sábado, 22 de setembro de 2012
Lipofobia
Fui recentemente convidado a ler uma crónica de Margarida Rebelo Pinto, que remonta ao ano de 2010, mas a qual nunca havia tido o prazer de ler, por confessa ignorância minha relativamente às publicações da autora. O texto foi recentemente alvo de grandes críticas quando atingiu alguma notoriedade nas redes sociais, e, ainda que não com a melhor pertinência temporal, quero juntar a minha voz à indignação pública; faço-o, no entanto, por motivos que serão em parte dissonantes das críticas que já proliferaram.
O tema da crónica é simples: as gordas. Mais concretamente, e de forma a não deturpar as idiossincrasias semânticas da autora, as gordinhas. Chamar-lhes gordinhas tem um propósito, que quem ler a crónica facilmente identificará como uma ironia, dentro da ironia, dentro da ironia, num Inception estilístico delicioso. A autora ressalva que o termo gordinhas serve para distinguir uma categoria especifica entre as gordas, que a própria define como "aquela amigalhaça companheirona que desde o liceu cultivava o estilo maria-rapaz, era espertalhona e bem-disposta, cheia de energia e de ideias, sempre pronta para dizer asneiras e alinhar com a malta em programas".
É sacrilégio tentar resumir uma peça literária de tanto calibre, mas vou ousar. Ora diz a autora que as gordinhas têm mais direitos de mau-comportamento social por serem gordas, e que as bem-constituidas gostariam de poder cometer os mesmos pecados sem serem confrontadas com um, e passo a citar, "inquisidor de serviço a apontar o dedo para lhe chamar leviana, ordinária, desavergonhada e até mesmo porca". Entre os direitos sociais de que apenas as gordinhas beneficiam, a autora lista "poder dizer palavrões, falar de sexo à mesa, apanhar grandes bebedeiras e consumir outras substâncias igualmente propícias a estados de euforia, inclusive fazer chichi de pernas abertas num beco do Bairro Alto".
A realidade lisboeta é certamente muito diferente da portuense. Sendo eu um orgulhoso nativo da invicta, observo com prazer que, nesta libertina cidade, todas as mulheres, independentemente do índice de massa corporal, dizem palavrões como vírgulas, falam abertamente de questões sexuais e apanham bebedeiras eufóricas quando bem lhes aprouver. No Porto, nunca vi nenhuma mulher ser condenada por estes pecados. Mas vamos assumir que a autora fala a verdade e que, nos círculos que frequenta, estas liberdades não são concedidas às "miúdas giras". Mesmo assumindo este cenário, é de observar que Margarida Rebelo Pinto quer os benefícios de ser gordinha, sem ter de arcar com as consequências negativas das banhas. Estando eu longe de ser uma gordinha (sou homem e escanzelado), arrisco-me a dizer que as gordinhas trocariam sem hesitar o direito de mijar na rua pelo olhar guloso dos homens e o olhar invejoso das outras mulheres. Perdoem-me a aparente piada de mau gosto, mas a autora fala de barriga cheia.
Jamais serei polícia de bons costumes. O que me incomoda no texto não são as críticas feitas às gordinhas e à forma como a sociedade as trata de forma diferente. Como quem dispara de metralhadora ao calhas acaba por atingir alguém, a autora acerta em alguns pontos. As gordas são, de facto, alvo da pena e comoção social; daí, como a autora sagazmente observa, ninguém lhes dizer diretamente que o são.
O texto é perturbador vários níveis, mas nenhuma passagem específica da crónica me indigna mais do que a condescendência que banha todas as palavras. Uma condescendência que não se limita a ser dirigida às gordinhas, como é também uma sobranceria intelectual, que incomoda bastante quando se trata de um texto em que a autora, independentemente das barbaridades que profere, recorre abusadamente a clichés, revela uma fraca destreza com as palavras e em que cada tentativa de ironia é embaraçosamente forçada.
Destaco também a forma como a autora distingue gordinhas e giras, ao invés de recorrer à óbvia antonímia gordinha e magrinha. Esta distinção incomoda porque existem magrinhas feias. Eu conheço-as e a autora, se alguma vez olhou para as contracapas dos seus livros, conhecerá também.
Sendo a adolescência uma fase decisiva na definição da personalidade, é inegável que a gordura que reveste um jovem tem influência na moldagem das suas características futuras. As gordinhas têm baixa auto-estima e são divertidas, porque se o interior fosse tão desinteressante como o exterior, ficariam totalmente descartadas da corrida por um parceiro sexual. No entanto, a complexidade dos factores que definem a individualidade deve levar-nos a ter redobrado cuidado com as generalizações. Já conheci gordinhas simpáticas e antipáticas, bêbedas e abstémias, puritanas e ordinárias, inteligentes e acéfalas. Além disto, quem ler a crónica fica com a ideia de que só existem dois tipos de pessoas que bebem: as gordinhas, para afogarem o desgosto de serem gordas e com o intuito de aumentarem a sua popularidade, e os homens, para comerem as gordinhas. E eu, que já carreguei magrinhas desmaiadas pelo álcool (até porque as magrinhas cedem mais facilmente pelo parco peso corporal) tenho uma consciência diferente da realidade do alcoolismo jovem. Mas, neste ponto, dou o braço a torcer. A autora, pela idade, experiência e popularidade, terá já conhecido bem mais gordinhas que eu; até porque, como diz a autora com muita pertinência, as gordinhas não despertam muito o nosso interesse.
A autora sabia que ia provocar uma onda de choque com este texto; não tenho dúvidas de que essa consciência foi o que mais a motivou a publicá-lo. Escritores destes vivem do povo, das massas, seja por via da admiração seja pela indignação. E eu, pasme-se, concordo com a cronista; às vezes temos de deixar o politicamente correto de lado e dizer as coisas como elas são.
Assim sendo, cara Margarida, desejo que o seu próximo AVC não demore muito a manifestar-se.
sexta-feira, 21 de setembro de 2012
O Estado Socialista e o estado a que isto chegou
A manifestação de 15 de Setembro e a glorificação barata que se seguiu das motivações dos revoltosos produz um belo retrato sociológico deste país. Os portugueses reclamam e criticam de uma forma tão grosseira e ignorante que não é possível pensar na manifestação como mais do que apenas uma emanação física de todos os erros do passado e do desejo pulsante de continuar a cometê-los.
Os portugueses parecem não conseguir assimilar esta verdade absoluta: não existem medidas, soluções e alternativas indolores para ultrapassar esta crise. Qualquer pessoa que diga o contrário está incluída numa destas hipóteses:
a) É estúpido
b) É ignorante
c) É mentiroso
d) É louco
e) É socialista (todas as anteriores)
f) É comunista (todas as anteriores)
g) É o António José Seguro* (todas as anteriores)
O país foi virtualmente à falência. Aquilo que nos levou à falência foram as ideias que a maior parte dos portugueses (e a quase totalidade dos manifestantes) ainda defende. A única coisa que nos separou da bancarrota oficial (alternativa que mostraria aos portugueses o que é a verdadeira austeridade) foi a intervenção e o empréstimo concedido pelo Tróica. É por causa dessas três instituições (BCE, FMI, CE) que ainda é possível manter um funcionamento relativamente estável das instituições públicas e dos serviços que elas proporcionam.
Existe uma abundância tremenda de coisas para criticar na conduta governativa da coligação entre o PSD e o CDS. Mas nenhuma das querelas dos manifestantes apresenta a validade necessária para constituir uma crítica, quanto mais uma crítica construtiva. Criticar envolve diagnosticar o erro e apresentar uma alternativa e isso, para um português, representa uma responsabilidade grave e sufocante.
O Passos Coelho não é um “gatuno”. Ele não está a cortar salários e a amealhar o dinheiro dos contribuintes numa conta pessoal nas Ilhas Caimão. Ele não tem um jacto à espera dele num aeroporto privado para o caso de ser necessário uma fuga repentina. Ele nem sequer é o verdadeiro culpado desta austeridade.
A austeridade actual só tem um culpado: os portugueses. É por causa da pressão pública que o governo está relutante em fazer reformas estruturais e os cortes necessários na despesa pública. É por causa da revolta juvenil portuguesa que o Governo está a sanear as contas públicas da forma mais branda possível, instituindo sequências de meias-soluções para resolver problemas enormes. O único resultado que pode surgir é o prolongamento incerto do sofrimento.
Quando o Governo corta salários e aumenta impostos, está a fazê-lo para maximizar a receita fiscal. E, digo mais uma vez, essa receita não vai para o bolso dos políticos. Essa receita é utilizada para pagar tudo o que os portugueses exigem do seu governo: saúde, educação, segurança social, transportes e segurança. Essa receita é utilizada para pagar o salário daqueles que mais reclamam: os funcionários públicos. O malfadado corte do subsídio de Natal e Férias aos funcionários públicos foi feito para que fosse possível pagar os restantes doze salários.
Não se enganem. A austeridade actual é o modo que o Governo arranjou de vos manter minimamente satisfeitos. Se o Primeiro-Ministro fizesse aquilo que ele defendia antes de chegar ao poder, os portugueses ficariam chocados com o que seria necessário para conseguir atingir esses objectivos.
Seria necessário despedir dezenas de milhares de funcionários públicos, extinguir e privatizar empresas públicas, realizar cortes abrangentes no Sistema Nacional de Saúde, diminuir a presença do Estado na Educação e reformar (cortar) a Segurança Social. Só assim seria possível cortar verdadeiramente a despesa pública, eliminar o défice e iniciarmos uma trajectória económica que permitiria começar a diminuir a dívida pública a longo prazo.
Mas se o Governo fizesse isso, os portugueses não votariam no PSD e no CDS nas próximas eleições. Se o Governo fizesse aquilo que é necessário, os portugueses votariam naquele homenzinho simpático de óculos que promete dinheiro e emprego para toda gente. Se fossem confrontados com o peso da realidade, os portugueses iriam preferir as promessas tóxicas do *Pai-Natal socialista que diz que a culpa não é nossa e que, afinal, somos todos bons meninos e merecemos muitos prendas.
Os portugueses parecem não conseguir assimilar esta verdade absoluta: não existem medidas, soluções e alternativas indolores para ultrapassar esta crise. Qualquer pessoa que diga o contrário está incluída numa destas hipóteses:
a) É estúpido
b) É ignorante
c) É mentiroso
d) É louco
e) É socialista (todas as anteriores)
f) É comunista (todas as anteriores)
g) É o António José Seguro* (todas as anteriores)
O país foi virtualmente à falência. Aquilo que nos levou à falência foram as ideias que a maior parte dos portugueses (e a quase totalidade dos manifestantes) ainda defende. A única coisa que nos separou da bancarrota oficial (alternativa que mostraria aos portugueses o que é a verdadeira austeridade) foi a intervenção e o empréstimo concedido pelo Tróica. É por causa dessas três instituições (BCE, FMI, CE) que ainda é possível manter um funcionamento relativamente estável das instituições públicas e dos serviços que elas proporcionam.
Existe uma abundância tremenda de coisas para criticar na conduta governativa da coligação entre o PSD e o CDS. Mas nenhuma das querelas dos manifestantes apresenta a validade necessária para constituir uma crítica, quanto mais uma crítica construtiva. Criticar envolve diagnosticar o erro e apresentar uma alternativa e isso, para um português, representa uma responsabilidade grave e sufocante.
O Passos Coelho não é um “gatuno”. Ele não está a cortar salários e a amealhar o dinheiro dos contribuintes numa conta pessoal nas Ilhas Caimão. Ele não tem um jacto à espera dele num aeroporto privado para o caso de ser necessário uma fuga repentina. Ele nem sequer é o verdadeiro culpado desta austeridade.
A austeridade actual só tem um culpado: os portugueses. É por causa da pressão pública que o governo está relutante em fazer reformas estruturais e os cortes necessários na despesa pública. É por causa da revolta juvenil portuguesa que o Governo está a sanear as contas públicas da forma mais branda possível, instituindo sequências de meias-soluções para resolver problemas enormes. O único resultado que pode surgir é o prolongamento incerto do sofrimento.
Quando o Governo corta salários e aumenta impostos, está a fazê-lo para maximizar a receita fiscal. E, digo mais uma vez, essa receita não vai para o bolso dos políticos. Essa receita é utilizada para pagar tudo o que os portugueses exigem do seu governo: saúde, educação, segurança social, transportes e segurança. Essa receita é utilizada para pagar o salário daqueles que mais reclamam: os funcionários públicos. O malfadado corte do subsídio de Natal e Férias aos funcionários públicos foi feito para que fosse possível pagar os restantes doze salários.
Não se enganem. A austeridade actual é o modo que o Governo arranjou de vos manter minimamente satisfeitos. Se o Primeiro-Ministro fizesse aquilo que ele defendia antes de chegar ao poder, os portugueses ficariam chocados com o que seria necessário para conseguir atingir esses objectivos.
Seria necessário despedir dezenas de milhares de funcionários públicos, extinguir e privatizar empresas públicas, realizar cortes abrangentes no Sistema Nacional de Saúde, diminuir a presença do Estado na Educação e reformar (cortar) a Segurança Social. Só assim seria possível cortar verdadeiramente a despesa pública, eliminar o défice e iniciarmos uma trajectória económica que permitiria começar a diminuir a dívida pública a longo prazo.
Mas se o Governo fizesse isso, os portugueses não votariam no PSD e no CDS nas próximas eleições. Se o Governo fizesse aquilo que é necessário, os portugueses votariam naquele homenzinho simpático de óculos que promete dinheiro e emprego para toda gente. Se fossem confrontados com o peso da realidade, os portugueses iriam preferir as promessas tóxicas do *Pai-Natal socialista que diz que a culpa não é nossa e que, afinal, somos todos bons meninos e merecemos muitos prendas.
quinta-feira, 20 de setembro de 2012
Michael Morton
Os morcegos são o distinto mamífero capaz de voar e têm uma
gigantesca capacidade de adaptação ao meio – apenas não são prolíficos nos
pólos árcticos. São animais subversivos, somente activos entre a obscuridade, à
excepção do grupo de raposas-voadoras que connosco partilha a necessidade de
vitamina D. Tudo iniludivelmente interessante, conquanto o fascinante seja o
seguinte: a ecolocação; um sexto sentido que permite, a estes ratos felpudos,
terem uma evoluída percepção espacial através da informação que coligem da
emissão de ondas ultra-sónicas. Thomas Nagel instrumentalizou-os originalmente
no sentido da Filosofia, como âncora metafórica na sua divisão entre
perspectiva pessoal e impessoal. O intelectual americano postula, então - e
deixo a ressalva que o apresento sem grande minudência – que, por mais que
tenhamos conhecimento de como a ecolocação efectivamente funciona, nunca
teremos a mais pequena consciência de como é.
Foi notícia já no ano passado, ainda José Sócrates era chefe
do Governo da República Portuguesa, a seguinte história retratada no programa
60 minutos, da CBS: em Williamson County, no Texas, nos primeiros delíquios da
alvorada, um vizinho estranhou a presença de uma criança de três anos tão cedo
na fronteiriça da sua casa sem a presença dos pais. Acabaria por encontrar a
sua mãe, Christine Morton, morta na cama. Christine teria sido espancada pelo
marido, Michael Morton, num crime de raiva impelido pela recusa de Christine em
saciar o instinto sexual primata do seu conjugue, no dia do seu aniversário. Era
isto que a justiça norte-americana tinha sentenciado e dado como certo até Michael Morton ter sido exonerado, no ano passado, devido a uma prova de ADN. Todo o
processo judicial tem muito que se lhe diga, embora não seja por aí que me
quero internar.
Rotular de desesperante o estado de espírito de Michael Morton
durante esses 25 anos em que esteve injustamente preso é, porventura, capaz de ser um eufemismo. Considerá-lo como
tal também. A angústia como condição de vida em doses tão frequentes,
inconscientes e naturais quanto as de oxigénio. Apenas nos é possível
equacionar possibilidades. A verdade é que, por mais que conheçamos sobre a
história e que por mais que Michael Morton nos diga como foi, não teremos a
menor ideia. Por mais imaginativo que seja o nosso raciocínio abstracto, não
lhe será possível reproduzir os delírios de sentimentos tão imanentes à
situação. Mas nem é sequer honesto tentar devolver por palavras e com
propriedade a dimensão da realidade em que durante esse tempo definhou. Resta
descrever, para que não saia da memória, que Michael Morton viveu 25 anos entre
o cataclismo emocional de ver a sua mulher e mãe do seu filho assassinada
sem saber por quem, de ter sido julgado por esse pérfido acto que não cometeu,
enquanto sempre clamou a sua inocência, e que, com a desgraça da sua perda e
desacreditação, foi condenado a passar o resto dos dias numa cela. Sem
esperança. Uma prova de que a maior das tragédias não precisa de ter mais que
uma vítima. Acredito que nem Santo Agostinho não se apiedaria e repensava a sua
sensibilidade caso Michael Morton, num destes anos entre a sua funesta
existência, tivesse decidido pôr termo à sua vida.
Não o fez. Parece que tinha a certeza que a remota
possibilidade de a verdade ser fundada no seu caso iria chegar. É comovedor ver
Michael Morton a falar, quase que infantilmente, sobre os primeiros
momentos após a sua experiência prisional, extasiado com o sol da liberdade. Os
efeitos de LSD provocados por raios solares entre o palpitar da mobilidade.
Também somente ele saberá o que isso é.
terça-feira, 18 de setembro de 2012
Good Ol' Jimi
Decorria o ano de 1968 e Jimi Hendrix actuava com a sua banda na Winterland, uma conhecida sala de espectáculos na Califórnia. Jimi dirigiu-se ao público e apresentou a música que se seguia, Manic Depression, como uma história que falava acerca da frustração de um gato, que sente uma anormal atração sexual por música e que desejava poder fazer amor com a música em vez de o fazer com a mesma velha mulher com que lidava todos os dias.
Este trecho, estando longe de ser musicalmente a sua melhor criação, é uma exposição perfeita do vínculo de Jimi com a arte musical. Tinha com a música uma relação crua e instintiva que dificilmente encontra paralelo senão numa experiência sexual. A frustração do gato é a descrição do que faltou na vida de Jimi, que morreu rodeado de todos os prazeres e graças a esses prazeres, mas que nunca fundiu a satisfação carnal do orgasmo com a elevação espiritual que experimentava enquanto manejava a sua mítica Fender Stratocaster. Talvez por isso as queimasse durante os espetáculos; a frustração da luxúria musical combinada com irresponsáveis doses de LSD teria de resultar em demonstrações épicas de piromania.
Jimi morreu há precisamente 42 anos, com a demasiado tenra idade de 27. Tinha tanto carisma que qualquer imagem sua é ainda hoje um símbolo da aura livre, psicadélica, excessiva e alienada que reinava no espírito do Rock dos anos 60. Não inventou o Rock n’ Roll, mas há neste género um antes e um depois das suas criações. Nenhum artista, em nenhuma das sete artes, conseguiu, com uma carreira tão curta, deixar um legado tão extenso e duradouro como o do estilo inconfundivelmente distorcido, visceral e espontâneo dos solos de Jimi Hendrix.
segunda-feira, 17 de setembro de 2012
Um verdadeiro herói
Christopher Hitchens sempre me impressionou por ser uma pessoa tão verdadeira. Esse elogio sofre por ser um cliché grotesco e, como todos os clichés, devem ser evitados a todo custo. Por isso, a frase pode não parecer tão impressionante. Mas depois de se apreender com clareza quem era “Hitch” (tanto quanto é possível conhecer alguém através da escrita e dos debates televisivos), a palavra “verdadeiro” não é só um elogio barato. Para mim, é o maior elogio que se pode fazer a alguém.
A primeira vez que tomei conhecimento da sua existência, ele estava presente num painel de debate num programa político americano. Naquela altura, George W. Bush era o homem mais odiado do mundo e o painel debatia a sua competência como presidente e Hitch, depois de discordar veementemente com o apresentador e com os restantes membros do painel (que acusavam Bush de ser “estúpido”), insultou o público presente no programa, chamando-os de “frívolos”, por aplaudirem sempre que o apresentador falava. Confrontado com uma coluna de assobios, limitou-se a responder à plateia com a elegância do dedo do meio.
Este episódio despertou a minha curiosidade e rapidamente vasculhei a Internet por todos os textos da sua autoria que estavam disponíveis. Os seus textos na Vanity Fair são colossos da arte contemporânea. É possível discordar de Hitch em inúmeros assuntos mas é impossível discordar sobre o seu talento como escritor. Mais do que o impressionante, o que chocava era a beleza fluida que Hitch imprimia nos seus textos. Ele dominava a língua inglesa, fazendo-a mexer de acordo com a sua Vontade, como se ele não estivesse sujeito às leis da física literária a que todos os meros escribas mortais têm que se sujeitar.
Ele era verdadeiro porque fazia o que ele queria, sem prestar demasiada atenção às consequências, e dizia o que queria, sem prestar atenção às almas mais sensíveis que pudessem ficar chocadas com as suas opiniões divergentes e polémicas. Apoiou a invasão americana no Iraque, rejeitou a glorificação ocidental da Madre Teresa de Calcutá, criticou figuras de peso da política americana como Henry Kissinger e Bill Clinton e, proeminentemente, rejeitou todas as formas de fé e religião. Quando na América se debatia a justificação prática e moral da utilização de técnicas de tortura nos prisioneiros de Guantánamo, o próprio escritor se submeteu a uma sessão de “afogamento simulado”, de modo a poder falar sobre o assunto com conhecimento de causa.
Todas estas diatribes foram acompanhadas por aqueles que eram considerados os seus companheiros mais fiéis: um copo de whisky (sempre Johnny Walker Red – um gosto que ele dizia partilhar com os líderes do regime iraquiano) e um cigarro. É possível observá-lo em programas televisivos americanos, a bebericar whisky num copo de plástico, enquanto os outros convidados, depravados às ocultas, utilizavam as chávenas oficiais do programa. Ele arrastava as suas palavras e falava em frases lentas e longas, mostrando que o consumo já tinha sido iniciado nos bastidores. Ele costumava beber, de acordo com o próprio, “o suficiente para atordoar uma mula”. Esses hábitos acabaram por ditar o seu fim.
Quando foi diagnosticado com cancro do esófago, a mesma doença que matou o seu pai, o espírito de um homem verdadeiro prevaleceu. Não só não se resignou perante a sentença de morte, como escreveu alguns dos melhores trabalhos da sua carreira enquanto sofria e morria. Reconheceu a inevitabilidade do seu destino e enfrentou-o (passivamente, como ele descreveu o processo de quimioterapia), com as limitações a que estão sujeitos todos os homens. Não deixou que a perspectiva da morte fosse uma desculpa para tempos finais de lamúria e cobardia.
Mais do que os seus textos, e os seus debates, para mim é isso que fica. Se eu conseguir morrer com a mesma seriedade inabalável que Hitch mostrou, morrerei um homem feliz. Para mostrar tamanha tenacidade é necessário ter o suporte de um passado glorioso bem vivido. É necessário ter vivido a vida que se quis sem arrependimentos fúteis. É necessário ter procurado e vivido a verdade. Para Christopher Hitchens, a verdade e o prazer na vida não eram encarnados por meras palavras vazias e frases inspiradoras, como as que aqui deixei, mas pela implacabilidade das acções.
A primeira vez que tomei conhecimento da sua existência, ele estava presente num painel de debate num programa político americano. Naquela altura, George W. Bush era o homem mais odiado do mundo e o painel debatia a sua competência como presidente e Hitch, depois de discordar veementemente com o apresentador e com os restantes membros do painel (que acusavam Bush de ser “estúpido”), insultou o público presente no programa, chamando-os de “frívolos”, por aplaudirem sempre que o apresentador falava. Confrontado com uma coluna de assobios, limitou-se a responder à plateia com a elegância do dedo do meio.
Este episódio despertou a minha curiosidade e rapidamente vasculhei a Internet por todos os textos da sua autoria que estavam disponíveis. Os seus textos na Vanity Fair são colossos da arte contemporânea. É possível discordar de Hitch em inúmeros assuntos mas é impossível discordar sobre o seu talento como escritor. Mais do que o impressionante, o que chocava era a beleza fluida que Hitch imprimia nos seus textos. Ele dominava a língua inglesa, fazendo-a mexer de acordo com a sua Vontade, como se ele não estivesse sujeito às leis da física literária a que todos os meros escribas mortais têm que se sujeitar.
Ele era verdadeiro porque fazia o que ele queria, sem prestar demasiada atenção às consequências, e dizia o que queria, sem prestar atenção às almas mais sensíveis que pudessem ficar chocadas com as suas opiniões divergentes e polémicas. Apoiou a invasão americana no Iraque, rejeitou a glorificação ocidental da Madre Teresa de Calcutá, criticou figuras de peso da política americana como Henry Kissinger e Bill Clinton e, proeminentemente, rejeitou todas as formas de fé e religião. Quando na América se debatia a justificação prática e moral da utilização de técnicas de tortura nos prisioneiros de Guantánamo, o próprio escritor se submeteu a uma sessão de “afogamento simulado”, de modo a poder falar sobre o assunto com conhecimento de causa.
Todas estas diatribes foram acompanhadas por aqueles que eram considerados os seus companheiros mais fiéis: um copo de whisky (sempre Johnny Walker Red – um gosto que ele dizia partilhar com os líderes do regime iraquiano) e um cigarro. É possível observá-lo em programas televisivos americanos, a bebericar whisky num copo de plástico, enquanto os outros convidados, depravados às ocultas, utilizavam as chávenas oficiais do programa. Ele arrastava as suas palavras e falava em frases lentas e longas, mostrando que o consumo já tinha sido iniciado nos bastidores. Ele costumava beber, de acordo com o próprio, “o suficiente para atordoar uma mula”. Esses hábitos acabaram por ditar o seu fim.
Quando foi diagnosticado com cancro do esófago, a mesma doença que matou o seu pai, o espírito de um homem verdadeiro prevaleceu. Não só não se resignou perante a sentença de morte, como escreveu alguns dos melhores trabalhos da sua carreira enquanto sofria e morria. Reconheceu a inevitabilidade do seu destino e enfrentou-o (passivamente, como ele descreveu o processo de quimioterapia), com as limitações a que estão sujeitos todos os homens. Não deixou que a perspectiva da morte fosse uma desculpa para tempos finais de lamúria e cobardia.
Mais do que os seus textos, e os seus debates, para mim é isso que fica. Se eu conseguir morrer com a mesma seriedade inabalável que Hitch mostrou, morrerei um homem feliz. Para mostrar tamanha tenacidade é necessário ter o suporte de um passado glorioso bem vivido. É necessário ter vivido a vida que se quis sem arrependimentos fúteis. É necessário ter procurado e vivido a verdade. Para Christopher Hitchens, a verdade e o prazer na vida não eram encarnados por meras palavras vazias e frases inspiradoras, como as que aqui deixei, mas pela implacabilidade das acções.
domingo, 16 de setembro de 2012
A Divina Comédia
Pedro Passos Coelho perdeu o país no dia de 7 de Setembro de
2012. É um facto tão drástico quanto indesmentível. A descida da TSU foi uma
ideia peregrina do executivo que o transformou em eremita. Apenas dias vindouros
revelarão se Passos foi lúcido ao arrepio da sua solidão, pouco provável, ou
surdo perante os brados alarmantes de todos os quadrantes políticos. Não
obstante, é por de mais notório que a medida foi assíncrona ante a realidade do
país e todas as capas dos matutinos de hoje demonstram porquê.
Foi o início de uma espiral que ainda terá de conhecer,
inevitavelmente, o seu fim. Ao longo de uma semana, Paulo Portas sobrepôs a
liderança do CDS ao de ministro da coligação, que aparenta ser agora um termo
demasiado conjuntivo face à enferme relação dos dois partidos que formam
maioria. Sabia-se que o governo era curto. Era já visível que se encontra altamente desgastado. Resta saber como irá
trabalhar após esta adenda eminentemente disfuncional e separatista.
António José Seguro, enquanto proclama pela enésima vez que
o PS, acima de tudo, se compromete com uma oposição responsável, sempre se
esqueceu de o fazer. Na sua recente declaração de cinco minutos à comunicação
social, aventa que uma das propostas que irá apresentar será a criação de um
imposto extraordinário sobre as PPP. Além de que as renegociações das PPP são,
nunca é de mais relembrar, uma obrigatoriedade do ruinoso legado socrático,
estas já estavam a ser encetadas e com resultados agora conhecidos:Renegociações das PPP poupa mil milhões de euros.
Mas já não foi mau, após um ano a tornear a sua acção política em chavões como “estimular
a economia” e “criação de postos de trabalhos”, que são mais descrições do que
as medidas ideais, até hoje por desvendar e subsequentemente apresentar, teriam como impacto no dantesco
estado da insolvente economia portuguesa, que estaria em bancarrota e incapaz
de suportar os seus encargos sem os empréstimos da troika, e menos medidas em
si. Hoje, sai no Público uma entrevista ao líder do maior partido da oposição,
da maior pertinência, dado que surge na senda da maior manifestação popular
desde o 25 de Abril, embora, para infortúnio de todos nós, de diminuta
utilidade pelo vazio que veicula. Que ninguém se engane: todo o seu trabalho de
oposição consistiu em esperar por este momento de clivagem social e crescente deslegitimação
política do governo e rezar para que os portugueses tenham memória ainda mais
curta que aquilo que sempre demonstraram. É essa a sua responsabilidade. Não
com Portugal, mas para com o partido.
Nunca contentes com os problemas que enfrentamos, soma-se
agora, assim, aquele que parece ser o principiar de uma aguda crise política,
cujo desfecho depende directamente da sobriedade e seriedade de políticos pouco
confiáveis. O Orçamento de Estado para 2013 vai ser crucial. O que vale é que temos sempre a música da Fanny para nos distrair.
Um último aviso ao Gaspar: a despesa!
sábado, 15 de setembro de 2012
Contradições
Cegados pela constante poeira levantada, torna-se uma tarefa cada vez mais árdua rotular as diferentes forças políticas nacionais se nos basearmos em políticas concretas, deixando de parte as linhas orientadoras e paradigmáticas das ideias gerais de um partido. Podemos fazê-lo, e aí deparamo-nos com uma história política recente deveras curiosa: o antigo governo, de centro-esquerda, cai porque o partido de centro-direita se escandalizava com a incidência dos impostos sobre o rendimento dos portugueses, garantindo que, cortando de outra forma na despesa, não haveria esta necessidade. Até aqui, tudo bem. Chegada ao governo, o centro-direita aumenta mais os impostos, dando a volta de forma pouco ardilosa quando estes são considerados anticonstitucionais.
Este governo "neo-liberal" cobra mais impostos sobre rendimentos e consumo e gasta mais em Segurança Social do que o anterior Executivo "socialista". Uma contradição ideológica (suportada pelo enorme bode expiatório que é a anterior liderança nacional e a atual governação internacional dos credores) e, mais do que isso, um paradoxo resultante da própria política do PSD, que tem de gastar mais a ajudar aqueles que se tornaram mais necessitados com as próprias políticas governamentais. Contradições deliciosas, mas não tão descaradas como são as auto-contradições: a de que, se tudo dependesse do PSD (entretanto agraciado com uma virtual maioria), o défice estaria fixado em 3% neste malfadado ano de 2012, quando tivemos agora de renegociar o abaixamento da fasquia para 5%. Não o défice, mas sim a meta, a melhor das hipóteses.
E agora, o PS volta a ganhar a frente nas sondagens, mesmo sendo liderado por um fantoche monocórdico sem ideias. Não rotulemos mais. No poder, todos parasitam gananciosamente aqueles a que o Marcelo chama de "mexilhão"; na oposição, reina o socialismo, não o socialismo estrutural, mas o socialismo de caridade, de promessas de ajuda à mão estendida. Vivemos nesse ciclo sebastianista, onde todos se anunciam salvadores e todos se revelam fraudes.
E depois há Sócrates. Nome de filósofo, charme de cavalheiro, carisma de monstro político, um megalómano que quis dar tudo aos portugueses e acabou por tirar-lhes aquilo que tinham e, mais grave, o que ainda não temos. Ele contradizia-se diaramente, mas lá socialista era ele. Não sei, portanto, como encarar Sócrates: como um exemplo perfeito daquilo sobre o que discorri nestas linhas; ou a excepção que confirma a regra.
sexta-feira, 14 de setembro de 2012
Brincadeira terrorista
“José, 28 anos, está em greve de fome até conseguir emprego”. É o que estava escrito no título de uma notícia do Público. À primeira vista, a frase parece o início de um mau romance escrito por Kafka. Na realidade, José é um designer de 28 anos que estava a realizar um protesto sentado na Rua de Santa Catarina no Porto, em frente a uma confeitaria, de modo a reivindicar “um emprego digno e um futuro justo”.
O que o José decidiu fazer não foi esforçar-se para compreender a situação político-económica do seu país. O José não necessita do empecilho de factos e argumentos. Não precisa de avançar com soluções exequíveis ou alternativas válidas. Aquilo que ele precisa é ver a sua vontade realizada e, para isso, escolhe o curso de acção de uma criança mimada.
O José pensa que o Estado pode, através de mágica, resolver a sua situação e a situação dos restantes desempregados deste país no curto prazo. E pior, o José pensa que o Estado pode e deve fazer isso sem aumentar os impostos ou sem cortar a despesa. Aquilo que o José, 28 anos, deveria fazer, especialmente tendo em conta sua idade, é ganhar juízo. Ele não sabe que ninguém no mundo, especialmente qualquer Estado, mesmo nos países mais desenvolvidos, pode garantir "um emprego digno e um futuro justo" a um cidadão.
O José quer culpar alguém. Culpa a entidade anónima de “pessoas responsáveis por esta situação”, culpa o Primeiro-Ministro, culpa a “agenda” ideológica, culpa os Centros de Emprego e até as pessoas que o ignoram na rua. Existem muitos responsáveis pela situação que vivemos e neles se podem incluir quase todos os portugueses. Se o José quer culpar alguém pela sua situação particular basta olhar para frente e observar o seu reflexo na montra da confeitaria.
Aquilo que o José não reconhece é que foi ele a escolher o seu curso de Belas-Artes, uma área afligida pelo desemprego e pela incerteza laboral. O José poderia ter escolhido um curso com maior empregabilidade. Ele parece relutante em aceitar um emprego numa área diferente da sua. O José quer ser “artista” e espera que o mundo abra alas para acomodar as suas criações gloriosas.
As greves de fome foram notoriamente utilizadas por presos políticos cubanos e membros do IRA. É uma ferramenta psicológica que os revoltosos utilizam em situações onde estão encurralados sem qualquer possibilidade de escapar. É utilizado pelas pessoas para quem as alternativas se esgotaram completamente. Em muitos casos, o resultado foi a morte dos grevistas.
Tendo isto em conta, duas coisas ficaram patentes. José não sabia o que estava a fazer. Não me parece que ele tivesse a coragem ou o idealismo cego para morrer pela sua causa. O que o José queria era tratamento especial. Queria um contacto exclusivo com o Primeiro-Ministro e queria que alguém lhe arranjasse um emprego. Para isso, utilizou a ameaça do seu próprio suicídio.
O protesto provavelmente era apenas simbólico. Ninguém (nem mesmo o próprio José) acreditava que ele acabaria por levar a acção até as últimas consequências. Mas isso não justifica a táctica infantil e chantagista, especialmente tendo a diferença entre o contexto português e o contexto habitual desse tipo de protesto.
Eu não tenho como saber se foi uma manobra de diversão ou se o José viu-se mesmo desesperado ao ponto de realizar uma greve de fome. A causa pela qual ele diz lutar é nobre, mas nunca justa o suficiente para este tipo de protesto. Mas esta história ensinou-me algo. Ensinou-me que, se alguma vez tiver um filho, ele não se chamará José. Os tempos estão difíceis mas, por pior que as coisas estejam, Portugal não precisa de mais Zés.
O que o José decidiu fazer não foi esforçar-se para compreender a situação político-económica do seu país. O José não necessita do empecilho de factos e argumentos. Não precisa de avançar com soluções exequíveis ou alternativas válidas. Aquilo que ele precisa é ver a sua vontade realizada e, para isso, escolhe o curso de acção de uma criança mimada.
O José pensa que o Estado pode, através de mágica, resolver a sua situação e a situação dos restantes desempregados deste país no curto prazo. E pior, o José pensa que o Estado pode e deve fazer isso sem aumentar os impostos ou sem cortar a despesa. Aquilo que o José, 28 anos, deveria fazer, especialmente tendo em conta sua idade, é ganhar juízo. Ele não sabe que ninguém no mundo, especialmente qualquer Estado, mesmo nos países mais desenvolvidos, pode garantir "um emprego digno e um futuro justo" a um cidadão.
O José quer culpar alguém. Culpa a entidade anónima de “pessoas responsáveis por esta situação”, culpa o Primeiro-Ministro, culpa a “agenda” ideológica, culpa os Centros de Emprego e até as pessoas que o ignoram na rua. Existem muitos responsáveis pela situação que vivemos e neles se podem incluir quase todos os portugueses. Se o José quer culpar alguém pela sua situação particular basta olhar para frente e observar o seu reflexo na montra da confeitaria.
Aquilo que o José não reconhece é que foi ele a escolher o seu curso de Belas-Artes, uma área afligida pelo desemprego e pela incerteza laboral. O José poderia ter escolhido um curso com maior empregabilidade. Ele parece relutante em aceitar um emprego numa área diferente da sua. O José quer ser “artista” e espera que o mundo abra alas para acomodar as suas criações gloriosas.
As greves de fome foram notoriamente utilizadas por presos políticos cubanos e membros do IRA. É uma ferramenta psicológica que os revoltosos utilizam em situações onde estão encurralados sem qualquer possibilidade de escapar. É utilizado pelas pessoas para quem as alternativas se esgotaram completamente. Em muitos casos, o resultado foi a morte dos grevistas.
Tendo isto em conta, duas coisas ficaram patentes. José não sabia o que estava a fazer. Não me parece que ele tivesse a coragem ou o idealismo cego para morrer pela sua causa. O que o José queria era tratamento especial. Queria um contacto exclusivo com o Primeiro-Ministro e queria que alguém lhe arranjasse um emprego. Para isso, utilizou a ameaça do seu próprio suicídio.
O protesto provavelmente era apenas simbólico. Ninguém (nem mesmo o próprio José) acreditava que ele acabaria por levar a acção até as últimas consequências. Mas isso não justifica a táctica infantil e chantagista, especialmente tendo a diferença entre o contexto português e o contexto habitual desse tipo de protesto.
Eu não tenho como saber se foi uma manobra de diversão ou se o José viu-se mesmo desesperado ao ponto de realizar uma greve de fome. A causa pela qual ele diz lutar é nobre, mas nunca justa o suficiente para este tipo de protesto. Mas esta história ensinou-me algo. Ensinou-me que, se alguma vez tiver um filho, ele não se chamará José. Os tempos estão difíceis mas, por pior que as coisas estejam, Portugal não precisa de mais Zés.
quinta-feira, 13 de setembro de 2012
O instrutor grego
“Os mais antigos documentos em língua grega a que pode
dar-se o nome de literatura são a Ilíada e a Odisseia, atribuídos na
Antiguidade, juntamente com outros, a Homero. A língua grega era já antiga e
perfeitamente elaborada quando aquelas obras foram criadas: o mais provável é
que datem ambas do século VIII a. C.
A Ilíada, ou poema acerca de Ílion (Tróia), tem como tema principal um só episódio do último ano da Guerra de Tróia – a cólera de Aquiles e a sua retirada da luta, com as desastrosas consequências de tal atitude:
Canta, ó Deusa, a cólera do filho de Peleu, Aquiles;
Cólera funesta que causou infinitos males
Aos Aqueus e lançou no Hades
Muitas almas valorosas de heróis, e lançou os seus corpos
como
De cães e pasto de todas as aves do ar…
O maior guerreiro entre os Aqueus (como Homero chama aos
Gregos) abandona a guerra com os seus homens e retira-se para a sua tenda,
porque o chefe aqueu, Agamémnon, lhe tirou a sua escrava favorita. Na grande
batalha que se segue, os Troianos levam de vencida os Aqueus até ao momento em
que Pátroclo – que convenceu Aquiles, de quem é o único amigo, a deixá-lo
combater com as suas armas – entra na luta. A sorte muda e os Troianos recuam;
mas Pátroclo é morto e a narrativa atinge o clímax: Aquiles, revestido de novas
armas, lança-se na luta, mata o chefe troiano, num combate singular, e amarra o
cadáver ao seu carro, levando-o para o campo aqueu, onde, durante onze dias,
fica insepulto e é arrastado em volta do túmulo de Pátroclo. Todavia, o poema
termina com uma nota muito diferente de toda esta ferocidade: o velho rei
troiano Príamo visita Aquiles e consegue que o herói lhe entregue o corpo do
filho para que lhe dê sepultura. Tudo isto, que é o assunto principal do poema,
abrange apenas o período de algumas semanas dos dez anos que durou o cerco de
Tróia; mas o título do poema justifica-se, pois que, ao longo dos seus quinze
mil versos, por divagação, por reminiscência ou por profecia, nos conta toda a
guerra e ambiente que dela decorre.
A Ilíada é uma história de sangue e de morte, de glória e de
tristeza. O tema de Odisseia (poema acerca de Ulisses), que tem menos quatro
mil versos, é menos grandioso, mas mais aventuroso e romântico: trata-se do
regresso de Ulisses ao seu palácio em Ítaca, finda a Guerra de Tróia. Pela
primeira vez, o poeta recorre a um atrifício que depois é imitado por Virgílio
e por muitos outros: começar a história pelo meio e deixar o princípio para ser
contado mais tarde. A história começa na ilha de Ítaca, dez anos depois da
queda de Tróia: muitos pretendentes têm cortejado em vão a mulher de Ulisses,
Penélope, consumindo a riqueza do reino, até que, por fim, o seu jovem filho,
Telémaco, se dirige para o Peloponeso em busca de notícias do pai. É só nesta
altura que a história foca o próprio Ulisses no meio das suas viagens e o
conduz à estranha terra de Feácia, onde encontra a princesa Nausica, filha do
rei Alcino, em cuja corte é recebido e acarinhado e a quem conta as suas
aventuras desde que a Guerra de Tróia acabou: as suas fugas do país dos
Lotófagos e da ilha dos Ciclopes, as Sereias, Circe, Cila, Caríbdis; os seus
sete anos numa ilha como amante e prisioneiro da ninfa Calipso. Da Feácia chega
por fim a Ítaca, encontra Telémaco, mata os pretendentes de Penélope – clímax dramático
e sangrento como nenhum na Ilíada – e volta aos braços da mulher. Também na
Odisseia, a linha narrativa sofre grandes desvios, não só por causa de todo o
folclore e ficção que ornamentam as aventuras do herói, mas também por outras
consequências da guerra.
(…)
Estamos realmente perante autêntica poesia «heróica»,
naturalmente centrada num só herói e numa cadeia específica de incidentes. Mas
a sua mais notável característica para o leitor moderno foi omitida no resumo
dos poemas: a constante presença de seres que não são homens nem mulheres e
cujas actividades intervêm na história, desempenhando efectivamente o papel
mais importante na determinação do curso dos acontecimentos. Zeus e a sua
conflituosa família de deusas e deuses, habitantes divinos no Monte Olimpo, na
Ilíada e, um pouco mais remotamente, na Odisseia, são personagens tão
definidas, singulares e características como Heitor ou Aquiles. São seres
sobre-humanos, com a sua imortalidade e os seus poderes mágicos, que podem ser
grandiosos e imporem respeito; todavia, muitas vezes as suas intervenções
arbitrárias são provocadas por motivos e por sentimentos que se revelam
muitíssimo semelhantes aos humanos. Por vezes, especialmente na Ilíada, as
excentricidades do Olimpo proporcionam uma pausa cómica nas trágicas cenas da
planície troiana. Se os homens de Homero se assemelham, por vezes, a deuses, os
seus deuses dificilmente poderiam ser mais bem moldados à imagem do homem.
Tudo isto é contado em verso hexâmetro, no qual Matthew
Arnold acertadamente encontra as qualidades de clareza, de rapidez, pensamento
e de linguagem. (…) Homero tem uma maneira rápida e directa de descrever uma
cena ou uma acção. Nas suas frases não há rodeios, pondo os factos uns a seguir
aos outros, com simplicidade e sem qualquer complexa interferência de orações
subordinadas. Há uma pequena metáfora nas suas linhas para perturbar ou demorar
a nossa compreensão:
Tal como quando no céu as estrelas que rodeiam a Lua
Parecem belas, quando todos os ventos repousam,
E cada montanha aparece, e cada pico saliente
E cada vale, e os incomensuráveis céus
Abrem caminho até ao zénite, e quando todas as estrelas
Brilham e o pastor sente o coração alegre:
Da mesma maneira brilhou em fogo entre os navios e o rio
Xanto perante as torres de Tróia.
Nos dois poemas, os momentos dramáticos ou sublimes fazem
aparecer mais de duzentas breves imagens deste género, nas quais o narrador
parece ultrapassar a sua própria comparação e discorrer apaixonadamente sobre
pormenores exclusivamente por causa desses mesmos pormenores. Nesta, como
noutras imagens, o estilo homérico torna-se um modelo para os poetas dos
séculos vindouros: Virgílio, por exemplo, e Milton.
(…)
Arnold encontra outra virtude principal na Ilíada e na
Odisseia: nobreza. Embora a palavra esteja agora fora de moda, há nessas obras
incontestável talento, e desde o princípio ao fim. Em todos os tempos, os
tradutores têm achado difícil reproduzir todo o talento de Homero; e é aí que
na maior parte dos casos falham. A sua narrativa é desigual em poder dramático
e, por vezes, o nosso interesse afrouxa: mas nunca a narrativa se torna vulgar
ou inferior.”
retirado de “A Grécia Antiga” de H. C. Baldry
_______
É, então, por inteiro desconhecido o tempo em que Homero pontilhou
os seus devaneios.
Tomando como razoável a previsão inicial do texto, vinte e
nove séculos volvidos permanecem na literatura menos que os que deveriam ser os
nomes que se lhe possam equiparar. Como relativamente a Shakespeare,
multiplicam-se como cogumelos as incertezas perante o autor que a obra escuda –
é bastante propalada a hipótese de a Ilíada e a Odisseia terem sido resultado
de duas mentes diferentes; no século XVIII, três publicações (de François
d’Aubignac, Giambattista Vico e Friedrich August Wolf) chegam a conjecturar a
possibilidade de ter sido um prosaico compilador de aedos; e, a bem da
História, nada se sabe sobre a sua vida, sobre o homem Homero.
Apaziguadas as angústias – acrescento mais uma:
primeiramente as obras foram transmitidas por composição oral, posteriormente
substituída pela transmissão escrita e será impossível saber, em que altura
desta longa evolução, as duas obras surgiram já com formulações similares às
actuais - que poderão provir da nossa mísera impotência no apuramento das
raízes históricas, cuja prova mister é a posteridade de Heródoto, pai putativo
da História, em relação a Homero, podemos ainda assim ser concludentes em
assumir que todos somos herdeiros das suas fantasias.
O seu legado é inominável. O primeiro grande poeta grego
vive no pensamento, na memória e é alvo de estudo de incontáveis gerações que o
reverenciam.
(e, até, dá para citar Homero para comentar as saídas do Witsel e
Hulk: “e os incomensuráveis céus abrem caminho até ao zénite”)
quarta-feira, 12 de setembro de 2012
Genesis
Alvíssaras, alvíssaras!
Estes nobres cavalheiros trazem boas novas ao Reino de Portus Cale.
Todos chegámos aqui devido ao número inimaginável de coito desde o mais fecundador dos hominídeos. Os fluidos envolvidos na nossa concepção constituem mais matéria do que a existente na massa do nosso corpo. O número de espermatozóides que contribuiram para a nossa génese é o número que mais se aproxima do infinito. Todas as almas responsáveis por esta descarga de secrecções não o fizeram a pensar em nós. Fizeram-no por ser o mais básico instinto do ser humano.
Em homenagem ao esforço hercúleo dos nossos ancestrais, temos a honra de vos apresentar este pequeno tratado pessoal. Tentaremos criar uma discussão válida sobre vários temas relevantes para o tempo caótico em que vivemos. Se por acaso tiverem a noção de que o nosso contributo é irrelevante e que não sabemos do que estamos a falar, não se preocupem. Actualmente, ninguém parece saber.
Estes nobres cavalheiros trazem boas novas ao Reino de Portus Cale.
Todos chegámos aqui devido ao número inimaginável de coito desde o mais fecundador dos hominídeos. Os fluidos envolvidos na nossa concepção constituem mais matéria do que a existente na massa do nosso corpo. O número de espermatozóides que contribuiram para a nossa génese é o número que mais se aproxima do infinito. Todas as almas responsáveis por esta descarga de secrecções não o fizeram a pensar em nós. Fizeram-no por ser o mais básico instinto do ser humano.
Em homenagem ao esforço hercúleo dos nossos ancestrais, temos a honra de vos apresentar este pequeno tratado pessoal. Tentaremos criar uma discussão válida sobre vários temas relevantes para o tempo caótico em que vivemos. Se por acaso tiverem a noção de que o nosso contributo é irrelevante e que não sabemos do que estamos a falar, não se preocupem. Actualmente, ninguém parece saber.
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