para quem não gostar de mar, sempre existe a montanha, e se por acaso Maomé não for à montanha, não se preocupem, a montanha virá a Maomé. Mas atenção: não é para quem quer, é para quem pode.

O importante é saber a verdade, que é como o azeite: vem sempre ao de cima, e mais depressa se apanha um mentiroso do que um coxo. Só não estiquem a corda, pois quanto mais alto, maior é a queda. Cão que ladra não morde e quem não tiver um cão para caçar, que cace com gato. O pior é quando a curiosidade mata o gato. Tenham sempre a noção de que quem vai à guerra, dá e leva, pois podem ser presos por ter cão e também presos por não ter.

Tudo é preciso. Tudo é importante. É preciso fazer tudo.Uma pessoa deve experimentar. Não se deve falar mal das coisas sem se experimentar, mas é a falar que a gente se entende. Rir também é necessário, mas muito riso, pouco siso. Com pouco siso, a vida pode correr mal, mas não devemos chorar pelo leite derramado, pois perdido por cem, perdido por mil, e nunca devemos esquecer que ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão. E já agora, de grão em grão, enche a galinha o papo.

Uma das coisas mais importantes que me ensinaram é que mulher ao volante é um perigo constante. E não devemos pôr uma colher entre ela e o marido. É a lei. A lei é dura mas é para cumprir. A lei é a lei. É a vida. A vida é a vida. Só temos uma vida e a vida é para viver. Desde que haja saúde, não é? O amor é bonito e temos de ser uns para os outros. Hoje por ti, amanhã por mim. Temos é que seguir em frente, pois águas passadas não movem moinhos, o que é estranho, pois quem vive de passado é museu. Enfim, tudo está bem quando acaba bem. Quem ri por último, ri melhor. Até amanhã, se Deus quiser.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Portas Abertas

Paulo Portas falhou no malabarismo que sempre quis fazer entre ser cúmplice de medidas inevitáveis e ser o único escudo que compreendia e protegia o povo de ser pilhado até ao último cêntimo pela execrável máquina social-democrata. Tentou equilibrar-se no limbo, mas não conseguiu o melhor dos dois mundos. Mais: se à partida para esta legislatura, as diferenças ideológicas entre os dois partidos do poder eram tão óbvias em questões tão elementares como a do salário mínimo, a coligação nunca fez sentido. Foi criada em nome da estabilidade governativa em tempo de crise, mas parece ir culminar numa tentativa de Paulo Portas fazer uma fuga à lá Francesco Schettino, capitão do Costa Concordia.

Falamos aqui de Paulo Portas porque, apesar de ele se julgar oculto atrás da cortina, é ele o responsável pela moção do partido que o deifica, liderada por Pires de Lima e alicerçada por figuras proeminentes do CDS.

Os democratas-cristão escolheram bem a forma de voltar à oposição, com pregões esquerdistas, quer pela demagogia do conteúdo, quer por não serem explícitos na forma como (e por quem) serão pagos os aumentados salários. Admitem, de resto, a dificuldade de verem as suas propostas irem avante pela resistência dos sociais-democratas e da troika.

Encaro esta como a última auto-flagelação dos democratas-cristãos na tentativa desesperada de reganhar o eleitorado: tentam anunciar que há uma fórmula de ultrapassar a crise, e que essa fórmula já foi por eles encontrada, dentro do CDS e, consequentemente, dentro do Governo. Mas Passos, Gaspar e as instituições internacionais não deixam executá-la. A vil direita política, da qual o CDS parece querer demarcar-se, faz uso salazarista da maioria no parlamento e na coligação. Paulo Portas vai remando contra a maré ultra-liberal do PSD e dos credores e irá, ironicamente, afogar-se no populismo em que se refugiou.

domingo, 16 de junho de 2013

A tribo de Naftali


245.


"A alma humana é vítima tão inevitável da dor que sofre a dor da surpresa dolorosa mesmo com o que devia esperar. Tal homem, que toda a vida falou da inconstância e da volubilidade feminina como de coisas naturais e típicas, terá toda a angústia da surpresa triste quando se encontrar traído em amor – tal qual, não outro, como se tivesse sempre tido por dogma ou esperança a fidelidade e a firmeza da mulher. Tal outro, que tem tudo por oco e vazio, sentirá como um raio súbito a descoberta de que têm por nada o que escreve, ou que é estéril o seu esforço por ensinar ou que é falsa a comunicabilidade da sua emoção.

Não há que crer que os homens, a quem estes desastres acontecem, e outros desastres como este, houvessem sido pouco sinceros nas coisas que disseram, ou que escreveram, e em cuja substância esses desastres eram previsíveis ou certos. Nada tem a sinceridade da afirmação inteligente com a naturalidade da emoção espontânea. E isto parece poder ser assim, a alma parece poder assim ter surpresas, só para que a dor lhe não falte, o opróbrio não deixe de lhe caber, a mágoa não lhe escasseie como quinhão igualitário na vida. Todos somos iguais na capacidade para o erro e para o sofrimento. Só não passa quem não sente; e os mais altos, os mais nobres, os mais previdentes, são os que vêm a passar e a sofrer do que previam e do que desdenhavam. É a isto que se chama vida."

- O Livro do Desassossego 

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Bom resto de Domingo.