sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Epilepsia Democrática

É interessante e ao mesmo tempo, é irritante - confirmar como os nossos pais, avós e professores estavam certos. Eles sabiam tudo e tudo o que eles diziam estava certo. A minha mãe a avisar estava frio e verificar, cheio de frio, que teria sido melhor eu levar um casaco. A minha avó a avisar que ia chover e verificar, encharcado, que teria sido melhor eu levar um guarda-chuva. O meu pai a avisar que a vida era difícil e verificar, com toda a certeza, que a vida é mesmo difícil. O meu avô a avisar que isto não anda para a frente e verificar, incrédulo, que, de facto, isto não anda para a frente.

Na semana passada, durante o caminho de casa, perto do Palácio de Cristal, o mundo parou. Um carro estava mal estacionado junto à berma, com a porta do motorista ainda aberta. À frente do carro, estava parado uma ambulância dos bombeiros, ainda com as luzes ligadas. Dois socorristas auxiliavam uma rapariga pálida sentada na berma. Um carro da Guarda Municipal também se encontrava parado à frente da ambulância. Dois agentes encontravam-se parados a alguns metros do local, a direccionar o trânsito. Um carro da Polícia de Segurança Pública passava no local, numa velocidade extremamente baixa, com os dois agentes a analisarem a cena. Uma ambulância do INEM chegou ao local, alguns segundos depois, com as sirenes ligadas, a irromper pelo trânsito em contramão.

Um grupo de populares encontrava-se à volta deste evento e formavam um grupo junto à rapariga. Transeuntes olhavam, desviavam as suas rotas, e juntavam-se espontaneamente ao grupo. A fila de trânsito aumentava cada vez mais e todos os motoristas olhavam para a rapariga. Alguns chegaram a sair dos carros. Mais pessoas saíam das casas e dos edifícios, brotavam das janelas com uma curiosidade alarmante e, com o desespero de refugiados junto a um camião de ajuda humanitária, receberam a sua dose diária de escândalo. À distância, grupos de reformados à porta dos cafés, discutiam o acontecimento. “Parece que ela teve um ataque de epilepsia” – disse um dos reformados. “Tiveram que telefonar três vezes ao INEM” – disse outro dos reformados. Duas ambulâncias, dois carros das forças de segurança, dezenas de pessoas – tudo isto por causa de um ataque epiléptico.

Isaltino Morais foi condenado a sete anos de prisão efectiva em 2009. Ainda está em liberdade, à espera do ouvir o veredicto do seu milésimo recurso. Miguel Relvas obteve uma licenciatura em Relações Internacionais depois da Universidade Lusófona conceder-lhe trinta e duas equivalências. É Ministro-Adjunto e tem a audácia pornográfica de não demonstrar qualquer intenção de se demitir. A deputada Glória Araújo foi apanhada a conduzir com um nível de alcoolemia alto o suficiente para ser considerado um crime. Também diz que não se vai demitir. Macário Correia, presidente da Câmara de Faro, foi condenado pelo Supremo Tribunal Administrativo a perda de mandato, devido a licenciamentos ilegais de construção. Recusa-se a abandonar o cargo, afirmando: “Estou condenado por razão nenhuma”.

A STCP realiza uma greve. Não cumpre os serviços mínimos inscritos como sacrossantos na Constituição. Os estivadores realizam uma greve onde não têm um único argumento a seu favor. Causam prejuízos na ordem dos mil milhões de euros e prometem mais. A CP realiza a sua milésima greve apesar de representarem um dos grupos de funcionários públicos mais privilegiados da nação. Não cumprem os serviços mínimos e voltam a marcar, igualmente pela milésima vez, uma greve a coincidir com um feriado, de modo a causar o máximo de transtorno para o utente e o máximo de conveniência para os grevistas. Há uma semana, o Governo decidiu obrigar os funcionários da CP e os seus familiares a pagarem os bilhetes para usufruir dos transportes ferroviários. O Sindicato, sem qualquer vergonha, interpõe uma providência cautelar.

Durante o Secundário tive amigos que frequentavam aulas de Inglês do 11º ano sem saberem dizer uma única frase em inglês, com sujeito e predicado. Nas aulas de condução ensinam-me que não posso transpor linhas contínuas e que esse acto constitui uma “infracção muito grave”. Na manhã seguinte observo um carro da PSP a transpor uma linha contínua enquanto os agentes se encontram na viatura, sem cinto de segurança. Não estavam a caminho de nenhuma emergência. O maestro Graça Moura gastou 720 mil euros do Estado Português em itens tão variados como charutos, passeios de balão, cuecas de fio dental, jóias, vinhos raros, quadros, refeições, estadias em hotéis de luxo e um frigorífico, comprado na Tailândia. Afirmou que gastou esse dinheiro a promover no estrangeiro a Orquestra Metropolitana de Lisboa no estrangeiro. Foi condenado a pena suspensa. Mantém a sua inocência.

Ninguém assume a culpa por nada. Não existe responsabilidade. Não existe ética. Não existe honra. O PCP continua por aí. Comemora-se a emissão de mais dívida. E nos cartazes da Geração à Rasca lêem-se pérolas demagógicas como “Se não nos deixam sonhar, não os deixaremos dormir”. Dizem que “as pessoas não são números”. Reclama-se da emigração para países mais desenvolvidos onde se recebem salários mais altos. É por estas e por outras que estamos neste estado civilizacional deplorável. É por estas e por outras que, nas palavras solenes do meu avô (menos o palavrão), esta merda não vai para a frente.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Raios e Coriscos

A água molha. Numa altura em que no debate público ninguém concorda com ninguém sobre nenhum assunto relevante, num Universo que não compreendemos e numa Existência que não podemos compreender, o mínimo que se devia exigir era que a natureza aquosa da água fosse uma unanimidade. No entanto, sempre que São Pedro decide ligar a torneira celestial, a reacção que se observa nas pessoas ainda é a de uma surpresa desconcertante.

Eu entendo aqueles que se encontram a deambular pelas cidades sem a protecção amigável de um guarda-chuva no momento do dilúvio. Os seres humanos, como os animais terrestres que são, consideram que o contacto involuntário com a água é desagradável. Logo é natural que fiquem surpresos. É natural que corram e procurem abrigo. O que me irrita é que aqueles que se encontram dentro de edifícios, debaixo da protecção concreta de tectos e paredes, apresentam surpresa e incredulidade pelo facto de, no meio do segundo mês mais chuvoso do ano, estar a chover. E mais, não conseguem conter o impulso de partilhar com todos à sua volta, como Arquimedes na banheira, essa surpresa e incredulidade.

O frio esfria. O facto de temperaturas baixas incomodarem os seres humanos também faz todo o sentido. Como a nossa temperatura corporal é cerca de 37 graus, sentimo-nos mais confortáveis em temperaturas amenas. No entanto, sempre que os termómetros registam temperaturas ligeiramente abaixo dos 10 graus, o espanto e o choque surgem como se tivéssemos sido transportados, numa questão de segundos, do calor do deserto do Saara para o frio das tundras da Sibéria.

Com a chegada da demoníaca trindade de chuva, vento e frio, as pessoas transformam-se em criaturas soturnas e traumatizadas, entes dados às tendências insuportáveis do caseirismo de conversa de circunstância. Fogem para as lareiras e aquecedores com a paranóia de gazelas perseguidas. Pregam, com psicopatia nos olhos, o evangelho das portas e janelas fechadas, de modo a evitar a temível e letal, corrente de ar. Cobrem-se de mantas e cobertores. Comem chocolates e tomam chá numa regressão infantil de Peter Pan friorento. Ficam necessitados, irritadiços, frágeis e sonolentos.

Podemos discordar sobre tudo. Mérito artístico, valor estético, ideologia política, inclinação sexual, crença religiosa, tradição moral e clube futebolístico. Mas devíamos chegar a um consenso sobre os fenómenos meteorológicos. No Verão está calor e não chove; na Primavera está ameno e, às vezes, chove; no Outono está ameno e, frequentemente, chove; e no Inverno está frio e chove – muitas e muitas vezes. Todos sentimos frio e todos ficamos molhados. Eu sei que existe muita incerteza na previsão do estado do tempo. A meteorologia é uma ciência traiçoeira. Ela partilha isso com os piratas e as ciências económicas. Mas pelo amor de deus minha gente, isto não é metafísica, isto é meteorologia.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Manifesto Anti-Peixoto


Devo alertar os leitores que o título (que se refere ao José Luís, escritor, e não ao César, jogador do Gil Vicente) é de uma individualização deturpadora e ofensiva. Aquilo contra o qual eu me manifesto nesta crónica não é o singular e insignificante ser José Luís Peixoto (JLP), cuja existência isolada seria incomodativa, mas nunca perturbadora ao ponto de merecer denominar esta crónica. Acontece que JLP é o símbolo da nouvelle vague de escritores nacionais que têm como denominadores comuns a falta de talento, o pretensiosismo e um número de vendas desproporcional à qualidade das suas obras. Justin Bieber, no mundo da música, sofre do mesmo preconceito. Ele está longe de ser o pior artista musical do século XXI. Teve, no entanto, o azar de se tornar a imagem mais emblemática dentro de todos os artistas sem talento que se tornam um sucesso, algo para o qual a sua inqualificavelmente irritante figura ajudou substancialmente. JLP é o Justin Bieber da literatura nacional, pela semelhança na desproporcionalidade entre o seu talento e a sua fama. Não é o pior escritor: Valter Hugo Mãe (parece que agora já se pode escrever com maiúsculas), por exemplo, faz JLP parecer o Faulkner. Mas admito que, por implicação pessoal, JLP tornou-se na figura máxima dessa vaga de artistas sem arte.

Devo registar também a minha experiência não muito vasta com suas produções. Li uma obra sua, intitulada Hoje Não, que mantenho orgulhosamente num lugar proeminente de uma estante de livros, para me lembrar que, faça o que eu fizer com a minha vida, só atinjo o fundo da inutilidade quando a minha cabeça produzir alguma coisa daquele calibre. Li também alguns textos avulsos, de qualidade semelhante. Poderão os seus fãs dizer que é pouco, que é preciso aprender a gostar, como de vegetais, música clássica ou cerveja. Acontece que, em qualquer actividade que envolva talento, há dois tipos de praticantes que são imediatamente reconhecíveis por quem aprecia essa actividade: os que têm muito talento e os que não têm jeito nenhum. JLP enquadra-se neste último padrão.

No entanto, a sua falta de aptidão literária nunca seria merecedora de tão agressiva postura da minha parte. A qualidade artística do mundo moderno é escassa e, se alguma coisa me chocasse, seria sempre que algum artista tivesse verdadeiro talento e não a sua inexistência. O André Mota já aqui havia discorrido acerca desta moderna problemática entre a qualidade e o lucro. E, como ele sagazmente observou, essa dicotomia só surgiu pela crescente demanda de produtos artísticos sem qualidade, o que levou á deturpação de todo o conceito artístico. Como José Rodrigues dos Santos verbalizou: “Literatura é o que as pessoas leem”. Ele conseguiu definir a sua própria mediocridade melhor do que qualquer outro.

O meu problema é que a ausência de talento é nos dias de hoje compensada com um arrepiante pedantismo. Sempre houve artistas com a mania que eram bons; alguns eram-no, outros não. Actualmente, não parecem surgir os que realmente são; proliferam, ainda assim, os que têm a mania. A culpa dessa arrogância injustificada não é, como é óbvio, exclusivamente de JLP. A maior parte da mesma é, isso sim, dos seus leitores. Se poemas como este fossem descartados como filosofia poética de fachada, vazia, inócua e redundante, José Luís Peixoto deixava-se destas vidas. Sendo idolatrado por a escrever, naturalmente que se cria na sua mente uma ilusão de dom literário que manifestamente não tem.

Principalmente na área da música, espalhou-se um contra-movimento que consiste em queixas sucessivas de que se queria ter vivido décadas antes, para poder conviver de perto com a boa música. Ainda que entenda esta visão e partilhe com ela alguma da fantasia, vivemos numa era em que temos acesso a toda a produção artística da história da humanidade, à distância de segundos, que podemos contemplar, admirar e sorver todas as vezes que quisermos. E, neste cenário de universalização da toda a arte, quando temos todos os livros dos melhores autores mundiais da história da literatura à nossa disposição, as pessoas esgotam José Luís Peixoto. E agora optei por voltar a utilizar os seus três nomes, para ilustrar melhor este cenário: de todos os livros da história, as pessoas não lêem Shakespeare, Mark Twain, Dostoiévski, James Joyce, Oscar Wilde, porra, nem sequer o Eça. As pessoas esgotam José Luís Peixoto.

Isto é, porventura, pessimismo da minha parte. Os seus leitores são, para todos os efeitos, leitores, espécie de uma crescente raridade. O que é chocante em JLP é a unanimidade da sua qualidade: já venceu o prémio José Saramago quando este ainda fazia parte do júri (uma tremenda desilusão pessoal) e está traduzido em mais de uma dezena de línguas. Custa-me crer que gente que já conviveu com a melhor literatura consiga reconhecer um pingo de qualidade nas suas ocas palavras. Talvez seja essa a origem da minha implicância para com JLP: a sua escrita deve ter um efeito encantador qualquer ao qual eu pareço ser imune.

Termino com a já referida ressalva de que JLP não é o pior escritor nacional. É mau, muito mau, mas não o pior. É, no entanto, o ponto máximo de um processo de desalfabetização muito assustador e cujas consequências se verificarão muito para além do mundo puramente cultural ou intelectual.

E, para que não vos falte nada, deixo-vos com a messiânica, concreta e perspicaz solução apresentada por José Luís Peixoto para resolver a crise:

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Vende-se: Madeira e Açores


O país sustém a respiração enquanto espera pelo veredicto sagrado do Tribunal Constitucional. Estamos num estado de animação financeira suspensa. Mas é ingénuo pensar que esta decisão é, de facto, assim tão importante. Independentemente do resultado desta decisão, sabemos que não temos soluções ou alternativas. Os portugueses não sabem o que querem. Os portugueses apenas sabem o que não querem.
Os portugueses não querem aumentos de impostos e não querem cortes na despesa. Portanto, ofereço aqui o meu pequeno contributo para a resolução da crise. Muitos poderão não gostar desta solução. Mas eu garanto que funcionará e que será (quase) indolor.

Uma reportagem do Washington Post analisava a possibilidade dos Estados Unidos venderem o estado do Alasca para abaterem a sua dívida galopante. O estado americano está avaliado entre 2,5 e 5 biliões. À primeira vista, pode não parecer uma ideia válida. Ridícula, até. Mas com a crise financeira americana esta ideia deveria aglomerar um apoio popular abrangente, que é aquilo que eu espero receber com a minha proposta.

Então, é com muito pesar que proponho o seguinte: vender a Madeira e os Açores. Lamento fornecer munição àqueles que argumentam que o Governo está a vender as jóias da coroa ao privatizar as empresas públicas. Mas na minha opinião, o tempo de vender os anéis acabou. Agora é tempo de vender alguns dedos.

Eu sei que, perante esta proposta aberrante e inusitada, a primeira reacção do leitor será um estado singular de desprezo, indiferença e divertimento. Mas peço e imploro por um momento de seriedade, lucidez e paciência. Pensem bem. Vendemos dois arquipélagos e não temos que aumentar os impostos nem cortar na despesa. Não existe outra solução que possibilite este limbo financeiro orgásmico.

A logística desta operação é menos complicada do que pode parecer para a mente mais céptica. Em primeiro lugar, cerca de 500 mil pessoas habitam nestas formações rochosas isoladas. Essas pessoas terão que ser realojadas no ventre morno da pátria-mãe continental. Tendo em conta os níveis actuais de emigração e a crise nos sectores da imobiliária e construção, parece ser uma solução perfeita. Excepções podem ser concedidas a açorianos e madeirenses cujos sotaques são demasiado profundos para uma integração pacífica no continente. Esses indivíduos deverão emigrar ou a sua permanência poderá ser negociada com os países compradores.

Resolvida a despovoação de mais de três mil quilómetros quadrados de terras exóticas e virginais, podemos começar a falar da transacção. Vários países estarão interessados. Os Estados Unidos possuem uma base militar nos Açores, o que transforma a maior economia do mundo num candidato perfeito para a aquisição completa desse arquipélago paradisíaco. As aspirações de dominação mundial dos ianques beneficiarão certamente de um activo tão precioso quanto um arquipélago no meio do Atlântico. Outros candidatos poderão ser a China, com a sua ânsia de afirmação militar e liquidez monetária, ou a Alemanha, com o seu imperialismo neoliberal e nazismo latente. As monarquias petrolíferas do mundo árabe poderão também estar interessadas numa perspectiva de ganância e empreendedorismo turístico.

Por fim, podemos falar de números. Temos de ter em conta a polivalência utilitária dos arquipélagos. O nosso trunfo é a diversa gama de objectivos que pode ser acolhida no charme vulcânico dos Açores e/ou na glória verdejante da Madeira. A nossa fraqueza é o nosso desespero negocial. Mas falemos, sorrateiramente, então de valores específicos.

Um cavalheiro não fala de dinheiro mas, falando apenas no cenário hipotético da venda dos últimos resquícios do ímpeto colonialista da nação lusitana, eu diria que 100 mil milhões seria um bom preço pelo conjunto. Numa venda separada aceitaríamos 40 mil milhões pelos Açores e 80 mil milhões pela Madeira. Não existe nenhuma fórmula aritmética que me levou a estes números. Simplesmente me parece um número bonito, redondo e maior do que o pacote de empréstimo da Tróica. Ambas as regiões estão altamente endividadas e a sua actividade económica já viu melhores dias. Por isso, e como estamos entre amigos, na compra da Madeira levam também o Rúben Micael. Nós, ficamos com o Cristiano Ronaldo e 100 mil milhões de euros, uma quantia mais do que suficiente para acabar com esta crise e ficarmos no bom caminho para, daqui a dez anos, causarmos a próxima.

domingo, 13 de janeiro de 2013

Os Três Pintelhos do Apocalipse Mediático


É um fenómeno recorrente que as notícias de questionável relevância acabem por ser das mais debatidas. Esta última semana foi pródiga da proliferação de pintelhos catroguianos. Dois a nível local, um nos inevitáveis Estados Unidos, onde os pintelhos compõem um denso matagal. Como pintelhos que são, optaria sempre por ignora-los. No entanto, a dimensão que atingiram merece ser comentada. Para ser breve e sistemático, algo que raramente sou, dedicarei um parágrafo a comentar cada um destes assuntos mediáticos, sem me alongar na desnecessária contextualização.

O caso do cão Zico e da comoção que o seu abate está a provocar é porventura o mais perturbador, porque contém várias provas de que o enlouquecimento do povo não é esporádico nem circunstancial. É, no entanto, baseado em premissas voláteis, sem sentido e, consequentemente, perigosas. A onda que se espalhou contra o abate do cão que matou a criança é das mais assustadoras provas de que as pessoas ainda não perceberam muito bem até onde pode chegar a questão da defesa dos animais. Quando chega a este ponto, é um fanatismo bem mais perigoso do que aquele seguido pelos defensores das touradas. Podem dizer o que quiserem sobre a santidade dos animais, da sua dor, da sua categoria na natureza ser a mesma que a nossa; nunca me convencerão de que o pitbull em questão, ou qualquer outro animal da história do planeta, conseguirá sentir um milésimo da dor que os pais da criança estão a sentir, ao verem que a sociedade se preocupa mais em salvar o cão do que em manifestar desagrado pela morte do filho; e, no processo, prefere culpar os pais enlutados. Se me dessem a escolher entre uma caneta para assinar uma tão desprezível petição e uma caçadeira para matar o cão na hora, os dentes que perfuraram o crânio de um bebé de 18 meses iam ficar estilhaçados com o chumbo. Daniel Oliveira escreveu no Expresso tudo aquilo que eu mais poderia dizer sobre o assunto, e prolongar-me mais seria parafrasea-lo. O próprio artigo do cronista originou polémica, e quase todos os que se opunham à sua opinião faziam-no com a ressalva "Eu concordo com quase tudo o que ele normalmente diz, mas neste assunto não". Eu assumo que comigo passou-se exactamente o oposto.

Passemos ao caso de um animal ligeiramente mais racional: a famigerada Pepa. A Pepa foi crucificada em praça pública por manifestar um desejo consumista: atingimos o cume da montanha da hipocrisia. Mais uma vez, temos um caso de má interpretação de valores. Tudo o que fuja ao politicamente correcto é escandaloso. Isso não é ter valores, é histeria e vício de indignação, sem deixar de referir o preconceito incrível sobre a senhora pela pronúncia dela. Se houver uma petição para oferecer uma mala à Pepa, eu assino e contribuo.

Por fim, temos o caso de Massoud Adibpour, um jovem que está a fazer furor nas ruas de Washington, ao exibir mensagens de optimismo a condutores e transeuntes. Essa pequena gota de óleo contaminou já o oceano que é a internet, e o rapaz prestou já declarações a vários meios de comunicação internacionais. Eu tenho uma opinião muito própria sobre o optimismo, que aqui exponho: a felicidade e as expectativas têm de ser sempre relativas às circunstâncias da realidade. A felicidade é sempre moldada pelos factos. Se os factos forem positivos, a sensação resultante é boa. Se os factos forem negativos, os sentimentos serão conformes. Se as coisas não decorrerem desta forma, algo funciona mal. Ser optimista é ser feliz em más circunstâncias. É louvável, mas anormal, e irresponsável. O copo, muitas vezes, não está só meio cheio. Está meio vazio, e é preciso encarar essa metade vazia como tal. Senão vamos ficar surpreendidos quando o copo chegar ao fim, porque não consideramos que metade já não existia. Em relação a este rapaz em específico, aparenta ser um anormal que tenta espalhar motivação pelas pessoas que se deslocam aos seus trabalhos, para fazerem algo de realmente produtivo com a sua vida.

Deixo aqui também, não uma petição, por ser mais improdutiva do que aquela que pedia a demissão de Miguel Relvas, mas um sincero pedido: ignorem os pintelhos. Eu, excepcionalmente desta vez, não os ignorei para ilustrar o quão irrelevantes estes deveriam ser. Não comentem, não discordem, não concordem, não se indignem, não partilhem, não coloquem "gostos" no Facebook. Só assim vamos, a pouco e pouco, criar um espaço de discussão pública em que o Zico, a Pepa e o Massoud terão o fim que todos devemos concordar: o seu abate. Mas outro tipo de abate: o mediático.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Homo Irrationalis


A reportagem que abriu o Telejornal da RTP desta noite foi um documentário da BBC sobre a vida selvagem de um fascinante espécime: um ser humano estudante do secundário. As características físicas são variadas, mas segundo o que se pôde observar na peça, as mais comuns serão a monocelha e boné nos machos, um péssimo gosto de vestuário das fêmeas e buço em ambos os géneros; particularidades que, também pela amostra, facilmente se conclui serem hereditárias.

A mais encantadora característica deste símio é uma invejável capacidade de contentar-se com migalhas. É fácil compreender a filtragem feita pela jornalista da RTP na montagem da reportagem (quero, pelo menos, acreditar que assim foi). No entanto, os jovens entrevistados mostram todos um regozijo anormal por terem tido "poucas negativas". Excepto um espécime, de nome Mónica, que faz a sua fugaz aparição logo no início da reportagem e que define a sua prestação como "mais ou menos" por ter tido seis negativas, todos os outros parecem satisfeitos por terem tido poucas disciplinas às quais não conseguiram chegar a metade da prestação desejada.

Fátima Trindade, apresentada como Técnica Superior de Educação Especial e Reabilitação, define as turmas separadas de alunos pelo pior desempenho como segregadora pela criação de "turmas dos meninos burros". Apesar do seu cargo pressupor uma maior sagacidade ao falar desta matéria, a senhora revela, sem dúvida, a limitada visão que é a de rotular como discriminatória qualquer observação das óbvias diferenças entre os espécimes.

O que o ministro Nuno Crato afirma, acerca dos diferentes ritmos de aprendizagem dos diferentes alunos, é tão óbvio que qualquer oposição a uma solução, por esta ter esse facto como premissa, é uma demagoga e ingénua preocupação com a igualdade. Já aqui falei sobre isso, mas, apesar de correr o risco de me tornar repetitivo, igualdade nunca existe e nunca irá existir.

As diferenças não irão desaparecer se as ignorarmos; pelo contrário, alastrar-se-ão e intensificar-se-ão. Mais vale encarar as diferenças do que tentarmos viver a utopia de uma sociedade que Aldous Huxley descreveu no Admirável Mundo Novo. Isso, sim, seria a solução perfeita para Fátima Trindade; não haveria turma dos meninos burros, porque este nunca nasceriam. Porém, a genética humana ainda não tem desses luxos, pelo que colocar os meninos burros, que existem, todos juntos, mais não faria senão ensiná-los ao ritmo adequado.

Não o faremos, porém. Democracia é igualdade. Somos todos filhos de Deus. Vamos, fiéis aos nossos princípios, deixar o menino burro com os outros meninos, porque é igual a eles; até que chega o momento em que a vida lhe mostra que não é igual. Aí, estou certo, não estará lá a Fátima Trindade para amamentar o jovem primata com enganosas ilusões.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Uma Ameaça à Democracia

No dia 3 de Janeiro de 1889, Friedrich Nietzsche enlouqueceu. Segundo reza a lenda, o filósofo alemão passeava pelas ruas de Turim quando, ao avistar um cavalo a ser chicoteado por um cocheiro, correu na direcção do animal e abraçou-o em prantos. A veracidade das particularidades equídeas deste episódio caricato nunca foi confirmada, mas naquela manhã fresca do Inverno italiano, sabemos com toda a certeza que o ilustre Nietzsche enlouqueceu, nunca mais recuperando totalmente as suas faculdades mentais.

É num estado análogo de loucura que encontramos o debate político da nação portuguesa. Ainda não se observam hordas de manifestantes a chorar abraçados a cavalos. Não temos as auto-imolações gregas, nem os massacres sanguinários americanos. A nossa loucura é outra. A nossa loucura é retórica.

A loucura é pensar que existem alternativas benignas à política do governo actual. A nossa loucura é o debate que parte do princípio que estamos a viver o pior momento de toda a história de todos os países que já existiram. A nossa neurose, a cruz que carregamos, o nosso sinal na testa é a retórica utilizada que advém da proposição que estamos perigosamente próximos do caminho com destino ao nível de vida da África subsariana.

É num clima apocalíptico que se debate em Portugal. As nuvens escuras adensam-se. A razão nem sequer se ouve no meio de todo o barulho. Fala-se da União Europeia como a única coisa que separa o continente europeu de um estado de guerra total. Fala-se do Governo como uma expressão política de fascismo. Fala-se de Passos Coelho como Salazar ou Hitler. Fala-se de Vítor Gaspar como o Anjo da Morte. Fala-se como se existissem portugueses a favor da fome, do desespero e da miséria. Fala-se de indiferença social. Fala-se da Constituição como uma Bíblia infalível. Fala-se, com seriedade académica e ódio nos olhos, de atentados à democracia. Sim, de acordo com estas almas iluminadas, nem mesmo a nossa pobre democracia sobreviverá às garras do neoliberalismo.

Uma proclamação em favor da democracia é um exercício de redundância. É como defender a paz mundial ou o acesso a água potável. Por mais que abundem comparações do Governo actual ao regime do Estado Novo, somos livres. Todos nós somos livres. Ainda que seja possível ouvir como uma frequência alarmante o brado “Fascismo nunca mais!” ou o rugido onomatopeico “Fascistas!”, lamento informar que o fascismo já não existe. A liberdade ganhou. Nós ganhamos. Eu acho que, trinta e oito anos depois da Revolução, devemos pelo menos esquecer este assunto, enterrar os fantasmas e, juntos, dançarmos sobre a cova poeirenta do Salazar.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

A Senilidade Jurássica de Mário Soares

Nesta crónica irei dissertar sobre dinossauros. Para isso vou usar dois exemplos. O primeiro era um membro da minha família, que Deus a tenha, e o segundo é um membro proeminente da nossa elite política, que o Diabo se despache em levá-lo.

Aquilo que é interessante nos dinossauros é que analisar a sua existência permite tirar um vasto conjunto de ilações sobre a natureza efémera da vida, a transitoriedade do poder e a imprevisibilidade do fim. Os dinossauros dominaram a terra durante mais de 130 milhões de anos. Quando as primeiras espécies de dinossauros surgiram, no Triásico, a massa da Terra era um supercontinente, a Pangeia. No final do Triásico, um evento desconhecido causou a extinção em massa de cerca de metade das espécies do planeta. Assim começou a era Jurássica, dominada pelos dinossauros, onde a massa continental já se dividia gradualmente em dois continentes, a Laurásia e o Gondwana. Esse regime ditatorial reptílico duraria até ao final do Jurássico, quando um asteróide colossal esbarrou contra a Terra e eliminou grande parte dos dinossauros.

A minha tia-avó Guilhermina viveu até aos 94 anos. Era uma presença constante na mesa dos almoços de Domingo familiares. Todos na minha família se lembram da generosidade com que batia nos netos com a sua fiel vara, do seu racismo subtil e das suas opiniões políticas feudais. Ela sempre teve opiniões controversas, mas no capítulo final da sua vida, algo mudou. Quando ela antes dizia que Salazar tinha sido um ditador, mas que pelo menos ele não era um ladrão, agora ela dizia que o homem afinal era um santo. Como uma pessoa louca que sabe que ninguém está a prestar atenção, a solução passa por dizer coisas cada vez mais chocantes até eliminar a última réstia de sensibilidade e tolerância dos presentes.

Aquilo que ninguém na minha família admitia era que a minha tia-avó não era apenas uma idealista retrógrada. Ela estava a ficar senil. Os sinais eram claros. Estavam à vista de todos, mas ninguém queria ver. As frases incoerentes. A dicção arrastada. O discurso zangado e megalómano. Assim como ignorávamos as coisas racistas, estúpidas e loucas que a minha tia-avó de noventa anos dizia à mesa do jantar por atribuirmos esse ímpeto à sua ancianidade, também eu tenho tolerado as barbaridades que saem da boca de Mário Soares pela mesma razão compassiva.

Mário Soares é alguém que, num tempo longínquo, era relevante. Mas a sua relevância ministerial está, lentamente, a ser transformada numa vergonha nacional devido à sua sede obscena pela influência de outrora. Não há como negar. O nosso ilustre Senador não-oficial envelheceu e o resultado não é a complexidade crescente de um vinho que melhora com a idade, mas a inutilidade de um cavalo que é demasiado velho para puxar o arado.

Já observamos o Pai Socialista a ser apanhado a 199 km/hora num carro da Direcção-Geral do Tesouro e das Finanças tendo afirmado, com toda a seriedade, que “o Estado é que vai pagar a multa”. Já lemos a sua carta aberta hilariante. Ouvimo-lo, vezes sem conta, a afirmar que a “democracia” está a ser posta em causa. O antigo Presidente da República inventa uma realidade conveniente e utiliza hipérboles burlescas, ignorando os factos e chegando mesmo a inventá-los de modo a servir a sua causa política mercenária.

O homem que foi Primeiro-Ministro durante as duas primeiras intervenções do FMI em Portugal (1977 e 1983) em condições de austeridade muito mais rígidas (incluía o racionamento de alimentos e bens de primeira necessidade), agora critica o Governo por efectuar cortes residuais de despesa (em 2013 a despesa do Estado Social, relativamente ao PIB, será a quarta maior da história). Enquanto isso, a Fundação Mário Soares continua a receber milhões do Estado para desempenhar um papel sociocultural incerto.

Quando eu penso na minha tia-avó, aquilo que me ocorre era o seu estado mental decrépito. Segundo os meus pais, antes da velhice, ela tinha sido uma mulher extremamente liberal e simpática. Se continuarmos a ignorar os sinais, como a minha família fez com a minha tia-avó Guilhermina, o legado histórico de Mário Soares será destruído. O seu papel no combate à ditadura comunista que o Álvaro Cunhal queria implantar será esquecido. Se continuarmos a tratar o Mário Soares desta forma, dando-lhe um microfone e uma câmara sempre que ele quiser falar, a única coisa que sobrará será a sua flagrante e crescente senilidade.

A única coisa que sobrou dos dinossauros foram os fósseis e os seus descendentes, as aves. Os primeiros pertencem ao passado. As pessoas não pensam neles. Os segundos vivem no presente e, como tal, são mais importantes. As pessoas lembram-se sempre do passado mais recente porque está mais fresco nas suas memórias. Temo que, se Mário Soares não se calar, ele transformará o seu passado glorioso num fóssil encalhado num museu e o seu passado recente duvidoso numa ave que, mais tarde ou mais cedo, caga nas nossas cabeças.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

A Tradição Humorística da Revolta Portuguesa

Para melhor ou para pior, se uma peça artística sobrevive ao julgamento implacável do tempo, isso é um sinal da sua qualidade. Quando, há mais de 137 anos, Rafael Bordalo Pinheiro criou a primeira ilustração do Zé Povinho, ele não tinha a menor ideia daquilo que tinha acabado de fazer. O autor tinha criado uma figura mítica que era imaculada na sua representatividade do espírito reivindicativo do povo português.

A simpática ilustração atravessou quatro regimes políticos diferentes da nossa história (cinco, se contarmos a actual “ditadura germânica dos mercados” que o Mário Soares jura existir), ao mesmo tempo que a relação dos portugueses com o poder não mudou significativamente ao longo das várias transições atribuladas. Ainda estamos aqui e, se aquilo que a caracterização da figura sugere é verdade, somos pobres e iletrados, banais e diminutivos, acomodados e inofensivos, apenas carne para canhão, cidadãos de segunda, esmagados pelo peso avassalador da corrupção, incapazes de fazer frente ao poder que nos arruína, ineptos para compor uma resposta que consista em mais do que um patife manguito.

A caricatura nacional é um piscar de olhos malandro para o nosso lado revoltoso e para a incapacidade crónica dos portugueses em levar a realidade a sério. Nem mesmo o seu próprio declínio merece a atenção lusitana. É uma incapacidade que surge quando a necessidade de comiseração é maior do que o medo das privações da miséria. Aquilo que o Zé Povinho nos conta é que os portugueses protestam e reclamam, mas não sabem o motivo do protesto e da reclamação. Aquilo que eles querem é alguém que sinta pena deles e que admita que, afinal, eles têm razão.

Quando não existem motivos verdadeiros para chorar, o riso é o instinto mais próximo. Isso se reflecte quando ouvimos as descrições que os portugueses nos oferecem sobre a crise. Ninguém enuncia problemas concretos da conduta governativa, ou as razões dos protestos através de algumas frases declarativas simples, com sujeito, predicado e complemento directo. Aquilo que se obtém, tendo em conta a amostra televisiva, radiofónica, impressa e real dos revoltados, são respostas rebuscadas, sem qualquer base factual, com tiques de teoria da conspiração, vitimização e extremismo socialista.

Os cartazes de protesto são outro sintoma da doença de que sofre o Zé Povinho. Os portugueses ainda utilizam, de forma generalizada, essa forma de humor sofisticado que são os trocadilhos. Dispensam a argumentação. Se rima, é suficiente. O resto são piadas óbvias e vulgares que são um desserviço ao país e um insulto à inteligência. É mais importante para os portugueses ridicularizar a situação com recurso a mentiras infantis do que ter um debate adulto.

Toda esta tradição de escárnio protestativo tem consequências. A gritaria distorce a realidade e retira o microfone da minoria que realmente sofre, das pessoas para quem a miséria é uma possibilidade real. No final, o microfone fica junto da boca daqueles que apenas sofrem por atenção. O protagonismo é reservado para as prostitutas mediáticas que valorizam a polémica, bombástico e o egocêntrico.

A narrativa que muitos portugueses querem desesperadamente fazer passar é a de que, sem os subsídios, o seu Natal será passado em casa, quase às escuras, com apenas a luz trémula de uma vela humilde no meio da mesa, enquanto a família partilha a última de lata de feijão. As crianças cantam hinos religiosos na outra sala, enrolados em jornais para combater o frio, depois de não conseguirem comprar um casaco de Inverno, devido aos cortes cegos avassaladores da política neoliberal de Passos Coelho, que não é nada mais do que um fantoche da Angela Merkel, a sobrinha-neta perdida do Hitler.

Assim como charutos e caviar, a verdade é sobrevalorizada. A sua posição central nos ditames da existência humana é inegável, mas a ubiquidade aparente da verdade é apenas uma ilusão. Por mais que se proclame a verdade como sendo um sustentáculo social, esta tanto é louvada como é flagrantemente ignorada. Os portugueses têm todo direito de se revoltarem perante o estado catastrófico do país. Mas a forma como desconsideram sistematicamente a verdade na hora de protestar é alarmante. Nessas ocasiões, a verdade é apenas um empecilho e não é difícil observá-la sendo estilhaçada, e o seu cadáver abandonado alegremente na berma da estrada.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Espiritismo


A palavra espírito e suas variantes são atiradas aos sete ventos: há o espírito de sacrifício, o espírito de equipa, o espírito das leis, as bebidas espirituosas, as pessoas espirituosas, o espírito santo (o banco e o terceiro componente da santíssima trindade), os espiritistas.

A conotação religiosa provoca-me uma certa aversão ao termo "espírito". Ao termo, não ao conceito. O conceito é mutável em certos aspectos, mas tem inevitavelmente em comum a noção de transcendência humana. Remete para uma quarta dimensão, inalcançável à lógica humana. A sua significância original é, no entanto, facilmente explicável: é aquela área indetectável do corpo onde reside a dor não-física.

Essa dimensão impalpável é, para alguns, de origem divina; para outros, como eu, é um fruto mental. No plano mental, existem, no entanto, dois aspectos distintos: o racional e o instintivo. Se a dor pudesse ser anestesiada racionalmente, não seria possível sequer conceber uma existência espiritual. Aquilo a que chamamos espírito tem na dor o plano concreto e na sua inexplicabilidade e indetectabilidade o seu plano abstracto. Daí, como eu disse, não se dever encarar o termo espírito com a denotação de qualquer tipo de existência extra-corporal, mas sim, como disse, como esse plano indefinido onde se manifesta a dor humana.

A dor que aqui falamos é a angústia do desconhecimento crónico do sentido da existência. Religião, filosofia e ciência nasceram do mesmo princípio. Com perspectivas e métodos distintos, todos tentam o mesmo: aclarar o desconhecido; amenizar a dor, tranquilizando o espírito. Todos falharam. Daí que a minha perspectiva da sabedoria nada tem a ver com o plano espiritual. É exactamente o oposto: provém da conformação da vida como algo terreno, casual e fugaz. Se não há uma verdade absoluta que acalme essa dor, nada nos resta senão entender o máximo da realidade onde nos encontramos prisioneiros, de forma a lidar com ela da forma mais sagaz possível. E encontrar o equilíbrio entre o egoísmo inato e saudável e o altruísmo que é respeitar os egoísmos dos outros que partilham, no plano espiritual, a mesma dor que nós. Quer crentes, quer ateus; que a mim também me dói ocasionalmente a alma, mesmo não acreditando que ela exista.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Se Isto é um Homem

Caso um leitor tropece involuntariamente no livro "Se Isto é um Homem", de Primo Levi, um tratado pessoal e memorial acerca do período experimentado em Auschwitz, campo de concentração alemão durante a II Guerra Mundial, e não saiba de ante-mão o assunto do livro, o químico e autor italiano faz na primeira frase, com inusitada crueza e íntima intenção, uma asserção que inquieta pelo seu simplismo e factualidade. Dedica parcimoniosas palavras perante o acontecimento que iria alterar irrevogavelmente a sua vida e, assim, a sua leitura acerca da natureza humana,: "Fui capturado pela Milícia fascista a 13 de Dezembro de 1943."


Ainda antes, a obra principia com um pequeno poema introdutório, deliberadamente provocatório, em que Primo Levi lança o repto aos que "vivem tranquilos" para considerarem se as vidas que irá prontamente apresentar, onde se perdiam os nomes e recebia-se um número, poderão ser consideradas como tal; e condena da mesma forma tanto aqueles que lhe fiquem insensíveis, como os que não propalem a sua história, que não foi menos que a de vários milhões, destituídos e isolados da humanidade - e na maior parte subtraídos. É quem mais tem dificuldade na sua recordação que mais faz questão que este nunca seja, nem assim o pode, um delírio encerrado no esquecimento colectivo.

O autor italiano discorre sobre aquilo que sabe ser, e várias vezes o refere, inenarrável para o comum mortal: a transfiguração de um homem para um "animal cansado". Dispõe-se, ainda assim, porque é a única maneira de estreitar a relação entre quem conhece - se é que esta palavra neste caso é permitida - e quem viveu,  a relatar com insuperável objectividade, que pontilha e intercala com reflexões, acontecimentos cuja emotividade é abstractamente irrepresentável, num auto-caracterizado exercício de "libertação interior".

Que ninguém parta para a obra com ilusões, ela não poderia ser mais esmagadora perante a essência humana. Primo Levi, praticamente ao jeito de crónicas capituladas, identifica e desmonta a organização logística e social do "Lager", onde os SS tinham até um papel bastante reservado. Demonstra, igualmente, de que forma um ser-humano pode ser privado da sua própria alma através da supressão da sua liberdade e dignidade, num local onde "o homem está só e a luta pela vida se reduz ao seu mecanismo primordial". Como a moralidade impetuosamente se transformaria somente numa palavra, a história interminavelmente pararia e a esperança assentaria no supremo desafio para os mais românticos, atendendo a que sonhar configurava-se uma ousadia desaconselhável: "Não se deve sonhar: o momento da consciência que acompanha o acordar é o sofrimento mais intenso". De resto, a caracterização dicotómica com que acabaria por percepcionar o trabalho traduz perfeitamente a convulsa condição de vida com que um Haftlinger - assim eram denominados - se deparava , uma vez que este era a fonte inesgotável do cansaço, que vergastaria em todas as dimensões qualquer um, embora, sincronicamente, uma distracção importante para suportar o dia-a-dia. Nada mais restava a um homem que a luta, por si só, para não deixar de o ser.

Nesta sua primeira e grande obra, Primo Levi atinge um discurso bastante lúcido, nunca moldado por sentimentos menores. Chega, no entanto, a ser perturbadora a moderação e precisão analítica que consegue imprimir às suas palavras face aos horrores que há tão pouco tempo tinha experimentado. O livro nada mais pretende ser que o retrato de uma história de sobrevivência humana num pântano impestado de desumanidade. Não que a obra se torne obrigatória para delimitar o mal que é aqui, afinal, facilmente e por demais reconhecível; mas para tomar consciência que a perversão incontrolada do Homem poderá não ter limites.

(A "crítica" foi escrita para efeito de um jornal académico. Dado que o tempo disponível actualmente é diminuto, e para não protelar a minha contribuição, fica a partilha e, acima de tudo, a sugestão)

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

A Mosca


No aeroporto Schiphol, em Amsterdão, foi diagnosticado um problema orçamental curioso: estavam a ser despendidas verbas demasiado avolutadas em produtos e serviços de limpeza nos quartos-de-banho masculinos. Tudo uma questão de falta de pontaria. O que se passaria para que os sujeitos, naquele quarto-de-banho em particular, não conseguissem direccionar a urina com a mesma precisão para um buraco de dimensões semelhantes aos do resto do mundo, era um mistério.

Foram adiantadas duas causas para o fenómeno: para começar, tratando-se de um aeroporto, os utilizadores estavam muitas vezes demasiado apressados para se preocuparem em mirar com precisão. Por outro lado, temos um factor daquele aeroporto específico: muitos dos quartos-de-banho tinham uma janela com vista para a pista de aterragem e descolagem, pelo que a distracção provocada pelos aviões impedia a concentração na coordenação e orientação da urina para o orifício destinado ao efeito.

Identificado o motivo de tantos derrames urinários, procedeu-se à implementação de uma brilhante medida: foram colocadas moscas de plástico em todos os urinóis e sanitas do aeroporto. Foi remédio santo. Todos os homens que outrora se distraíam com o tráfego aeronáutico e espalhavam a urina pelo chão e pelas paredes estavam agora entretidos com um jogo que todos os homens do mundo apreciam jogar: o de derrubar, com o jacto de urina, qualquer coisa numa retrete que não seja porcelana.

Este é um exemplo paradigmático de como funcionam os instrumentos políticos comportamentais. Para se resolver o problema, não se impuseram regras, nem se pagou dinheiro a quem não mijasse de fora. Não se optou por incentivos autoritários, regulamentares ou financeiros. Antes, jogou-se com o instinto humano. Pegou-se no conhecimento das atitude dos machos de todo o mundo e adaptaram-se as circunstâncias ao homem, e não o contrário.

Este tipo de instrumentos é, porventura, o mais perigoso. É o mais suave mas, por ser deveras dissimulado, é indetectável. Mais do que isso: podemos contornar regras, abandonar o país ou destituir governos. Mas não podemos fugir de nós próprios e do instinto de mijar sobre as moscas.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

A Mediocridade Flagrante de António José Seguro

É estimado que cerca de oitenta por cento da matéria do Universo é constituída por matéria negra. Este facto é particularmente estonteante se considerarmos que a própria existência da matéria negra é apenas uma hipótese. Não sabemos muito sobre este elemento abundante. Nem sequer sabemos exactamente o que é. Não é possível observá-la directamente através de telescópios. A veracidade da sua existência é passível a ser deduzida devido aos seus efeitos gravitacionais em objectos observáveis.

As incertezas sobre os fenómenos físicos do Universo abundam, mas nenhum deles me perturba tanto quanto a hipótese da existência de António José Seguro. Existe uma ideia de um António José Seguro. Uma construção socio-metafísica. Assim como a matéria negra, não é possível observá-lo ou ouvi-lo directamente. Apenas existem indícios secundários da sua existência. É possível inferir logicamente que ele existe devido aos seus efeitos nocivos na massa encefálica do homo sapiens.

Analogias mirabolantes à parte, desde que António José Seguro tomou as funções de líder da oposição, ainda não foi possível vislumbrar quaisquer sinais de vida no Partido Socialista. A oposição racional desapareceu. Não que eu tivesse esperanças ou desejos que isso pudesse ocorrer. Como regra geral, sou da opinião de que nada de bom pode advir de um partido nominalmente socialista. Mas sabemos que a situação é excepcionalmente grave quando o partido é liderado por um par de óculos que flutuam no vazio demagógico da esquerda.

A verdade é que eu até consigo ver António José Seguro nitidamente. Eu consigo ver a sua casca, o fato e a gravata. Eu ouço discursos ensaiados e soundbytes assessorados. É notório que alguém labutou como um condenado para compor este golem político. Está tudo lá. A cara solidária. Os óculos da seriedade. A gesticulação revoltada. O tom de voz indignado. Ele está em todo lado. Na televisão, a espalhar esperança contrafeita. Na rádio, a espalhar indignação oca. No Facebook, a induzir o vómito com a sua carta juvenil.

António José Seguro emite todos os sinais de alguém que não sabe do que está a falar, não entende o que está a ouvir e não sabe o que vai fazer. Ouvimos algumas ideias vagas de crescimento contra a austeridade e optimismo contra a realidade. Não é suficiente. Ele devia ter continuado na obscuridade conveniente das entranhas da máquina partidária socialista. Aí, no atoleiro ideológico da esquerda portuguesa, o seu ar secretarial teria uma utilidade ou, pelo menos, estaria longe das câmeras, gravadores e canetas.

O que é triste é que alguém com a aparência de António José Seguro tinha a obrigação de contrariar as expectativas criadas pela sua aura de bibliotecário-contabilista. Ele não só ignora esse imperativo, como reforça todas as associações enfadonhas que a sua aparência suscita. E aqui estamos nós. No norte, à distância, avistamos o início do precipício da catástrofe financeira. No sul, somos empurrados para o buraco pela prata da casa partidária.

As últimas sondagens indicam que o Partido Socialista lidera as intenções de voto. O homem que, há apenas um ano e meio, defendeu e apoiou José Sócrates, agora culpa o Governo por não conseguir resolver todo o imbróglio financeiro português durante esse período. Juntamente com a frustração e a ira proveniente da austeridade, a utilização da mistura explosiva de óculos e demagogia pode ter funcionado com o eleitorado mas, infelizmente para o Zé, não são um substituto adequado para uma personalidade.

A incerteza criada por esta crise não permite especulações de grande clarividência. Mas entre o vácuo humano de António José Seguro, o vácuo moral de Miguel Relvas e o vácuo testicular de Pedro Passos Coelho, tenho a certeza que uma solução irá aparecer. Poderá não ser eficaz. Poderá não ser competente. Mas podemos concordar que, para o espectador lúdico da política portuguesa, pelo menos será interessante.

domingo, 11 de novembro de 2012

João Oliveira e Alexandre Pais

Troca de cartas entre um adepto da Académica e Alexandre Pais (director do Record).



Esta ausência de sintonia entre o que deve ser e o ter de ser por consequência de motivos de ordem económica é um dos paradigmas actuais mais preocupantes do e para o pensamento de uma sociedade. A situação apresentada que antecede este comentário é um caso concreto de uma publicação periódica desportiva, mas é apenas um pequeno reflexo de algo que é evidentemente endémico na comunicação social portuguesa. E não só. Essa dominação “editorial” – e consciente - encontra-se também na televisão, no cinema, na rádio, especialmente na música, e até, em determinada medida, na literatura. Facilmente dir-se-á que é uma perversão económica na procura pelo lucro; naturalmente, embora distante de ser esse o problema. A agrura é que deriva da, esta sim, perversão do bom-gosto, de uma mentalidade maioritária que determina grandemente os conteúdos das várias dimensões referidas, por estes serem os seus predilectos. E aqui há nova derivação: isto implica naturalmente uma produção de conteúdos para ir de encontro a essa procura, isso é-nos a todos suportável, o maior prejuízo é a necessidade da mais que visível subversão daquela que deveria ser a sua hierarquia e proporção na oferta.

Divido-me entre a simpatia pelo João Oliveira e a compreensão da opção pragmática de Alexandre Pais. Do mais, resta retirar que muito do que se pensa depende inevitavelmente no que se pensa e ao que se acede, bem como que uma sociedade pode ser caracterizada por aquilo que prefere. Todavia, pouco há mais que se possa fazer.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Guerra dos Sexos


Quando eu tinha dezasseis anos, mostrei a uma colega, numa aula de filosofia, duas páginas rabiscadas e parcialmente rasuradas de um pequeno texto que se assemelhava a um início de um romance. Continha apenas um enquadramento espacio-temporal da história, não indicava sequer personagens. Ela disse-me que eu escrevia como uma velha.

Fiquei, na altura, extremamente ofendido. Não por ter uma escrita idosa; prefiro que a minha escrita seja identificada com alguém mais velho do que a minha tenra idade seja perceptível nas minhas palavras. O que me ofendeu foi escrever como uma mulher.
Os homens, na quase totalidade dos casos, escrevem melhor do que as mulheres. Este pressuposto, que eu apresento de forma factual e não opinativa, é naturalmente polémico, mas é uma realidade incontornável. Não desconheço os grandes nomes femininos da literatura; mas Jane Austen, Virginia Woolf, Isabel Allende, Agatha Christie e companhia ficam a anos-luz dos grandes mestres.

A explicação terá, naturalmente, raízes históricas: a alfabetização das mulheres foi tardia e pouco abrangente, pelo que é natural que sejam os homens mais reconhecidos pelas suas ideias. Se apenas os homens tinham acesso ao conhecimento, é uma consequência lógica que apenas estes possam usufruir dele para o fazer evoluir. Este facto, porém, não se limita à actividade literária. Pelo contrário, é comum a todas as áreas do conhecimento, quer humanístico, quer científico. Na sociedade actual, de igualdade no acesso ao ensino e de universalidade de acesso à informação, isto foi quase totalmente ultrapassado. Mas não confundamos os conceitos: equidade não é igualdade. A equidade é um pilar democrático; a igualdade é utópica e perigosa.

A luta por essa equidade não deve fazer-nos ignorar as características idiossincráticas de cada um dos géneros. O problema é que a sociedade se vê ainda assombrada pelos fantasmas da superioridade masculina. Está a dar-se com os sexos o mesmo fenómeno que se deu depois do final da discriminação racial, a que eu chamo de preconceito invertido. Recordo-me de uma situação, numa fila de uma padaria, em que um sujeito de raça negra pediu às pessoas para passar à sua frente. Como isso não lhe foi concedido, queixou-se de discriminação. Começa a passar-se o mesmo com as mulheres. O feminismo foi útil no tempo em que se queimavam sutiãs; agora, na sua forma de machismo invertido, assume outras proporções perigosas.

Assisti a um exemplo paradigmático disto mesmo no programa Real Time, um programa de comentário político da cadeia americana HBO, apresentado pelo humorista Bill Maher. Anne Coulter, uma figura pública de cariz conservador, acusou Bill Maher de ser misógino por este criticar frequentemente Michelle Bachmann e Sarah Palin. A resposta do apresentador foi contundente: "They just happened to be women. Do you really think I'm harder with them than I was with Bush, a penis-carrying man?". Mesmo considerando a estupidez de Coulter enquanto fonte da acusação, esta traduz este sentimento de atribuir machismo a quem não for feminista.

Isso origina a existência de mulheres com mediatismo que assumem uma postura de "cheguei aqui, apesar de ser mulher"; um comportamento geral, independente das suas ideias, mérito ou espectro político, e completamente descontextualizado da conjetura actual de equidade social. Como exemplo, temos Clara Ferreira Alves, Joana Amaral Dias, a ministra Assunção Cristas ou, noutro estilo mais histérico, Ana Drago ou Heloísa Apolónia. Repito: nada tem a ver com o que dizem, mas sim com a sua postura geral que é idolatrada pelas mulheres, mas que deveria, mais até para elas, ser ofensiva.

Esta fenómeno já é perigoso no contexto social, mas ainda mais fica quando atinge o espectro político. Tem sido demasiadas vezes colocada em cima da mesa a possibilidade de medidas que visam forçar a paridade na Assembleia da República, nomeadamente através da introdução de percentagens obrigatórias de lugares ocupados por mulheres das listas candidatas. Esta medida tenta, através da brutalidade legislativa, acelerar um processo que se quer natural numa sociedade democratizada e é, na sua essência altamente anti-democrática. Duas duas uma: ou aceitamos que o que temos no meio das pernas não conta para nada, e portanto não se legisla sobre isso; ou admitimos que é importante e o feminismo terá de assumir a mesma conotação de crueldade e de sentimento de superioridade do machismo.

Porque as diferenças existem, e todos as conhecemos. A equidade já foi atingida, e essa questão ultrapassada. Mas paridade não é igualdade de qualidades e defeitos inerentes ao sexo. Os homens são melhores na escrita, as mulheres serão beneficiadas noutras coisas. Não é ultrapassar as diferenças que falta na sociedade; aceita-las, sem fantasmas nem preconceitos, é que é o passo que falta para a pacificação da luta entre os sexos.