quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Michael Morton


Os morcegos são o distinto mamífero capaz de voar e têm uma gigantesca capacidade de adaptação ao meio – apenas não são prolíficos nos pólos árcticos. São animais subversivos, somente activos entre a obscuridade, à excepção do grupo de raposas-voadoras que connosco partilha a necessidade de vitamina D. Tudo iniludivelmente interessante, conquanto o fascinante seja o seguinte: a ecolocação; um sexto sentido que permite, a estes ratos felpudos, terem uma evoluída percepção espacial através da informação que coligem da emissão de ondas ultra-sónicas. Thomas Nagel instrumentalizou-os originalmente no sentido da Filosofia, como âncora metafórica na sua divisão entre perspectiva pessoal e impessoal. O intelectual americano postula, então - e deixo a ressalva que o apresento sem grande minudência – que, por mais que tenhamos conhecimento de como a ecolocação efectivamente funciona, nunca teremos a mais pequena consciência de como é.

Foi notícia já no ano passado, ainda José Sócrates era chefe do Governo da República Portuguesa, a seguinte história retratada no programa 60 minutos, da CBS: em Williamson County, no Texas, nos primeiros delíquios da alvorada, um vizinho estranhou a presença de uma criança de três anos tão cedo na fronteiriça da sua casa sem a presença dos pais. Acabaria por encontrar a sua mãe, Christine Morton, morta na cama. Christine teria sido espancada pelo marido, Michael Morton, num crime de raiva impelido pela recusa de Christine em saciar o instinto sexual primata do seu conjugue, no dia do seu aniversário. Era isto que a justiça norte-americana tinha sentenciado e dado como certo até Michael Morton ter sido exonerado, no ano passado, devido a uma prova de ADN. Todo o processo judicial tem muito que se lhe diga, embora não seja por aí que me quero internar.

Rotular de desesperante o estado de espírito de Michael Morton durante esses 25 anos em que esteve injustamente preso é, porventura, capaz de ser um eufemismo. Considerá-lo como tal também. A angústia como condição de vida em doses tão frequentes, inconscientes e naturais quanto as de oxigénio. Apenas nos é possível equacionar possibilidades. A verdade é que, por mais que conheçamos sobre a história e que por mais que Michael Morton nos diga como foi, não teremos a menor ideia. Por mais imaginativo que seja o nosso raciocínio abstracto, não lhe será possível reproduzir os delírios de sentimentos tão imanentes à situação. Mas nem é sequer honesto tentar devolver por palavras e com propriedade a dimensão da realidade em que durante esse tempo definhou. Resta descrever, para que não saia da memória, que Michael Morton viveu 25 anos entre o cataclismo emocional de ver a sua mulher e mãe do seu filho assassinada sem saber por quem, de ter sido julgado por esse pérfido acto que não cometeu, enquanto sempre clamou a sua inocência, e que, com a desgraça da sua perda e desacreditação, foi condenado a passar o resto dos dias numa cela. Sem esperança. Uma prova de que a maior das tragédias não precisa de ter mais que uma vítima. Acredito que nem Santo Agostinho não se apiedaria e repensava a sua sensibilidade caso Michael Morton, num destes anos entre a sua funesta existência, tivesse decidido pôr termo à sua vida. 

Não o fez. Parece que tinha a certeza que a remota possibilidade de a verdade ser fundada no seu caso iria chegar. É comovedor ver Michael Morton a falar, quase que infantilmente, sobre os primeiros momentos após a sua experiência prisional, extasiado com o sol da liberdade. Os efeitos de LSD provocados por raios solares entre o palpitar da mobilidade. Também somente ele saberá o que isso é.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Good Ol' Jimi



Decorria o ano de 1968 e Jimi Hendrix actuava com a sua banda na Winterland, uma conhecida sala de espectáculos na Califórnia. Jimi dirigiu-se ao público e apresentou a música que se seguia, Manic Depression, como uma história que falava acerca da frustração de um gato, que sente uma anormal atração sexual por música e que desejava poder fazer amor com a música em vez de o fazer com a mesma velha mulher com que lidava todos os dias.

Este trecho, estando longe de ser musicalmente a sua melhor criação, é uma exposição perfeita do vínculo de Jimi com a arte musical. Tinha com a música uma relação crua e instintiva que dificilmente encontra paralelo senão numa experiência sexual. A frustração do gato é a descrição do que faltou na vida de Jimi, que morreu rodeado de todos os prazeres e graças a esses prazeres, mas que nunca fundiu a satisfação carnal do orgasmo com a elevação espiritual que experimentava enquanto manejava a sua mítica Fender Stratocaster. Talvez por isso as queimasse durante os espetáculos; a frustração da luxúria musical combinada com irresponsáveis doses de LSD teria de resultar em demonstrações épicas de piromania.

Jimi morreu há precisamente 42 anos, com a demasiado tenra idade de 27. Tinha tanto carisma que qualquer imagem sua é ainda hoje um símbolo da aura livre, psicadélica, excessiva e alienada que reinava no espírito do Rock dos anos 60. Não inventou o Rock n’ Roll, mas há neste género um antes e um depois das suas criações. Nenhum artista, em nenhuma das sete artes, conseguiu, com uma carreira tão curta, deixar um legado tão extenso e duradouro como o do estilo inconfundivelmente distorcido, visceral e espontâneo dos solos de Jimi Hendrix.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Um verdadeiro herói

Christopher Hitchens sempre me impressionou por ser uma pessoa tão verdadeira. Esse elogio sofre por ser um cliché grotesco e, como todos os clichés, devem ser evitados a todo custo. Por isso, a frase pode não parecer tão impressionante. Mas depois de se apreender com clareza quem era “Hitch” (tanto quanto é possível conhecer alguém através da escrita e dos debates televisivos), a palavra “verdadeiro” não é só um elogio barato. Para mim, é o maior elogio que se pode fazer a alguém.

A primeira vez que tomei conhecimento da sua existência, ele estava presente num painel de debate num programa político americano. Naquela altura, George W. Bush era o homem mais odiado do mundo e o painel debatia a sua competência como presidente e Hitch, depois de discordar veementemente com o apresentador e com os restantes membros do painel (que acusavam Bush de ser “estúpido”), insultou o público presente no programa, chamando-os de “frívolos”, por aplaudirem sempre que o apresentador falava. Confrontado com uma coluna de assobios, limitou-se a responder à plateia com a elegância do dedo do meio.

Este episódio despertou a minha curiosidade e rapidamente vasculhei a Internet por todos os textos da sua autoria que estavam disponíveis. Os seus textos na Vanity Fair são colossos da arte contemporânea. É possível discordar de Hitch em inúmeros assuntos mas é impossível discordar sobre o seu talento como escritor. Mais do que o impressionante, o que chocava era a beleza fluida que Hitch imprimia nos seus textos. Ele dominava a língua inglesa, fazendo-a mexer de acordo com a sua Vontade, como se ele não estivesse sujeito às leis da física literária a que todos os meros escribas mortais têm que se sujeitar.

Ele era verdadeiro porque fazia o que ele queria, sem prestar demasiada atenção às consequências, e dizia o que queria, sem prestar atenção às almas mais sensíveis que pudessem ficar chocadas com as suas opiniões divergentes e polémicas. Apoiou a invasão americana no Iraque, rejeitou a glorificação ocidental da Madre Teresa de Calcutá, criticou figuras de peso da política americana como Henry Kissinger e Bill Clinton e, proeminentemente, rejeitou todas as formas de fé e religião. Quando na América se debatia a justificação prática e moral da utilização de técnicas de tortura nos prisioneiros de Guantánamo, o próprio escritor se submeteu a uma sessão de “afogamento simulado”, de modo a poder falar sobre o assunto com conhecimento de causa.

Todas estas diatribes foram acompanhadas por aqueles que eram considerados os seus companheiros mais fiéis: um copo de whisky (sempre Johnny Walker Red – um gosto que ele dizia partilhar com os líderes do regime iraquiano) e um cigarro. É possível observá-lo em programas televisivos americanos, a bebericar whisky num copo de plástico, enquanto os outros convidados, depravados às ocultas, utilizavam as chávenas oficiais do programa. Ele arrastava as suas palavras e falava em frases lentas e longas, mostrando que o consumo já tinha sido iniciado nos bastidores. Ele costumava beber, de acordo com o próprio, “o suficiente para atordoar uma mula”. Esses hábitos acabaram por ditar o seu fim.

Quando foi diagnosticado com cancro do esófago, a mesma doença que matou o seu pai, o espírito de um homem verdadeiro prevaleceu. Não só não se resignou perante a sentença de morte, como escreveu alguns dos melhores trabalhos da sua carreira enquanto sofria e morria. Reconheceu a inevitabilidade do seu destino e enfrentou-o (passivamente, como ele descreveu o processo de quimioterapia), com as limitações a que estão sujeitos todos os homens. Não deixou que a perspectiva da morte fosse uma desculpa para tempos finais de lamúria e cobardia.

Mais do que os seus textos, e os seus debates, para mim é isso que fica. Se eu conseguir morrer com a mesma seriedade inabalável que Hitch mostrou, morrerei um homem feliz. Para mostrar tamanha tenacidade é necessário ter o suporte de um passado glorioso bem vivido. É necessário ter vivido a vida que se quis sem arrependimentos fúteis. É necessário ter procurado e vivido a verdade. Para Christopher Hitchens, a verdade e o prazer na vida não eram encarnados por meras palavras vazias e frases inspiradoras, como as que aqui deixei, mas pela implacabilidade das acções.

domingo, 16 de setembro de 2012

A Divina Comédia


Pedro Passos Coelho perdeu o país no dia de 7 de Setembro de 2012. É um facto tão drástico quanto indesmentível. A descida da TSU foi uma ideia peregrina do executivo que o transformou em eremita. Apenas dias vindouros revelarão se Passos foi lúcido ao arrepio da sua solidão, pouco provável, ou surdo perante os brados alarmantes de todos os quadrantes políticos. Não obstante, é por de mais notório que a medida foi assíncrona ante a realidade do país e todas as capas dos matutinos de hoje demonstram porquê. 

Foi o início de uma espiral que ainda terá de conhecer, inevitavelmente, o seu fim. Ao longo de uma semana, Paulo Portas sobrepôs a liderança do CDS ao de ministro da coligação, que aparenta ser agora um termo demasiado conjuntivo face à enferme relação dos dois partidos que formam maioria. Sabia-se que o governo era curto. Era já visível que se encontra altamente desgastado. Resta saber como irá trabalhar após esta adenda eminentemente disfuncional e separatista.

António José Seguro, enquanto proclama pela enésima vez que o PS, acima de tudo, se compromete com uma oposição responsável, sempre se esqueceu de o fazer. Na sua recente declaração de cinco minutos à comunicação social, aventa que uma das propostas que irá apresentar será a criação de um imposto extraordinário sobre as PPP. Além de que as renegociações das PPP são, nunca é de mais relembrar, uma obrigatoriedade do ruinoso legado socrático, estas já estavam a ser encetadas e com resultados agora conhecidos:Renegociações das PPP poupa mil milhões de euros. Mas já não foi mau, após um ano a tornear a sua acção política em chavões como “estimular a economia” e “criação de postos de trabalhos”, que são mais descrições do que as medidas ideais, até hoje por desvendar e subsequentemente apresentar, teriam como impacto no dantesco estado da insolvente economia portuguesa, que estaria em bancarrota e incapaz de suportar os seus encargos sem os empréstimos da troika, e menos medidas em si. Hoje, sai no Público uma entrevista ao líder do maior partido da oposição, da maior pertinência, dado que surge na senda da maior manifestação popular desde o 25 de Abril, embora, para infortúnio de todos nós, de diminuta utilidade pelo vazio que veicula. Que ninguém se engane: todo o seu trabalho de oposição consistiu em esperar por este momento de clivagem social e crescente deslegitimação política do governo e rezar para que os portugueses tenham memória ainda mais curta que aquilo que sempre demonstraram. É essa a sua responsabilidade. Não com Portugal, mas para com o partido.

Nunca contentes com os problemas que enfrentamos, soma-se agora, assim, aquele que parece ser o principiar de uma aguda crise política, cujo desfecho depende directamente da sobriedade e seriedade de políticos pouco confiáveis. O Orçamento de Estado para 2013 vai ser crucial. O que vale é que temos sempre a música da Fanny para nos distrair. 

Um último aviso ao Gaspar: a despesa!

sábado, 15 de setembro de 2012

Contradições


Cegados pela constante poeira levantada, torna-se uma tarefa cada vez mais árdua rotular as diferentes forças políticas nacionais se nos basearmos em políticas concretas, deixando de parte as linhas orientadoras e paradigmáticas das ideias gerais de um partido. Podemos fazê-lo, e aí deparamo-nos com uma história política recente deveras curiosa: o antigo governo, de centro-esquerda, cai porque o partido de centro-direita se escandalizava com a incidência dos impostos sobre o rendimento dos portugueses, garantindo que, cortando de outra forma na despesa, não haveria esta necessidade. Até aqui, tudo bem. Chegada ao governo, o centro-direita aumenta mais os impostos, dando a volta de forma pouco ardilosa quando estes são considerados anticonstitucionais.

Este governo "neo-liberal" cobra mais impostos sobre rendimentos e consumo e gasta mais em Segurança Social do que o anterior Executivo "socialista". Uma contradição ideológica (suportada pelo enorme bode expiatório que é a anterior liderança nacional e a atual governação internacional dos credores) e, mais do que isso, um paradoxo resultante da própria política do PSD, que tem de gastar mais a ajudar aqueles que se tornaram mais necessitados com as próprias políticas governamentais. Contradições deliciosas, mas não tão descaradas como são as auto-contradições: a de que, se tudo dependesse do PSD (entretanto agraciado com uma virtual maioria), o défice estaria fixado em 3% neste malfadado ano de 2012, quando tivemos agora de renegociar o abaixamento da fasquia para 5%. Não o défice, mas sim a meta, a melhor das hipóteses.

E agora, o PS volta a ganhar a frente nas sondagens, mesmo sendo liderado por um fantoche monocórdico sem ideias. Não rotulemos mais. No poder, todos parasitam gananciosamente aqueles a que o Marcelo chama de "mexilhão"; na oposição, reina o socialismo, não o socialismo estrutural, mas o socialismo de caridade, de promessas de ajuda à mão estendida. Vivemos nesse ciclo sebastianista, onde todos se anunciam salvadores e todos se revelam fraudes.

E depois há Sócrates. Nome de filósofo, charme de cavalheiro, carisma de monstro político, um megalómano que quis dar tudo aos portugueses e acabou por tirar-lhes aquilo que tinham e, mais grave, o que ainda não temos. Ele contradizia-se diaramente, mas lá socialista era ele. Não sei, portanto, como encarar Sócrates: como um exemplo perfeito daquilo sobre o que discorri nestas linhas; ou a excepção que confirma a regra.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Brincadeira terrorista

“José, 28 anos, está em greve de fome até conseguir emprego”. É o que estava escrito no título de uma notícia do Público. À primeira vista, a frase parece o início de um mau romance escrito por Kafka. Na realidade, José é um designer de 28 anos que estava a realizar um protesto sentado na Rua de Santa Catarina no Porto, em frente a uma confeitaria, de modo a reivindicar “um emprego digno e um futuro justo”.

O que o José decidiu fazer não foi esforçar-se para compreender a situação político-económica do seu país. O José não necessita do empecilho de factos e argumentos. Não precisa de avançar com soluções exequíveis ou alternativas válidas. Aquilo que ele precisa é ver a sua vontade realizada e, para isso, escolhe o curso de acção de uma criança mimada.

O José pensa que o Estado pode, através de mágica, resolver a sua situação e a situação dos restantes desempregados deste país no curto prazo. E pior, o José pensa que o Estado pode e deve fazer isso sem aumentar os impostos ou sem cortar a despesa. Aquilo que o José, 28 anos, deveria fazer, especialmente tendo em conta sua idade, é ganhar juízo. Ele não sabe que ninguém no mundo, especialmente qualquer Estado, mesmo nos países mais desenvolvidos, pode garantir "um emprego digno e um futuro justo" a um cidadão.

O José quer culpar alguém. Culpa a entidade anónima de “pessoas responsáveis por esta situação”, culpa o Primeiro-Ministro, culpa a “agenda” ideológica, culpa os Centros de Emprego e até as pessoas que o ignoram na rua. Existem muitos responsáveis pela situação que vivemos e neles se podem incluir quase todos os portugueses. Se o José quer culpar alguém pela sua situação particular basta olhar para frente e observar o seu reflexo na montra da confeitaria.

Aquilo que o José não reconhece é que foi ele a escolher o seu curso de Belas-Artes, uma área afligida pelo desemprego e pela incerteza laboral. O José poderia ter escolhido um curso com maior empregabilidade. Ele parece relutante em aceitar um emprego numa área diferente da sua. O José quer ser “artista” e espera que o mundo abra alas para acomodar as suas criações gloriosas.

As greves de fome foram notoriamente utilizadas por presos políticos cubanos e membros do IRA. É uma ferramenta psicológica que os revoltosos utilizam em situações onde estão encurralados sem qualquer possibilidade de escapar. É utilizado pelas pessoas para quem as alternativas se esgotaram completamente. Em muitos casos, o resultado foi a morte dos grevistas.

Tendo isto em conta, duas coisas ficaram patentes. José não sabia o que estava a fazer. Não me parece que ele tivesse a coragem ou o idealismo cego para morrer pela sua causa. O que o José queria era tratamento especial. Queria um contacto exclusivo com o Primeiro-Ministro e queria que alguém lhe arranjasse um emprego. Para isso, utilizou a ameaça do seu próprio suicídio.

O protesto provavelmente era apenas simbólico. Ninguém (nem mesmo o próprio José) acreditava que ele acabaria por levar a acção até as últimas consequências. Mas isso não justifica a táctica infantil e chantagista, especialmente tendo a diferença entre o contexto português e o contexto habitual desse tipo de protesto.

Eu não tenho como saber se foi uma manobra de diversão ou se o José viu-se mesmo desesperado ao ponto de realizar uma greve de fome. A causa pela qual ele diz lutar é nobre, mas nunca justa o suficiente para este tipo de protesto. Mas esta história ensinou-me algo. Ensinou-me que, se alguma vez tiver um filho, ele não se chamará José. Os tempos estão difíceis mas, por pior que as coisas estejam, Portugal não precisa de mais Zés.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

O instrutor grego




“Os mais antigos documentos em língua grega a que pode dar-se o nome de literatura são a Ilíada e a Odisseia, atribuídos na Antiguidade, juntamente com outros, a Homero. A língua grega era já antiga e perfeitamente elaborada quando aquelas obras foram criadas: o mais provável é que datem ambas do século VIII a. C.

A Ilíada, ou poema acerca de Ílion (Tróia), tem como tema principal um só episódio do último ano da Guerra de Tróia – a cólera de Aquiles e a sua retirada da luta, com as desastrosas consequências de tal atitude: 

Canta, ó Deusa, a cólera do filho de Peleu, Aquiles;
Cólera funesta que causou infinitos males
Aos Aqueus e lançou no Hades
Muitas almas valorosas de heróis, e lançou os seus corpos como
De cães e pasto de todas as aves do ar…

O maior guerreiro entre os Aqueus (como Homero chama aos Gregos) abandona a guerra com os seus homens e retira-se para a sua tenda, porque o chefe aqueu, Agamémnon, lhe tirou a sua escrava favorita. Na grande batalha que se segue, os Troianos levam de vencida os Aqueus até ao momento em que Pátroclo – que convenceu Aquiles, de quem é o único amigo, a deixá-lo combater com as suas armas – entra na luta. A sorte muda e os Troianos recuam; mas Pátroclo é morto e a narrativa atinge o clímax: Aquiles, revestido de novas armas, lança-se na luta, mata o chefe troiano, num combate singular, e amarra o cadáver ao seu carro, levando-o para o campo aqueu, onde, durante onze dias, fica insepulto e é arrastado em volta do túmulo de Pátroclo. Todavia, o poema termina com uma nota muito diferente de toda esta ferocidade: o velho rei troiano Príamo visita Aquiles e consegue que o herói lhe entregue o corpo do filho para que lhe dê sepultura. Tudo isto, que é o assunto principal do poema, abrange apenas o período de algumas semanas dos dez anos que durou o cerco de Tróia; mas o título do poema justifica-se, pois que, ao longo dos seus quinze mil versos, por divagação, por reminiscência ou por profecia, nos conta toda a guerra e ambiente que dela decorre.

A Ilíada é uma história de sangue e de morte, de glória e de tristeza. O tema de Odisseia (poema acerca de Ulisses), que tem menos quatro mil versos, é menos grandioso, mas mais aventuroso e romântico: trata-se do regresso de Ulisses ao seu palácio em Ítaca, finda a Guerra de Tróia. Pela primeira vez, o poeta recorre a um atrifício que depois é imitado por Virgílio e por muitos outros: começar a história pelo meio e deixar o princípio para ser contado mais tarde. A história começa na ilha de Ítaca, dez anos depois da queda de Tróia: muitos pretendentes têm cortejado em vão a mulher de Ulisses, Penélope, consumindo a riqueza do reino, até que, por fim, o seu jovem filho, Telémaco, se dirige para o Peloponeso em busca de notícias do pai. É só nesta altura que a história foca o próprio Ulisses no meio das suas viagens e o conduz à estranha terra de Feácia, onde encontra a princesa Nausica, filha do rei Alcino, em cuja corte é recebido e acarinhado e a quem conta as suas aventuras desde que a Guerra de Tróia acabou: as suas fugas do país dos Lotófagos e da ilha dos Ciclopes, as Sereias, Circe, Cila, Caríbdis; os seus sete anos numa ilha como amante e prisioneiro da ninfa Calipso. Da Feácia chega por fim a Ítaca, encontra Telémaco, mata os pretendentes de Penélope – clímax dramático e sangrento como nenhum na Ilíada – e volta aos braços da mulher. Também na Odisseia, a linha narrativa sofre grandes desvios, não só por causa de todo o folclore e ficção que ornamentam as aventuras do herói, mas também por outras consequências da guerra.

(…)

Estamos realmente perante autêntica poesia «heróica», naturalmente centrada num só herói e numa cadeia específica de incidentes. Mas a sua mais notável característica para o leitor moderno foi omitida no resumo dos poemas: a constante presença de seres que não são homens nem mulheres e cujas actividades intervêm na história, desempenhando efectivamente o papel mais importante na determinação do curso dos acontecimentos. Zeus e a sua conflituosa família de deusas e deuses, habitantes divinos no Monte Olimpo, na Ilíada e, um pouco mais remotamente, na Odisseia, são personagens tão definidas, singulares e características como Heitor ou Aquiles. São seres sobre-humanos, com a sua imortalidade e os seus poderes mágicos, que podem ser grandiosos e imporem respeito; todavia, muitas vezes as suas intervenções arbitrárias são provocadas por motivos e por sentimentos que se revelam muitíssimo semelhantes aos humanos. Por vezes, especialmente na Ilíada, as excentricidades do Olimpo proporcionam uma pausa cómica nas trágicas cenas da planície troiana. Se os homens de Homero se assemelham, por vezes, a deuses, os seus deuses dificilmente poderiam ser mais bem moldados à imagem do homem.

Tudo isto é contado em verso hexâmetro, no qual Matthew Arnold acertadamente encontra as qualidades de clareza, de rapidez, pensamento e de linguagem. (…) Homero tem uma maneira rápida e directa de descrever uma cena ou uma acção. Nas suas frases não há rodeios, pondo os factos uns a seguir aos outros, com simplicidade e sem qualquer complexa interferência de orações subordinadas. Há uma pequena metáfora nas suas linhas para perturbar ou demorar a nossa compreensão:

Tal como quando no céu as estrelas que rodeiam a Lua
Parecem belas, quando todos os ventos repousam,
E cada montanha aparece, e cada pico saliente
E cada vale, e os incomensuráveis céus
Abrem caminho até ao zénite, e quando todas as estrelas
Brilham e o pastor sente o coração alegre:
Da mesma maneira brilhou em fogo entre os navios e o rio
Xanto perante as torres de Tróia.

Nos dois poemas, os momentos dramáticos ou sublimes fazem aparecer mais de duzentas breves imagens deste género, nas quais o narrador parece ultrapassar a sua própria comparação e discorrer apaixonadamente sobre pormenores exclusivamente por causa desses mesmos pormenores. Nesta, como noutras imagens, o estilo homérico torna-se um modelo para os poetas dos séculos vindouros: Virgílio, por exemplo, e Milton.

(…)

Arnold encontra outra virtude principal na Ilíada e na Odisseia: nobreza. Embora a palavra esteja agora fora de moda, há nessas obras incontestável talento, e desde o princípio ao fim. Em todos os tempos, os tradutores têm achado difícil reproduzir todo o talento de Homero; e é aí que na maior parte dos casos falham. A sua narrativa é desigual em poder dramático e, por vezes, o nosso interesse afrouxa: mas nunca a narrativa se torna vulgar ou inferior.”

retirado de “A Grécia Antiga” de H. C. Baldry
 _______

É, então, por inteiro desconhecido o tempo em que Homero pontilhou os seus devaneios.

Tomando como razoável a previsão inicial do texto, vinte e nove séculos volvidos permanecem na literatura menos que os que deveriam ser os nomes que se lhe possam equiparar. Como relativamente a Shakespeare, multiplicam-se como cogumelos as incertezas perante o autor que a obra escuda – é bastante propalada a hipótese de a Ilíada e a Odisseia terem sido resultado de duas mentes diferentes; no século XVIII, três publicações (de François d’Aubignac, Giambattista Vico e Friedrich August Wolf) chegam a conjecturar a possibilidade de ter sido um prosaico compilador de aedos; e, a bem da História, nada se sabe sobre a sua vida, sobre o homem Homero. 

Apaziguadas as angústias – acrescento mais uma: primeiramente as obras foram transmitidas por composição oral, posteriormente substituída pela transmissão escrita e será impossível saber, em que altura desta longa evolução, as duas obras surgiram já com formulações similares às actuais - que poderão provir da nossa mísera impotência no apuramento das raízes históricas, cuja prova mister é a posteridade de Heródoto, pai putativo da História, em relação a Homero, podemos ainda assim ser concludentes em assumir que todos somos herdeiros das suas fantasias. 

O seu legado é inominável. O primeiro grande poeta grego vive no pensamento, na memória e é alvo de estudo de incontáveis gerações que o reverenciam.

(e, até, dá para citar Homero para comentar as saídas do Witsel e Hulk: “e os incomensuráveis céus abrem caminho até ao zénite”)

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Genesis

Alvíssaras, alvíssaras!

Estes nobres cavalheiros trazem boas novas ao Reino de Portus Cale.

Todos chegámos aqui devido ao número inimaginável de coito desde o mais fecundador dos hominídeos. Os fluidos envolvidos na nossa concepção constituem mais matéria do que a existente na massa do nosso corpo. O número de espermatozóides que contribuiram para a nossa génese é o número que mais se aproxima do infinito. Todas as almas responsáveis por esta descarga de secrecções não o fizeram a pensar em nós. Fizeram-no por ser o mais básico instinto do ser humano.

Em homenagem ao esforço hercúleo dos nossos ancestrais, temos a honra de vos apresentar este pequeno tratado pessoal. Tentaremos criar uma discussão válida sobre vários temas relevantes para o tempo caótico em que vivemos. Se por acaso tiverem a noção de que o nosso contributo é irrelevante e que não sabemos do que estamos a falar, não se preocupem. Actualmente, ninguém parece saber.